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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

CRÔNICA: VIDA URBANA - FRAGMENTO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: Vida Urbana – Fragmento

              Lima Barreto

        Atualmente, nada mais mete medo a um pobre diabo que a tal história de aluguel de casa. Não há quem não esteja pagando, por trapeiras, exorbitantes locações dignas de bolsos de ricaço, [...]. Um amigo, muito meu amigo mesmo, paga atualmente, nos confins dos subúrbios, o avantajado aluguel de duzentos e cinco mil-réis por uma casa que, há dois anos, não lhe custava mais de cento e cinquenta mil-réis. Para melhorar um tão doloroso estado de coisas, a prefeitura pôs abaixo o Castelo e adjacências, demolindo alguns prédios, cujos moradores vão aumentar a procura e encarecer, portanto, ainda mais, as rendas das habitações mercenárias.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEimYXcJgFZBGKv9Dxmelucy2Kvmpw7-h6BC_Go1Qf_GOUxRvrkI_vb0-8bTvuU3fB11iFcR20iY1K0KrXng-pMHpthrqZonVR1SEMNdlsyxRhikjNYCh7YNluRGJA6iglvUNNLtSn69zYJdiuPyoYfA1-fd86rDbd6l5PnJz08Y4rejPn7SqE7RdE23MAk/s320/images.jpg


        A municipalidade desta cidade tem dessas metidas paradoxais, para as quais chamo a atenção dos governos das grandes cidades do mundo. Fala-se, por exemplo, na vergonha que é a Favela, ali, numa das portas de entrada da cidade ― o que faz a nossa edilidade? Nada mais, nada menos do que isto: gasta cinco mil contos para construir uma avenida nas areias de Copacabana. Clama-se contra as péssimas condições de higiene do matadouro de Santa Cruz, imediatamente a prefeitura providencia chamando concorrência para a construção de um prado de corridas modelo, no Jardim Botânico, à imitação de Chantilly.

        De forma que a nossa municipalidade não procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes, mas as suas superfluidades. [...]

Lima Barreto. Vida urbana. In Crônicas escolhidas de Lima Barreto.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 15.

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com a crônica, qual o significado das palavras abaixo:

-- Castelo: morro na região central do Rio de Janeiro, tomado por cortiços que serviam de moradia da população pobre;

-- Mercenárias: que proporcionam vantagens e lucros injustos;

-- Edilidade: municipalidade;

-- Prado: pista para corrida de cavalos;

-- Chantilly: moderno hipódromo na França, inaugurado em 1834;

-- Superfluidades: futilidades, coisas supérfluas.

02 – Qual é a principal crítica social feita por Lima Barreto no primeiro parágrafo do texto em relação à situação da habitação no Rio de Janeiro?

      Lima Barreto critica a forte inflação imobiliária e o encarecimento dos aluguéis, que atingiam desproporcionalmente a população de baixa renda (referida pelo autor como "pobre diabo"). Ele denuncia o fato de que residências precárias e de péssima qualidade ("trapeiras") estavam sendo cobradas a preços exorbitantes, incompatíveis com a realidade financeira das classes populares e dignos de pessoas ricas. Para exemplificar a gravidade da situação, o autor cita o caso de um amigo morador do subúrbio que sofreu um aumento expressivo no aluguel em um curto período de dois anos.

03 – De que forma as obras de remodelação urbana promovidas pela prefeitura contribuíram para agravar a crise habitacional, segundo o texto?

      Segundo o autor, intervenções urbanísticas como a demolição do Morro do Castelo e de imóveis adjacentes agravaram a crise porque desalojaram diversos moradores. Sem opções de moradia fornecidas pelo poder público, essas pessoas foram forçadas a procurar novas habitações no mercado, o que aumentou a procura por casas e, consequentemente, elevou ainda mais os preços dos aluguéis na cidade (mecanismo de oferta e demanda nas "habitações mercenárias").

04 – Lima Barreto aponta uma postura "paradoxal" por parte da prefeitura carioca. Em que consiste esse paradoxo e quais exemplos o cronista utiliza para demonstrá-lo?

      O paradoxo consiste no contraste entre as graves demandas sociais/sanitárias não atendidas da população e os investimentos milionários da prefeitura em obras fúteis ou voltadas para as elites. O autor exemplifica esse contraste ao mostrar que:

      Diante da precariedade da Favela, a prefeitura opta por gastar verba pública construindo uma avenida de luxo nas areias de Copacabana;

      Diante das péssimas condições de higiene do matadouro de Santa Cruz, a gestão pública prefere abrir concorrência para construir um hipódromo (prado de corridas) no Jardim Botânico.

05 – Explique o sentido da frase final da crônica: "De forma que a nossa municipalidade não procura prover as necessidades imediatas dos seus munícipes, mas as suas superfluidades."

      A frase sintetiza a tese do autor sobre a inversão de prioridades do poder público. Lima Barreto argumenta que a prefeitura negligencia os problemas essenciais e urgentes dos cidadãos (como moradia digna, infraestrutura básica, saneamento e saúde) para priorizar projetos de fachada, estética urbana ou lazer elitista ("superfluidades"), buscando passar uma imagem modernista da cidade em detrimento do bem-estar real da população.

06 – Analise o uso de expressões como "pobre diabo", "trapeiras" e "habitações mercenárias". O que essas escolhas vocabulares revelam sobre o tom do texto e o posicionamento do autor?

      Essas escolhas vocabulares revelam o tom irônico, indignado e engajado da escrita de Lima Barreto. A expressão "pobre diabo" demonstra empatia com a população trabalhadora e desfavorecida, enquanto "trapeiras" enfatiza a precariedade física dos imóveis oferecidos. Já o termo "habitações mercenárias" denuncia o caráter predatório do mercado imobiliário e a ganância dos proprietários. O conjunto dessas expressões marca o posicionamento do autor como um observador crítico das desigualdades sociais e da omissão governamental.

 

CRÔNICA: ESTRADAS DE RODAGEM - MONTEIRO LOBATO - COM GABARITO

 Crônica: ESTRADAS DE RODAGEM

             Monteiro Lobato

        Comparados os países com veículos, veremos que os Estados Unidos são uma locomotiva elétrica; a Argentina um automóvel; o México uma carroça; e o Brasil um carro de boi.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgojcvA6v5uVbaoOTKsArqmVmdLJJ0XzLJSF4vPy-gh2MLoPht4lwqmNhp7hVLPQQivE-Yhg0oXq2EW3tswSI1yU4m3vWgKoTukPXqEY6_3kpHj2hyphenhyphen-n3N72YW1BpwOLj4IQpn1zaIl1-ieS3ci1SZf7Oalh8pjaCpdunNSVm7d67Ri3z6JLiNJ8RALdow/s320/images.jpg


        O primeiro destes países voa; o segundo corre a 50 km por hora; o terceiro apesar das revoluções tira 10 léguas por dia; nós...

        Nós vivemos atolados seis meses do ano, enquanto dura a estação das águas, e nos outros 6 meses caminhamos à razão de 2 léguas por dia. A colossal produção agrícola e industrial dos americanos voa para os mercados com a velocidade média de 100 km por hora. Os trigos e carnes argentinas afluem para os portos em autos e locomotivas que uns 50 km por hora, na certa, desenvolvem.

        As fibras do México saem por carroças e se um general revolucionário não as pilha em caminho, chegam a salvo com relativa presteza. O nosso café, porém, o nosso milho, o nosso feijão e a farinha entram no carro de boi, o carreiro despede-se da família, o fazendeiro coça a cabeça e, até um dia! Ninguém sabe se chegará, ou como chegará. Às vezes pensa o patrão que o veículo já está de volta, quando vê chegar o carreiro.

        -- Então? Foi bem de viagem?

        O carreiro dá uma risadinha.

        -- Não vê que o carro atolou ali no Iriguaçu e...

        -- E o quê?

        -- ... e está atolado! Vim buscar mais dez juntas de bois para tirar ele.

        E lá seguem bois, homens, o diabo para desatolar o carro. Enquanto isso, chove, a farinha embolora, a rapadura derrete, o feijão caruncha, o milho grela; só o café resiste e ainda aumenta o peso.

LOBATO, M. Obras Completas, 14ª ed., São Paulo, Brasiliense, 1972, v. 8, p.74.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 63.

Entendendo a crônica:

01 – Com qual veículo Monteiro Lobato compara o Brasil e qual é o significado dessa metáfora no texto?

      O autor compara o Brasil a um carro de boi. Essa metáfora simboliza o atraso, a lentidão e a ineficiência do sistema de transporte e infraestrutura do país na época, em oposição à modernidade e à velocidade de outras nações.

02 – Como o autor caracteriza o ritmo do transporte brasileiro durante os dois períodos do ano (estação das águas e período seco)?

      Durante a estação das águas (seis meses do ano), o transporte brasileiro vive completamente atolado. Nos outros seis meses do ano, o transporte caminha em um ritmo extremamente lento, à razão de 2 léguas por dia.

03 – Quais são as analogias que o texto faz entre os outros países (Estados Unidos, Argentina e México) e os meios de transporte?

      Estados Unidos: Comparados a uma locomotiva elétrica (que "voa" a 100 km/h).

      Argentina: Comparada a um automóvel (que corre a 50 km/h).

      México: Comparado a uma carroça (que faz 10 léguas por dia).

04 – Qual é a reação do fazendeiro e do carreiro quando o café, a farinha, o milho e o feijão são enviados para a viagem?

      O carreiro se despede da família e o fazendeiro coça a cabeça, pois ninguém sabe se a carga chegará ou como chegará. Quando o carreiro retorna sem o veículo, revela que o carro atolou no Iriguaçu e precisa de mais dez juntas de bois para conseguir tirá-lo de lá.

05 – O que acontece com os produtos agrícolas brasileiros enquanto o carro de boi permanece atolado sob a chuva?

      Devido à chuva e ao tempo em que ficam parados, a farinha embolora, a rapadura derrete, o feijão ganha caruncho e o milho grela (germina). Apenas o café resiste e ainda aumenta de peso.

 

 

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

CRÔNICA: LUTO PELA FAMÍLIA SILVA - RUBEM BRAGA - COM GABARITO

 Crônica: Luto pela família Silva

             Rubem Braga

 

        A assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem está morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh9G9jsnp0KrYURV0aJGNvNXXl16sHH5zvdx23I2JU6mRroj8Twx16bRd05xuGWihyphenhyphengJSfPdHqgnhTFET_3Y11i-rOsJJpKnoeZYZ2rSzo1SmuEYq0k6fk0YpMLnRedLdlgNtY6yLPwAVfKblvavpOkfJ_hZEQ0CRw4IlqsiJtjdn1U7X87U_kOQFJtgm4/s1600/images.jpg


        João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos os imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam o nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome "de Tal". A família Silva e a família "de Tal" são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são de família pertencem à Silva.

        João da Silva – nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue-azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha. Nossa família quebra pedra, faz telha de barro, laça os bois, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.

        Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política.

 

BRAGA, Rubem. Luto da família Silva. In: Para gostar de ler. 4. Ed. São Paulo, Ática: 1984.

 

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o que se diz no primeiro parágrafo, o que aconteceu com João da Silva? Como isso aconteceu?

      De acordo com o primeiro parágrafo, João da Silva morreu de hemoptise. Ao verem o corpo de João na calçada, chamaram a assistência, mas ela não pôde fazer nada, uma vez que o sujeito já estava morto. Sendo assim, o homem então foi levado para o necrotério.

      Obs.: Hemoptise é a expectoração sanguínea através da tosse, proveniente de hemorragia nas vias respiratórias. É comum a várias doenças cardíacas e pulmonares.

 

02 – Quem fala e para quem no primeiro parágrafo? E do segundo parágrafo em diante?

      No primeiro parágrafo da crônica, quem fala parece ser alguém que não tem intimidade com o morto, tendo em vista a linguagem impessoal e objetiva utilizada para noticiar a morte de João da Silva.  Entretanto, do segundo parágrafo em diante, ocorre uma mudança de foco narrativo, isto é, passa-se a se utilizar a primeira pessoa do plural. Daí em diante quem fala são os amigos e familiares de João da Silva se dirigindo ao próprio defunto. Isso fica claro em passagens como: “Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem”.

 

03 – O que significa o fato de a morte do personagem ter sido noticiada na seção dos "Fatos Diversos" do Diário de Pernambuco?

      A expressão “Fatos Diversos” indica que qualquer fato pode ser noticiado nesta seção, ou seja, são fatos sem importância e que não têm distinção uns dos outros, que não merecem serem publicados numa seção de maior destaque no jornal.

 

04 – Quem são, de fato, os Joões da Silva citados pelo autor no trecho: “Nós somos os populares Joões da Silva”?

      Os Joões da Silva que não tiveram muitas oportunidades na vida e que, por isso, geralmente ocupam os cargos cuja remuneração é mais baixa, vivem sob condições precárias de vida, não têm acesso à educação de qualidade. Esses Joões da Silva são as pessoas socialmente menos privilegiadas da sociedade e que, consequentemente, sofrem mais com os efeitos da desigualdade social.

 

05 – Veja o seguinte trecho da crônica de Rubem Braga: “Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. [...] Usamos o sobrenome ‘de Tal’”. O que significa usar o sobrenome ‘de Tal’ e por que se diz que “No fundo, somos os Silva.”?

      Silva é um sobrenome popular, muito comum, que não distingue as pessoas. Usar outro sobrenome “de Tal” seria uma forma de tentar não pertencer a essa família estigmatizada, sem privilégios e que sofre por pertencer a uma camada social que sobrevive com poucos recursos financeiros e condições precárias.

 

06 – Quando se diz “Até as mulheres que não são de família pertencem à família Silva”, quem são essas mulheres e por que se usa a palavra “até”?

      Mulher que não é de família é uma expressão que nos remete a mulheres entregues à prostituição, à vida promíscua. Sendo assim, utiliza-se a expressão até para mostrar o quanto as associações que se fazem à família Silva são pejorativas, ou seja, tudo ou quase tudo que há de ruim, de marginal, de servil, tem relação com a família Silva.

 

07 – Quando se refere ao sepultamento de João da Silva, o autor utiliza a expressão “vala comum”. Com que intenção ela foi utilizada no texto?

      Essa expressão foi utilizada para mostrar que os Silva não têm direito a sepultamento pomposo, com cerimônias de despedida ou coisa parecida. Pelo contrário, os Silva são todos enterrados num lugar comum, indiferente.

 

08 – Você acha que os Silva estão sempre fadados a terminar numa “vala comum”? Justifique sua resposta.

      Seria interessante nessa pergunta o professor trabalhar com a questão da comodidade, a princípio, característica injustamente associada do brasileiro. Comodidade essa que não deixaria um Silva ascender socialmente e que os torna fadados a terminarem na vala comum. Consequentemente, ao se falar em comodismo, certamente surgirão questões relacionas à desigualdade social, pois tudo parte daí. E uma vez trabalhando em prol da igualdade na sociedade, pode-se mudar essa “pré-destinação” dos Silva, por exemplo.

 

09 – No texto, são citadas várias famílias, como: “A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família.”. Qual a diferença entre essas famílias e a família Silva?

      A diferença é que essas famílias têm sobrenomes tradicionais, nobres, sobrenomes esses geralmente associados a famílias ricas, que têm poderes e privilégios na sociedade. Diferentemente da família Silva, cujo sobrenome tem forte relação, na sociedade, com sobrenomes de famílias mais humildes, mais populares. Daí a importância associada a um sobrenome como Rocha Miranda e o desprivilegio associado a sobrenomes como Silva. É como se o sobrenome servisse de identidade para mostrar a que classe social o indivíduo pertence.

 

10 – Como os Silva auxiliam essas famílias? O que há em comum entre essas profissões?

      Os Silva auxiliam essas famílias nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, quebrando pedra, fazendo telha de barro, laçando os bois, levantando os prédios, conduzindo os bondes, enchendo os porões dos navios, enfim, exercendo uma série de profissões que geralmente remuneram mal o funcionário. Sendo assim, os Silva geralmente são fadados a ocuparem as profissões de baixo prestígio na sociedade.

 

11 – Rubem Braga termina sua crônica utilizando a palavra “Apesar”. Justifique o uso dessa conjunção ao final do texto.

      O apesar, utilizado no final do texto, mostra-nos que, mesmo sendo uma pessoa digna, de valor, mesmo tendo trabalhado toda uma vida, João da Silva será enterrado como qualquer um, na “vala comum da miséria”.  Mas, mesmo assim, há um desejo manifestado pelo narrador de que os Silvas ainda serão reconhecidos, ainda terão poder político (“nossa família um dia há de subir na política”).

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

CRÔNICA: O ASSALTO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 Crônica: O Assalto

             Carlos Drummond de Andrade

 

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLH3TOIsFd7sg7__ZnU6QzqpFODEf57ijAkHAoBwWQetltxAqeJPkimLQTEWEN9mXBiyVipGzaY7UxmvImfZ0cV_KQo7XdOSWjLoZHgwVRBGbNpV4xI7SfTcf4L6EpAPC2vXZzohTZRJqfGUP_EuYpatw_0cgVeHmjdQ6v12tJ2KZRoIyuoS91fvSa80o/s320/assalto.png

        Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:

        — Isto é um assalto!

        Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém, correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de um admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?

        — Um assalto! Um assalto! — a senhora continuava a exclamar, e quem não tinha escutado, escutou, multiplicando a notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali, na claridade do dia, sem que ninguém pudesse evitá-la.

        Moleques de carrinho corriam em todas as direções, atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias que transportavam. Não era o instinto de propriedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo transporte. E no atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam, tomates esborrachavam-se no asfalto. Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de qualquer um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar uma penca de bananas meio amassadas?

        — Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!

        O ônibus na rua transversal parou para assuntar. Passageiros ergueram-se, puseram o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador, um passageiro advertiu:

        — No que você vai a fim do assalto, eles assaltam sua caixa.

        Ele nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom alvitre abandonar o veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem, desde a idade da pedra até a idade do módulo lunar. Outros ônibus pararam, a rua entupiu.

        — Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não podem dar no pé.

        — É uma mulher que chefia o bando!

        — Já sei. A tal dondoca loira.

        — A loura assalta em São Paulo. Aqui é morena.

        — Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi.

        — Minha Nossa Senhora, o mundo está virado!

        — Vai ver que está caçando é marido.

        — Não brinca numa hora dessas. Olha aí sangue escorrendo!

        — Sangue nada, é tomate.

        Na confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora a uma joalheria, as vitrinas tinham sido esmigalhadas a bala. E havia joias pelo chão, braceletes, relógios. O que os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas.

        Barracas derrubadas assinalavam o ímpeto da convulsão coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver, e no rumo contrário, para escapar. Os grupos divergentes chocavam-se, e às vezes trocavam de direção; quem fugia dava marcha à ré, quem queria espiar era arrastado pela massa oposta. Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas portas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o pelo e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que gritavam:

        — Pega! Pega! Correu pra lá!

        — Olha ela ali!

        — Eles entraram na Kombi ali adiante!

        — É um mascarado! Não, são dois mascarados!

        Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distância. Foi um deitar-no-chão geral, e como não havia espaço uns caíam por cima de outros. Cessou o ruído, Voltou. Que assalto era esse, dilatado no tempo, repetido, confuso?

        — Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor-de-barriga, pensando que era metralhadora!

        Caíram em cima do garoto, que soverteu na multidão. A senhora gorda apareceu, muito vermelha, protestando sempre:

        — É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro assalto!
        A.ssal.to: substantivo masculino

1. agressão para roubo; 2. Ataque; 3. cada período de tempo de uma luta; 4. exorbitância de preço.

 

Entendendo a crônica:

01 – Ao dizer “Isto é um assalto!”, em que sentido a senhora utilizou a palavra assalto?

      Exorbitância de preço.

 

02 – A frase dita pela senhora provocou uma enorme confusão. Por quê?

      Porque as pessoas pensaram que era um assalto de verdade.

 

03 – Ocorreu comunicação entre as pessoas que estavam no local dos fatos relatados no texto? Justifique sua resposta.

      Não, porque ela disse uma coisa e as pessoas entenderam outra.

 

04 – A frase “Assim eles não podem dar no pé” está na linguagem informal. Reescreva-a na linguagem formal?

      Assim eles não podem fugir.

 

05 – “Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora”. O que levou as pessoas a pensarem que estavam ouvindo o barulho de uma metralhadora?

      Um escurinho trocando matraca.

 

06 – Que fato é responsável pelo humor da charge ao lado do texto?

      O fato de o homem querer parcelar o assalto em 12 vezes.

 

07 – Observe os significados da palavra assalto e responda: ela foi usada com o mesmo sentido na charge e no texto? Justifique sua resposta.

      Não, porque no texto foi usada como exorbitância de preço e na charge como agressão para roubo.

 

 

 

domingo, 26 de julho de 2026

CRÔNICA: A ATITUDE SUSPEITA - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: A atitude suspeita

            Luís Fernando Veríssimo

 

        Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso “em atitude suspeita”. É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbWtE2rSwYe0ed3QojaHCEDi9QZ8ZPXRUpYIpwIqs-f45QAxaFyejenkfCPI1blPhkwgHOW-fM4Nzaq5I1CXMIVbFo4EQbQnl6VHKVU3I45gf6bwxeFtCTHv38___EMagl_fIlnIrZv_1phlaYTkJzRddCFDgFlTwiSn8Ei46IY079q5jkv3hed44h0hE/s320/images.jpg 


     -- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.

        -- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?

        -- Suspeita.

        -- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que ele alega?

        -- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão.

        -- Humm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria medo de vir dar explicações.

        -- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!

        -- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.

        -- Mas eu estava só esperando o ônibus!

        -- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

        -- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

        -- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

        -- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o próximo é que era o dele? A gente vê cada uma...

        -- Não senhor delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

        -- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias para ir para casa! Sou inocente!

        -- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

        -- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

        -- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?

        -- Fugir, como?

        -- Fugir no ônibus. Quando foi preso.

        -- Mas eu não estava tentando fugir. Era o meu ônibus, o que eu tomo sempre!

        -- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus, em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes da lei ao seu lado. Tentou fugir e...

        -- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.

        -- Ah, uma confissão!

        -- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

        -- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude suspeita?

        -- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

        -- Delegado...

        -- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês querem que o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...

        -- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar em atitude suspeita é um pouco...

        -- Um pouco? Um pouco?

        -- Suspeita.

 

Entendendo a crônica:

01 – Quando o delegado pergunta "Ah, um daqueles, é?". O que ele quis dizer com isso?

      Que era um daqueles criminosos, um daqueles suspeitos.

02 – Por que se declarar inocente é algo suspeito?

      Porque todo culpado se diz inocente.

03 – Qual a teoria do delegado sobre as pessoas se declararem culpadas ou inocentes?

      Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente.

04 – O homem tentou mesmo fugir de ônibus? Explique.

      Não, era o ônibus que ele pegava todos os dias.

05 – Por que a atitude dos policiais também era suspeita?

      Porque eles fingiam que esperavam o ônibus e estavam vigiando o homem.

06 – E por que a atitude do delegado também era suspeita?

      Porque ele mandou soltar o suspeito.

07 – A expressão "atitude suspeita" significa:

a) atitude previsível                           

b) atitude criminosa

c) atitude comum                              

d) atitude duvidosa.

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

CRÔNICA: O CEGO E O DINHEIRO ENTERRADO - LUÍS DA CÂMARA CASCUDO - COM GABARITO

 Crônica: O CEGO E O DINHEIRO ENTERRADO

              Luís da Câmara Cascudo

 

        Um cego, muito econômico, guardava suas moedas em casa e, temendo os ladrões, resolveu esconder seu tesouro no quintal. Cavou um buraco ao pé de uma árvore, debaixo da raiz, e deixou seu dinheiro bem disfarçado.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiCFZK0g09nvHhFmeNCTbhZr4MPEiJuDFTnPR8fNqiA1dZ_nXb2qSoKrOMK-TMvje8dFO32kffwvQZ1PCChD1msQzeVyiTes8EIHaO66AZ-IOvUAuO9EZCMXRhpPkSdVYDDPQoXMx9mpLOk7gIT6UHjyK_8w8V-IaoOIbDJb7Rv6n50cc6_deNlvK96IJ4/s320/images.jpg


        Sucedeu que um vizinho seu, vendo-o ir tão cedo para o fundo do quintal, acompanhou-o, descobrindo o segredo. Quando anoiteceu, voltou à árvore e furtou todo o dinheiro que o cego enterrava.

        Pela manhã, o dono veio tateando, e verificou ter sido roubado. Como não resolvia chorar ou queixar-se, fingiu não ter sido visitado pelo ladrão e começou a pensar em uma forma de readquirir seu dinheiro, sem barulhos.

        Foi procurar o vizinho e lhe falou:

        — Vizinho, nesse tempo, ninguém pode ter confiança senão em si mesmo, apesar dos dentes morderem a língua e ambos viverem juntos. Juntei minhas economias e escondi num pé de árvore ali no meu quintal, pensando ser um lugar seguro. Acabo de receber um bom dinheiro e vim pedir conselho a você. Guardo tudo junto ou levo esse dinheiro para a cidade?

        O vizinho pensou logo em pegar todo o dinheiro do cego e aconselhou-o que deixasse tudo junto, no mesmo canto já antigo.

        E logo que escureceu, correu e foi levar o que havia tirado na noite anterior, para o cego não desconfiar. Cobriu tudo de areia, alisou, retirou-se. Mais tarde, o cego procurou o cantinho velho e tomou posse do seu dinheiro ali colocado pelo vizinho que sonhava ficar com tudo.

        E quando o ladrão voltou, encontrou apenas o buraco oco, sem um níquel sequer.

 

Cascudo, Luís da Câmara. Literatura oral do Brasil. Belo Horizonte. Itariaia, 1984.p.303.

 

Entendendo a crônica:

01 – Onde o cego resolveu esconder suas economias e qual era o seu medo?

      O cego resolveu esconder seu tesouro no quintal, cavando um buraco debaixo da raiz de uma árvore e deixando o dinheiro bem disfarçado. O seu maior medo era a ação de ladrões.

02 – Como o vizinho conseguiu roubar o dinheiro do cego?

      O vizinho viu o cego indo muito cedo para o fundo do quintal e decidiu acompanhá-lo às escondidas, descobrindo o segredo. Quando anoiteceu, ele foi até a árvore e furtou todo o dinheiro que estava enterrado.

03 – Qual foi a reação do cego ao perceber que havia sido roubado?

      Em vez de chorar, queixar-se ou fazer barulho, o cego manteve a calma e fingiu que nada tinha acontecido. Ele começou a pensar estrategicamente em uma forma de recuperar seu dinheiro sem causar alarde.

04 – Qual foi o plano (a armadilha) que o cego usou para enganar o vizinho?

      O cego foi até o vizinho, fingiu que ainda confiava nele e pediu um conselho: disse que havia recebido mais uma boa quantia em dinheiro e perguntou se deveria guardá-la no mesmo "lugar seguro" (no pé da árvore) ou levá-la para a cidade.

05 – Por que o vizinho devolveu o dinheiro roubado e qual foi o desfecho da história?

      Movido pela ambição e pela ganância, o vizinho aconselhou o cego a guardar tudo junto no mesmo esconderijo. Para não levantar suspeitas e poder roubar uma quantia ainda maior depois, o vizinho devolveu na mesma noite o dinheiro que havia furtado. Mais tarde, o cego foi ao local, recuperou suas moedas e, quando o ladrão voltou, encontrou apenas o buraco vazio.

 

 

CRÔNICA: O SOM E A FÚRIA - WILIAM FAULKNER - COM GABARITO

 Crônica: O Som e a Fúria

              Wiliam Faulkner

         Um enredo sem linha de rumo preciso navega num tempo sem definição, ondeando entre memórias e prenúncios, desprezando a linearidade, a lógica. Como se ao longo da estrada 66, como se caminhando descalço sobre o alcatrão das estradas do Iowa, como se sem destino nem rumo certo...^

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgHt9rkM5SFOQcTBtXFudq1O064AYT1cNSpEqmCwpTo40ULj_z-wQQXpHw8K7z07fWTk6K5Lm1ZEQ6ZqOMMCI2uYJK3LbbR3q8LIyBo-l_jqRzA_Nuj91bCfi9H8k8xZC7-9wv_GQivNE5Wc91mknArWCHW5idTAdAaiq3sR3PuWnUGYapNtsnWxoCGY5c/s1600/ilha.jpg


        Respira-se o desprezo pelo concreto, a recusa do próprio tempo. O simbolismo, intenso e sempre presente, enreda-se permanentemente numa linguagem barroca, de formas por vezes sublimes, mas nunca frívolas. 

        Jogos de palavras, simples prazer da escrita e da leitura. Um grito coletivo de revolta: uma família apodrecida pela América da falsa prosperidade, rodeada de negros acorrentados à humilhação de ter nascido. Personagens enlouquecidas, devassas, horríveis, infelizes, perdidas num vazio de humanidade. 

        E a Disley… a criada negra desgraçada e feliz… normal. 

        Benji é louco, Jason alucinado, Quentin lunático, e... um bando de pretos. 

        Faulkner constrói assim um quadro quase sem nexo, quase sem sentido, como a vida. Quando chegamos ao fim as estórias ganham, finalmente, forma e sentido. Mas nessa altura fica-nos na mente a frustração de não haver mais páginas… como se todos os Compsons tivessem morrido de súbito. Apetece então voltar ao início… como na vida: uma circunferência que nunca se fecha e assim se transforma em espiral… perpetuamente… sem tempo…

        Sem dúvida, um dos melhores livros de toda a história da literatura mundial.

 

Para ler e reler... (Manuel Cardoso).

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o texto, como se comporta o tempo e a lógica no enredo da obra?

      O enredo navega em um tempo sem definição precisa, ondeando entre memórias e prenúncios. Ele despreza a linearidade e a lógica, respirando uma recusa do próprio tempo e um desprezo pelo concreto.

 02 – Que tipo de linguagem o autor da crônica utiliza para descrever o simbolismo do livro?

      O texto descreve que o simbolismo se enreda permanentemente em uma "linguagem barroca", com formas que são por vezes sublimes, mas nunca frívolas, repletas de jogos de palavras pelo simples prazer da escrita e da leitura.

03 – Como a família retratada no livro é descrita na crônica e qual o contexto social que a cerca?

      A família (os Compsons) é descrita como "apodrecida pela América da falsa prosperidade". Ela é composta por personagens enlouquecidas, devassas, horríveis, infelizes e perdidas num vazio de humanidade, cercadas por negros acorrentados à humilhação.

04 – Quem é Disley e como ela é diferenciada dos outros personagens mencionados (Benji, Jason e Quentin)?

      Disley é descrita como a criada negra, desgraçada e feliz, apontada pelo texto como "normal". Ela se contrasta diretamente com os outros membros, já que Benji é descrito como louco, Jason como alucinado e Quentin como lunático.

05 – Que sensação o leitor experimenta ao chegar ao fim do livro, segundo o cronista?

      Ao chegar ao fim, as estórias finalmente ganham forma e sentido, mas fica na mente a frustração de não haver mais páginas, como se todos tivessem morrido de súbito. Isso gera no leitor o apetite de voltar ao início, transformando a leitura em uma espiral perpétua.