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segunda-feira, 23 de março de 2026

CRÔNICA: AS ESTRELAS - FRAGMENTO - MONTEIRO LOBATO - COM GABARITO

 Crônica: As estrelas – Fragmento

             Monteiro Lobato

        Numa das noites daquele mês de abril estava Dona Benta na sua cadeira de balanço, lá na varanda, com olhos no céu cheio de estrelas. A criançada também se reunira ali.

        Súbito, Narizinho, que estava em outro degrau da escada fazendo tricô, deu um berro.

        -- Vovó, Emília está botando a língua para mim!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSPYXopTwnX_3_V_9ueLOhrS3huNViWt7cWFBDtvD0wpTcJdQsL14LHQId-ugW4MIGBnq-7IxuIgvLXqlOQa1rM_QRTiCvw5gIL6qlCJLP2FhaPi9d-OEwS7scr-sq-ILKTyMx0FNZscYITU2GTlDSS6u0DPDyaeeL7X0aHcLuOeuzxEKxo41w7C3aWZA/s320/Destaque-estrelas-piscantes.jpg


        Mas Dona Benta não ouviu. Não tirava os olhos das estrelas. Estranhando aquilo, os meninos foram se aproximando. E ficaram também a olhar para o céu, em procura do que estava prendendo a atenção da boa velha.

        -- Que é vovó, que a senhora está vendo lá em cima? Eu não estou enxergando nada – disse Pedrinho.

        Dona Benta não pôde deixar de rir-se. Pôs nele os óculos e puxou-o para o seu colo e falou:

        -- Não está vendo nada, meu filho? Então olha para o céu estrelado e não vê nada?

        -- Só vejo estrelinhas – murmurou o menino.

        -- E acha pouco, meu filho?

LOBATO, Monteiro. As estrelas. In: _____. Viagem ao Céu. 19 ed. São Paulo: Brasiliense, 1971. (Fragmento).

Fonte: Coleção Rotas. Língua Portuguesa. Ensino fundamental. Anos finais. 8º ano/Sandra Moura Severino (org.) – Brasília – Editora Edebê Brasil, 2020. p. 152.

Entendendo a crônica:

01 – Onde se passa a cena descrita no texto e qual era a atividade de Dona Benta no início?

       A cena se passa na varanda da casa (provavelmente no Sítio do Picapau Amarelo), numa noite de abril. Dona Benta estava sentada em sua cadeira de balanço, observando o céu estrelado.

02 – Qual o motivo do conflito inicial entre as crianças mencionado no fragmento?

      O conflito ocorre quando Narizinho dá um berro e reclama para a avó que a boneca Emília estava colocando a língua para ela enquanto ela fazia tricô.

03 – Por que Dona Benta não respondeu imediatamente à reclamação de Narizinho?

      Porque ela estava profundamente concentrada e maravilhada olhando para as estrelas; o texto diz que ela "não tirava os olhos das estrelas" e nem sequer ouviu o chamado da neta.

04 – Qual foi a reação de Pedrinho ao observar o que prendia a atenção da avó?

      Pedrinho aproximou-se e disse que não estava enxergando nada de especial, afirmando que via "só estrelinhas". Ele não compreendia, inicialmente, o fascínio de Dona Benta.

05 – O que a pergunta final de Dona Benta ("E acha pouco, meu filho?") sugere sobre a sua visão de mundo?

      A pergunta sugere que Dona Benta possui uma sensibilidade maior e uma capacidade de se encantar com a natureza. Para ela, as estrelas não são "só" pequenos pontos de luz, mas um espetáculo grandioso que merece contemplação e respeito, contrastando com a visão simplista da criança.

 

 

domingo, 22 de março de 2026

CRÔNICA DA ABOLIÇÃO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica da abolição

Machado de Assis

 Eu pertenço a uma família de profetas “après coup”*, “post factum”, “depois do gato morto”, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtmy9sD277cbnrjwVJl-qr9tNxUk-2eysCjiCcxOhe-th2iqnYtZtEzxknbH7EkOOwY_iiBxyxPIsLuc155lc2fCAkioM6XZ0TtbguyJLctYDVChL1dHmRhXIjQsLtGlsHPs4Qqra7YJOMqtIfAJIVWUdkJynUQeWk89r446aHdxrv-5RhojEAPpXSTG8/s320/Praca-Quinze-Rio-de-Janeiro-Jean-Baptiste-Debret.jpg


Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

            — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

            — Oh! meu senhô! Fico.

            — Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.

Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

            — Artura não qué dizê nada, não, senhô...

            — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

            — Eu vaio um galo, sim, senhô.

            — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. [...]

MACHADO DE ASSIS

http://portal.mec.gov.br 

Entendendo o texto

01. Por que o narrador decide alforriar (libertar) o jovem Pancrácio na segunda-feira antes da lei ser votada?

a. Porque ele sempre foi contra a escravidão e esperava por esse momento.

b. Para parecer um "profeta" que previu a lei e ganhar fama de bondoso antes dos outros.

c. Porque Pancrácio pediu a liberdade para poder se casar.

d. Porque ele não tinha mais dinheiro para sustentar o escravo.

02. Como foi a comemoração da liberdade de Pancrácio organizada pelo patrão?

a. Uma festa simples apenas para a família na cozinha.

b. Uma missa na igreja da cidade em agradecimento a Deus.

c. Um dia de folga para que Pancrácio pudesse visitar seus parentes.

d. Um jantar solene, chamado de banquete, com discursos e brindes de champanhe.

03. O que o narrador ofereceu a Pancrácio para que ele continuasse trabalhando na casa após ser libertado?

a. Uma sociedade nos negócios da família.

b. Apenas moradia e comida, sem pagamento em dinheiro.

c. Um pequeno ordenado (salário), que ele disse que poderia crescer no futuro.

d. Uma casa própria nos fundos do terreno.

04. No dia seguinte à liberdade, o narrador dá um "peteleco" em Pancrácio. Qual foi a justificativa dada pelo patrão para esse ato?

a. Ele afirmou que era um "impulso natural" e que isso não tirava o direito civil de liberdade de Pancrácio.

b. Ele disse que o peteleco era uma forma de carinho.

c. Ele alegou que Pancrácio o havia agredido primeiro.

d. Ele disse que agora que Pancrácio era livre, precisava apanhar para aprender a trabalhar.

05. Qual é a principal ironia presente no final do texto, quando o narrador fala sobre os chutes e puxões de orelha que dá em Pancrácio?

a. A ironia de que Pancrácio agora é quem manda no patrão.

b. A ironia de que, embora Pancrácio seja legalmente livre, a sua condição de vida e o tratamento agressivo do patrão continuam os mesmos.

c. A ironia de que o patrão ficou pobre após libertar o escravo.

d. A ironia de que Pancrácio ficou muito rico com o salário que recebeu.

06. Como Pancrácio reage ao tratamento do patrão (pontapés e insultos) após a abolição, segundo o narrador?

a. Ele reage com violência e tenta bater no patrão.

b. Ele decide ir embora da casa imediatamente.

c. Ele recebe tudo humildemente e o narrador acredita que ele fica até alegre.

d. Ele denuncia o patrão para as autoridades da época.

07. O que Machado de Assis pretende criticar com esta crônica?

a. A rapidez com que a Lei Áurea foi aprovada.

b. O comportamento de pessoas que se diziam "boazinhas" e abolicionistas, mas mantinham preconceitos e práticas violentas.

c. A falta de festas e banquetes na cidade do Rio de Janeiro.

d. A dificuldade de se encontrar bons empregados domésticos naquela época.

 

 

CRÔNICA: AS DESCONTROLADAS - JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS - COM GABARITO

 Crônica: As descontroladas

                    JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

 As primeiras mulheres que passaram na calçada da Rio Branco chamavam-se melindrosas. Eram um tanto afetadas, com seu vestido de cintura baixa e longas franjas, mas a julgar por uma caricatura célebre de J. Carlos tinham sempre uma multidão de almofadinhas correndo atrás. O mundo, cem anos depois, mudou pouco no essencial. Diz-se agora que o homem “corre atrás do prejuízo”. De resto, porém, a versão nacional do assim caminha a humanidade segue o mesmo cortejo de sempre pela Rio Branco — com o detalhe que as mulheres trocaram as franjas pelo cós baixo da calça da Gang. E, evidentemente, não são mais chamadas de melindrosas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZrjmclQnGXumjDfjUrd-eeF4OD9ts8u17wl9BS73NmyJQ64lPytzLoM6nqOZe2c3ztYPtAY3oFF0XWInIn_v6S1FuL1iQnwKX8u_XKHIdXnpxxIZ3YNiRFeHjlYdYH9tijpzJ_Pzyp0qC1YhCKMcm4_SkzEDO9P3i9_uhOdQQkgBZ47I3EW08Of460wY/s1600/mulheres.jpg


Elas já atenderam por vários nomes. Uma “uva” era aquela que, de tão suculenta e bem-feita de curvas, devia abrir as folhas de sua parreira e deliciar os machos com a eternidade de sua sombra. Há cem anos as mulheres que circulam pela Rio Branco já foram chamadas de tudo e, diga-se a bem da verdade, algumas atenderam. Por aqui passou o “broto”, o “avião”, o “violão”, a “certinha”, o “pedaço”, a “deusa”, a “boazuda”, o “pitéu”, a “gata” e tantas outras que podem não estar mais no mapa, como as mulatas do Sargentelli, mas já estão no Houaiss eletrônico. Houve um momento que, de tão belas, chegaram a ficar perigosas. Chamavam-nas “pedaço de mau caminho” ou “chave de cadeia”. Algumas, de carne tão tenra, eram “frangas”.

Havia, de um modo geral, um louvor respeitoso na identificação de cada um desses tipos que sucederam as melindrosas. Gosto de lembrar daquela, ali pelo início dos 60, que era um “suco”. Talvez porque sucedesse o tipo de “uva” e fosse tão aperfeiçoada no inevitável processo de evolução da espécie que já viesse sem casca e, principalmente, sem os caroços. Sempre prontinhas para beber. De uns tempos para cá, quando se pensava que na esquina surgiria um vinho de safra especial, a coisa avinagrou. As mulheres ficam cada vez mais lindas mas os homens, na hora de homenageá-las, inventam rótulos de carinho duvidoso. O “broto”, o “violão” e o “pitéu” na versão arroba ponto com 2000 era a “popozuda”. Depois, software 2001, veio a “cachorra”, a “sarada”. Pasmem: era elogio. Algumas continuavam atendendo.

Agora está entrando em cena, perfilada num funk do grupo As Panteras — um rótulo que, a propósito, notou a evolução das “gatas” —, a mulher do tipo “descontrolada”. (...). Não é exatamente o que o almofadinha lá do início diria no encaminhamento do eterno processo sedutivo, mas, afinal, homem nenhum também carrega mais almofadas para se sentar no bonde. Sequer bondes há. Já fomos “pães”. Muito doce, não pegou. Somos todos lamentáveis “tigrões” em nossa triste sina de matar um leão por dia.

Elas mereciam verbetes melhores, que se lhes ajustassem perfeitos, redondos, como a tal calça da Gang. A língua das ruas anda avacalhando com as nossas “minas”, para usar a última expressão em que as mulheres foram saudadas com delicadeza e exatidão — dentro da mina, afinal, cabe tanto a pepita de ouro como a cavidade que se enche de pólvora para explodir e destruir tudo o que estiver em cima.

A deusa da nossa rua, que sempre pisou os astros distraída, não passa hoje de “tchutchuca marombada” ou “popozuda descontrolada”. É pouco para quem caminha nas pedrinhas portuguesas como se São Pedro fosse sobre as águas bíblicas. Algumas delas, uvas do vinho sagrado, santas apenas no aguardo da beatificação vaticana, provocando ainda maior alvoroço, alumbramento e estupefação dos sentidos.

 JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

O que as mulheres procuram na bolsacrônicas. Rio de Janeiro: Record, 2004.  

 

Entendendo o texto

01. Qual é o tema principal da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos?

a. A história da construção da Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro.

b. A evolução das gírias e apelidos usados pelos homens para se referirem às mulheres ao longo do tempo.

c. Uma crítica severa ao uso de calças jeans de marcas famosas.   d. Um estudo científico sobre a botânica, comparando mulheres a uvas e flores.

02. Segundo o texto, qual era o nome dado às mulheres elegantes que circulavam na Rio Branco há cerca de cem anos?

a. Popozudas.

b. Tchutchucas.

c. Melindrosas.

d. Minas.

03. O autor menciona que, nos anos 60, surgiu o termo "suco". Por que ele considera que essa gíria indicava uma "evolução" em relação ao termo "uva"?

a. Porque o suco é mais caro que a uva no mercado.

b. Porque, metaforicamente, o "suco" já viria pronto, sem casca e sem caroços.

c. Porque as mulheres daquela época não gostavam de comer frutas.

d. Porque o termo "suco" era usado apenas para mulheres que moravam no campo.

04. O autor faz uma crítica aos apelidos mais recentes, como "cachorra", "popozuda" e "descontrolada". Qual é essa crítica?

a. Ele acha que esses nomes são mais bonitos e modernos que os antigos.

b. Ele acredita que esses nomes ajudam as mulheres a serem mais respeitadas.

c. Ele defende que as gírias atuais são mais precisas cientificamente.

d. Ele afirma que esses rótulos são de "carinho duvidoso" e menos delicados que os do passado.

05. Ao falar sobre o termo "mina", o autor explica que essa expressão era exata e delicada. Por que ele faz essa comparação? a. Porque as mulheres trabalhavam em minas de carvão naquela época.

b. Porque a palavra "mina" pode representar tanto algo valioso (pepita de ouro) quanto algo perigoso e explosivo (pólvora).

c. Porque as mulheres são frias e duras como as pedras das minas.

d. Porque é uma gíria que só existe na cidade de Belo Horizonte.

06. Como o autor descreve a mudança nos apelidos dados aos homens ao longo do tempo?

a. Explica que os homens passaram de "pães" para "tigrões", o que ele considera lamentável.

b. Diz que os homens sempre foram chamados de "almofadinhas".  

c. Afirma que os homens não usam mais gírias entre si.

d. Diz que os homens agora são chamados de "vinhos de safra especial".

07. No último parágrafo, o autor compara o caminhar das mulheres nas "pedrinhas portuguesas" a um evento bíblico. Qual é a intenção dessa comparação?

a. Mostrar que as calçadas do Rio de Janeiro estão mal cuidadas.  

b. Criticar as mulheres que não sabem andar de salto alto.

c. Sugerir que todas as mulheres deveriam frequentar a igreja.

d. Exaltar a beleza e a elegância das mulheres, elevando-as a uma figura quase divina ou sagrada.

 

 

sábado, 14 de março de 2026

CRÔNICA JORNALÍSTICA: JEQUE DE CANDIDATO CAUSA BRIGA EM FRENTE A HOTEL CINCO ESTRELAS - RENATO LOMBARDI - COM GABARITO

 CRÔNICA JORNALÍSTICA:

Jegue de candidato causa briga em frente a hotel cinco estrelas

                   Renato Lombardi

         Um pequeno jegue, de não mais de um metro de altura, foi o pivô de uma das mais insólitas ocorrências já registradas no 4º. Distrito Policial, na Consolação. A região central viveu uma grande confusão, anteontem à noite, a partir da discussão entre o agente de segurança do Hilton Hotel, Edilberto Batista Gomes, de 28 anos, e o candidato a vereador pelo PMDB Osvaldo Martins de Oliveira, de 42 anos, por causa do animal. No final, todos os envolvidos acabaram presos, inclusive o jegue.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiABJebkDnjt_uidchEFmhumXhvgW1IBXDsKE9GBU3y-c9Ruzd_vwlA9POuzM-AXYgLCV8U5BZBildlsS7K5bznBgRJ9kli5PMdqs78bff5NWihTO0az7hYAzDnBdvnYoGyGysNC8Zd_kdFEmm-2tcrVNxvPZqPc26uKG5SCHqP_kDFK4fXb0I9MHPbfoA/s320/JEGUE.jpg

         Oliveira, conhecido como Vadão, estava desde o começo da tarde com seu jegue no centro da cidade participando de protestos contra o presidente Fernando Collor. Puxando o burro, Vadão passou pelas Praças da Sé e Ramos Azevedo. Quando seguia para a Rua da Consolação pela calçada da Avenida Ipiranga, o jegue resolveu dar uma parada na porta do Hilton.

         Um grupo de turistas americanos começou a bater palmas ao ver o animal com duas placas com os dizeres "Impeachment já" e "O Brasil é Nosso e Não Dele". A atitude do jegue, que tem o mesmo apelido do candidato, irritou o segurança do hotel Gomes. "Tire logo esse animal da calçada porque aqui é um hotel cinco estrelas e lugar de burro é na cocheira", ameaçou Gomes.

         Vadão disse que a Constituição lhe garantia o direito de ir e vir. Isto irritou ainda mais o segurança. "Ele deu um bico na perna direita traseira do jegue e ameaçou aleijar o animal", acusou o candidato. O gesto de Gomes revoltou Vadão, os turistas americanos e as pessoas paradas na porta do hotel. A Polícia Militar foi chamada. Soldados queriam obrigar o candidato a tirar o jegue do local. "Falei que meu animal fora agredido e que o segurança deveria ser preso."

         Para aumentar ainda mais a confusão, o jegue começou a zurrar. Mais de 20 pessoas _ turistas, gente que passava em frente ao hotel, policiais e seguranças _ se envolveram na discussão. Um soldado queria que todos fossem embora, mas mudou de ideia quando o jumento resolveu "fazer suas necessidades", na escadaria de acesso ao hotel. "Vai todo mundo pra delegacia, até o burro", ordenou o militar.

         No 4º. DP, um problema na hora de apresentar o jegue ao delegado Inácio de Melo: Vadão fez algumas tentativas, mas não conseguiu fazer o jegue, de 10 anos, subir os 20 lances de escada para chegar até a entrada do plantão. Acabou ficando em frente do prédio da delegacia, vigiado por um soldado. Um boletim de ocorrência por "maus tratos contra animal" foi elaborado e ele encaminhado para exames no Centro de Zoonose, sendo liberado no começo da manhã de ontem.

         Na clínica veterinária onde está internado, o jegue ontem ainda sangrava pela perna traseira direita. Revoltado com a agressão, Vadão quer o segurança na cadeia.

(O Estado de S. Paulo, 11/9/92.)

 Entendendo o texto

01. O texto relata uma ocorrência considerada "insólita" pelo autor. Qual foi o estopim da confusão em frente ao hotel cinco estrelas?

a. A tentativa dos turistas americanos de levar o animal para dentro do hotel.

b. O fato de o candidato estar realizando um protesto político sem autorização da prefeitura.

c. A discussão entre o segurança do hotel e o candidato a vereador, motivada pela parada do jegue na calçada do estabelecimento.

d. A recusa do jegue em subir as escadarias da delegacia para ser apresentado ao delegado.

 

02. Qual foi o argumento utilizado pelo candidato Vadão para se recusar a tirar o animal da calçada do Hilton Hotel?

a. O argumento de que o jegue era um hóspede do hotel.

b. A alegação de que a Constituição lhe garantia o direito de ir e vir. c. A afirmação de que o animal estava cansado após os protestos contra o presidente.

d. O fato de os turistas americanos estarem gostando da presença do animal.

03. O segurança Gomes reagiu de forma agressiva à presença do animal. De acordo com o texto, qual foi a consequência direta dessa agressão?

a. O animal foi levado imediatamente para a cocheira do hotel.

b. A polícia foi chamada e elaborou um boletim de ocorrência por "maus tratos contra animal".

c. O candidato desistiu do protesto e pediu desculpas aos turistas. d. O jegue parou de zurrar e saiu calmamente da calçada.

 

04. O que motivou o policial militar a dar voz de prisão a todos os envolvidos, incluindo o jegue?

a. O fato de o candidato não possuir os documentos do animal.

b. O barulho excessivo causado pelos zurros do jegue e pela discussão dos turistas.

c. O momento em que o jumento resolveu "fazer suas necessidades" na escadaria de acesso ao hotel.

d. A recusa do segurança em pedir desculpas ao candidato Vadão.

05. No desfecho da história, por que o jegue não entrou efetivamente na delegacia (4º DP)?

a. Porque o delegado proibiu a entrada de animais no plantão policial.

b. Porque o animal estava ferido e precisava de atendimento veterinário urgente.

c. Porque o candidato não conseguiu fazer o animal subir os 20 lances de escada do prédio.

d. Porque o soldado de guarda decidiu que o animal deveria ser enviado direto ao Centro de Zoonose.

 

 

 

CRÔNICA: EPIDEMIA POLISSILÁBICA - OTTO LARA RESENDE - COM GABARITO

 Crônica:  Epidemia polissilábica

                Otto Lara Resende

          RIO DE JANEIRO - Já se disse que a crise é de dicionário. Paulo Rónai denunciou a existência de uma geração sem palavras. Uma só, não, digo eu. Várias. A crise é semântica, disse um professor na Sorbonne, que convocou um seminário. Pode ser, diz o Pedro Gomes. Mas é também polissilábica. E me expõe a sua tese: nenhum país aguenta tantos palavrões como os que circulam agora por aí. Palavrão no sentido estrito de palavra grande.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg75ympSr7WAdI-6mYb39z1SJpzRU9MpNFrzeZDpH8yimv8jE9xqNR70S4jrFwsCR_5mOSFoThYNhPgcbMSNsPQVsGS2Zm2bqhmGwUfth5IU6Is7dmOt4DpPWdffOQnx7tCEKd_QsEuy_aWsUhppF0sXg6WUvo53Ww9Bj9-axTwBzEfEe7Rk26EeY0XdVM/s320/cronicas-otto-lara-resende.jpg


             A maior delas, como aprendemos na remota infância, tem até governado o Brasil. É essa mesmo: inconstitucionalissimamente. Depois deste advérbio, no seu hoje modesto pioneirismo, apareceram verdadeiros bondes vocabulares. Autênticos minhocões. São cada vez mais numerosos e compridos, como a composição ferroviária que transporta minérios. A perder de vista, todos têm de cinco sílabas para cima. São centopeias de tirar o fôlego e de destroncar a língua.

            Na porta do Jockey, depois do almoço, um sujeito conversava outro dia, sereno, sobre a atratividade do investimento superavitário. Temi pela sua digestão, se é que não foi vítima de uma congestão. Ou de um insulto cerebral. Mas há pessoas insuscetíveis de insulto, sobretudo cerebral. É o caso do cidadão que discorreu sobre o obstaculizado caminho que o Brasil tem de percorrer, se quiser alcançar um nível de competitividade num cenário de internacionalização do livre-cambismo.

                  Até a carta-testamento do Getúlio, obstaculizar não tinha feito a sua aparição triunfal. Dizem que foi ideia do Maciel Filho, que tinha este vezo nacionalista da palavra complicada. Na verdade, é difícil inovar o jargão político. Para atacar José Américo de Almeida, história antiga, Benedito Valladares lançou no mercado a palavra boquirroto. Logo os adversários disseram que era soprado pelo Orozimbo Nonato, um íntimo do Vieira e do Bernardes. Arrazoava com um cunho seiscentista.

             Enfim, tudo hoje em dia gera distorções. Gerar é um verbo-ônibus. Serve para tudo. Confiemos, porém, que a seu tempo, a nível de país, na expressão abominável que hoje é corrente, a solução seja equacionada. A desestabilização extrapola de qualquer colocação. Longe de mim o catastrofismo, mas no caminho polissilábico em que vamos, a ingovernabilidade é fatal. E talvez passemos antes pela platino-dolarização contingencial.   (Folha de S. Paulo, 22/07/91)

 

Entendendo o texto

 

01. No início do texto, o autor cita Paulo Rónai e um professor da Sorbonne para introduzir o tema da "crise". Segundo a tese de Pedro Gomes, apresentada e defendida por Otto Lara Resende, qual é a natureza específica dessa crise?

a. Uma crise de falta de termos técnicos para descrever a economia moderna.

b. Uma crise semântica causada pela ausência total de palavras no vocabulário dos jovens.

c.  Uma crise "polissilábica", caracterizada pelo uso excessivo de palavras muito longas e complexas.

d. Uma crise política gerada pela incapacidade de traduzir dicionários estrangeiros.

 

02. O autor utiliza metáforas como "bondes vocabulares", "autênticos minhocões" e "centopeias de tirar o fôlego" para se referir a certas palavras. O que essas figuras de linguagem revelam sobre a opinião do autor?

a. Admiração pela criatividade da língua portuguesa em criar termos extensos.

b. Crítica ao tamanho exagerado e à artificialidade de certas palavras modernas.

c. Apoio ao uso de termos ferroviários dentro do jargão político brasileiro.

d. Desejo de que a língua se torne mais complexa para alcançar o nível internacional.

 

03. Ao mencionar expressões como "atratividade do investimento superavitário" e "internacionalização do livre-cambismo", qual é a intenção principal do cronista?

a. Demonstrar erudição e conhecimento sobre o mercado financeiro.

b. Exemplificar como o discurso técnico e burocrático se tornou refém da "epidemia" de palavras longas.

c. Defender que o Brasil só alcançará competitividade se utilizar um vocabulário mais robusto.

d. Mostrar que a digestão humana é afetada pela leitura de jornais de economia.

 

04. O texto menciona que o verbo "gerar" tornou-se um "verbo-ônibus". O que essa classificação significa no contexto da crítica de Otto Lara Resende?

a. Que é um verbo que deve ser usado apenas por pessoas que utilizam transporte público.

b. Que é uma palavra de movimento que impulsiona a economia do país.

c. Que é um verbo de sentido vago e genérico, usado excessivamente para substituir termos mais precisos.

d. Que é a palavra mais comprida e difícil de pronunciar encontrada no dicionário.

 

05. Qual é a conclusão satírica (irônica) que o autor apresenta no último parágrafo sobre o futuro do Brasil diante desse cenário linguístico?

a. O país se tornará uma potência se adotar o "livre-cambismo" linguístico.

b. A simplificação do dicionário é a única forma de salvar a economia.

c. O uso de termos como "desestabilização" e "ingovernabilidade" levará o país a uma "platino-dolarização contingencial".

d. A solução para os problemas do país será finalmente "equacionada" através de seminários na Sorbonne.

 

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICA: CORDÃO DOS COME-SACO - STANISLAW PONTE-PRETA - COM GABARITO

 Crônica: Cordão dos come-saco

Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto)

 

         Em Londres, que ultimamente não tem sido uma capital das mais britânicas (ou talvez os britânicos é que não sejam tão londrinos assim, sei lá), vai se inaugurar uma exposição internacional de embalagem. Até aí, tudo normal, como dizem os anormais. Há, no entanto, uma nova indústria que se fará representar nessa exposição que está causando a maior curiosidade: a dos sacos comestíveis.

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         Como, minha senhora, de quem é que é o saco? Calma, madama, eu já chego lá. A indústria foi inspirada na salsicha e isto dito assim fica meio sobre o jocoso, mas torno a explicar que, com vagar, se chega ao saco. É o seguinte: não sei se vocês já repararam que as salsichas, ultimamente, não têm mais aquela pele indigesta que a gente comia antigamente e ficava trocando seu reino por um bicarbonato. Hoje em dia, a pele das salsichas é fininha e a gente come sem o menor remorso estomacal posterior.
           Pois essa pelinha, irmãos, é de matéria plástica comestível. Foi inventada por um Thomas Edison das salsichas e aprovou num instante. E baseada nessa aprovação é que uma fábrica de embalagens estudou a possibilidade de fazer sacos para carregar comida das mercearias para o lar, capazes de serem também comidos, isto é, um saco de matéria plástica parecida com a das salsichas, que seriam vendidos aos armazéns e utilizados pelos fregueses para transportar a mercadoria comprada. Entenderam, ou tem leitor retardado mental?
           Agora, que fica bacaninha, isto fica. Num instante vão aparecer os estetas dos refogados, para melhor aproveitamento do saco. As Myrthes Paranhos do mundo inteiro vão publicar receitas de como se prepara um saco de matéria plástica para o almoço e os jornais, nas suas seções dominicais de culinária, terão títulos como este: "Saquinho de siri", "Saco au champignon", "Saco à la façon du chef", etc., etc.
            E parece até que aqui o neto do Dr. Armindo está vendo uma dessas grã-finas, sempre mais preocupadas com o aspecto exterior do que com o aspecto interior, fazendo um rigoroso regime alimentar e dizendo para a empregada, quando esta volta do mercadinho com as compras:
               _ Para mim não precisa preparar almoço, não. Eu como só o saco.
(Stanislaw Ponte Preta - Rosamundo e os outros)

 Entendendo o texto

 01. Qual é o fato internacional que serve de pretexto para o autor iniciar sua crônica?

a) O lançamento de uma nova marca de salsichas britânicas.

b) Uma convenção de etiquetas e bons modos em Londres.

c) A inauguração de uma exposição internacional de embalagens. d) Uma crise econômica que obrigou os ingleses a comerem plástico.

e) A invenção de um novo tipo de bicarbonato de sódio na Europa.

02. Segundo o narrador, qual foi a "inspiração" para a criação dos sacos plásticos comestíveis?

a) As antigas peles de salsicha que causavam indigestão.

b) As novas películas finas e comestíveis usadas nas salsichas modernas.

c) O hábito das "grã-finas" de fazerem dietas rigorosas.

d) Uma técnica antiga de transporte de mercadorias em armazéns. e) Os estudos de Thomas Edison sobre polímeros sintéticos.

 

03. O autor utiliza uma linguagem marcadamente coloquial e irônica. Qual trecho exemplifica essa interação direta e humorística com o leitor?

a) "vai se inaugurar uma exposição internacional de embalagem."

b) "é de matéria plástica comestível."

c) "Entenderam, ou tem leitor retardado mental?"

d) "capazes de serem também comidos..."

e) "estudou a possibilidade de fazer sacos para carregar comida..."

 

04. Ao mencionar a expressão "trocando seu reino por um bicarbonato", o autor faz uma alusão humorística para indicar que: a) A pele das salsichas antigas era muito saborosa e valiosa.

b) As salsichas eram artigos de luxo consumidos apenas pela realeza.

c) O mal-estar estomacal causado pela pele da salsicha era tão grande que a pessoa daria tudo por um remédio.

d) O bicarbonato era a moeda de troca oficial nos armazéns de antigamente.

e) A monarquia britânica foi a responsável por popularizar a salsicha indigesta.

 

05. No desenvolvimento do texto, o narrador prevê que a novidade dos sacos comestíveis causará um impacto na culinária. Segundo ele, isso ocorreria através de:

a) Críticas severas dos chefs de cozinha contra o uso de plástico na comida.

b) A substituição total das carnes por embalagens sintéticas.

c) Publicações de receitas exóticas e "chiques" utilizando o saco como ingrediente principal.

d) A proibição de vender sacos plásticos em mercearias e armazéns.

e) Cursos de culinária obrigatórios para as empregadas domésticas.

 

06. A conclusão da crônica apresenta uma sátira social voltada para qual grupo de pessoas?

a) Os cientistas ingleses que inventam tecnologias inúteis.

b) Os donos de armazéns que cobram caro pelas embalagens.

c) Os garçons e cozinheiros que não aceitam inovações.

d) As "grã-finas", ironizando sua preocupação excessiva com a aparência e dietas.

e) Os operários das fábricas de plástico que não têm o que comer.

 

07. O título "Cordão dos come-saco" e o desfecho do texto reforçam o estilo de Stanislaw Ponte Preta, que consiste em:

a) Escrever textos científicos sobre avanços da indústria química.

b) Produzir manuais de instrução para o uso de novas embalagens. c) Utilizar o absurdo e o duplo sentido para ridicularizar comportamentos sociais.

d) Defender o uso de materiais biodegradáveis para preservar o meio ambiente.

e) Fazer uma propaganda séria e elogiosa sobre os costumes londrinos.

 

 

CRÔNICA: ACABARAM COM A NOSSA LETRA - MÁRIO PRATA - COM GABARITO

   Crônica:  Acabaram com a nossa letra

                    Mário Prata

          Faço as minhas compras no supermercado, pego o meu talão de cheques, vou preencher. A mocinha:

       _ Pode deixar que a máquina faz isso!

           Fico uns segundos atabalhoado, olho para o cheque.

        _ Faço questão de eu mesmo preencher.

           E preenchi.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgeKHlXw4L1We-NflFCfUEoKIQTt4w0CQMU62K0j_-KVpmn0bvDFDe6KRAFXk1i5m9k3L6nM6nKneA9AVZnpAbImGgWdo0Uel97TlHZNjthb73PvA3-A_fXEQFv_HluhiZZj4GSzOBsSoRjA5TCZN5vEfIfqxU6ecfoBWNUu1743ITxfJSUWO5jN3t6Fy0/s320/CHEQUE.jpg


        A cena é corriqueira, não é? Mas ali, naquele momento, aquela mocinha estava me tirando o prazer de colocar a minha letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento, é a única coisa que eu escrevo à mão: o cheque.

       Você já notou que a gente não escreve mais nada? Nada! Acho que desde que saí da faculdade não uso a mão para tais finalidades. Estão aí todas as máquinas e cartões para tal uso.

         E olha que aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário a gente tinha aula de linguagem. Tinha o caderno de linguagem, que todos eram obrigados a comprar. A linha era subdividida em duas partes, sendo a de baixo menorzinha para caberem as letras baixas, como o "a" e o "o", por exemplo. E quando pintava um "l" ou um "t", tinha que ir até lá em cima. Assim, todo mundo ficava com a letra igual à da professora, que era perfeita, por sinal.

            Com o passar dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu mesmo entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e mais e a letra de forma se foi deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora, com a máquina de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda acontecendo o mesmo? 

                Tenho certeza que, no futuro próximo, os alunos vão levar os notebooks para a sala de aula. A letra à mão será coisa pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já grandinhos, olhando as receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós escreviam daquele jeito. Ou será que também os médicos vão ter uma maquininha para dar suas tortas receitas?

                Fico triste ao constatar tudo isso. É como se uma parte de mim fosse embora. Uma parte 

trabalhada duramente durante anos e anos.

            O correio-elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas tendo letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquela letra, gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras manuais para os motivos apaixonantes?

                 Chegará o momento que usaremos a nossa mão apenas para a assinatura. Ou será que teremos um cartão a laser que, passado em cima de um papel, depois de codificado por um número, imprimirá nossa assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?

                Será que um dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à mão? Penas pesadas   para os infratores? Fulano preso escrevendo poesias em plena praça. O que o pai do fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a multa aplicada pelo guarda não será escrita à mão. Ele digita a placa do seu carro e a informação vai diretamente para o Detran.

               Nos países mais metidos a besta (também conhecidos como Primeiro Mundo), os garçons já pegam o seu pedido com um minicomputador que leva imediatamente o seu pedido para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.

           Claro que o jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles papeizinhos que a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo-secreto com aqueles pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição, ainda alguém com boa letra para tanto?

                Como as secretárias vão avisar o chefe que fulano telefonou a tal hora? Tudo por cabos eletrônicos, é claro.

                 Agendas eletrônicas já se encontram em qualquer das boas casas do ramo.

                 E conta? Alguém ainda faz contas no papel? Será que nas escolas ainda ensinam raiz quadrada, com o aluno ali com a sua calculadora? Você deve saber que, nos vestibulares, já se admitem as tais maquininhas.

                    Listinha de pecados para se confessar. Grava-se num gravadorzinho e enfia no ouvido do padre. Afinal, os nossos pecados são sempre os mesmos. Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando. Em algarismos romanos, sei lá por quê.

                                                  Crônica de autoria de Mario Prata. In: O Estado de S. Paulo, 12/11/1997.

 

Entendendo o texto

 01. No início do texto, o que motiva a reflexão do narrador sobre a perda da escrita à mão?

a) O fato de ele ter esquecido como se escreve o próprio nome.

b) A tentativa de uma funcionária de supermercado de preencher seu cheque com uma máquina.

c) A dificuldade de entender a letra de um médico em uma receita. d) O recebimento de uma fatura de cartão de crédito impressa.

e) A obrigatoriedade de usar computadores em seu trabalho como escritor.

 

02. Como o autor descreve o aprendizado da escrita em sua época de escola (curso primário)?

a) Era um processo livre, onde cada aluno desenvolvia seu próprio estilo desde cedo.

b) Era focado apenas na digitação em máquinas de escrever antigas.

c) Era rigoroso, utilizando cadernos de linguagem com linhas subdivididas para padronizar a letra.

d) Era opcional, pois a maioria das crianças já preferia usar calculadoras.

e) Era baseado em desenhos e pinturas, sem preocupação com a forma das letras.

 

03. Qual é o sentimento predominante do narrador ao constatar que a escrita manual está desaparecendo?

a) Entusiasmo com a agilidade proporcionada pelas novas máquinas.

b) Indiferença, pois ele acredita que a tecnologia sempre melhora a vida.

c) Alívio, por não precisar mais usar cadernos de caligrafia.

d) Tristeza, como se uma parte de sua própria identidade estivesse indo embora.

e) Ansiedade para aprender a usar os novos notebooks escolares.

 

04. Ao mencionar o "correio-elegante" e os "cartõezinhos de flores", o autor sugere que:

a) A escrita à mão deveria ser abolida até mesmo em situações românticas.

b) A tecnologia tornará as conquistas amorosas muito mais fáceis e rápidas.

c) A letra confusa ou a falta da escrita manual podem afetar a expressão de sentimentos e o romantismo.

d) O correio eletrônico (e-mail) é idêntico ao correio-elegante das quermesses.

e) Ninguém mais se interessará por flores no futuro próximo.

 

05. O autor utiliza o termo "países mais metidos a besta" para se referir a:

a) Países que proíbem o uso de tecnologia em restaurantes.

b) Países do chamado "Primeiro Mundo", onde a informatização já chegou até aos garçons.

c) Países que ainda preservam a tradição da caligrafia artística.

d) Cidades do interior que mantêm as quermesses e o jogo do bicho.

e) Sociedades que valorizam a escrita manual acima de tudo.

 

06. No trecho "Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando", o autor estabelece uma relação entre:

a) A facilidade tecnológica e o esforço humano em manter habilidades manuais.

b) A prática religiosa e o uso de gravadores nos confessionários.

c) A matemática escolar e o uso excessivo de algarismos romanos. d) O trabalho das secretárias e a eficiência dos cabos eletrônicos. e) O jogo do bicho e a informatização dos sorteios.

 

07. Qual é a principal crítica social ou reflexão central presente na crônica?

a) A defesa absoluta de que o progresso tecnológico é prejudicial em todos os setores.

b) Uma crítica aos supermercados que não aceitam mais cheques preenchidos à mão.

c) Uma reflexão sobre como a tecnologia despersonaliza ações cotidianas e extingue habilidades humanas tradicionais.

d) Um guia prático de como melhorar a letra de forma após anos de desuso.

e) Uma reclamação específica sobre a má qualidade do ensino de matemática nas escolas modernas.