Artigo de opinião: A ficção como lugar da fantasia
Luigi Pirandello
O
autor italiano Luigi Pirandello, ao final de seu romance “O falecido Mattia
Pascal” (que é, a propósito, meu livro favorito) tomou a liberdade de inserir
em 1921 (na terceira edição da obra) um apêndice ao qual deu o nome de “Sobre
os escrúpulos da fantasia”.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEguK3ML7B9anELBfe6n6PwNjYmVkBu-alsFsvJ4qGnks7YuxMt8g4ottJYZPzhKYFUgDETIsSryHgA0C0p8ZOvwgTTrjLHluEScoGZ2R_qjPuP29ft6Lzn7H4p5TsYD2iUzVy-A3iy8G7kfvqWtmb5dpzR5u5SK2-2gGpySdiBo1GmMOXcAE1FXPPXnJAU/s320/face-622904_1280.jpg Pirandello,
perspicaz em trazer aos leitores histórias para surpreendê-los quanto a
intrincada psique humana, justifica seu estilo ao mesmo tempo em que aponta e
responde aos excessos críticos dirigidos às obras de arte que escapam a um
retrato da vida chamada “normal”. Ao dizer que os absurdos da vida não precisam
parecer verossímeis porque são verdadeiros, ao contrário dos da arte que, para
parecem verdadeiros, precisam ser verossímeis e sendo verossímeis, deixam de
ser absurdos, o autor marca a autonomia que, arte e vida tem (ou devem ter)
entre si. Ou seja: não se pode julgar a arte pela vida. Contudo, será mesmo que
a arte e a vida conseguem efetivamente ser percebidas sob critérios distintos?
Não seriam as duras críticas feitas à obra de Pirandello um indicativo de que
algo de inquietante para o humano emerge de suas histórias, numa arte que faz
questão à vida?
O
autor nos alerta que somos acostumados a reconhecer o comportamento humano por
meio de padrões – estamos habituados a lidar com o humano na condição de homem
e não de sujeito; trabalhamos com a percepção do “homem médio”. A arte em geral
(embora nesse caso falemos especificamente em literatura) lidará com cada um
desses sujeitos naquilo que eles tem de mais idiossincrático. A literatura
rompe com padrões e expectativas, portanto.
Contudo,
creio que a vida é quem primeiro realiza essa quebra, embora nós não estejamos
nunca preparados para lidar com o desconhecido e imprevisível que é o nosso
semelhante. A noção de outro nos perturba desde logo pois supõe um deslocamento
da nossa própria identidade. Daí nossa dificuldade (ou impossibilidade) em
cumprir, por exemplo, o mandamento “amar ao próximo como a ti mesmo”. A
psicanalista Maria Rita Kehl fala a esse respeito ao afirmar que “amar (ao
estranho, diferente de mim) como a mim implica a anulação de toda a alteridade.
Anulação bastante tentadora: ao fazer do próximo um idêntico, suprimindo nele
tudo que é estranho ao eu, o sujeito tenta também se livrar do outro que o
habita”.
A
inquietação provocada pelo absurdo quando este emana do campo da arte talvez
incomode tanto porque nos aponte para o indomável que é o outro, capaz do que,
não sabemos. “Se eu sou este e ele se assemelha tanto a mim, mas não é eu, quem
é ele? Diante dele, quem sou eu? Só depois de nos desestabilizar dessa maneira
– se aguentarmos o tranco – é que o próximo pode se revelar fonte de
aprendizado, de experiências compartilhadas, de novas identificações”.
A
arte tem o poder de nos apresentar um grande número de diferentes – e nos
mostra que não é possível compreendê-los, mas é preciso fazer com eles uma
interlocução. Até onde estamos dispostos a isso? Não seria o absurdo na arte
uma denúncia à nossa incapacidade de diálogo com o absurdamente humano, sempre
inapreensível?
É
interessante observar que pela valorização do particular a arte literária tem
grande impacto no coletivo – um leitor aprende pouco a pouco a se deparar com
os mais variados tipos humanos e a tolerar, também pouco a pouco, tê-los todos
dentro de si. Fernando Pessoa talvez tenha sido o escritor que mais levou a
efeito essa ânsia, a partir da criação de vários heterônimos que lhe permitiram
sentir e olhar o mundo a despeito de si. Não seria o aceite aos absurdos da
arte uma via possível de tolerância para os absurdos da vida?
Parece-nos
que é no desapego ao critério geral de “humanidade” e pela empatia com os mais
variados tipos humanos que podemos desenvolver autocrítica – é preciso
construir novas maneiras de significar a relação do homem com seu semelhante.
Para Pirandello, a propósito, a humanidade não pode mesmo existir em abstrato –
existe, sim, dentro da variedade de homens – os quais são capazes de cometer
absurdos que não necessitam parecer verossímeis porque são verdadeiros.
As
particularidades de cada sujeito, acredito, falam de seus sofrimentos e
inquietações, os quais segundo Pirandello são situações da vida que incentivam
o raciocinar-se a felicidade é gozo pleno, é nas situações mais improváveis e
mesmo inverossímeis que podemos enxergar mais a fundo o que é da condição
humana, ainda que tais absurdos possam escapar àquilo que à primeira vista
pensamos nos aproximar do conceito de "universalmente humano".
O
“anormal” da vida cotidiana e das personagens de Pirandello parece não ser mais
do que o estouro de um imenso real – aquele que, quando enxergado, avassala. Os
personagens de um livro de literatura vestem máscaras, as alternam e a máscara
por vezes pode rasgar-se e ser pisoteada diante do leitor. Nós, sempre
investidos de máscaras temos, me parece, dificuldade em vê-las arrancadas em
literatura, na ficção que surge como factível.
Diz
Pirandello: "É a máscara para uma representação, o jogo dos papéis, aquilo
que desejamos ou devemos ser; aquilo que parecemos ser aos outros, enquanto o
que somos, até certo ponto, nem nós mesmos sabemos. É a metáfora desajeitada e
incerta de nós mesmos, a construção frequentemente complexa que fazemos de nós
mesmos e que os outros fazem de nós”
Num
mundo que nos impõe o padronizado, o óbvio e a aparência, o quanto podemos
suportar personagens viscerais?
A
provocação de Pirandello me faz pensar que o absurdo mais aceito na vida (e
menos na arte) não é o inverossímil, mas a capacidade humana de sustentar por
tanto a máscara e ser marionete de si mesmo – não seria a arte uma ferramenta
de denúncia de toda a potencialidade da vida, que nos desconforta tanto
justamente por nos lembrar que o desejo transcende aquilo que é nomeável e por
vezes, representável?
A
vida prescinde de qualquer verossimilhança. Por que a nossa dificuldade em
aceitar na arte o absurdo? Uma perspectiva de leitura a partir do ensaio
"Sobre os escrúpulos da fantasia".
Acredito
que sim, afinal, por ironia da arte ou da vida, o romance Falecido Mattia
Pascal, considerado por muitos à época de sua publicação como uma história sem
a necessária pregnância com a realidade, encontrou alguns anos depois – nas folhas
de um famoso jornal – a sua confirmação em uma notícia verdadeira. A arte pode,
então, preceder a vida? Já disse Pirandello: de quais inverossimilhanças reais
a vida é capaz, até nos romances onde sem querer ela é cópia da arte?
O
título do meu texto afirma a ficção como lugar da fantasia – penso que a arte,
a qual surge como faculdade imaginativa, como o lugar do que não tem ligação
estreita com a realidade, também cumpre a função de nos ligar à fantasia em
sentido para além da inventividade. Quando destaco a ficção como lugar da
fantasia, me refiro à fantasia segundo seu lugar em psicanálise – o lugar do
desejo.
A história de “O falecido Mattia Pascal”
me provoca justamente na medida em que questiona até que ponto podemos usar
diferentes máscaras e até que ponto elas podem confundir-se com nós mesmos.
Referências: PIRANDELLO, Luigi. O
falecido Mattia Pascal; tradução de Rômulo Antônio Giovelli e Francisco Degani.
São Paulo: Ed. Abril, 2010.
KEHL, Maria Rita. Sobre ética e
psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
http://obviousmag.org/fotoverbese/2015/03/a-ficcao-como-lugar-da-fantasia-luigi-pirandello.html.
Entendendo o artigo:
01 – Que importante
distinção Pirandello faz entre os "absurdos da vida" e os
"absurdos da arte" no seu ensaio "Sobre os escrúpulos da
fantasia"?
Pirandello afirma
que os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis (semelhantes à
verdade) porque eles já são verdadeiros pelo simples fato de acontecerem. Por
outro lado, os absurdos da arte, para que o público o aceite como verdadeiros,
precisam ser verossímeis. Ao se tornarem verossímeis para a audiência, eles
deixam de parecer absurdos, marcando assim a autonomia entre a arte e a vida.
02 – De acordo com o
texto, de que maneira a literatura rompe com os padrões e expectativas da
sociedade?
O texto explica que a sociedade está
acostumada a lidar com o "homem médio" e a reconhecer o comportamento
humano através de padrões padronizados (a condição de homem). A literatura
rompe com isso porque ela lida com o sujeito naquilo que ele tem de mais
idiossincrático, ou seja, em suas características mais particulares, únicas e
profundas.
03 – Como a
psicanalista Maria Rita Kehl explica a nossa dificuldade em cumprir o
mandamento "amar ao próximo como a ti mesmo"?
Ela explica que
amar o outro (o estranho, o diferente) como a si mesmo implica anular toda a
alteridade (a diferença do outro). O sujeito tenta transformar o próximo em
alguém idêntico a ele, suprimindo o que há de diferente, como uma tentativa tentadora
de se livrar também do "outro" (das próprias estranhezas e
inconsciente) que habita em si mesmo.
04 – Qual é o
impacto coletivo que a arte literária provoca ao valorizar o
"particular" de cada personagem?
O impacto é o
desenvolvimento da tolerância e da autocrítica. Ao entrar em contato com a
literatura, o leitor aprende pouco a pouco a se deparar com os mais variados
tipos humanos e a tolerar a ideia de que possui um pouco de todos esses tipos
dentro de si mesmo. O texto cita Fernando Pessoa e seus heterônimos como o
ápice dessa experiência.
05 – O que significa
o conceito de "máscara" na visão de Pirandello citada no artigo?
A máscara
representa o jogo de papéis na sociedade: aquilo que desejamos ou devemos ser,
e a imagem que parecemos ter para os outros. Ela é definida pelo autor como uma
"metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos", uma construção
complexa que fazemos e que fazem de nós, escondendo o que realmente somos (algo
que muitas vezes nem nós mesmos sabemos).
06 – Qual é a ironia
real envolvendo o romance "O falecido Mattia Pascal" que o autor do
artigo utiliza para fechar seu argumento?
A ironia é que,
quando o romance foi publicado, muitos críticos o atacaram dizendo que a
história era absurda e não tinha ligação com a realidade (faltava-lhe
verossimilhança). Contudo, anos mais tarde, as páginas de um jornal publicaram
uma notícia verdadeira que confirmava exatamente os mesmos fatos da história
fictícia de Pirandello, provando que a arte pode preceder a vida.
07 – O que o autor
do artigo quer dizer quando afirma que a ficção é o "lugar da
fantasia" no sentido psicanalítico?
Ele esclarece que
não está usando a palavra "fantasia" apenas como sinônimo de
inventividade ou imaginação pura. Ele se refere à fantasia em seu sentido
psicanalítico: o lugar do desejo. A ficção serve como esse espaço onde os
desejos humanos transcendem o que é nomeável e revelam as profundezas e os
conflitos da nossa psique.
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