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terça-feira, 23 de junho de 2026

ROMANCE: AS HORAS NUAS - ANÁLISE DO ROMANCE - LÍGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Romance: As horas nuas – Análise do romance

               Lígia Fagundes Telles

 

        O romance ficcional “As horas nuas”, de Lígia Fagundes Telles, é uma narrativa moderna que focaliza atitude e postura do homem comum. Apresenta um enredo fragmentado, retratando ações, comportamentos e costumes dos indivíduos e da sociedade na qual ele está inserido. 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg-j_c2Xl4Ogy1kdMa_ZUITFLIINE0K0bEG8InxE-NOuP7h3M4ndgUVlo5ztHk0CJCNlzv9_AfCU3-XpCos8IWDTHHDv_-8xz2UuWWzIts6xlWADoUGAKqyIt0G3cWEkbgU8y9JAwrn8cTBLGOY6PMf49wAX864a_TTDnCdIro9PBn0cJcGaiOVSC1CWb0/s320/Analise-comportamental.jpg 


        A autora da ênfase ao comportamento das personagens em interação com a sociedade, retratando de forma subjetiva dilemas e contradições da alma humana, que se move entre valores, apelos do mundo social materialista e massificante. Assim ela vai projetando a realidade e enfatizando o seu reflexo na vida do indivíduo. 

        No romance em estudo, o narrador busca adequar a linguagem ao vai e vem das ações avançando e retrocedendo, confirmando a vitalidade do tempo. Assim o leitor vai sendo introduzido na trama, conhecendo e penetrando de forma sutil na complexidade, que e calcada nos conflitos existenciais das personagens e que se reflete nos problemas atuais da sociedade. 

        O romance apresenta uma linguagem plurissignificativa fincada nos constantes uso de estrangeirismos “Hasta siempre”, “illustration”. “Formes et couleurs”, nas figuras de linguagem: 

Metáforas, “fecho meus olhos e vejo minha filha boiando no rio do supérfluo”; 

        Personificação presente na figura do gato; 

        Eufemismo “idade da madureza”; 

        E na intertextualidade que aparece no saudosismo da infância de Rosa, onde esta lembra do clássico “João e Maria”, nas cirandas “O cravo e a rosa”, nas lembranças da “antiga Praça da República transformada pelo crescimento desordenado da cidade”, em trechos retirados dos mandamentos bíblicos “não julgueis e não sereis julgados” e na literatura de ficção policial “É elementar meu caro wattson”. 

        A narrativa traz como personagens redondas: Rosa Ambrósio, Rahul (o gato), Ananta Medrado e Diogo. 

      ROSA AMBRÓSIO: protagonista da narrativa, é uma atriz que vive remoendo lembranças de uma infância e adolescência infeliz. Rememora o auge da decadente carreira de atriz e na ânsia para fugir da realidade afoga-se no alcoolismo. 

        Oscila entre momento de delírios, luxúria e lucidez. A atriz foi uma pessoa muito machucada pela vida. Ferida e desconfiada, foi abandonada pelo pai logo cedo e perde o primeiro e grande amor da sua vida, o primo Miguel. A partir de então, busca consolo no ombro amigo de um até então desconhecido, Gregório, que logo viria se tornar pai da sua única filha. 

        Mãe relapsa, Rosa Ambósio mantém um relacionamento meio conturbado e preconceituoso com a filha, da qual sente ciúmes. Ela inveja a juventude e o bom relacionamento da filha com o pai. 

        Só e infeliz procura consolo nos braços do secretário e amante, Diogo. Passa então a arcar com as extravagâncias deste e aturar suas loucuras, assumindo assim uma postura masoquista. Temendo a velhice que prefere chamar de “idade da madureza”, ela procura refúgio também nas sessões de análise e na solidariedade da governanta Dionísia. 

        A atriz apresenta um comportamento ambíguo: apesar de viver de modo desregrado, crítica as futilidades da humanidade, chegando a ponto de pôr em cheques valores éticos e morais, os modismos imposto pela mídia e sua repercussão no modo de vida da sociedade. 

        A personagem não foi sempre rica; muda de vida quando recebe uma herança da tia. 

        RAHUL (o gato): também protagonista, é uma personagem personificada. Ele pensa, age, e se comporta quase como humano contando reminiscências, fazendo reflexões sobre o que acontece. Tem uma relação estranha com a atriz Rosa Medrado, a que ele chama de Rosona. Demonstra verdadeira adoração por Gregório, falecido marido de Rosa e desprezo por Diogo, o amante. Parece viver na esperança de que o falecido volte. Tanto é que consegue vê-lo passeando pela casa. Raul vive momentos de lembranças fugazes, nos quais ele acredita ter vivido outras vidas. 

        ANTAGONISTA:  É a crise existencial vivida pela atriz Rosa Ambrósio. 

        ANANTA:  Personagem de comportamento estranho, demonstra obsessão por um “homem” que ela diz morar no andar superior. É uma analista e dedica-se também ao trabalho social numa Delegacia de Proteção a Mulher. Ananta demonstra tendência para o mistério. Solitária, a analista mantém um círculo restrito de amizades (a governanta, os moradores do prédio, e a amiga Flávia), Desaparece misteriosamente sem deixar pistas. 

        DIOGO:  Era secretário de Rosa, e veio se tornar seu amante. Por ser jovem e bonito age como um gigolô, aproveitando-se das fraquezas da atriz para explorá-la, chantageando-a com suas idas e vindas. Viaja e não volta mais. 

 

        Personagens Planas 

        CORDÉLIA:  Filha de Rosa e de Gregório, a moça demonstra uma personalidade independente e atrevida. Vive a manter relacionamentos amorosos com homens mais velhos, o que choca a mãe. É adepta a modismos e indiferente a crise existencial da mãe, pois se identificava mais com o pai. 

        GREGÓRIO: Marido de Rosa e pai de Cordélia. Moço educado e professor. Conhece a esposa no dia em que está perde seu grande amor. Gregório a amava a sua maneira, mesmo assim foi traído por Rosa. Ele sabia o que se passava mais fingia ignorar. Tinha um espírito calmo tanto é que morreu quieto para não incomodar ninguém. Só demonstrava luta para defender os menos favorecidos. Foi exilado e torturado. Antecipa a morte. Sofria de mal de Parkison. 

        DIONÍSIA:  É mais que uma simples empregada. É também confidente e amiga. É aquela que busca conforto na fé, para aturar as insanidades de Rosa. 

        MIGUEL: Primo de Rosa, foi o primeiro e grande amor da vida da atriz. Ela jamais conseguiu esquecê-lo. Garoto mimado e acostumado à boa vida dos endinheirados, entra no mundo das drogas e morre de overdose. 

        RENATO MEDRADO: Aparece quase no final da trama como primo da analista. É uma personagem suspeita no caso do desaparecimento de Ananta. É através da sua visão que o leitor pode ter noção sobre a infância desta. Mostra-se bastante interessado em resgatar a amizade da prima, a qual ele demonstrou indiferença até então. Esse seu interesse levanta suspeita. Qual será o real interesse de Renato? Será que ele deseja realmente encontrar a prima Ananta? Ou o seu interesse é pelos bens que ela deixou? 

        DELEGADO: Também quer saber o que aconteceu com Ananta Medrado. 

        FLÁVIA:  Parece ser a única amiga de Ananta, mas nem ela sabe o seu paradeiro. 

 

        Outras Personagens que Aparecem no Texto:

 

        TIO ANDRÉ – Marido da tia Lucinda. 

        TIA LUCINDA – Era a mãe de Miguel. Gostava de prestar serviço à comunidade. 

        TIA ANA – Deixou a herança para Rosa. 

        LILI – de personalidade extrovertida, aparece de vez em quando na casa de Rosa. 

 

        ENREDO – O romance possui uma multiplicidade de narradores, que conta a trama de forma não ordenada. A ação começa em um capítulo, é fragmentada e só após outros capítulos ela vai ser retomada. Os desvios do enredo, embora pareçam romper o ritmo da ação, pelo contrário fazem evoluir a trama, eles são essenciais na trama. 

        A autora usa uma adequação do elemento linguagem ao vai e vem da trama, avançando e retrocedendo no entrecruzamento dos episódios, para firmar a realidade do tempo. 

        O enredo é voltado para a problemática da realidade moderna. Os conflitos são vivenciados subjetivamente, mas aparecem objetivamente como indícios da realidade caótica, atuando no desenvolvimento e equilíbrio do ser. 

        Expresso por uma linguagem plurissignificativa ele revela profunda inquietação existencial da espécie humana. As personagens vão se formando num processo fluído e de metamorfose. 

        A narrativa é centrada em momentos de vivência interior das personagens, privilegiando a subjetividade. Estas vivem em constante dilema entre o EU e aceitação da sociedade. A linguagem usada pela autora é de fundamental importância para a constituição do enredo. Este se transforma na própria vivência das personagens. É um reflexo dos seus dilemas interiores, onde se encontra uma forte desconexão entre o indivíduo e a sociedade. 

 

        TEMPO E ESPAÇO – O tempo e o espaço fundem-se na narrativa moderna. Em “As horas nuas”, o tempo é psicológico e subjetivo acompanhando o viver das personagens, por isso, “onde está o tempo está o drama”. São as vivências das personagens que vão fornecendo ao leitor, um quadro verdadeiro do ser, retratando sua fisionomia interior por meio de um fluxo constante e duradouro da consciência. O tempo e o espaço são construídos de forma dissimulada na própria vivência dos personagens 

 

        FOCO NARRATIVO – No romance em estudo, a narrativa apresenta um discurso polifônico. 

        Logo no início há a presença de um narrador em 1ª pessoa, a personagem Rosa Ambrósio. Num monólogo interior esta mergulha e descreve seu passado de dores e glórias. Ela vive uma crise existencial em busca de sua identidade, negando valores sociais vigentes e não aceitando a velhice e o fim da carreira como atriz. 

        Entro no quarto, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio e desabo em cima dessa coisa ah! Meu Pai. 

        “Licença Diu, não leve a mal, mas vou ficar um pouco por aqui mesmo...”. 

 

        Traz também há a presença de um segundo narrador, o narrador personagem, personificado na figura do gato (Rahul), Ele tece comentários a respeito das personagens, mas seu foco é sobre a figura de Rosa Ambrósio e Gregório, o qual ele demonstra verdadeira adoração ou fixação. A descrição que Rahul faz das personagens é de forma quase doentia. Ele descreve minuciosamente atos peculiares e até mesmo lê o íntimo delas. Ele chega às vezes a dar-lhes voz no discurso indireto livre, revestindo-se assim em um narrador onisciente. 

        “Falsas, pensei. Rosona veio com seu robe d’interieur e seu espelho de aumento que odiava mas não podia ficar sem ele.” 

        Começavam sempre mais ou menos assim as discussões entre os dois E que podiam evoluir rapidamente para os palavrões entremeado a de empurrões. Tapas. Ou ter o desfecho na cama. 

        Abriu as pernas bem devagar foi passando a tinta nos pelos do púbis. 

        Os caminhos eram tortos, mas seguidos por eles Rosona acabou por acertar. Gregório escolheu sua morte antes de ser escolhido. Anteviu o que podia vi, futurou e essa futuração deve ter ido além do seu poder de suportar. 

        No quinto capítulo surge um novo narrador em 3ª pessoa. Este de fora passa a apresentar e descrever minuciosamente a personagem Ananta Medrado, uma analista misteriosa, metódica e de personalidade calma e reservada. 

        “O consultório de Ananta era de uma profissional sem vaidade”. Disciplinada... A flanela estava dobrada no canto da gaveta. Passou-a nos poucos objetos e nenhum supérfluo. 

        -- Tenho um Vizinho... Agora não quero pensar no professor com seus teoremas. Era a vez do Vizinho. 

        Ananta foi até a janela e afastou a cortina para ver o céu... Depois da sessão poderia ir (andando) até a delegacia da mulher. Dessa mulher pela qual pode fazer tão pouco. Tão especialmente pela mocinha com os seios furados. 

        No decorrer da trama, outros capítulos são narrados em 3ª pessoa, há mais ações e diálogos. É feita a descrição de ambientes enquanto as cenas se desenrolam. O narrador conta o desaparecimento de Ananta Medrado, a viagem de Diogo, o aparecimento do primo da analista e o internamento de Rosa em uma clínica de recuperação. 

        Subo na poltrona. O quarto esta escuro, mas vejo Rosa Ambrósia... no coração das três mulheres. 

        Mãe querida, você disse que ia almoçar comigo e não foi, queixou-se Cordélia. 

        Hoje não acordei brilhante. A Diu leu o horóscopo, tem aí uma conjuntura de astros que é um horror. 

        “O delegado da delegacia de pessoas desaparecidas estava tomando café” Renato Medrado parou... 

        -- Não usava joias, se tem alguma deve estar no cofre... Dólar? Não sei dizer. O carro... 

 

Bibliografia: LOBO, Luiza. A ficção impressionista e o fluxo de Consciência (Joyce, V. Woolf, Proust). In: VASSALO, Ligia (Org.). A narrativa ontem e hoje. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

Entendendo o romance:

 

01 – Como se caracteriza a estrutura do enredo e a representação do tempo e do espaço na obra?

      O romance apresenta um enredo fragmentado e não ordenado, que se desenvolve por meio de múltiplos narradores. As ações começam em um capítulo, são interrompidas e retomadas posteriormente. Na narrativa moderna da autora, o tempo é psicológico e subjetivo, fundindo-se com o espaço através do fluxo de consciência das personagens. As descontinuidades e os desvios temporais (avanços e retrocessos) servem para refletir os dilemas e conflitos interiores das personagens em sua relação caótica com a sociedade.

 

02 – Quem é Rosa Ambrósio e quais são os principais conflitos existenciais que ela enfrenta?

      Rosa Ambrósio é a protagonista da obra, uma atriz decadente que vive atormentada pelas lembranças de uma infância infeliz e marcada por perdas, como o abandono do pai e a morte por overdose de seu primeiro amor, o primo Miguel. Seus principais conflitos incluem a recusa em aceitar a velhice (que chama pelo eufemismo de "idade da madureza"), o fim de sua carreira artística, o alcoolismo no qual se afoga para fugir da realidade e um relacionamento amoroso masoquista e de exploração com seu jovem secretário, Diogo.

 

03 – Qual é o papel de Rahul na narrativa e como se justifica sua classificação como uma "personagem personificada"?

      Rahul é um gato e um dos protagonistas do romance. Ele é uma personagem personificada porque pensa, age, se comporta e reflete quase como um ser humano. Ele tece comentários minuciosos sobre os moradores da casa, lê o íntimo das pessoas e chega a manifestar uma onisciência por meio do discurso indireto livre. Rahul idolatra o falecido marido de Rosa, Gregório (a ponto de ver seu fantasma passeando pela casa), despreza o amante Diogo e acredita ter vivido outras encarnações em vidas passadas.

 

04 – Como é descrita a relação entre Rosa Ambrósio e sua filha Cordélia?

      É um relacionamento conturbado, relapso e marcado pelo preconceito e pelo ciúme. Rosa inveja a juventude de Cordélia e o forte vínculo que a filha mantinha com o pai, Gregório. Além disso, Cordélia possui uma personalidade independente e atrevida que choca a mãe, especialmente por manter relacionamentos com homens mais velhos e demonstrar total indiferença em relação à crise existencial e emocional vivida por Rosa.

 

05 – Quem é Ananta Medrado e qual mistério envolve sua trajetória no romance?

      Ananta Medrado é uma analista de comportamento estranho, metódica, disciplinada e solitária, que também realiza trabalho social em uma Delegacia de Proteção à Mulher. Ela demonstra uma tendência para o mistério e possui uma obsessão por um homem que afirma morar no andar superior de seu edifício (o "Vizinho"). O grande mistério em torno de sua trajetória é o seu desaparecimento repentino, que ocorre sem deixar pistas, mobilizando um delegado e levantando suspeitas sobre o real interesse de seu primo, Renato Medrado, em encontrá-la ou herdar seus bens.

 

06 – De que forma o discurso polifônico se manifesta através dos diferentes focos narrativos da obra?

      A polifonia se constrói pela alternância de três tipos de focos narrativos ao longo do texto:

      Narrador em 1ª pessoa (Rosa Ambrósio): Expressa-se por meio de monólogos interiores no início do livro, revirando seu passado de dores e glórias.

      Narrador-personagem personificado (Rahul, o gato): Narra de forma quase doentia e minuciosa a intimidade de Rosa e seu amante, alternando momentos de testemunha com os de narrador onisciente.

      Narrador em 3ª pessoa: Introduzido a partir do quinto capítulo para descrever o consultório e a rotina de Ananta Medrado, além de conduzir as investigações sobre o sumiço da analista, o internamento de Rosa e a partida de Diogo.

 

07 – O texto menciona que o romance possui uma linguagem "plurissignificativa". Quais figuras de linguagem e elementos de intertextualidade exemplificam essa característica?

      A linguagem plurissignificativa se manifesta através de:

      Estrangeirismos: Termos como "Hasta siempre", "illustration" e "Formes et couleurs".

      Figuras de Linguagem: Metáforas (como Rosa ver a filha "boiando no rio do supérfluo"), personificação (atribuída às ações do gato Rahul) e eufemismo (a expressão "idade da madureza" para evitar a palavra velhice).

      Intertextualidade: Referências ao conto infantil "João e Maria", às cantigas de roda ("O cravo e a rosa"), a trechos bíblicos ("não julgueis e não sereis julgados"), à transformação urbana da Praça da República e à clássica frase da literatura policial "É elementar, meu caro Watson".

 

 



domingo, 12 de abril de 2026

ROMANCE: A MORTE E O METEORO - FRAGMENTO - JOCA REINERS TERRON - COM GABARITO

 Romance: A Morte e o Meteoro – Fragmento

                Joca Reiners Terron

        1 – Grande mal

        [...] No começo, os cinquenta Kaajapukugi iriam para o Canadá. Tendo saído da Amazônia, de um lugar mais quente que o inferno e onde as chuvas equatoriais já não caíam tão caudalosas quanto no passado, dificilmente se adaptariam aos rigores negativos do clima canadense. Assim, terminaram em Oaxaca.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgBZaeGN4rh98_WsKWbZQ1HL14J3X-F5BdEl7ni9pYB8z1Pnl79UfGRLmKgscdP4tJBLGqrj3Q75iG0eZzxWMBtAjItl97IUSMdH3mZ4nKo3jz8r5PVsXx4AMc9piA18ANoaiXJco3wk_6hw1y2Wj1PpynRLEJqVBLpoJunQaykv_P3KLCHiuRssGPaC2Y/s320/A%20MORTE.jpg


        Se a zona árida da planície daqui não servia para eles, nada mais no mundo se parecia com a selva amazônica ou com aquilo que restava dela, algumas dezenas de hectares de árvores agonizantes em vias de serem calcinadas pelo sol. Os Kaajapukugi, uma tribo isolada que recusava contato com o homem branco, viviam numa paisagem desertificada sem estarem preparados. [...]

        O ecossistema onde viviam foi inteiramente destruído [...] e com ele suas plantas medicinais sagradas e até os venenos nos quais embebiam flechas e o timbó que usavam para pescar. Peixes morreram, rios secaram. [...] Nada restou além de areia e erosão. [...].

TERRON, Joca Reiners. A morte e o meteoro. São Paulo: Todavia, 2019. p. 11-24.

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 149.

Entendendo o romance:  

01 – Qual era o destino inicial planejado para os cinquenta Kaajapukugi após saírem da Amazônia e onde eles acabaram se estabelecendo?

      O destino inicial planejado era o Canadá. No entanto, devido ao receio de que não se adaptariam ao clima extremamente frio (rigores negativos) após virem de uma região equatorial, eles acabaram sendo levados para Oaxaca, no México.

02 – Como o autor descreve a situação atual da selva amazônica no trecho citado?

      O autor descreve a selva como algo que praticamente não existe mais, restando apenas "algumas dezenas de hectares de árvores agonizantes" que estão prestes a ser queimadas (calcinadas) pelo sol, transformando-se em uma paisagem desertificada.

03 – Por que a adaptação dos Kaajapukugi ao novo ambiente é considerada difícil, segundo o texto?

      Porque eles formavam uma tribo isolada que recusava o contato com o homem branco e viviam em uma paisagem que se tornou deserta sem que estivessem preparados para isso. Além disso, o texto menciona que nada no mundo (nem o Canadá, nem a zona árida de Oaxaca) se assemelhava mais ao seu habitat original destruído.

04 – Quais foram as consequências práticas da destruição do ecossistema para o modo de vida da tribo?

      A destruição eliminou recursos vitais para a sobrevivência e cultura da tribo, como as plantas medicinais sagradas, os venenos para as flechas e o timbó usado na pesca. O texto enfatiza que os peixes morreram e os rios secaram, restando apenas areia e erosão.

05 – O que o fragmento sugere sobre as mudanças climáticas na região de origem dos indígenas?

      O texto sugere uma mudança drástica no clima e no ambiente: a Amazônia é descrita como um lugar "mais quente que o inferno" e menciona que as chuvas equatoriais, antes abundantes, já não caem com a mesma intensidade (caudalosas) que no passado.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

ROMANCE(FRAGMENTO): A CIDADE SITIADA - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 ROMANCE (FRAGMENTO): A CIDADE SITIADA

                     Clarice Lispector (1949)

 O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., já misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrbio se erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que transformação os atingia. Os movimentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançando fumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjg7kb6-DS0TZLYgeB8eOgfq4Igcg7xILRMRSx22nfb4qnbbPgbZfJGhilnTKmSGKC7KEQ0SeEvGWTdPdNMo5UgnyYUarKynWZST1Wzgi1rwWLtrZLJimdnJBeKFLsFer2gqWZqspTDxRiAGIH3rs4Fzben5WnyDezM1y7PSFVRJh23XS0LxuU9TsF1E84/s1600/CIDADE.jpg


De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preços. E quando sobre o alegre movimento da manhã soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque.

Ao pôr-do-sol galos invisíveis ainda cocoricavam. E misturando-se ainda à poeira metálica das fábricas o cheiro das vacas nutria o entardecer. Mas de noite, com as ruas subitamente desertas, já se respirava o silêncio com desassossego, como numa cidade; e nos andares piscando de luz todos pareciam estar sentados. As noites cheiravam a estrume e eram frescas. Às vezes chovia.

(LISPECTOR, Clarice. A Cidade sitiada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.)

 

 Entendendo o texto

 01. O texto descreve o subúrbio de S. Geraldo em um momento de transição. Qual é a principal característica dessa mudança mencionada no primeiro parágrafo?

a. A substituição total da vida rural pela tecnologia moderna.

b. A coexistência de elementos rústicos (estrebarias, cavalos) com o progresso industrial (fábricas, automóveis).

c. O isolamento da população, que se recusa a aceitar a chegada das novas usinas.

d. A organização planejada do tráfego para comportar o aumento de veículos.

02. Como o narrador descreve a percepção dos habitantes em relação às transformações que ocorriam no local?

a. Eles estavam entusiasmados com as oportunidades de emprego nas fábricas.

b. Eles planejavam abandonar o subúrbio para viver em centros maiores.

c. Eles vivenciavam as mudanças sem conseguir definir exatamente que tipo de transformação os atingia.

d. Eles protestavam contra a poluição e o barulho dos automóveis impacientes.

03. A expressão "dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque" sugere que o movimento da manhã em S. Geraldo era:

a. Silencioso e fúnebre.

b. Organizado e burocrático, como em uma estação de trem.

c. Agitado, dinâmico e carregado de uma sensação de expectativa ou partida.

d. Perigoso, devido ao excesso de caminhões transportando ferro.

04. No segundo parágrafo, o autor descreve a atmosfera noturna de S. Geraldo. Qual sensação a cidade passa a transmitir quando as ruas ficam desertas?

a. Uma sensação de paz absoluta e conexão com a natureza.

b. Um sentimento de desassossego típico de uma cidade urbana.

c. O medo de ataques de animais selvagens vindos das estrebarias.

d. A alegria de ver as luzes dos sobrados piscando.

05. Quais elementos sensoriais (olfato e visão) são utilizados para contrastar o antigo e o novo no subúrbio?

a. O cheiro de flores e a visão de prédios espelhados.

b. O cheiro de maresia e a visão de pescadores na praia.

c. O cheiro de estrebaria/estrume em contraste com a poeira metálica e o crepúsculo enfumaçado.

d. O cheiro de asfalto fresco e a visão de campos de trigo.

 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

ROMANCE: DOM CASMURRO - A DENÚNCIA - CAP. III - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Romance: Dom Casmurro – A Denúncia cap. III

                    Machado de Assis

      Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Mata-cavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_SwK0csaHl14EFeFYbkij4OPg0lS7sR4ATHIG_ZOl28HM8CJgNm6DVC4lyyEPkJ9QOSoP9gyMfIwJbnlW7iGilJ3KsmyLkg_xbKGrvyISGH52yY_5MwXgwtfErwGYWV4KE5fJjvlpJaJlXtgYm2p_NnC1GscxoZGkaL-DOjExg8-iPqkvzewTVd6IoZA/s320/36ab761f2ec82a329e469d8d69c17932.jpg


        -- D. Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

        -- Que dificuldade?

        -- Uma grande dificuldade.

        Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.

        -- A gente do Pádua?

        -- Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.

        -- Não acho. Metidos nos cantos?

        -- É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as cousas corressem de maneira, que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida...

        -- Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta cousa; daí vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?

        Tio Cosme respondeu com um "Ora!" que, traduzido em vulgar, queria dizer: "São imaginações do José Dias os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?"

        -- Sim, creio que o senhor está enganado.

        -- Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...

        -- Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes.

        -- Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre Feijó governou o Império...

        -- Governou como a cara dele! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores políticos.

        -- Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

        -- Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Mas, olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?

        -- É promessa, há de cumprir-se.

        -- Sei que você fez promessa... mas uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina?

        -- Eu?

        -- Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória? Está chorando? Ora esta pois isto é cousa de lágrimas?

        Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exortava: "Prima Glória! Prima Glória!" José Dias desculpava-se: "Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...".

Dom Casmurro. São Paulo: Moderna, 2004, p. 19-20. (Coleção Travessias; a edição publicada por Machado de Assis é de 1899).

Fonte: Português. Uma proposta para o letramento. Magda Soares – 8º ano – 1ª edição. Impressão revista – São Paulo, 2002. Moderna. p. 65-66.

Entendendo o romance:

01 – Qual é o contexto inicial do capítulo III?

      O capítulo começa com o narrador, Bentinho, relembrando um momento de sua adolescência, em 1857, na casa da Rua de Mata-cavalos. Ele se esconde atrás da porta e ouve uma conversa entre sua mãe, Dona Glória, e José Dias.

02 – Qual é a "denúncia" feita por José Dias?

      José Dias alerta Dona Glória sobre a proximidade entre Bentinho e Capitu, a filha do vizinho Pádua. Ele sugere que os dois estão "metidos nos cantos" e que pode haver um namoro entre eles, o que dificultaria o plano de enviar Bentinho para o seminário.

03 – Qual é a reação de Dona Glória à denúncia de José Dias?

      Inicialmente, Dona Glória se mostra incrédula. Ela argumenta que Bentinho e Capitu são apenas crianças e que foram criados juntos desde a infância. No entanto, ela também demonstra preocupação e decide que é hora de enviar Bentinho para o seminário.

04 – Quem é Tio Cosme e qual é a sua opinião sobre a situação?

      Tio Cosme é um parente da família que participa da conversa. Ele minimiza a preocupação de José Dias, dizendo que são apenas "imaginações" e que os jovens estão apenas se divertindo.

05 – Qual é a importância da promessa feita por Dona Glória?

      Dona Glória fez uma promessa de enviar Bentinho para o seminário, e essa promessa é um dos principais conflitos do romance. A conversa no capítulo III revela a tensão entre o desejo da mãe de cumprir a promessa e a crescente ligação entre Bentinho e Capitu.

06 – Como José Dias tenta justificar a sua denúncia?

      José Dias, tenta se justificar dizendo que falou por "veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...". Ele tenta mostrar que suas intenções são boas.

07 – Qual é o clima emocional no final do capítulo?

      O final do capítulo é marcado por emoções intensas. Dona Glória chora, e há um silêncio tenso na sala. Bentinho, escondido, sente uma "outra força maior, outra emoção", indicando o impacto da conversa em seus sentimentos.

sexta-feira, 28 de março de 2025

ROMANCE: O MULATO - CAP. XII - FRAGMENTO - ALUÍSIO AZEVEDO - COM GABARITO

 Romance: O mulato cap. XII – Fragmento

                 Aluísio Azevedo

        [...]

        Uma só palavra bolava à superfície dos seus pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia, transformando-se em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Ideia parasita, que estrangulava todas as outras ideias.

        — Mulato!

Fonte https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjx3lWTGC8-WYw3tnC2UrGBIocpmXsNzVHLML9gnsDKq0hkjb3895FOjBDy9eHsUuxsPz8IrOzST7B5FawFiGLSmt86zER8I2lbyKaI-J8JmQG9WhO4v6bdxGCWRdDegyevYTmIAEsctXLmLL_1I5_TaxHIzBxa-zQ7L11I5ZC4kTlpVtmoAjzRQGDCMWs/s320/o-mulato.jpg


        Esta só palavra explica-lhe agora todos os mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas famílias a quem visitara; a conversa cortada no momento em que Raimundo se aproximava; as reticências dos que lhe falavam sobre os seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em sua presença, discutiam questões de raça e de sangue; a razão pela qual D. Amância lhe oferecera um espelho e lhe dissera: “Ora mire-se!” a razão pela qual diante dele chamavam de meninos os moleques da rua. Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele até aí desejara e negava-lhe tudo ao mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dúvidas, justificava o seu passado; mas retirava-lhe a esperança de ser feliz, arrancava-lhe a pátria e a futura família; aquela palavra dizia-lhe brutalmente: “Aqui, desgraçado, nesta miserável terra em que nasceste, só poderás amar uma negra da tua laia! Tua mãe, lembra-te bem, foi escrava! E tu também o foste!”

        — Mas, replicava-lhe uma voz interior, que ele mal ouvia na tempestade do seu desespero; a natureza não criou cativos! Tu não tens a menor culpa do que fizeram os outros, e no entanto és castigado e amaldiçoado pelos irmãos daqueles justamente que inventaram a escravidão no Brasil!

        E na brancura daquele caráter imaculado brotou, esfervilhando logo, uma ninhada de vermes destruidores, onde vinham o ódio, a vingança, a vergonha, o ressentimento, a inveja, a tristeza e a maldade. E no círculo do seu nojo, implacável e extenso, entrava o seu país, e quem este primeiro povoou, e quem então e agora o governava, e seu pai, que o fizera nascer escravo, e sua mãe, que colaborara nesse crime. “Pois então de nada-lhe lhe valia ter sido bem educado e instruído; de nada lhe valia ser bom e honesto?... Pois naquela odiosa província, seus conterrâneos veriam nele, eternamente, uma criatura desprezível, a quem repelem todos do seu seio?...” E vinham-lhe então, nítidas à luz crua do seu desalento, as mais rasteiras perversidades do Maranhão; as conversas de porta de botica, as pequeninas intrigas que lhe chegavam aos ouvidos por intermédio de entes ociosos e objetos, a que ele nunca olhara senão com desprezo. E toda essa miséria, toda essa imundícia, que até então se lhe revelava aos bocadinhos, fazia agora uma grande nuvem negra no seu espírito, porque, gota a gota, a tempestade se formara. E, no meio desse vendaval, um desejo crescia, um único, o desejo de ser amado, de formar uma família, um abrigo legítimo, onde ele se escondesse para sempre de todos os homens.

        Mas o seu desejo só pedia, só queria, só aceitava Ana Rosa, como se o mundo inteiro houvera desaparecido de novo ao redor daquela Eva pálida e comovida, que lhe dera a provar, pela primeira vez, o delicioso veneno do fruto proibido.

AZEVEDO, Aluísio. O mulato. 19. ed. São Paulo, Ática, 1999. p. 167-168. (Série Bom Livro).

Fonte: Português. Série novo ensino médio. Volume único. Faraco & Moura – 1ª edição – 4ª impressão. Editora Ática – 2000. São Paulo. p. 228-229.

Entendendo o romance:

01 – Qual palavra atormenta os pensamentos de Raimundo?

      A palavra que atormenta Raimundo é "mulato". Ela representa o preconceito racial que ele enfrenta e que obscurece sua visão de si mesmo e de seu passado.

02 – Que revelações a palavra "mulato" traz para Raimundo?

      A palavra revela a Raimundo as razões por trás do tratamento frio e discriminatório que ele recebe da sociedade maranhense. Ela explica a frieza das famílias, as conversas interrompidas, as reticências sobre seu passado e a forma como as questões raciais eram tratadas em sua presença.

03 – Que sentimentos negativos surgem em Raimundo após a revelação?

      Sentimentos de ódio, vingança, vergonha, ressentimento, inveja, tristeza e maldade surgem em Raimundo. Ele se sente injustiçado e amaldiçoado pela sociedade.

04 – Como Raimundo reage à injustiça que sente?

      Raimundo questiona a injustiça de ser punido por algo que não fez, lembrando que a natureza não criou cativos. Ele também sente raiva de seu pai e de sua mãe por terem contribuído para sua condição.

05 – Que desejo cresce em Raimundo em meio ao desespero?

      Em meio ao desespero, cresce em Raimundo o desejo de ser amado e de formar uma família, um refúgio onde ele possa se esconder do preconceito.

06 – Qual o papel de Ana Rosa nos desejos de Raimundo?

      Ana Rosa representa a possibilidade de amor e aceitação para Raimundo. Ele a vê como a única capaz de lhe proporcionar a felicidade que ele tanto almeja.

07 – Qual a crítica social presente no fragmento?

      O fragmento apresenta uma crítica contundente ao preconceito racial e à hipocrisia da sociedade maranhense do século XIX. Aluísio Azevedo expõe a crueldade do racismo e os efeitos devastadores que ele causa na vida de Raimundo.

 

 

ROMANCE: SENHORA - 2ª PARTE - QUITAÇÃO VI - FRAGMENTO - JOSÉ DE ALENCAR - COM GABARITO

 Romance: Senhora – 2ª Parte – QUITAÇÃO VI – Fragmento

                  José de Alencar

        Aurélia passava agora as noites solitárias.

        Raras vezes aparecia Fernando, que arranjava uma desculpa qualquer para justificar sua ausência. A menina que não pensava em interrogá-lo, também não contestava esses fúteis inventos. Ao contrário buscava afastar da conversa o tema desagradável.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgXxrGnu1_04k7oMuKXXdPl5J46izhkUujVeVYByo2ZBgZjh1RvOUECYLJ39hZ-37ADuHrKzdl14E52sf0BMKsbik3ASk0RIaXxPaygz7tRyH_LzbCsNtb1xaGSAsYOqp-8nFbQ1xYuGBROY76OysCl3r9WvqnOugKs7OaEi9e-393CLLrUS9kEtn6eDYA/s320/20180611-senhora.jpg


        Conhecia a moça que Seixas retirava-lhe seu amor; mas a altivez do coração não lhe consentia queixar-se. Além de que, ela tinha sobre o amor ideias singulares, talvez inspiradas pela posição especial em que se achara ao fazer-se moça.

        Pensava ela que não tinha nenhum direito a ser amada por Seixas; pois toda a afeição que lhe tivesse, muita ou pouca, era graça que ela recebia. Quando se lembrava que esse amor a poupara à degradação de um casamento de conveniência, nome com que se decora o mercado matrimonial, tinha impulsos de adorar a Seixas, como seu Deus e redentor.

        Parecerá estranha essa paixão veemente, rica de heróica dedicação, que entretanto assiste calma, quase impassível, ao declínio do afeto com que lhe retribuía o homem amado, e se deixa abandonar, sem proferir um queixume, nem fazer um esforço para reter a ventura que foge.

        Esse fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação nos abstemos; porque o coração, e ainda mais o da mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral. Ninguém sabe que maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos.

        Suspeito eu porém que a explicação dessa singularidade já ficou assinalada. Aurélia amava mais seu amor do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem.

        [...].

ALENCAR, José de. Senhora. 24. ed. São Paulo, Ática, 1994. p. 97. (Série Bom Livro).

Fonte: Português. Série novo ensino médio. Volume único. Faraco & Moura – 1ª edição – 4ª impressão. Editora Ática – 2000. São Paulo. p. 209.

Entendendo o romance:

01 – Como Aurélia se sente em relação à ausência de Fernando?

      Aurélia percebe que Fernando se distancia, mas não o questiona. Ela tenta evitar o assunto, demonstrando uma mistura de resignação e orgulho ferido.

02 – Qual a visão de Aurélia sobre o amor?

      Aurélia tem uma visão singular do amor, influenciada por sua situação incomum. Ela vê o afeto de Fernando como uma graça, algo que ela não tem o direito de exigir.

03 – Por que Aurélia sente gratidão por Fernando?

      Aurélia é grata a Fernando porque o amor dele a salvou de um casamento de conveniência, que ela considera uma forma de degradação.

04 – Como o narrador descreve a reação de Aurélia ao declínio do amor de Fernando?

      O narrador descreve a reação de Aurélia como calma e impassível, sem queixas ou tentativas de reter a felicidade que se esvai.

05 – Qual a explicação do narrador para o comportamento de Aurélia?

      O narrador sugere que Aurélia ama mais o ideal do amor do que o próprio Fernando. Ela é mais poeta do que mulher, preferindo a idealização à realidade.

06 – O que o narrador quis dizer com a frase “Aurélia amava mais seu amor do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem.”?

      Essa frase resume a complexidade da personagem Aurélia. Ela valoriza mais a ideia romântica do amor do que o relacionamento real com Fernando Seixas. Para ela, o amor é uma idealização, uma poesia, e a realidade do relacionamento com Fernando não atende às suas expectativas.

07 – O que o autor quis dizer com a frase “...o coração, e ainda mais o da mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral. Ninguém sabe que maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos.”?

      Essa frase reflete a visão do autor sobre a complexidade e a imprevisibilidade do coração humano, especialmente o da mulher. O autor sugere que o coração feminino é um mistério profundo, capaz de gerar tanto sentimentos nobres quanto obscuros.