Crônica: A CONCEPÇÃO DE FELICIDADE NA ÉTICA ARISTOTÉLICA
João Francisco P. Cabral
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como essas são feitas em todas as épocas da história humana. E desde a
antiguidade clássica dos gregos, já havia muitos modelos de respostas para
elas. Uma delas é a fornecida pelo filósofo Aristóteles, famoso por sua
Metafísica. Vamos nos aprofundar um pouquinho mais no que ele tem a nos dizer.
Em
seu livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles consagrou a tão famosa ética do
meio-termo. Em meio a um período de efervescência cultural, o prazer e o estudo
se confrontam para disputar o lugar de melhor meio de vida. No entanto, a
sobriedade de nosso filósofo o fez optar por um caminho que condene ambos os
extremos, sendo, pois, os causadores dos excessos e dos vícios.
A
metrética (medida) que usa o estagirita (Aristóteles era chamado assim por ter
nascido em Estagira) procurava o caminho do meio entre vícios e virtudes, a fim
de equilibrar a conduta do homem com o seu desenvolvimento material e
espiritual. Assim, entendido que a especificidade do homem é a de ser um animal
racional, a felicidade só poderia se relacionar com o total desenvolvimento
dessa capacidade. A felicidade é o estado de espírito a que aspira o homem e
para isso é necessário tanto bens materiais como espirituais.
Aristóteles
herda o conceito de virtude ou excelência de seus antecessores, Sócrates e
Platão, para os quais um homem deve ser senhor de si, isto é, ter autocontrole
(autarquia). Trata-se do modo de pensar que promove o homem como senhor e
mestre dos seus desejos e não escravos destes. O homem bom e virtuoso é aquele
que alia inteligência e força, que utiliza adequadamente sua riqueza para
aperfeiçoar seu intelecto. Não é dado às pessoas simples nem inocentes,
tampouco aos bravos, porém tolos. A excelência é obtida através da repetição do
comportamento, isto é, do exercício habitual do caráter que se forma desde a
infância.
Segundo
Aristóteles, as qualidades do caráter podem ser dispostas de modo que
identifiquemos os extremos e a justa medida. Por exemplo, entre a covardia e a
audácia está a coragem; entre a belicosidade e a bajulação está a amizade;
entre a indolência e a ganância está a ambição e etc. É interessante notar a
consciência do filósofo ao elaborar a teoria do meio-termo. Conforme ele,
aquele que for inconsciente de um dos extremos, sempre acusará o outro de vício.
Por exemplo, na política, o liberal é chamado de conservador e radical por
aqueles que são radicais e conservadores. Isso porque os extremistas não
enxergam o meio-termo.
Portanto,
seguindo o famoso lema grego “Nada em excesso”, Aristóteles formula a ética da
virtude baseada na busca pela felicidade, mas felicidade humana, feita de bens
materiais, riquezas que ajudam o homem a se desenvolver e não se tornar
mesquinho, bem como bens espirituais, como a ação (política) e a contemplação
(a filosofia e a metafísica).
Por João Francisco P.
Cabral. Colaborador Brasil Escola.
Entendendo a crônica:
01 – O que é a ética
de acordo com a etimologia da palavra ethos e qual o seu objeto de estudo?
A palavra ética deriva do termo grego ethos, que significa comportamento, ação ou atividade. Portanto, a ética é definida no texto como o estudo científico e filosófico do comportamento humano, englobando a análise das ações, das escolhas e dos valores que orientam a vida dos indivíduos em sociedade.
02 – Em que consiste
a famosa "ética do meio-termo" de Aristóteles e o que ela condena?
A ética do meio-termo consiste na busca por uma justa medida (ou metrética) entre os extremos da conduta humana, equilibrando o desenvolvimento material e espiritual do homem. Ela condena categoricamente os extremos — tanto o cultivo exclusivo do prazer quanto o ascetismo ou estudo radical —, apontando que o excesso e a falta são os verdadeiros causadores dos vícios e dos desvios de caráter.
03 – Como
Aristóteles define a felicidade e qual a relação dela com a natureza essencial
do ser humano?
Para Aristóteles, a felicidade é o estado de espírito máximo a que todo homem aspira. Como a especificidade que define e diferencia o ser humano dos outros seres é o fato de ele ser um "animal racional", a verdadeira felicidade só pode ser alcançada através do total desenvolvimento dessa capacidade racional. Para que esse estado seja pleno, o indivíduo necessita de um equilíbrio entre bens materiais (riquezas que evitam a mesquinhez) e bens espirituais.
04 – De acordo com o
texto, como um indivíduo alcança a excelência (virtude) e quem é o homem
virtuoso para Aristóteles?
A excelência não é um dom nato, mas sim um hábito obtido através da repetição do comportamento e do exercício constante do caráter, idealmente cultivado desde a infância. O homem virtuoso é aquele que possui autocontrole (autarquia), sendo senhor e mestre de seus próprios desejos. Ele sabe aliar inteligência e força, utilizando adequadamente seus recursos e riquezas para aperfeiçoar seu intelecto, distanciando-se tanto da ignorância ingênua quanto da bravura tola.
05 – Como funciona a
aplicação prática do meio-termo em relação às qualidades do caráter e por que
os extremistas não conseguem enxergá-lo?
Na prática, o
meio-termo situa-se exatamente no centro entre dois extremos viciosos. O texto
exemplifica que a coragem é a justa medida entre a covardia e a audácia, assim
como a amizade está entre a belicosidade e a bajulação. Os extremistas não
conseguem enxergar esse ponto de equilíbrio porque são inconscientes da
moderação; assim, quem está em um extremo sempre acusará o homem do meio-termo
de praticar o vício oposto (como na política, onde o moderado é rotulado de
radical pelos conservadores e de conservador pelos radicais).
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