Poema: Creio no mundo como num malmequer
Fernando
Pessoa
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiRUqag09_g_U1mbGr5loKROVFkWkwAj0qeCa3xEo55bRCxC3djqW5IFpFBkk2O0UI4fS6O1dEf8ntPtf4y_OEOzK0G2HpDpvN_E1T7gH4ho_Z8Rb6PNRWIdcmeg9UVxkD_Prx5lAdL5x1BPKL1Cc29-fFnTmonWOW4ZjZfSoWU0STiEkwfgL_68XDPzmY/s1600/images.jpgO Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Fernando Pessoa.
Entendendo o poema:
01
– Qual é o significado da comparação inicial "Creio no mundo como num
malmequer"?
A comparação com
um malmequer (uma flor simples do campo, como a margarida) simboliza uma crença
na realidade baseada na simplicidade, na evidência e na pureza visual. O eu
lírico não precisa de dogmas, teorias ou religiões complexas para acreditar na
existência do universo; ele crê no mundo da mesma forma direta e natural com
que aceita a existência de uma flor comum: simplesmente "porque o
vejo".
02
– Por que o eu lírico afirma que "pensar é não compreender" e define
o pensamento como estar "doente dos olhos"?
Para Alberto
Caeiro, o pensamento abstrato deforma a realidade. Ao tentar intelectualizar o
mundo, o ser humano distancia-se da verdade imediata das coisas. A metáfora
"pensar é estar doente dos olhos" sugere que a filosofia e a
racionalização funcionam como uma visão embaçada ou distorcida, que impede o
homem de enxergar as coisas como elas realmente são em sua crueza e beleza
física.
03
– De acordo com a segunda estrofe, qual é a verdadeira finalidade do mundo em
relação aos seres humanos?
O texto afirma
categoricamente que o mundo não foi feito para ser transformado em objeto de
especulação intelectual ("O Mundo não se fez para pensarmos nele"). A
verdadeira finalidade da existência é a pura contemplação sensorial e a
harmonia com o real: fomos feitos para "olharmos para ele e estarmos de
acordo", isto é, para aceitar a natureza sem questionamentos ou rebeldias
metafísicas.
04
– Como o eu lírico define a sua própria relação com o conhecimento e com a
filosofia na última estrofe?
O eu lírico
recusa qualquer sistema filosófico tradicional ao declarar: "Eu não tenho
filosofia; tenho sentidos...". Ele substitui o império da razão pela
soberania das sensações físicas (ver, ouvir, tocar). Ele admite que não possui
um saber científico ou acadêmico sobre a Natureza, mas que se conecta com ela
através de uma experiência puramente sensorial, prática e existencial.
05
– Como o conceito de amor é articulado nos versos finais para justificar o
mistério da Natureza?
O eu lírico
explica que seu elo com a Natureza nasce do amor, e o amor, por definição,
prescinde da lógica e do entendimento intelectual. Ao escrever que "quem
ama nunca sabe o que ama / Nem sabe por que ama, nem o que é amar", ele
defende que o sentimento autêntico é involuntário e inexplicável. Portanto, não
saber definir o que é a Natureza não diminui a sua relação com ela; pelo
contrário, é justamente essa falta de explicações intelectuais que valida a
pureza do seu amor pelo mundo.
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