Poema: De quantas graças tinha, a Natureza
Luís de
Camões
De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi8H3oY2fC3Irg0i31MA5pkdvAWzKS6DCuKZTfOfQKIB-VXpZdUL2T76JySmZy0ojkWxMCRafaiGp_5Z3sqUHr6UHyH53YVz0caRyulHxoe2ys1XGYt94zbk8EwxA869jQXj1_xVTxxxm9tzHEXDxrNH-WJ4eYxbemuJ3KBxxJlpSfb1rG6cy_Z5IaI6gs/s320/contato-com-a-natureza-770x513-1.jpgPôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.
Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.
Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Luís de Camões.
Entendendo o poema:
01
– Como Camões utiliza os elementos da natureza na primeira estrofe para
introduzir a figura da mulher amada?
O poeta
personifica a Natureza, transformando-a em uma artista ou artesã que reúne
todas as suas "graças" (virtudes e dons) para criar um "belo e
riquíssimo tesouro". Esse tesouro é composto por quatro elementos
cromáticos e materiais específicos: rubis, rosas, neve e ouro. A união dessas
matérias-primas resulta em uma beleza que transcende o plano terreno, sendo
classificada como "sublime e angélica".
02
– De que maneira as metáforas da segunda estrofe se distribuem para construir o
retrato físico (o retrato da bela dama) da mulher?
Camões distribui os elementos do "tesouro" da
Natureza associando-os diretamente às características físicas da mulher,
seguindo o padrão de beleza idealizado do Renascimento:
Os rubis representam o
vermelho vivo dos lábios (a boca).
Os botões de rosa simbolizam
o rubor e a vivacidade das bochechas (o belo rosto).
O metal louro (ouro)
representa a cor e o valor dos cabelos loiros.
A neve simboliza a brancura,
a pureza e a alvura do peito (colo).
03
– Qual é o paradoxo sentimental expresso pelo eu lírico no verso "No peito
a neve em que a alma tenho acesa"?
O paradoxo reside
na oposição entre as sensações de frio (representado pela "neve" do
peito da mulher) e calor (representado pela alma "acesa" de amor do
eu lírico). Ao mesmo tempo em que o peito da amada evoca uma pureza fria,
distante e intocável como a neve, essa mesma brancura é o elemento que inflama,
incendeia e mantém aquecida a paixão ardente na alma do poeta.
04
– Por que os olhos da mulher recebem um destaque especial na terceira estrofe
em relação às outras partes do corpo?
Porque, segundo o
eu lírico, foi nos olhos que a Natureza demonstrou o ápice do seu poder
criativo ("Mas nos olhos mostrou quanto podia"). Em vez de usar
pedras preciosas ou flores, a Natureza transformou os olhos da amada em um
"sol". Esse sol emite uma luminosidade espiritual e física tão
intensa que consegue superar a própria claridade do dia ("A luz mais clara
que a do claro dia"), tornando-se o centro de poder da beleza dela.
05
– Como a última estrofe (o terceto final) sintetiza a estrutura do soneto e a
intenção do poeta ao se dirigir à "Senhora"?
O terceto final
funciona como uma conclusão lógica do poema. Ao dirigir-se diretamente à mulher
("Enfim, Senhora..."), o eu lírico amarra todos os elementos citados
anteriormente. Ele afirma que a "compostura" (a harmonia, a postura e
a formação) dela representa o limite máximo do conhecimento da Natureza. O
encerramento retoma e sintetiza as cinco grandes matérias que fundaram o poema
— "ouro, rosas, rubis, neve e luz pura" —, consagrando a mulher como
a obra-prima definitiva do universo.
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