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sexta-feira, 15 de maio de 2026

CRÔNICA: SANTOS NOMES EM VÃO - FRAGMENTO - RAUL DREWNICK - COM GABARITO

 Crônica: Santos nomes em vão – Fragmento

        Drama verídico e gerado por virgulazinhas mal postas, cúmplices de tantas reticências

        Praxedes é gramático. Aristarco também. Com esses nomes não poderiam ser cantores de rock. Os dois trabalham num jornal. Praxedes despacha as questiúnculas à tarde. Aristarco, à noite. Um jamais concordou com uma vírgula sequer do outro, e é lógico que seja assim. Seguem correntes diversas. A gramática tem isso: é democrática. Permitindo mil versões, dá a quem sustenta uma delas o prazer de vencer 999.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_Q13seDwXNAYNIJYDlPONsa0pHfkNpBJZkzoOFrWAt4yZfvzn5G-tcpTv4yUtHCepaUHhV71lUBFBNzXiERz9hDIdA3_KzUEZz5-9yBTdQhujxeSCJ49UOu_man7hhQOg3SPXBGYdKJhHaxpTfgblAAxFAOXrni-5Q_YhUCZOp1sTir3AMiidvJyiKoA/s320/NOMES.jpg


        Praxedes é um santo homem. Aristarco também. Assinam listas, compram rifas, ajudam quem precisa. E são educados. A voz dos dois é mansa, quase um sussurro. Mas que ninguém se atreva a discordar de um pronome colocado por Praxedes. Ou de uma crase posta por Aristarco. Se a conversa ameaça escorregar para os verbos defectivos ou para as partículas apassivadoras, melhor escapar enquanto dá. Porque aí cada um deles desanda a bramir como um leão.

        Adversários inconciliáveis, têm um ponto em comum, além da obsessão pela gramática: não são nada populares. Na frente deles, as pessoas ficam inibidas, quase não conversam. Porque nunca sabem se dizem bom-dia ou bons-dias, se meio quilo são quinhentos gramas ou é quinhentas gramas, se é meio-dia e meio ou meio-dia e meia, se nasceram em Santa Rita do Passa Quatro ou dos Passam Quatro.

        Para que os dois não se matem, o chefe pôs cada um num horário. Praxedes, mais liberal (vendilhão, segundo Aristarco), trabalha nos suplementos do jornal, que admitem uma linguagem mais solta. Aristarco, ortodoxo (quadradão, segundo Praxedes) assume as vírgulas dos editoriais e das páginas de política e economia. [...]

        Sempre estiveram a um passo do quebra-pau. Hoje, para festa dos ignorantes e dos mutiladores do idioma, parece que finalmente vão dar esse passo. É dia de pagamento e eles se encontram na fila do banco. Um intrigante vem pondo fogo nos dois há já um mês e agora ninguém duvida: nunca saberemos quem é o melhor gramático, mas hoje vamos descobrir quem é o mais eficiente no braço.

        Aristarco toma a iniciativa. Avança e despeja:

        -- Seu patife, biltre, poltrão, pusilânime.

        Praxedes responde à altura:

        -- Seu panaca, almofadinha, calhorda, caguincha.

        Aristarco mete o dedo no nariz de Praxedes:

        -- É a vossa progenitora!

        Praxedes toca o dedo no nariz de Aristarco:

        -- É a sua mãe!

        Engalfinham-se, rolam pelo chão, esmurram-se.

        Quando o segurança do banco chega para apartar, é tarde, Praxedes e Aristarco estão desmaiados um sobre o outro, abraçados, como amigos depois de uma bebedeira.

        O guarda pergunta à torcida o que aconteceu. Um boy que viu tudo desde o início explica:

        -- Pra mim, esses caras não é bom de bola. Eles começaram a falá em estrangeiro, um estranhô o outro, os dois foram se esquentando, se esquentando, e aí aquele ali, ó, que também fala brasileiro, pôs a mãe no meio. Levô uma bolacha e ficô doido: enfiô o braço no focinho do outro. Aí os dois rolô no chão.

        Para a sorte do boy, Aristarco e Praxedes continuavam desacordados.

Raul Drewnick. O Estado de São Paulo, Caderno 2, 6/3/1988.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 108-109.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador afirma que Praxedes e Aristarco não poderiam ser cantores de rock?

      Por causa de seus nomes. O narrador utiliza o humor para sugerir que nomes como "Praxedes" e "Aristarco" soam antigos, solenes e eruditos, o que contrasta com a imagem moderna e rebelde associada aos cantores de rock.

02 – Como a gramática é descrita no texto e qual a consequência disso para a relação entre os dois personagens?

      A gramática é descrita como "democrática", pois permite diversas interpretações e versões. No entanto, para os personagens, isso é motivo de conflito, pois cada um segue uma corrente diferente e jamais concorda com a pontuação ou as escolhas gramaticais do outro.

03 – Apesar de serem descritos como "santos homens" e educados, em que momento Praxedes e Aristarco perdem a calma?

      Eles perdem a calma quando alguém ousa discordar de suas escolhas gramaticais (como a posição de um pronome ou o uso da crase) ou quando a discussão envolve temas técnicos, como verbos defectivos. Nessas horas, eles deixam a voz mansa de lado e passam a "bramir como leões".

04 – Qual é o efeito da presença dos dois gramáticos sobre as pessoas ao redor?

      As pessoas ficam inibidas e evitam conversar. Isso ocorre pelo medo de cometer erros linguísticos comuns (como concordância de peso, hora ou nomes de cidades) e serem julgados ou corrigidos pelos dois especialistas obsessivos.

05 – Como o chefe do jornal resolveu o conflito de horários e estilos entre os dois?

      O chefe os separou por horários e seções: Praxedes, visto como mais "liberal", trabalha nos suplementos onde a linguagem é mais solta. Já Aristarco, considerado "ortodoxo", cuida dos editoriais e das páginas de política e economia, que exigem maior rigor formal.

06 – No momento da briga, qual é a principal diferença entre os xingamentos usados por Aristarco e por Praxedes?

      Aristarco utiliza xingamentos eruditos e pouco comuns no dia a dia (biltre, poltrão, pusilânime). Já Praxedes, embora também gramático, utiliza termos mais coloquiais e populares (panaca, calhorda, caguincha), o que reforça a visão de Aristarco de que ele é um "vendilhão" da língua.

07 – Como a explicação do "boy" no final do texto acentua o humor da crônica?

      O humor reside no contraste linguístico. Enquanto os gramáticos brigam por detalhes ínfimos da norma culta, o boy narra a cena usando gírias e desvios de concordância ("esses caras não é bom", "os dois rolô"). Além disso, ele interpreta o vocabulário rebuscado deles como se fosse "estrangeiro", demonstrando o abismo entre a norma gramatical rigorosa e a realidade da fala popular.

 

 

CRÔNICA: SABEDORIA INDÍGENA - FRAGMENTO - JEAN DE LÉRY - COM GABARITO

 Crônica: Sabedoria indígena – Fragmento

          Jean de Léry

        Jean de Léry, missionário [...] que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no século XVI, deixou-nos um interessante relato de tudo o que viu e ouviu, mostrando que aquele povo, longe de ser selvagem, tinha uma grande sabedoria, moldada através do tempo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLvZ4sPj7vT-8JbSAZc2Y2UNlXwCake9QPvOzKfnVF5jlbdAGEOs4vDQqPkpG0M1T99o6RH0dbFKAC3W71lxGXAB8viJSCwpJ2PMt8SFsiEYjPgWKuwOz0_Oujmf8UreG1U_9YjL3o5QD-CZvop9j7ENZLcXLCaDWZSfFvqsLnKPBsMYEoaNC4LcGcg20/s1600/Jean-de-Lery.jpg


        Uma vez, um velho me perguntou:

        -- Por que vocês, mair e peró, vêm buscar lenha de tão longe para se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra? 

        Respondi que tínhamos muitas, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele pensava, mas dela tirávamos tinta para tingir. 

        -- E vocês precisam de muita? perguntou o velho imediatamente. 

        -- Sim [...] pois em nosso país existem negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que vocês têm, voltando com muitos navios carregados. 

        -- Ah! retrucou o selvagem, mas esse homem tão rico, de que me fala, não morre?

        -- Sim, disse eu, como os outros. 

        -- E quando morre, para quem fica o que deixa?

        -- Para seus filhos, se ele tem, ou para seus irmãos ou parentes próximos, respondi.

        -- Na verdade, continuou o velho – que como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns grandes loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem quando aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus filhos e parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra que nos sustentou os sustentará também, e por isso descansamos sem maiores preocupações. 

Jean de Léry. Viagem à Terra do Brasil. In: Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Esta terra tinha dono. São Paulo, FTD, 1995.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 94.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o principal motivo de estranhamento do velho indígena em relação aos europeus?

      O ancião não entende por que os europeus (mair e peró) viajam de tão longe para buscar madeira (pau-brasil), questionando se eles não possuem lenha em suas próprias terras para se aquecerem.

02 – Qual explicação Jean de Léry dá para a necessidade de levar tanto pau-brasil para a Europa?

      Ele explica que a madeira não serve para queimar, mas para extrair tinta para tingir tecidos. Além disso, menciona a existência de grandes negociantes que acumulam mercadorias e riqueza, precisando de navios carregados para sustentar seus negócios.

03 – O que a pergunta do indígena sobre a morte do "homem rico" revela sobre sua visão de mundo?

      Revela uma perspectiva voltada para a finitude da vida e a inutilidade do acúmulo material excessivo. Para o indígena, não faz sentido trabalhar exaustivamente para juntar riquezas que não poderão ser levadas após a morte.

04 – Segundo o texto, para quem os europeus deixam suas riquezas quando morrem e qual é a crítica do ancião sobre isso?

      As riquezas são deixadas para filhos ou parentes próximos. O ancião critica isso chamando os europeus de "loucos", pois sofrem grandes perigos no mar para amontoar bens, ignorando que a mesma terra que os alimentou será capaz de sustentar seus descendentes.

05 – Como o indígena justifica a sua falta de preocupação com o futuro material de seus filhos?

      Ele afirma que os indígenas amam seus familiares, mas descansam sem preocupações porque têm a certeza de que a terra que os sustenta hoje continuará sustentando seus filhos após sua morte, sem a necessidade de acúmulo de bens.

06 – Por que o narrador afirma que o velho "como se vê não era nenhum ignorante"?

      Porque o raciocínio do ancião demonstra uma sabedoria lógica e filosófica profunda sobre a existência humana, a natureza e a sustentabilidade, desafiando a lógica mercantilista europeia que o narrador representava.

07 – Qual é o conflito central de valores apresentado no fragmento?

      O conflito entre o mercantilismo europeu (focado no acúmulo de capital, lucro e exploração da natureza) e a filosofia indígena (focada na subsistência, no usufruto presente da natureza e na confiança no ciclo da vida).

 

 

CRÔNICA: ONDE TUDO TEM SENTIDO - FRAGMENTO - BENEDITO PREZIA E EDUARDO HOOMAERT - COM GABARITO

 Crônica: Onde tudo tem sentido – Fragmento

         Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert

        Cada sociedade tem suas normas, cada povo tem seus costumes. Assim, entre nós, de maneira geral os homens têm cabelos curtos e as mulheres, cabelos compridos. No dia do casamento, a mulher usa vestido branco e no dia do seu aniversário a pessoa ganha presente.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhn7Mba0EY3l8-YUpOS77nYFDB13E2lw7An7IEgiWIztDl_wa0hsq1TDUBVRlBfwOnfXS43qq6vyabfcYR1kb-qgrQa5FijbJ8Z_t46fzaNE-e7_Ofl0dUvC-9UcAhZ59Z9W1KnOCs9peAG5wbX0rWqnSnxx17iSBRVVM_k83m2iRDZRjndk6xss03ryRE/s1600/CULTURA.jpg


        Os povos indígenas têm também suas regras e suas tradições. Muitas delas possuem um sentido religioso, pois o espiritual está muito presente em sua vida. Assim, existem os ritos, isto é, as normas religiosas que acompanham as várias fases da vida, como a gestação, o nascimento das crianças, sua passagem para a vida adulta, o casamento e a morte. Outros ritos estão ligados à plantação e à colheita dos alimentos. Outros ainda estão ligados à caça e à guerra.

        [...]

        Ritos do nascimento

        Entre os Tupinambá, quando nascia uma criança era uma festa! Se fosse menino, o pai cortava seu cordão umbilical com os dentes. Se fosse menina, era a mãe quem o fazia. Levavam a criança ao rio para ser banhada, quando o pai achatava o nariz do guri com o polegar. Nariz chato era sinal de beleza entre eles.

        Depois voltavam a casa, onde a criança era colocada numa rede. O menino logo recebia um arco-e-flecha, tendo sua rede enfeitada com unhas de gavião ou garras de onça, para ser um valente guerreiro. No caso de ser menina, recebia uma cabaça, as jarreteiras para as pernas – que eram braceletes de algodão que iriam deixar as pernas fortes – e dentes de capivara, para crescer com bons dentes para bem mastigar a mandioca na preparação do cauim – uma bebida fermentada, à base de mandioca ou de milho.

        Durante três dias o pai só podia comer uma espécie de farinha, sendo-lhe proibido qualquer outro alimento. Não fazia nenhum trabalho, até o umbigo da criança cair, pois senão ela e a mãe iam ter cólicas. Caindo o umbigo, este era cortado em pedacinhos, que ficavam dependurados nas vigas da casa a fim de que o menino se tornasse um bom chefe de família.

        Ao final de todos estes procedimentos, a comunidade realizava uma grande festa com cauinagem, isto é, com muita bebida de cauim. Neste dia era escolhido o nome da criança.

        Ritos para se tornar adulto

        Entre os povos indígenas em geral, a pessoa começa a participar muito cedo da vida adulta da comunidade. A mulher se torna mãe aos 13 ou 14 anos e o homem, com 15 ou 16, já pode estar assumindo uma família. Mas isto não acontece sem uma preparação devida.

        Entre os Apinajé, nação que vive ao norte de Goiás [...], a passagem do menino à vida de adulto acontece aos 15 anos. O ritual para essa transposição tem duas etapas.

        A primeira começa com uma festa em que os adolescentes recebem o nome de pembkaag, que quer dizer semelhantes a guerreiros. Durante vários meses, embora continuem dormindo na casa dos pais, vão ter uma vida separada: ficam num acampamento à parte, tomam banho em outro local, reúnem-se num lugar separado no pátio quando chegam para as danças, e passam por um caminho diferente quando vão buscar comida na casa dos pais.

        Todos os dias recebem orientação de duas pessoas experientes, que acompanham o grupo e que poderíamos chamar de padrinhos. Nesse período, os jovens furam as orelhas e os lábios. Passando o tempo previsto, há uma nova festa, quando são acolhidos na comunidade já como pemb, isto é, como guerreiros.

        Começa então outra fase mais dura, sendo obrigados a ficar trancados num quarto, especialmente construído para eles, pois não devem ser vistos. Quando saem, vão para fora da aldeia juntamente com os padrinhos, que sempre os orientam sobre a vida de casado, sobre as tradições do grupo, as caçadas, as festas e as cerimônias.

        Terminado esse período, já não são mais crianças. São adultos e começam a ser tratados como tal. Podem casar e assumir família. nova festa acontece para marcar este grande passo de suas vidas.

Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Esta terra tinha dono. São Paulo, FTD, 1995.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 104-106.

Entendendo a crônica:

01 – Como o texto define o conceito de "ritos" dentro das comunidades indígenas?

      O texto define ritos como normas religiosas que acompanham as várias fases da vida (gestação, nascimento, passagem para a vida adulta, casamento e morte), além de estarem ligados a atividades essenciais como a plantação, a colheita, a caça e a guerra.

02 – No rito de nascimento dos Tupinambá, qual era o procedimento simbólico realizado para meninos e meninas logo após o banho no rio?

      O pai achatava o nariz do recém-nascido com o polegar. Esse ato tinha um sentido estético e cultural, pois o nariz chato era considerado um sinal de beleza entre aquele povo.

03 – Quais objetos eram colocados na rede dos bebês e qual era o significado por trás de cada um deles?

      Meninos: Recebiam arco-e-flecha e a rede era enfeitada com unhas de gavião ou onça para que se tornassem valentes guerreiros.

      Meninas: Recebiam uma cabaça, jarreteiras de algodão (para fortalecer as pernas) e dentes de capivara, para que tivessem bons dentes para mastigar a mandioca na preparação do cauim.

04 – Quais eram as restrições e responsabilidades do pai Tupinambá até que o umbigo da criança caísse?

      O pai não podia realizar nenhum trabalho e sua alimentação era restrita apenas a uma espécie de farinha. O descumprimento dessas regras, segundo a tradição, faria com que a mãe e a criança tivessem cólicas.

05 – De que forma o nascimento de uma criança era celebrado pela comunidade após o cumprimento de todos os ritos iniciais?

      A comunidade realizava uma grande festa com "cauinagem" (muita bebida de cauim), e era nesse dia festivo que se escolhia o nome da criança.

06 – Como funciona a primeira etapa da passagem para a vida adulta entre os meninos Apinajé?

      Aos 15 anos, eles recebem o nome de pembkaag (semelhantes a guerreiros). Durante meses, eles vivem de forma separada da comunidade: têm acampamento próprio, banham-se em locais distintos e utilizam caminhos diferentes para buscar comida, sempre sob a orientação de dois "padrinhos" experientes.

07 – O que caracteriza a segunda fase do ritual de transposição para a vida adulta dos Apinajé?

      É uma fase considerada mais dura, na qual os jovens ficam trancados em um quarto especial para não serem vistos. Sob orientação dos padrinhos, eles aprendem sobre as tradições do grupo, a vida de casado, caçadas e cerimônias. Ao fim desse isolamento, são tratados como adultos e podem se casar.

terça-feira, 12 de maio de 2026

CRÔNICA: ANALFABETISMO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica: Analfabetismo

            Machado de Assis

        Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKM3pNp0uYyECWqdaJOwebxKIGzYPM_QnpGDqmiwIO3UqTmvqkXeo7bU_Nh3l5SC5I12LbqqOkhsX9u-h13ikmL__dKzb24V2af1e9taDBz7glimNl55pE5qnKWQuQPH9ihwWpGVNfJGIYJyklFC739wQKLgCMRMRXQFvPrd54gOO4lBEm-anRoRFQfzg/s1600/aNAL.jpg


        Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

        — Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

        A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

        — A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

        Replico eu:

        — Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…

        — As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

        E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

Machado de Assis. 15 de agosto de 1876. In: Obra completa, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Disponível em: http://www.cronicas.uerj.br/home/cronicas/machado/rio-de-janeiro/ano1876/15ago76.htm. Acesso em: 1º mar. 2021.

Fonte: linguagens. EJA. Ensino médio. Caderno 3 – 1ª edição. SEDUC – FGV – SESI – p. 34-35.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador afirma que gosta dos algarismos em comparação às letras?

      O narrador prefere os algarismos porque eles são diretos, sinceros e francos. Diferente das letras, que são usadas para criar frases e retórica (muitas vezes para disfarçar a realidade), os algarismos dizem as coisas pelo nome, sem "meias medidas" ou metáforas.

02 – Qual é a crítica central que o "Sr. Algarismo" faz em relação à democracia brasileira daquela época?

      A crítica central é que a democracia é fictícia, pois a grande maioria da população (70%) é analfabeta. Para o algarismo, não se pode falar em "vontade da nação" quando a maior parte dela não sabe ler, não conhece a Constituição e não entende as propostas dos políticos.

03 – Segundo o texto, como os 70% de cidadãos que não sabem ler exercem o direito ao voto?

      Eles votam de forma inconsciente, "do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê". O texto compara o ato de votar dessas pessoas a ir a uma festa popular (Festa da Penha), ou seja, por mero divertimento ou impulso, sem compreensão política.

04 – Qual é a "reforma no estilo político" proposta pelo algarismo?

      Ele propõe que se pare de usar a palavra "nação" e se use "os 30%". Como apenas essa minoria sabe ler e participa efetivamente da vida política, o correto seria dizer "representantes dos 30%" ou "poderes dos 30%", para ser condizente com a realidade estatística.

05 – O que o narrador conclui ao final do diálogo com o algarismo?

      O narrador conclui que não há como argumentar contra o algarismo. Enquanto os discursos políticos são feitos sobre bases frágeis e retóricas, o algarismo tem o apoio de dados concretos e reais, como o recenseamento (o censo populacional).

 

 

domingo, 3 de maio de 2026

CRÔNICA: O EXERCÍCIO DA CRÔNICA - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Crônica: O Exercício da Crônica – Fragmento

               Vinícius de Moraes

        O cronista trabalha com um instrumento de grande divulgação, influência e prestígio, que é a palavra impressa. Um jornal, por menos que seja, é um veículo de ideias que são lidas, meditadas e observadas por uma determinada corrente de pensamento formada à sua volta.^

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjSv26ViYq3pg0lIui2uUYGpyrJvpz1IH3HkCfMZyRlzF5sLzyQqaIYIALN6CKt7Tw5NSftPA_npw8AbgkNZemv2AoNz5QElM8kxoC2JnbCXK8GeF6Aqa3LYYVY9R9WvQLYqkfr4UMUa6abBoFe4kr0eJEN8wnT2J_gdTwPweAHWVo_eyeL2nG0UtGPlQ0/s1600/JORNAL.jpg


        Um jornal é um pouco como um organismo humano. Se o editorial é o cérebro; os tópicos e notícias, as artérias e veias; as reportagens, os pulmões; o artigo de fundo, o fígado; e as secções, o aparelho digestivo — a crónica é o seu coração. A crónica é matéria tácita de leitura, que desafoga o leitor da tensão do jornal e lhe estimula um pouco a função do sonho e uma certa disponibilidade dentro de um cotidiano quase sempre “muito tido, muito visto, muito conhecido”, como diria o poeta Rimbaud.

        Daí a seriedade do ofício do cronista e a frequência com que ele, sob a pressão de sua tirania diária, aplica-lhe balões de oxigénio. Os melhores cronistas do mundo, que foram os do século XVIII, na Inglaterra — os chamados essayists — praticaram o essay, isto de onde viria a sair a crónica moderna, com um zelo artesanal tão proficiente quanto o de um bom carpinteiro ou relojoeiro. Libertados da noção exclusivamente moral do primitivo essay, os oitocentistas ingleses deram à crónica suas primeiras lições de liberdade, casualidade e lirismo, sem perda do valor formal e da objetividade.

        [...]

MORAES, Vinícius de. Para uma menina com uma flor. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 53.

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 272.

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com a crônica, qual o significado das palavras abaixo:

·        Casualidade: aquilo que ocorre ao acaso.

·      Essay: ensaio (gênero textual em que o autor expressa opiniões, críticas e reflexões sobre determinado tema).

·        Essayists: ensaísta (aquele que escreve ensaios).

·        Lirismo: modo poético de apresentar alguma coisa.

·        Proficiente: competente.

·        Tácito: tranquilo.

02 – Qual é a metáfora utilizada por Vinícius de Moraes para descrever a função da crônica dentro de um jornal?

      O autor compara o jornal a um organismo humano. Nessa analogia, enquanto o editorial é o cérebro e as notícias são as artérias, a crônica é o coração do jornal.

03 – Segundo o texto, qual é o efeito da leitura de uma crônica sobre o leitor de jornais?

      A crônica serve para desafogar o leitor da tensão das notícias pesadas do jornal. Ela estimula a "função do sonho" e oferece uma nova perspectiva sobre o cotidiano, que muitas vezes é repetitivo e cansativo.

04 – O autor cita uma frase do poeta Rimbaud. O que essa citação revela sobre o cotidiano?

      A frase: "muito tido, muito visto, muito conhecido" reforça a ideia de que o cotidiano pode ser monótono e previsível. A crônica surgiria justamente para dar um novo fôlego a essa realidade comum.

05 – Quem o autor considera os "melhores cronistas do mundo" e qual foi a contribuição deles para o gênero?

      São os ensaístas (essayists) da Inglaterra do século XVIII. Eles praticaram o ensaio com um "zelo artesanal" e, ao se libertarem das amarras exclusivamente morais, introduziram lições de liberdade, casualidade e lirismo à crônica moderna.

06 – Como Vinícius de Moraes descreve o ofício do cronista em relação à regularidade de sua escrita?

      O autor destaca a seriedade do ofício e a pressão da "tirania diária" (o prazo para escrever todos os dias). Ele menciona que, devido a essa pressão, o cronista muitas vezes precisa aplicar "balões de oxigênio" em seu trabalho para manter a qualidade e o vigor do texto.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

CRÔNICA: CONVERSINHA MINEIRA - FERNANDO SABINO - COM GABARITO

 Crônica: Conversinha Mineira

                 Fernando Sabino

— É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
— Sei dizer não senhor: não tomo café.
— Você é dono do café, não sabe dizer?
— Ninguém tem reclamado dele não senhor.
— Então me dá café com leite, pão e manteiga.
— Café com leite só se for sem leite.
— Não tem leite?

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— Hoje, não senhor.
— Por que hoje não?
— Porque hoje o leiteiro não veio.
— Ontem ele veio?
— Ontem não.
— Quando é que ele vem?
— Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
— Mas ali fora está escrito “Leiteria”!
— Ah, isso está, sim senhor.
— Quando é que tem leite?
— Quando o leiteiro vem.
— Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
— O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
— Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
— Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
— E há quanto tempo o senhor mora aqui?
— Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
— Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
— Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
— Para que Partido? — Para todos os Partidos, parece.
— Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
— Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
— E o Prefeito?
— Que é que tem o Prefeito?
— Que tal o Prefeito daqui?
— O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
— Que é que falam dele?
— Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
— Você, certamente, já tem candidato.
— Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
— Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
— Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí…

(SABINO. Fernando. A mulher do vizinho. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1962.)

Entendendo o texto

01. A principal característica do comportamento do dono do estabelecimento durante a conversa é:

      a. A agressividade ao responder ao freguês.

      b. A precisão e clareza em fornecer informações.

      c.  A ambiguidade e a esquiva nas respostas (o jeito "mineiro").

      d.  O entusiasmo em vender seus produtos.

02. No trecho "Café com leite só se for sem leite", percebe-se o uso de:

      a. Um paradoxo (contradição) que gera humor.

      b. Uma metáfora sobre a qualidade do café.

      c. Uma hipérbole para exagerar a falta de produtos.

      d. Uma personificação dos objetos da leitaria.

03. Sobre a política local, o que podemos afirmar sobre a opinião do dono do café?

      a. Ele é um fervoroso apoiador do atual Prefeito.

      b. Ele demonstra total desinteresse e não se compromete com nenhum lado.

      c. Ele está decidido a votar no candidato cujo retrato está na parede.

      d. Ele conhece profundamente as plataformas políticas da cidade.

04. O efeito de humor na passagem sobre o tempo em que o personagem mora na cidade ("Vai para uns quinze anos [...] não sou daqui") reside no fato de que:

     a. Quinze anos é pouco tempo para conhecer uma cidade.

     b. O personagem esqueceu a própria idade.

     c.  Mesmo morando lá por quinze anos, ele se recusa a se considerar "daqui" para evitar dar informações.

     d. Ele está mentindo para o freguês sobre sua origem.

05. O título "Conversinha Mineira" e o uso de termos como "Uai" e "Esse trem todo" indicam que o texto busca explorar:

       a. A norma culta da língua portuguesa.

       b. O regionalismo e a variação linguística.

       c. A linguagem técnica de comerciantes.

       d. O desrespeito à língua escrita.

06. No diálogo sobre o leiteiro, o dono do café afirma: "Só que no dia que devia vir em geral não vem". O que essa fala revela sobre a organização do estabelecimento e a rotina daquela cidade?

Revela uma rotina imprecisa e informal. O estabelecimento não tem um controle rigoroso sobre seus fornecedores, e a vida na cidade parece seguir um ritmo próprio, onde o "dia certo" não é garantia de que algo vá acontecer.

07. Explique por que existe uma ironia na presença da placa escrita "Leiteria" na frente do estabelecimento, considerando o diálogo entre o freguês e o atendente.

A ironia reside no fato de o local se chamar "Leiteria" (estabelecimento que vende leite e derivados), mas não possuir leite disponível há dias porque o leiteiro não aparece. O nome do local cria uma expectativa no cliente que não é correspondida pela realidade.

08. Ao final da crônica, o freguês aponta um retrato de candidato na parede. Qual é a reação do dono do café e o que isso reforça sobre a personalidade dele?

Ele reage com surpresa fingida ou desentendimento ("Uê, gente: penduraram isso aí..."). Isso reforça sua personalidade esquiva; ele evita assumir a responsabilidade até pelo que está dentro do seu próprio comércio para não ter que se comprometer com uma opinião política.


 

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

CRÔNICA: AS ESTRELAS - FRAGMENTO - MONTEIRO LOBATO - COM GABARITO

 Crônica: As estrelas – Fragmento

             Monteiro Lobato

        Numa das noites daquele mês de abril estava Dona Benta na sua cadeira de balanço, lá na varanda, com olhos no céu cheio de estrelas. A criançada também se reunira ali.

        Súbito, Narizinho, que estava em outro degrau da escada fazendo tricô, deu um berro.

        -- Vovó, Emília está botando a língua para mim!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSPYXopTwnX_3_V_9ueLOhrS3huNViWt7cWFBDtvD0wpTcJdQsL14LHQId-ugW4MIGBnq-7IxuIgvLXqlOQa1rM_QRTiCvw5gIL6qlCJLP2FhaPi9d-OEwS7scr-sq-ILKTyMx0FNZscYITU2GTlDSS6u0DPDyaeeL7X0aHcLuOeuzxEKxo41w7C3aWZA/s320/Destaque-estrelas-piscantes.jpg


        Mas Dona Benta não ouviu. Não tirava os olhos das estrelas. Estranhando aquilo, os meninos foram se aproximando. E ficaram também a olhar para o céu, em procura do que estava prendendo a atenção da boa velha.

        -- Que é vovó, que a senhora está vendo lá em cima? Eu não estou enxergando nada – disse Pedrinho.

        Dona Benta não pôde deixar de rir-se. Pôs nele os óculos e puxou-o para o seu colo e falou:

        -- Não está vendo nada, meu filho? Então olha para o céu estrelado e não vê nada?

        -- Só vejo estrelinhas – murmurou o menino.

        -- E acha pouco, meu filho?

LOBATO, Monteiro. As estrelas. In: _____. Viagem ao Céu. 19 ed. São Paulo: Brasiliense, 1971. (Fragmento).

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 152.

Entendendo a crônica:

01 – Onde se passa a cena descrita no texto e qual era a atividade de Dona Benta no início?

       A cena se passa na varanda da casa (provavelmente no Sítio do Picapau Amarelo), numa noite de abril. Dona Benta estava sentada em sua cadeira de balanço, observando o céu estrelado.

02 – Qual o motivo do conflito inicial entre as crianças mencionado no fragmento?

      O conflito ocorre quando Narizinho dá um berro e reclama para a avó que a boneca Emília estava colocando a língua para ela enquanto ela fazia tricô.

03 – Por que Dona Benta não respondeu imediatamente à reclamação de Narizinho?

      Porque ela estava profundamente concentrada e maravilhada olhando para as estrelas; o texto diz que ela "não tirava os olhos das estrelas" e nem sequer ouviu o chamado da neta.

04 – Qual foi a reação de Pedrinho ao observar o que prendia a atenção da avó?

      Pedrinho aproximou-se e disse que não estava enxergando nada de especial, afirmando que via "só estrelinhas". Ele não compreendia, inicialmente, o fascínio de Dona Benta.

05 – O que a pergunta final de Dona Benta ("E acha pouco, meu filho?") sugere sobre a sua visão de mundo?

      A pergunta sugere que Dona Benta possui uma sensibilidade maior e uma capacidade de se encantar com a natureza. Para ela, as estrelas não são "só" pequenos pontos de luz, mas um espetáculo grandioso que merece contemplação e respeito, contrastando com a visão simplista da criança.

 

 

domingo, 22 de março de 2026

CRÔNICA DA ABOLIÇÃO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica da abolição

Machado de Assis

 Eu pertenço a uma família de profetas “après coup”*, “post factum”, “depois do gato morto”, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtmy9sD277cbnrjwVJl-qr9tNxUk-2eysCjiCcxOhe-th2iqnYtZtEzxknbH7EkOOwY_iiBxyxPIsLuc155lc2fCAkioM6XZ0TtbguyJLctYDVChL1dHmRhXIjQsLtGlsHPs4Qqra7YJOMqtIfAJIVWUdkJynUQeWk89r446aHdxrv-5RhojEAPpXSTG8/s320/Praca-Quinze-Rio-de-Janeiro-Jean-Baptiste-Debret.jpg


Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

            — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

            — Oh! meu senhô! Fico.

            — Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.

Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

            — Artura não qué dizê nada, não, senhô...

            — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

            — Eu vaio um galo, sim, senhô.

            — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. [...]

MACHADO DE ASSIS

http://portal.mec.gov.br 

Entendendo o texto

01. Por que o narrador decide alforriar (libertar) o jovem Pancrácio na segunda-feira antes da lei ser votada?

a. Porque ele sempre foi contra a escravidão e esperava por esse momento.

b. Para parecer um "profeta" que previu a lei e ganhar fama de bondoso antes dos outros.

c. Porque Pancrácio pediu a liberdade para poder se casar.

d. Porque ele não tinha mais dinheiro para sustentar o escravo.

02. Como foi a comemoração da liberdade de Pancrácio organizada pelo patrão?

a. Uma festa simples apenas para a família na cozinha.

b. Uma missa na igreja da cidade em agradecimento a Deus.

c. Um dia de folga para que Pancrácio pudesse visitar seus parentes.

d. Um jantar solene, chamado de banquete, com discursos e brindes de champanhe.

03. O que o narrador ofereceu a Pancrácio para que ele continuasse trabalhando na casa após ser libertado?

a. Uma sociedade nos negócios da família.

b. Apenas moradia e comida, sem pagamento em dinheiro.

c. Um pequeno ordenado (salário), que ele disse que poderia crescer no futuro.

d. Uma casa própria nos fundos do terreno.

04. No dia seguinte à liberdade, o narrador dá um "peteleco" em Pancrácio. Qual foi a justificativa dada pelo patrão para esse ato?

a. Ele afirmou que era um "impulso natural" e que isso não tirava o direito civil de liberdade de Pancrácio.

b. Ele disse que o peteleco era uma forma de carinho.

c. Ele alegou que Pancrácio o havia agredido primeiro.

d. Ele disse que agora que Pancrácio era livre, precisava apanhar para aprender a trabalhar.

05. Qual é a principal ironia presente no final do texto, quando o narrador fala sobre os chutes e puxões de orelha que dá em Pancrácio?

a. A ironia de que Pancrácio agora é quem manda no patrão.

b. A ironia de que, embora Pancrácio seja legalmente livre, a sua condição de vida e o tratamento agressivo do patrão continuam os mesmos.

c. A ironia de que o patrão ficou pobre após libertar o escravo.

d. A ironia de que Pancrácio ficou muito rico com o salário que recebeu.

06. Como Pancrácio reage ao tratamento do patrão (pontapés e insultos) após a abolição, segundo o narrador?

a. Ele reage com violência e tenta bater no patrão.

b. Ele decide ir embora da casa imediatamente.

c. Ele recebe tudo humildemente e o narrador acredita que ele fica até alegre.

d. Ele denuncia o patrão para as autoridades da época.

07. O que Machado de Assis pretende criticar com esta crônica?

a. A rapidez com que a Lei Áurea foi aprovada.

b. O comportamento de pessoas que se diziam "boazinhas" e abolicionistas, mas mantinham preconceitos e práticas violentas.

c. A falta de festas e banquetes na cidade do Rio de Janeiro.

d. A dificuldade de se encontrar bons empregados domésticos naquela época.