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domingo, 28 de junho de 2026

CRÔNICA: AMOR PLATÔNICO - JOÃO FRANCISCO P. CABRAL - COM GABARITO

 Crônica: AMOR PLATÔNICO

             João Francisco P. Cabral

 

        Em um dos mais belos textos da literatura mundial, O Banquete, Platão expôs aquilo que seria a sua doutrina sobre o amor.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjfRx7vckWKfMMTP5vkV4W6CIxptjm56ctrtcRX6OZcJxT83C3dJ6A08D1pwsfikvE5BuKAIek2y6ep3SiOOZuvabbQ0JfyA5w8q1EckyB56Hc03fGdfsVyxdpcJzk2x-I3uGZzyUCDIWOd8SqCvcN06pd43X2bPl4zhRr2k7N9qMV8CiXih_SnAHymwXI/s320/4d5432c3-2afa-4e9f-98a5-8a9479dccd3cBANQUETE1_W.png


        A narrativa que rememora uma festa acontecida na casa de um famoso poeta (Agatão) vai desencadear uma série de elogios ao deus que, se acreditava, não havia ainda recebido os louvores dos homens. Assim, o deus foi tido por diversos caracteres, desde o deus mais antigo e por isso bom educador, passando por uma força cósmica universal geradora dos seres, até uma dupla característica, uma vulgar e outra ascética, bem como também o deus mais jovem, mais belo e por isso irresponsável, criador, etc.

        Chegada a vez de Sócrates falar, surge o problema: Sócrates não sabe falar bem (eloquência). Ele não sabe elogiar, mas gostaria, na forma dialogada, falar do deus. E sua primeira questão é: o que é o amor? Ou seja, antes de falar se ele é bom ou mau, belo ou feio, se ajuda ou se atrapalha na educação, deveríamos saber o que ele é. Para desconcerto geral, Sócrates define o amor como sendo a busca da beleza e do bem. E sendo assim, ele mesmo não pode ser belo nem bom. Quem ama, deseja algo que não tem. Quando se tem, não se deseja mais, ou se se deseja, deseja manter no futuro, o que significa que não o tem. E todos só desejam o melhor, ninguém escolhe o mal voluntariamente. Logo, o amor é o desejo do belo e do bom. Essa definição permite uma compreensão universal do objeto (o amor). Mas não devemos também acreditar que por não ser bom, o amor é mau. Não é uma conclusão necessária. Para isso, Sócrates vai contar o que Diotima contou-lhe sobre o amor.

        Para combater o mito que acabara de escutar da boca de um comediógrafo (Aristófanes - mito da alma gêmea), Sócrates mostra o que aprendeu com aquela que o iniciou nos mistérios do amor. Diotima disse ao nosso filósofo que durante uma festa, todos os deuses foram convidados, menos a deusa Penúria. Faminta e isolada, ela procurou alimento nos restos da festa. Porém, ao ver o deus Astuto, deus engenhoso, cheio de recursos e que estava embriagado, deitado num jardim, a deusa resolveu ter um filho com ele. Nasce daí o deus Eros (ou amor), que assume as características de seus pais. Como sua mãe, ele é pobre, carente, faminto, desejante. Mas como seu pai, ele é nobre, cheio de recursos para alcançar o que lhe aprouver, saciando suas necessidades.

        Em um nível cósmico, a função do deus é ligar os homens a Zeus, sendo um intermediário entre eles. Aos deuses, o amor leva as súplicas dos homens, seus anseios, suas dúvidas e necessidades através das preces e orações. Aos homens, o deus do amor traz as recomendações aos sacrifícios e honra aos deuses. Por isso, não sendo nem bom nem mal, mortal e também imortal, o amor é o que nos leva a escolher sempre o melhor, a fazer o bem. Ele morre, como um desejo que se acaba, mas logo nos inflama novamente, renascendo na alma dos homens. Todavia, o que é o belo e o bem que o amor busca?

        Para Platão, no nível mais imediato, o amor refere-se à nossa sensibilidade e apetites, principalmente o sexual. Vemos, a partir de um corpo, a beleza, e o desejo de procriar nele. Isso significa, inconscientemente, que o desejo por um corpo belo é a tentativa da matéria de se eternizar. Os filhos são uma forma dos pais serem eternos. No entanto, o belo não é somente o corpo, tanto que logo que esse desejo se esvai, percebemos que outros corpos também nos atraem. Assim, passamos do singular (indivíduo) para o universal (todos os indivíduos). Mas ainda nisso não consiste a beleza, apenas participa da ideia. Para Platão, subimos degraus na compreensão da beleza, dos corpos até as ações nas ciências, nas artes e na política, que expandem a ideia de beleza. Mas ela mesma é uma ideia, norteadora das ações humanas, que dirige as almas para o bem absoluto que não pode simplesmente ser conquistado pelo homem encarnado.

        Portanto, o homem, como duplo corpo-alma, jamais conhecerá a verdade de modo absoluto. Isso cabe somente aos deuses. Mas nem por isso deve deixar de se desenvolver. É moral dever agir procurando o melhor sempre. Ao homem, ser desejante intermediário entre os deuses e os outros seres não conscientes, cabe buscar o conhecimento que o aproxime dos deuses, não se deixando fascinar pelo sensível, mas buscando compreender o inteligível, o reino das ideias, o que propriamente é o saber. Assim, naturalmente, o homem é filósofo (ou deveria ser!) buscando a sabedoria, entendendo por isso a melhor forma de usar a parte que lhe é principal – a alma – para agir, ser dono dos desejos, compreendendo a função de cada um e não se tornar escravos desses.

Por João Francisco P. Cabral. Colaborador Brasil Escola.

 

Entendendo a crônica:

 

01 – Como Sócrates desconstrói a ideia de que o Amor (Eros) é um deus belo e bom?

      Sócrates propõe uma abordagem lógica ao questionar, antes de tudo, o que é o amor. Ele define o amor como a busca, o desejo pelo belo e pelo bem. A partir disso, surge a conclusão de que o amor não pode ser belo nem bom por si mesmo, pois quem ama deseja aquilo que não tem. Como o amor passa a vida inteira buscando e desejando a beleza e a bondade, significa que ele carece de ambas.

02 – Qual é a origem mítica do deus Eros (o Amor) segundo o relato de Diotima e quais características ele herdou de seus pais?

      Diotima conta que Eros nasceu durante uma festa dos deuses, fruto da união entre a deusa Penúria (que estava faminta e isolada) e o deus Astuto (que estava embriagado em um jardim). Dessa união, Eros herdou características de ambos: de sua mãe, herdou a pobreza, a carência e a condição de estar sempre faminto e desejante; de seu pai, herdou a nobreza e a engenhosidade, sendo cheio de recursos e estratagemas para alcançar aquilo que deseja e saciar suas necessidades.

03 – No nível cósmico, qual é a função atribuída ao amor e por que o texto afirma que ele "morre e renasce"?

      No nível cósmico, o amor funciona como um intermediário e um elo de ligação entre os homens e os deuses (Zeus). Ele leva aos deuses as preces, súplicas e dúvidas dos mortais e traz aos homens as recomendações divinas. O texto afirma que ele "morre e renasce" porque atua como o próprio desejo humano: ele morre temporariamente quando um desejo específico é saciado, mas logo se inflama e renasce na alma quando surge uma nova busca pelo melhor.

04 – Como Platão explica a transição do amor físico (sensível) para o amor ideal (inteligível)?

      Para Platão, o amor começa no nível mais imediato da sensibilidade e do apetite sexual, onde o ser humano é atraído por um corpo belo para procriar — uma tentativa inconsciente da matéria de se eternizar através dos filhos. Contudo, o homem percebe que a beleza não está presa a um único corpo e expande esse sentimento para o plano universal. A partir daí, o indivíduo "sobe degraus", passando a enxergar a beleza nas ações humanas, nas ciências, nas artes e na política, até atingir a compreensão da Beleza como uma Ideia pura e norteadora, que direciona a alma ao bem absoluto.

05 – Diante da condição humana de "duplo corpo-alma", qual deve ser o papel do homem e a sua relação com a filosofia de acordo com a crônica?

      Como um ser duplo (composto de corpo e alma), o homem jamais conhecerá a verdade de modo absoluto, algo que cabe apenas aos deuses. No entanto, seu dever moral é buscar o conhecimento que o aproxime do divino, sem se deixar escravizar pelo mundo sensível (dos desejos físicos). O homem deve usar a sua parte principal — a alma — para ser dono de suas paixões e compreender o mundo inteligível. É essa busca constante pela sabedoria e pelo aperfeiçoamento que torna o ser humano, naturalmente, um filósofo.

 



 

CRÔNICA: A CONCEPÇÃO DE FELICIDADE NA ÉTICA ARISTOTÉLICA - JOÃO FRANCISCO P. CABRAL - COM GABARITO

 Crônica: A CONCEPÇÃO DE FELICIDADE NA ÉTICA ARISTOTÉLICA

             João Francisco P. Cabral

         A palavra ethos é de etimologia grega e significa comportamento, ação, atividade. É dela que deriva a palavra ética. A ética é, portanto, o estudo do comportamento, das ações, das escolhas e dos valores humanos. Mas no nosso cotidiano ocorre de percebermos que há uma série de modelos de “éticas” diferentes que postulam modos de vida e de ação, por vezes excludentes. Qual é o melhor tipo de vida (se é que há um)? O que é a felicidade? É melhor ser feliz ou fazer o bem ou o que é certo?

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhF8HPLQZ7MT6vMsmYMloUo9eGwBidug5fwt2uUjEkkAVRQdxpvL32hYdnpbrvb7NuR8avOJXqCWWUOFsPSN0mvZ48bmH6wTxtwCxhJ74lxMz_QQXylM3V17EgBFBboXFPR6c6aCXoi8HkR8eqDAk3O51IFevdVWwAh2kMW4n-DjKKE4Fr6xuE09CSu3jc/s320/maxresdefault.jpg


        Perguntas como essas são feitas em todas as épocas da história humana. E desde a antiguidade clássica dos gregos, já havia muitos modelos de respostas para elas. Uma delas é a fornecida pelo filósofo Aristóteles, famoso por sua Metafísica. Vamos nos aprofundar um pouquinho mais no que ele tem a nos dizer.

        Em seu livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles consagrou a tão famosa ética do meio-termo. Em meio a um período de efervescência cultural, o prazer e o estudo se confrontam para disputar o lugar de melhor meio de vida. No entanto, a sobriedade de nosso filósofo o fez optar por um caminho que condene ambos os extremos, sendo, pois, os causadores dos excessos e dos vícios.

        A metrética (medida) que usa o estagirita (Aristóteles era chamado assim por ter nascido em Estagira) procurava o caminho do meio entre vícios e virtudes, a fim de equilibrar a conduta do homem com o seu desenvolvimento material e espiritual. Assim, entendido que a especificidade do homem é a de ser um animal racional, a felicidade só poderia se relacionar com o total desenvolvimento dessa capacidade. A felicidade é o estado de espírito a que aspira o homem e para isso é necessário tanto bens materiais como espirituais.

        Aristóteles herda o conceito de virtude ou excelência de seus antecessores, Sócrates e Platão, para os quais um homem deve ser senhor de si, isto é, ter autocontrole (autarquia). Trata-se do modo de pensar que promove o homem como senhor e mestre dos seus desejos e não escravos destes. O homem bom e virtuoso é aquele que alia inteligência e força, que utiliza adequadamente sua riqueza para aperfeiçoar seu intelecto. Não é dado às pessoas simples nem inocentes, tampouco aos bravos, porém tolos. A excelência é obtida através da repetição do comportamento, isto é, do exercício habitual do caráter que se forma desde a infância.

        Segundo Aristóteles, as qualidades do caráter podem ser dispostas de modo que identifiquemos os extremos e a justa medida. Por exemplo, entre a covardia e a audácia está a coragem; entre a belicosidade e a bajulação está a amizade; entre a indolência e a ganância está a ambição e etc. É interessante notar a consciência do filósofo ao elaborar a teoria do meio-termo. Conforme ele, aquele que for inconsciente de um dos extremos, sempre acusará o outro de vício. Por exemplo, na política, o liberal é chamado de conservador e radical por aqueles que são radicais e conservadores. Isso porque os extremistas não enxergam o meio-termo.

        Portanto, seguindo o famoso lema grego “Nada em excesso”, Aristóteles formula a ética da virtude baseada na busca pela felicidade, mas felicidade humana, feita de bens materiais, riquezas que ajudam o homem a se desenvolver e não se tornar mesquinho, bem como bens espirituais, como a ação (política) e a contemplação (a filosofia e a metafísica).

 

Por João Francisco P. Cabral. Colaborador Brasil Escola.

 

Entendendo a crônica:

01 – O que é a ética de acordo com a etimologia da palavra ethos e qual o seu objeto de estudo?

      A palavra ética deriva do termo grego ethos, que significa comportamento, ação ou atividade. Portanto, a ética é definida no texto como o estudo científico e filosófico do comportamento humano, englobando a análise das ações, das escolhas e dos valores que orientam a vida dos indivíduos em sociedade.

02 – Em que consiste a famosa "ética do meio-termo" de Aristóteles e o que ela condena?

      A ética do meio-termo consiste na busca por uma justa medida (ou metrética) entre os extremos da conduta humana, equilibrando o desenvolvimento material e espiritual do homem. Ela condena categoricamente os extremos — tanto o cultivo exclusivo do prazer quanto o ascetismo ou estudo radical —, apontando que o excesso e a falta são os verdadeiros causadores dos vícios e dos desvios de caráter.

03 – Como Aristóteles define a felicidade e qual a relação dela com a natureza essencial do ser humano?

      Para Aristóteles, a felicidade é o estado de espírito máximo a que todo homem aspira. Como a especificidade que define e diferencia o ser humano dos outros seres é o fato de ele ser um "animal racional", a verdadeira felicidade só pode ser alcançada através do total desenvolvimento dessa capacidade racional. Para que esse estado seja pleno, o indivíduo necessita de um equilíbrio entre bens materiais (riquezas que evitam a mesquinhez) e bens espirituais.

04 – De acordo com o texto, como um indivíduo alcança a excelência (virtude) e quem é o homem virtuoso para Aristóteles?

      A excelência não é um dom nato, mas sim um hábito obtido através da repetição do comportamento e do exercício constante do caráter, idealmente cultivado desde a infância. O homem virtuoso é aquele que possui autocontrole (autarquia), sendo senhor e mestre de seus próprios desejos. Ele sabe aliar inteligência e força, utilizando adequadamente seus recursos e riquezas para aperfeiçoar seu intelecto, distanciando-se tanto da ignorância ingênua quanto da bravura tola.

05 – Como funciona a aplicação prática do meio-termo em relação às qualidades do caráter e por que os extremistas não conseguem enxergá-lo?

      Na prática, o meio-termo situa-se exatamente no centro entre dois extremos viciosos. O texto exemplifica que a coragem é a justa medida entre a covardia e a audácia, assim como a amizade está entre a belicosidade e a bajulação. Os extremistas não conseguem enxergar esse ponto de equilíbrio porque são inconscientes da moderação; assim, quem está em um extremo sempre acusará o homem do meio-termo de praticar o vício oposto (como na política, onde o moderado é rotulado de radical pelos conservadores e de conservador pelos radicais).

 

 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

CRÔNICA: A IGREJA DO DIABO - RESENHA - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica: A igreja do diabo – Resenha

          Machado de Assis               

        Certo dia o Diabo teve a grande ideia de fundar uma igreja pois estava cansado de ter tantos súditos e não ter organização, um ritual, enfim estava cansado de não ter regras. O Diabo pensava que ao abrir uma igreja, estaria destruindo de vez todas as outras religiões, enquanto as outras se combatiam e dividiam, a igreja do Diabo seria única. Decidido isso ele foi aos céus avisar a Deus e desafiá-lo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgl6ZoQb6u3vzDyrbS3C5ylkGLnvlX2AAthaIkiG9EDwlmUBP5vAe4PPCeGIILVXPNKnviJvNiT4TVQjKLfMSB0FYnU1MxZPuUqiihJiM7CRXvELfpUpDNPxjV-bCgUwOd5Il_dqLEu24X3tMt30k5GMbKDJ5RJLkmJtCFcKFlyhMYuigGtp0-Dfu7Yy3M/s320/IGREJA.png


        Chegando ao infinito azul, o Diabo encontrou Deus e o comunicou sobre a Igreja dizendo que faria todos os humanos negares suas virtudes e desceu a terra para colocar seu plano em prática.

        Uma vez na Terra o Diabo não perdeu um minuto, entrou para espalhar uma doutrina nova e extraordinária. Prometeu a seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias. Confessava que era o Diabo para provar para os seres humanos que ele não era tudo que Deus falava e que também era um pai e podia dar tudo que fosse pedido. A multidão veio mesmo aos seus pés.

        Ele clamava que as virtudes aceitas deveriam ser substituídas pelas naturais e legítimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram reabilitadas e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia. A ira e a gula agora eram muito bem vistas. Quanto a inveja, pregou friamente que era a virtude principal, preciosa, que chegava a suprir todas as outras.

        Ele chamava a fraude de braço esquerdo do homem, o direito era a força. A demonstração mais rigorosa e profunda foi à venalidade, dizia ele que era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se você pode vender a sua casa, o seu boi, porque não pode vender sua opinião? o teu voto, tua fé? Coisas que são mais do que sua, porque são sua própria consciência, isto é, tu mesmo?

        E assim o Diabo descia e subia, examinava tudo. Todas as formas de respeito foram condenadas por eles, a única exceção do interesse. Para arrematar a obra entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Não se devia dar ao próximo nada, a não ser a indiferença e em alguns casos, ódio ou desprezo. A única hipótese que lhe permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar a mulher alheia.

        As pessoas foram chegando e a igreja fundara-se, a doutrina propagara-se, não havia ninguém que a não conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse.

        O Diabo alcançou brados de triunfo. Muitos anos depois o Diabo notou que muitos dos seus fies, às escondidas praticavam as antigas virtudes, não todas nem integralmente, mas principalmente ligação a dias católicos e esmolas.

        A descoberta assombrou o Diabo pois haviam casos em todos os lugares. Não se deteve um instante, voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ansioso para conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus o ouviu calmamente, não o interrompeu, não o surpreendeu, não triunfou, sequer daquela agonia satânica.

        Pôs os olhos nele e disse-lhe:

        -- Que queres tu? É a eterna contradição humana.

        É interessante observar nesse conto a natureza contraditória do ser humano, parece que tudo aquilo que é proibido é o que queremos e se essa mesma coisa se torna permitida, já perde a graça e logo já queremos outro desafio e acabamos sempre insatisfeitos. Os homens, como seres imperfeitos, não conseguem viver com nada que for extremo, ainda mais com o que a religião diz que seus fiéis devem supostamente obedecer, sendo assim contraditórios a todo instante.

        Nossas atitudes se encaixam perfeitamente nessa “igreja do Diabo”, temos o sério hábito de cometer pecados capitais, trapacear, fazer adultério e mentir. O texto apresenta o Diabo com características essencialmente humanas, ele quer a todo o instante o poder e a dominação.

        Um detalhe muito importante de se perceber nessa obra é que Deus é apresentado assim como nós vemos ELE mesmo, com paciência, convivência com o livre arbítrio e muita sabedoria, pois em nenhum momento ele se opunha nas atitudes do Diabo e das pessoas.

        No entanto o que ocorre é que, assim como não somos capazes de seguir todas as virtudes exigidas por Deus, também não seriamos capazes de exercer todos os “ensinamentos” da igreja do Diabo, é a incapacidade do ser humano de seguir um extremo. A todo instante o homem esta entre o ‘bem’ e o ‘mal’ e não consegue aceitar apenas um destes.

Machado de Assis. A igreja do diabo – Resenha.

 

Entendendo a crônica:

 

01 – Qual foi o principal motivo que levou o Diabo a fundar a sua própria igreja na Terra?

      O Diabo estava cansado de ter muitos súditos, mas nenhuma organização, regras ou rituais formais. Além disso, ele acreditava que, enquanto as outras religiões se dividiam e combatiam entre si, a sua igreja seria única e destruiria todas as outras de uma vez por todas.

 

02 – Como o Diabo reabilitou os antigos pecados capitais e a fraude em sua nova doutrina?

      Ele pregou que as virtudes tradicionais deveriam ser substituídas pelas "naturais". Assim, a soberba, a luxúria e a preguiça viraram qualidades; a avareza foi declarada a "mãe da economia"; a inveja virou a virtude principal; e a fraude foi definida como o "braço esquerdo do homem" (sendo a força o direito).

 

03 – Qual foi o argumento do Diabo para justificar a "venalidade" (o ato de se vender/aceitar suborno) como um direito superior?

      Ele argumentou que, se o ser humano tem o direito de vender seus bens materiais — como uma casa ou um boi —, seria perfeitamente legítimo vender coisas que lhe pertencem ainda mais profundamente, como sua opinião, seu voto, sua fé e sua própria consciência.

 

04 – Que descoberta surpreendente e assombrosa o Diabo fez muitos anos após o sucesso de sua igreja?

      Ele notou que muitos de seus fiéis estavam, às escondidas, praticando as antigas virtudes cristãs que ele havia proibido, recorrendo especialmente à prática de dar esmolas e ao apego a datas católicas.

 

05 – Qual é a grande conclusão filosófica do texto sobre a "eterna contradição humana" dita por Deus?

      A conclusão é que o ser humano é incapaz de viver nos extremos. Assim como a humanidade não consegue seguir perfeitamente todas as virtudes exigidas por Deus, ela também falha em cumprir a maldade absoluta da igreja do Diabo. O homem é imperfeito e vive em uma constante oscilação entre o bem e o mal.

 

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

CRÔNICA: MEIO AMIGO - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Crônica: MEIO AMIGO

              José Fernandes 


        A conversa estava animada. Cada um defendia as virtudes de seu candidato com argumentos aparentemente irrefutáveis. Até aqueles candidatos que foram garis, engraxates, catadores de papel, e, hoje, são donos de mansões, castelos, bezerros de ouro, poderiam ser postos no altar, sem que o processo de canonização passasse pelos órgãos competentes. Os mais eloquentes diziam-se amigos desse ou daquele que, segundo seus valores, parecia ser o mais virtuoso. De repente, Empédocles se acorda de seu torpor schopenhaureano e vaticina:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgt_4aTRqZIpOlmvPrShwexUEYnsjO0c1OCstCEXrHQWM8qvY7k63tQtpvs6Gn4dii8DDTM6fIDJMd7r3qW1Ocwu1hcCA46yKeym7jp9_TWA0gY2MJJ9pqneGrmbJQ76KIit4eappNkwvQhO92ue6gKkHrlrC9p7l7ZJHdlv3KL-Cl0ggEmoFNUTZcvsFc/s320/images.jpg


        — Em política, não há amigos. O que há são pessoas interessadas em cargos e benesses do poder. Aliás, não conheço quem realmente tem amigos. Existem necessidades que, para serem satisfeitas, requerem certos fingimentos sociais que se assemelham à amizade. Uma vez satisfeitas, o amigo fingidor se afasta, e a amizade se desfaz. 

        — Desculpe-me, Empédocles, mas, como você mesmo o disse, isso não é amizade. Para mim, ela é um sentimento profundo que leva as pessoas a se admirarem e a se respeitarem em um nível tal que ultrapassa o meramente humano. Ela é uma concórdia que não repousa, obrigatoriamente, na identidade de opiniões, mas na harmonia do semelhante e, muitas vezes, do contrário. Acima da amizade, só há o amor, que implica uma complementação que se opera em nível metafísico. O amor verdadeiro aproxima o homem dos deuses, à medida que, no ato supremo, ocorre a ultrapassagem do físico, chamado pequeno êxtase, que, na realidade, se configura como transubstanciação, mistério e enigma do bem-querer. 

        — Ora, Filófilo, você está filosofando demais! A humanidade está tão podre que não merece esta ontologia da amizade e, muito menos, do amor, que é apenas uma forma de duas pessoas se fingirem humanas! 

        — Acredito que a humanidade está como está, porque não tem sido pensada, e pensada no amor. Os indivíduos têm agido como se fossem eternos, voltados para si mesmos. Quando se é egoísta, não há lugar para a amizade e, muito menos, para o amor. O egoísta é incapaz de enxergar o outro. Enxerga apenas e unicamente o próprio umbigo. O seu mundo termina na ponta do nariz ou nos números de sua conta bancária. Por isso, ele não pode ter amigos. O egoísta é amigo de si mesmo! É um narciso que ama a própria imagem! 

        Creio que se não houver pessoas em quem pudermos confiar, a quem pudermos amar, a vida perde o sentido, porque todos os bens que a perfazem, são conservados mediante a participação do outro. Queiramos ou não, o outro, a despeito de Sartre havê-lo dito o inferno, é a razão da existência. Empédocles, você já se imaginou sozinho no universo, sem alguém que o ame, em quaisquer dos sentidos que os gregos atribuíam às relações humanas, ao ponto de haver cinco ou seis palavras para designar as diversas acepções do amor e da amizade? 

        — Eu não disse que os homens não necessitam uns dos outros! Disse que tudo não passa de jogos de interesses. Uma vez satisfeitos, não há mais razão para a amizade, uma vez que ela é inteira dependente da sinceridade, e homem, hipócrita como é, não calha com lealdade, com lhaneza. Caro Filófilo, Machado de Assis é que estava certo quando, em Memórias póstumas de Brás Cubas, no capítulo Das negativas, disse: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria, e um filósofo, de quem não me lembro o nome, disse que a humanidade é um mal incurável. Ora, se a humanidade não presta, essa história de amizade e amor, de fidelidade e gratidão, passa a ser história para boi dormir.

        — Empédocles, apesar de você ser inflexível, de meus argumentos lhe parecerem obsoletos, ou absurdos, para mim, o pior ato praticado por um ser humano é a ingratidão. Se alguém me tiver feito algum bem, seja ele qual for, serei sempre reconhecido. A amizade que se acaba, como já dissera Aristóteles, é aquela fundada na utilidade e no prazer. Aquela que tem por sustentáculo o bem, a gratidão e a fidelidade, dura sempre, porque traz em si um outro bem que manifesta a humanidade do homem: a verdade. 

        — Ora, Filófilo, você não tem de ser fiel a vida toda, só porque seu amigo lhe fez um favor! Você é ingênuo demais! Acredita em coisas que existem apenas em sua imaginação. Onde já se viu acreditar na humanidade?! Entre humanos só existem meias amizades! 

        — Caro Empédocles, na minha concepção, existe meio mamão, meio abacate, meio da rua, meio de campo, meio da ponte; mas meio amigo, não. Como não há meio gol, meio grávida, meio seguro, também não existe meio amigo. Ou se é amigo, ou não se é! Adjuva nos, Domine!

José Fernandes.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o estopim da discussão entre os personagens e como o cenário inicial se conecta com a tese de Empédocles?

      O debate começa com uma conversa animada sobre política, onde as pessoas defendiam fervorosamente as "virtudes" de seus candidatos (inclusive criticando o enriquecimento rápido de alguns deles). Esse cenário de exaltação política serve de gancho perfeito para Empédocles intervir, pois, para ele, a política é o maior exemplo de que as relações humanas não são movidas por afeto, mas sim por interesses egoístas, cargos e benefícios.

02 – Como Filófilo conceitua a verdadeira amizade e o amor, diferenciando-os das relações utilitaristas?

      Para Filófilo, a verdadeira amizade é um sentimento profundo de admiração e respeito mútuo que supera o nível puramente humano, operando na harmonia entre semelhantes ou contrários. O amor estaria ainda acima, funcionando em um nível metafísico de complementação ("transubstanciação"). Para ele, essas relações só existem quando se supera o egoísmo e se é capaz de enxergar o outro de forma genuína.

03 – Empédocles utiliza referências literárias e filosóficas para sustentar seu pessimismo. Quais são elas e o que defendem?

      Ele é descrito inicialmente em um "torpor schopenhaureano" (referência ao pessimismo do filósofo Arthur Schopenhauer). Mais adiante, ele cita explicitamente Machado de Assis na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, relembrando a célebre frase sobre não transmitir a nenhuma criatura "o legado da nossa miséria". Ele usa essas bases para defender que a humanidade é hipócrita, incurável e que sentimentos como fidelidade e gratidão são apenas ilusões ou "histórias para boi dormir".

04 – De acordo com Filófilo, por que a humanidade chegou ao estado de "podridão" mencionado por seu colega?

      Filófilo argumenta que a humanidade está degradada porque "não tem sido pensada no amor". Segundo sua visão, as pessoas têm agido de forma puramente egoísta, como se fossem eternas e voltadas apenas para si mesmas (olhando apenas para o próprio umbigo ou conta bancária). Para ele, o egoísmo cega o homem, impedindo-o de vivenciar a amizade verdadeira.

05 – Qual contraponto Filófilo faz à famosa frase de Jean-Paul Sartre de que "o inferno são os outros"?

      Embora reconheça a perspectiva existencialista de Sartre, Filófilo defende que, queiramos ou não, "o outro é a razão da existência". Ele argumenta que a vida perde totalmente o sentido no isolamento completo, pois todos os bens e experiências que tornam a vida plena dependem obrigatoriamente da participação e do compartilhamento com o outro.

06 – Como a visão de Aristóteles sobre a amizade é utilizada no texto para mediar o conflito entre os dois debatedores?

      Filófilo cita Aristóteles para dar razão parcial a Empédocles, explicando que as amizades que realmente acabam e se desfazem são aquelas fundadas exclusivamente na "utilidade" e no "prazer" (o jogo de interesses que Empédocles tanto critica). No entanto, Filófilo usa o filósofo grego para provar que existe outro tipo de amizade: aquela baseada no bem, na gratidão e na verdade, que é eterna.

07 – Qual é o argumento final de Filófilo que justifica o título da crônica "Meio Amigo"?

      Filófilo encerra o debate rejeitando categoricamente a expressão "meia amizade" usada por Empédocles. Ele argumenta através da lógica dos absolutos: assim como existem coisas que admitem metade (meio mamão, meio de campo), existem conceitos que são binários — ou existem plenamente ou não existem. Para ele, "amigo" entra na mesma regra de "grávida" ou "gol": não existe meio termo. Ou se é amigo por inteiro, ou não se é amigo de forma alguma.

 

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

CRÔNICA: VIAGEM DE BONDE - FRAGMENTO - RAQUEL DE QUEIROZ - COM GABARITO

 Crônica: Viagem de Bonde – Fragmento

 

        Era o Bonde Engenho de Dentro, ali na Praça Quinze. Vinha cheio, mas como diz, empurrando sempre encaixa. O que provou ser otimismo, porque talvez encaixasse metade ou um quarto de pessoa magra, e a alentada senhora que se guindou ao alto estribo e enfrentou a plataforma traseira junto com um bombeiro e outros amáveis soldados, dela talvez coubesse um oitavo. Assim mesmo, e isso prova bem a favor da elasticidade dos corpos gordos, ela conseguiu se insinuar, ou antes, encaixar. 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMM0_5JFYIC3JxuHGRDXtASYuRFX9NAOah84EiAIpzw4hss5V-R6S4X-bloBppip4eHWY9VQ0zmJ0HDxrdZ3JueM1DpjkooEOqWSdDV-VLpHx1KOzelsJjx2lKj_kOH5whQ5rUzqBfe_ovBCion-OAKByLnTQZJCLWEYxfJm8g3YfBhJSR7XD2RE1Lshw/s320/1968-fimdosbondes.png 


E tratava de acomodar-se gingando os ombros e os quadris à direita e à esquerda, quando o bonde parou em outro poste, e o soldado repetiu o tal slogan do encaixe. E foi subindo − logo quem! − uma baiana dos seus noventa quilos ... E aquela baiana pesava seus noventa quilos mas era nua, com licença da palavra, pois com tanta saia engomada e mais os balangandãs, chegava mesmo era aos cem...

 

O Melhor da crônica brasileira. Raquel de Queiroz / Viagem de Bonde. Editora Olympio. Rio de Janeiro/1980. p. 53. 

Entendendo a crônica:

01 – O trecho que apresenta característica de humor é:

(A) “Era o Bonde Engenho de Dentro, ali na Praça Quinze. Vinha cheio, mas como diz, ...”

(B) “Assim mesmo, e isso prova bem a favor da elasticidade dos corpos gordos, ela conseguiu se insinuar, ou antes, encaixar.”

(C) “E aquela baiana pesava seus noventa quilos mas era nua, com licença da palavra, pois com tanta saia engomada e mais os balangandãs, chegava mesmo era aos cem...”.

(D) “quando o bonde parou em outro poste, o soldado repetiu o tal slogan do encaixe.”

 

02 – O que a expressão popular “empurrando sempre encaixa” mencionada no início do texto indica sobre a situação do bonde?

(A) Que o bonde estava vazio e os passageiros viajavam confortáveis.

(B) Que o bonde estava tão lotado que as pessoas acreditavam, com otimismo exagerado, que sempre caberia mais alguém.

(C) Que o motorista do bonde guiava de forma violenta, empurrando os outros veículos.

(D) Que os soldados expulsavam as pessoas do bonde para que os outros pudessem subir.

03 – De acordo com o narrador, por que o peso real da baiana passava de noventa para cerca de cem quilos?

(A) Por causa do peso das suas roupas engomadas e dos seus acessórios (balangandãs).

(B) Porque ela carregava muitas sacolas de compras pesadas.

(C) Devido ao movimento de balanço (gingado) que ela fazia ao subir no bonde.

(D) Porque ela estava acompanhada de outra pessoa no estribo do bonde.

 

04 – Para conseguir espaço e se acomodar em meio à multidão na plataforma do bonde, a "alentada senhora" utilizou qual estratégia física?

(A) Pediu educadamente para que os soldados e o bombeiro descessem.

(B) Sentou-se no chão da plataforma traseira.

(C) Insinuou-se para dentro gingando os ombros e os quadris para os lados.

(D) Esperou que o bonde esvaziasse no poste seguinte.

 

05 – Quem eram as pessoas que já estavam viajando especificamente na "plataforma traseira" junto com a senhora que subiu?

(A) Apenas a baiana de noventa quilos.

(B) Um bombeiro e outros amáveis soldados.

(C) O cobrador e o motorneiro do bonde Engenho de Dentro.

(D) Apenas passageiros magros que ocupavam um quarto do espaço.

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

CRÔNICA: NINHO DE CUCO - DILÉIA FRATE - COM GABARITO

 Crônica: Ninho de Cuco


        O cuco é o mais mafioso dos pássaros. Não gosta muito de trabalhar e adora ocupar o ninho dos outros.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8kSC3x3gmleMwwYGgUjGFrokcSMaTeyyiSMinSNdawkFaHYqgiXdueCFq3E42WBFiYK_ieosX-0ENZ_riIAZguz0ypUS8OBJ44UlZX5OdWlKiaL4kyI4D45ey0d_1-_HAtxODvb0aiMsKxLxdKq1nuTC8QSAsf6D7Y4Z8yYQDCafbwXLdR_TJSN8K51I/s320/CUCO.jpg 


        Foi assim que, um dia, um pardal muito bondoso, emprestou o seu ninho para o cuco e pediu que, em troca, ele ficasse por algumas horas tomando conta da ninhada toda.

        Saiu. Quando voltou, encontrou o cuco numa zorra danada, bagunçando seus ovinhos:

        -- Quer dizer que eu lhe empresto o ninho e você faz essa bagunça?

        Ao que o cuco respondeu:

        -- Eu estou retribuindo a sua hospitalidade. Nós, cucos, somos assim mesmo: só posso ser como sou.

        O pardal, cheio de raiva, deu uma bicada no cuco, que, ofendido, disse:

        -- Mas o que é isso, amigo?

        E o pardal respondeu:

        -- Essa bicada é tudo o que eu lhe posso dar, no momento. Sinto muito, mas nós, pardais, somos organizados, e você e seu ovinho vão ter que cair fora do meu ninho.

        E o cuco, bagunceiro, foi baixar noutro terreiro: mais precisamente no buraco vazio de um relógio, onde, desde então, dá duro para sobreviver trabalhando em turnos de meia hora.
Cuco-cuco-cuco!

FRATE, Diléia. Histórias para acordar. Companhia das Letrinhas.


Entendendo a crônica:


01 – "Mas o que é isso, amigo?". Na frase acima, a palavra grifada se refere ao:
(A) cuco.
(B) pardal.
(C) relógio.
(D) ovinho.

02 – Na frase "... encontrou o cuco numa zorra danada", a expressão grifada significa que o cuco estava:
(A) fazendo pouco barulho.
(B) dormindo profundamente.
(C) chocando os ovinhos.
(D) desorganizando o ninho.

03 – O título do texto é Ninho de Cuco porque:
(A) o cuco se aproveita do ninho dos outros pássaros.
(B) o cuco constrói seu próprio ninho.
(C) o pardal dá seu ninho para o cuco.
(D) dentro de um relógio há um ninho de cuco.

04 – O pardal brigou com o cuco porque o cuco:
(A) não gosta de trabalhar.
(B) abandonou o ninho do pardal e foi para o relógio.
(C) bicou o pardal.
(D) bagunçou o ninho do pardal.

05 – O que aconteceu ao cuco depois que foi expulso do ninho do pardal?
(A) Foi parar no terreiro.
(B) Foi para o seu ninho.
(C) Foi morar no relógio.
(D) Foi cantar no terreiro.

06 – Na frase "E o cuco, bagunceiro, foi baixar noutro terreiro: mais precisamente no buraco vazio de um relógio...", qual a função dos dois pontos?
(A) Finalizar uma frase.
(B) Introduzir uma explicação.
(C) Interromper a frase.
(D) Destacar uma expressão.

terça-feira, 9 de junho de 2026

CRÔNICA: UMA PÁGINA DO DIÁRIO-DO- PAPAI-NOEL - JÔ SOARES - COM GABARITO

 Crônica: Uma página do Diário-do-Papai-Noel

               Jô Soares

 Querido diário, ando meio deprimido. Acho que esqueceram de mim. O Natal chegou e eu não recebi nem um cartão de boas-festas. As renas já estão atreladas no meu trenó, os anõezinhos já prepararam todos os presentes, mas não me sinto com ânimo pra sair. Foi um ano difícil. Quando eu penso que mudei aqui pro Polo Norte só por causa do aluguel que era mais barato. Agora o proprietário ameaçou cortar a calefação se eu não pagar o dobro. A crise está pegando todo mundo. Em novembro, os anõezinhos ameaçaram parar com os brinquedos se não tivessem 30% de aumento.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigal9cpmJCQyM5SPMIdTOWz77tmTjlbADgrPhyphenhyphen_ykB-nNsIVnbxYH6qvQN3UrrFwkZoc410XaGbq0wKtcIPnUeNvuy0j23sz7G_ZQ2nwel15UAPVlmAgBCX2ZUeBSAJKr3uFydokEHPeE7f9nvLtQYRXjc0ch2bMkiOOGudPVDZ5hbWFq6peq2NsQNego/s1600/images.jpg


            Está fazendo um frio de rachar. Já pensou o choque térmico que vai ser quando eu chegar no Brasil? Depois, enjoei de só me vestir de vermelho. Hoje em dia, com essa cor, só mesmo eu e o Chapeuzinho. O vermelho está fora de moda até na Rússia. Também me irrita muito ter de ficar o tempo todo rindo: “Ho! Ho! Ho!”. No ano passado uma criancinha de 8 anos me perguntou: “Está rindo de quê, velho bobo?” e deu um puxão na minha barba.

            Não existe mais respeito. Um outro menino brasileiro que estava aprendendo inglês descobriu que o meu nome lá nos Estados Unidos é “Santa Claus”, e quando eu passava ficava gritando: “Tá boa, Santa?” Pra piorar as coisas, nesta época, o trânsito fica um inferno. No ano passado peguei cinco multas por estacionar o trenó em lugar proibido. Além disso, devo confessar que engordei um pouco. Estou com medo de ficar entalado em alguma chaminé.

           Depois, o espírito do Natal está muito diferente. Em tudo que é canto tem pessoas brigando. Juro que se eu aparecer no céu gritando “Paz no mundo! Paz no mundo!” vou ouvir alguém lá de baixo perguntando: “Onde, Onde?”

            O Natal já não é o mesmo. Nem as crianças. Um menino me escreveu dizendo que só queria brinquedinhos movidos a bateria. Sabe pra quê? Pra ficar brincando com as pilhas.

             E as árvores? Está todo mundo reclamando do preço dos pinheiros. Realmente é um absurdo. Aliás, como foi Deus quem fez as árvores, era até melhor que Ele distribuísse diretamente da fábrica ao consumidor.

             Pois é, querido diário, eu fico aqui reclamando, mas daqui a pouco, como todo ano, parto pro trabalho. Afinal de contas, sou profissional. Seria tão bom passar um Natal em casa, com a família!

              A verdade é que eu não tenho mais jeito pra ser Papai Noel.

                                                                                                 (fragmentado)

 

Entendendo o texto

 

01. O texto traz o Papai Noel do reino da fantasia para os dias atuais.

Sobre esse Papai Noel, só não se pode afirmar que:

a.   Vivencia conflitos como dos homens comuns.

b.   Como a maioria das pessoas, não se preocupa com o desaparecimento do espírito do Natal.

c.   É criticado por sua aparência risonha num mundo que nem sempre oferece motivos para risadas.

d.   Como todos, também gosta de ser lembrado por ocasião das festas de fim de ano.

e.   Também sofre desrespeito por parte de alguns homens.

 

02. “Depois, o espírito do Natal está muito diferente.”

“O Natal já não é mais o mesmo.”

Em que aspectos, segundo o Papai Noel, o Natal mudou?

 Resposta: Pessoal de acordo com o texto.

Sugestão:  O comportamento das pessoas: O espírito natalino se perdeu, pois há pessoas brigando em todos os cantos em vez de haver paz.

 As crianças: Elas perderam a inocência e o respeito; agora são interesseiras (um menino só queria o brinquedo para brincar com as pilhas) e desrespeitosas com o Papai Noel.

 O comércio/consumismo: O preço dos pinheiros (árvores de Natal) tornou-se um absurdo.

 03. “O Natal chegou, (...) mas não me sinto com ânimo para sair.”

De acordo com o texto, o desânimo de Papai Noel tem como causa tudo isto, EXCETO:

 a.   O intenso congestionamento da época de Natal.

b.   As atitudes desrespeitosas das crianças.

c.   A insatisfação com a cor da roupa que o caracteriza.

d.   A melancolia que o atinge sempre nessa época do ano.

e.   A irritação sentida por ficar fazendo o que não deseja.

04. “Juro que se eu aparecer no céu gritando ‘paz no mundo! Paz no mundo!’, vou ouvir alguém lá de baixo perguntando: ‘Onde? Onde?’”

Por essa fala do Papai Noel, só não se pode interpretar que a paz:

a.   Já não é comum na vida dos homens.

b.   É importante para alguns.

c.   Desperta ainda algum interesse.

d.   É motivo de sofrimento para determinadas pessoas.

e.   Ainda é uma busca dos homens.

Observe o fragmento de Carlos Drummond de Andrade:

“O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças.

E será Natal para sempre.”

                                                    Organizar o Natal

 

05. O poeta idealiza a criança como símbolo de um autêntico Natal.

Comparando a ideia acima com o texto lido, pode-se dizer que a relação entre eles é de:

a.   Contradição

b.   Confirmação

c.   Consequência

d.   Causa

e.   Coincidência

 

06. “A crise está pegando todo mundo.”

São sintomas dessa crise a que se refere Papai Noel, EXCETO:

a.   Valor elevado dos novos brinquedos eletrônicos.

b.   Ameaça de greve dos anões.

c.   O alto preço dos produtos natalinos.

d.   Valor do aluguel sujeito a reajustes.

e.   A mudança de Papai Noel para o Polo Norte.