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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - III - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: O dia da criação – III – Fragmento

           Vinícius de Moraes

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez polos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.


Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg4XofF36UUBztJArGKbnAihabjrFm5eRe73fTkmgbHfVHlvfHj70-bC6W2U9G2aSBWziABg3s_Pe55TfJcBA9JYS5iV9hnxedUBLzNPOxnxXKG5TV0k5hw4T_2n5TE21mG5AOGZZzkZx4S1RLxBhcz6aaBDnVa9n26pDE8teIjqR3sJ_Kfly-mywLR0s8/s320/images.jpg


Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.

Entendendo a poesia:

01 – No fragmento III, o eu lírico faz uma clara alusão aos eventos narrados no livro do Gênesis. De que maneira ele avalia a decisão divina de criar a humanidade no Sexto Dia e qual subversão do texto sagrado ocorre nessa crítica?

      O eu lírico avalia a criação do homem e da mulher de forma francamente negativa, afirmando que "o homem não era necessário" e que seria melhor se Deus tivesse descansado antes de criá-los. A subversão da narrativa bíblica reside no fato de que, no Gênesis, a criação do ser humano é apresentada como o ápice perfeito da obra divina; no poema, porém, essa mesma ação é vista como um erro ou um impulso injustificado ("porque o Senhor cismou em não descansar"). O tom solene do texto religioso é desconstruído para apresentar a criação humana como a origem de todo o sofrimento e absurdo existencial.

02 – Ao se dirigir à figura feminina, o poema a define como "ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada". Como a mulher é caracterizada nesses versos e qual o seu papel na visão do eu lírico sobre a condição humana?

      A mulher é caracterizada por meio de uma metáfora que a conecta diretamente às forças primordiais e insaciáveis da natureza. Ao associá-la a um "ser vegetal" e detentora do "vórtice supremo da paixão", o eu lírico a coloca como o motor central dos desejos e da intensidade vital humana. Ela representa, ao mesmo tempo, o mistério insondável ("dona do abismo") e a atração irresistível que perpetua a existência da espécie humana, ligando o homem tanto à beleza natural quanto ao sofrimento das paixões inconselháveis.

03 – O eu lírico projeta como seria o planeta Terra caso o Criador não tivesse moldado o homem. Quais aspectos da natureza são enaltecidos nessa projeção e o que a ausência humana representaria para o mundo?

      Na ausência da humanidade, a natureza é descrita em um estado de "indizível beleza e harmonia", marcada pelo equilíbrio entre a flora, a fauna e os astros ("plano verde das terras e das águas em núpcias", "pureza maior do instinto"). A ausência humana representaria a preservação do mundo natural sem a violência da exploração (sem "degola dos animais e asfixia dos peixes") e sem o peso da dor moral. Sem o homem, o planeta seria um ecossistema puro, em que os seres vivos existiriam de acordo com seus instintos em uma paz perfeitamente integrada.

04 – O poema contrapõe o estado natural à existência em sociedade. Como a lista de obrigações e instituições civis/religiosas ("escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia") reforça a tese do poema sobre o fardo da vida moderna?

      A enumeração dessas instituições funciona como uma crítica à artificialidade da vida em sociedade. Cada um dos elementos citados representa uma amarra formal que disciplina, burocratiza ou pune o ser humano ao longo da vida (da infância com a escola até a morte com a missa de sétimo dia). Essa lista demonstra que o ato da criação divina não trouxe apenas a existência física ao homem, mas o condenou a uma estrutura social opressiva, em que a liberdade natural é sufocada por obrigações, dogmas e rotinas automáticas (como "rir sem vontade e até praticar amor sem vontade").

05 – Nos últimos versos do fragmento, o eu lírico sugere um motivo irônico para Deus ter criado o homem "à sua imagem e semelhança". Qual é esse motivo e como ele se conecta ao tema central de todo o poema?

      O motivo sugerido é que Deus criou o homem apenas "para não ficar com as vastas mãos abanando", impulsionado por um tédio criativo "porque era sábado". Essa justificativa humaniza e desmistifica a figura divina, reduzindo o ato da Criação a um mero passatempo de fim de semana. O desfecho consolida a ironia central de todo o poema: o sábado, tido como o dia das contradições e dos impulsos impensados na vida terrena, é projetado no próprio plano divino, sugerindo que a humanidade nasceu de um ato de tédio efêmero em um sábado cósmico.

 

 

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - I - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: O DIA DA CRIAÇÃO – I – Fragmento

           Vinícius de Moraes

     Macho e fêmea os criou.
     Bíblia: Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNq5IT9q-Acd0WTglZNSDbRChQvdhROTXddUY5pTM_b5VVBanAQPGn1mYI6evz4rLTNP9ZLYHx4iCcABugm3zSJmNSo8Q-mVV_l-M_YyxfeD2WoOCFrN6raHDYi35x4KiuMLIJW5K6Kj5HLKrEmcMAWQ2DPvSxu1gvWIxpQyhbujRqi0jJPPcUAicJyB8/s320/images.jpg 



Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

[...]

Vinícius de Moraes. www.viniciusdemoraes.com.br.

Entendendo a poesia:

01 – O poema traz como epígrafe o trecho "Macho e fêmea os criou" (Gênese 1, 27). Como essa citação da Bíblia dialoga com a última estrofe do fragmento lido, na qual o eu lírico descreve o comportamento de homens, namorados, maridos e mulheres?

      A epígrafe resgata o mito judaico-cristão da criação perfeita da humanidade por Deus. No entanto, o poema subverte essa perfeição ao contrastá-la com o cotidiano humano no sábado. Na última estrofe, a divisão em "macho e fêmea" ganha contornos de rotina, tédio e automatismo: homens "vazios" nos bares, maridos "funcionando regularmente" e mulheres em estado de permanente alerta. A intertextualidade expõe o contraste entre o ideal sagrado da criação divina e a realidade profana, mecânica e desencantada do mundo moderno.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico afirma que "Amanhã não gosta de ver ninguém bem / Hoje é que é o dia do presente". Qual é a visão de tempo apresentada nesses versos e como ela justifica a relevância do sábado?

      A visão de tempo apresentada é a do imediatismo (carpe diem). O eu lírico enxerga o futuro ("amanhã", o domingo) com desconfiança e apreensão, associando-o ao término do descanso, ao dever ou à incerteza. Em contrapartida, o sábado é o "dia do presente", a única realidade tangível e vivível. Essa percepção justifica a relevância do sábado como o dia em que todas as emoções, fugas e excessos devem acontecer intensamente, pois o amanhã representa a interrupção desse estado de suspensão.

03 – Nos versos "Os bondes andam em cima dos trilhos / E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar", o eu lírico aproxima um fato cotidiano banal a um evento central da fé cristã. Qual é o efeito de sentido produzido por essa aproximação?

      O efeito de sentido é a ironia e a denúncia da banalização do sagrado. Ao colocar no mesmo patamar sintático e descritivo o movimento mecânico dos bondes e o sacrifício supremo de Cristo, o poema revela como a sociedade moderna automatizou até mesmo os dogmas religiosos. O sacrifício divino passa a ser visto apenas como mais um dado ordinário da realidade, desprovido do seu impacto espiritual transformador diante da rotina previsível e fria da cidade.

04 – Na última estrofe, o eu lírico menciona que "Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios". Como o uso dessa imagem contribui para a caracterização do sábado e da condição humana no poema?

      A imagem cria um paradoxo significativo: o espaço físico (os bares) está "repleto", mas o conteúdo humano que o ocupa é "vazio". Isso demonstra que a busca pelo lazer, pela bebida e pela sociabilidade no sábado muitas vezes não passa de uma tentativa fútil de preencher um vazio existencial ou compensar a opressão da rotina semanal. A expressão reforça a ideia de que, sob a aparente descontração e vivacidade do sábado, subjaz uma profunda solidão e falta de sentido na vida moderna.

05 – A frase "Hoje é sábado, amanhã é domingo" abre as três primeiras estrofes do fragmento. Qual é a função dessa repetição na construção do ritmo e do significado do texto?

      A repetição constante dessa constatação temporal funciona como um refrão que marca o ritmo de uma ciranda ou de um martelar diário. Significa a inexorabilidade do tempo: o tempo passa de forma mecânica e inevitável, independentemente dos dramas humanos. A frase reafirma o sábado como uma constante que rege a conduta de todos os indivíduos, servindo de gancho para que o eu lírico desenvolva suas reflexões sobre a brevidade da vida, a necessidade de viver o presente e a impossibilidade de fugir da "dura realidade".

 

 

 

POESIA: O DIA DA CRIAÇÃO - II - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAIS - COM GABARITO

 Poesia: O dia da criação – II – Fragmento

           Vinícius de Morais

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3eyHrDK1H87i5SNsdGq2muyh2Qf-zPXStY2-9cd9C9WPg7T1KUxZBNBd5L8PtnH9Z2zGAgVmSNMWMz6rU0F7lnNuEcRANtVQmlcsoM9mNaY-SdN8Z8cJKqrsC0w9cUSCBG07NFqs2k_aZo4FumU-DR0tYnPR5cxE5GW9K-YIY0GpJ7NduT6w_bbHS64E/s1600/MUNDO.jpg


Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.

[...]

Vinícius de Moraes. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987, p. 224.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 193.

Entendendo a poesia:

01 – No fragmento lido, o verso "Porque hoje é sábado" é repetido ao final de cada estrofe/par de versos. Qual é o recurso estilístico empregado por meio dessa repetição e qual efeito de sentido ele produz no poema?

      O recurso utilizado é a anáfora (ou paralelismo sintático/repetição estrutural). Essa repetição constante funciona como uma espécie de refrão ritualístico que encadeia e justifica todas as ações retratadas no poema. O efeito de sentido criado é o de uma aparente contradição: ao atribuir a causa de eventos tão diversos, violentos ou banais ao simples fato de "ser sábado", o eu lírico ironiza a arbitrariedade da vida cotidiana e expõe o automatismo social, transformando o sábado em um dia síntese dos excessos, contradições e tragédias humanas.

02 – Aponte e explique o uso das contradições (antíteses) presentes nas primeiras estrofes do poema, relacionando-as à visão do eu lírico sobre a condição humana.

      As contradições aparecem logo no início ao colocar lado a lado eventos opostos, como "casamento" e "divórcio", além de unir a celebração de um espetáculo ou regata a episódios de violência e miséria ("uma mulher que apanha e cala", "criancinhas que não comem"). Essa justaposição de opostos revela que a condição humana é marcada pela coexistência simultânea da alegria e do sofrimento, do sagrado e do profano, da ordem e do caos. O eu lírico demonstra que o mesmo dia que traz a festa e a esperança também carrega a dor e a exclusão.

03 – Embora o poema possua um tom lírico e ritmado, há nele uma forte dimensão de crítica social. Identifique dois versos que exemplificam essa denúncia social e comente a relevância dessas imagens no texto.

      Dois exemplos marcantes de denúncia social são os versos "Há uma mulher que apanha e cala" e "Há criancinhas que não comem". Essas imagens expõem problemas estruturais graves, como a violência doméstica e a misoginia sustentadas pelo silêncio, além da extrema pobreza e da fome infantil. A relevância dessas imagens está no choque que provocam no leitor: em meio à atmosfera festiva comumente associada ao sábado (como regatas e espetáculos de gala), o poema lança luz sobre a realidade cruel e invisibilizada das populações vulneráveis.

04 – Na tradição judaico-cristã, o sábado é o dia do descanso e do término da Criação divina. Como a representação do sábado no poema de Vinicius de Moraes dialoga (ou se opõe) a essa tradição religiosa?

      Na tradição religiosa, o sábado representa a consumação da criação divina, um momento de paz, descanso e santificação. No poema, Vinicius de Moraes subverte essa ideia ao apresentar o sábado não como um dia de repouso contemplativo, mas como o ápice das paixões humanas, do caos e da imperfeição. O sábado torna-se o dia em que ocorrem crimes, suicídios, injustiças e celebrações efêmeras, mostrando que a "criação" no mundo humano é imperfeita, contraditória e carregada de profanidade.

05 – Observe a repetição do verbo "Há" no início de quase todos os versos ímpares do fragmento. Qual é a função sintático-semântica dessa escolha verbal no texto?

      Sintaticamente, o verbo "haver" é empregado como impessoal (no sentido de existir ou ocorrer), criando orações sem sujeito. Semântica e expressivamente, essa escolha confere ao poema um caráter constatativo, panorâmico e impessoal. O verbo atua como um catálogo de fatos da existência humana, transmitindo a ideia de que esses eventos simplesmente acontecem inevitavelmente, como um espetáculo inevitável da vida sobre o qual não se tem controle.

 

sábado, 1 de agosto de 2026

POEMA: O DIA DA CRIAÇÃO -II - VÍNICIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poema: O dia da criação – II

           Vinícius de Moraes

 

Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjwgEiBe3S3eG5zup8kPcdlhg2HxiEnQxiT7q-oBZJ8yCPz4CSJSQH14TF27CGAjJTUfxwwJLS6qAvxuTW2U-Uq0ZP4LP7lCYHashxBzqXSj1cYXtw3wQ3sIELM7z1OYFaJ0WWq_L1TdlLIJBDZdCahRFJ5PQhUUAO02bQtJdU-fUFmPXzwfyIxNMs89_I/s320/images.jpg


            Vinícius de Moraes.

 

Entendendo o poema:

01 – Qual tipo de oração subordinada estrutura o poema? 

      Causal.

02 – O que o eu poético revela por meio da repetição dessa oração? 

      As coisas e eventos que acontecem num sábado.

03 – Qual é o recurso estilístico (figura de linguagem) predominante no trecho e qual é a sua função no poema?

      A figura de linguagem predominante é a anáfora (repetição de uma mesma palavra ou expressão no início/final de versos ou estrofes), evidenciada na repetição constante da frase "Porque hoje é sábado". Essa repetição contínua funciona como uma justificativa quase automática para todos os comportamentos, excessos, contradições e desejos descritos, transmitindo a ideia de que o sábado é um dia fora da rotina comum, onde tudo ganha outra dimensão.

04 – Como o poema retrata a diversidade de comportamentos e figuras humanas na cidade durante o sábado? Cite exemplos do texto.

      O poema retrata o sábado como um dia em que a vida urbana se manifesta de forma intensa, diversa e cheia de contradições. O eu lírico apresenta desde figuras religiosas que tentam se misturar ("um padre passeando à paisana") e a busca pelo prazer e boemia ("damas de todas as classes", "um beber e um dar sem conta"), até momentos de fragilidade ("uma infeliz que vai de tonta") e sentimentos de frustração ou revolta ("frenesi de dar banana").

05 – De que maneira o tom do poema se transforma no último verso citado ("Há a sensação angustiante / Porque hoje é sábado")?

      Apesar de o sábado ser tradicionalmente associado à diversão, ao alívio e à liberdade no fim de semana, o último verso introduz uma virada de tom (quebra de expectativa). A intensa movimentação e os excessos do dia revelam, ao final, um vazio ou uma angústia existencial, mostrando que a busca frenética pelo prazer e pela evasão nem sempre traz preenchimento pleno, podendo resultar em uma "sensação angustiante".

 

 

 

POESIA: A GALINHA - D'ANGOLA - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: A galinha-d’angola

           Vinicius de Moraes

Coitada
Da galinha-
- D’angola
Não anda
Regulando
Da bola
Não para
De comer
A matraca
E vive
A reclamar
Que está fraca:

— “Tou fraca! Tou fraca!”

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgYKUJwY9EC7cml0OI4S1MYjgg4VcSvImONGwDdu44m-dG_Ee7j5MFs7FU1h3C4DJJyss0KY63pfi7pQWcEkoosMXNZHDfb9spco1_c7OfBtqhl1XZQJBIhjneAk2Fp0qmd9ixosn-1LoBMu_9BxAEmCXYAEAGNVCObPpmANUfjXirUc0xMKYGcLGS8LBY/s320/images.jpg


MORAES, Vinicius de. A arca de Noé. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2004.

Habilidade EF15LP03 – Localizar informações explícitas em textos.

Entendendo a poesia:

01 – No poema, Vinicius de Moraes utiliza um recurso sonoro muito comum na poesia infantil para caracterizar a personagem. Identifique esse recurso no desfecho do texto e explique como ele estabelece a relação entre a linguagem humana e o comportamento do animal.

      O recurso utilizado é a onomatopeia. No desfecho ("— 'Tou fraca! Tou fraca!'"), o poeta transpõe o som natural emitido pela galinha-d'angola para a língua portuguesa, criando um trocadilho. Isso humaniza a ave (personificação), atribuindo-lhe uma fala que justifica o título "Coitada", pois o som que ela emite é interpretado como uma reclamação constante de debilidade física, apesar de sua agitação característica.

02 – Analise a estrutura rítmica do poema. Como a escolha de versos curtos e a pontuação contribuem para a construção da imagem da galinha-d'angola perante o leitor?

      A estrutura de versos curtíssimos (muitas vezes compostos por apenas uma ou duas palavras) e o ritmo quebrado imprimem uma agilidade e um nervosismo à leitura. Esse estilo mimetiza o comportamento saltitante e "desorientado" da ave. A falta de pausas longas até o clímax da fala final reforça a ideia de que a galinha "não para" e está em constante movimento, transmitindo visual e sonoramente a confusão descrita na expressão "não anda regulando da bola".

03 – Existe uma contradição ou ironia apresentada entre as ações da galinha e o seu discurso final. Explique que contradição é essa e como ela contribui para o humor da obra.

      A contradição reside no fato de o poema descrever que a galinha "não para de comer a matraca" (ou seja, come incessantemente e faz barulho), mas vive a reclamar que "está fraca". O humor nasce dessa ironia: a ave, apesar de bem alimentada e extremamente ativa, utiliza seu canto para expressar uma suposta fraqueza. Isso cria uma imagem cômica de uma personagem hipocondríaca ou eternamente insatisfeita, característica marcante da poesia de Vinicius para o público infantil em "A Arca de Noé".

04 – Tanto o conto como o poema são textos literários, ou seja, neles não há compromissos com a veracidade dos fatos. Então, a finalidade deles é:

(  ) Informar.     (X) Entreter e emocionar.      (  ) Opinar.

05 – Os textos literários, em sua maioria, são publicados em:

(  ) Enciclopédias.       (  ) Gibis.         (X) Livros.

 

sábado, 21 de março de 2026

POEMA DOS OLHOS DA AMADA - VINICIUS DE MORAES - COM GABARITO

 POEMA DOS OLHOS DA AMADA

              Vinícius de Moraes


Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEglQ-DO-Db-lT09KyU3yoOF5i1rbMF1eM5Skt4to2JCxNoeUaRhkHeX0PV4nfAFXagbUgcEcrkdF3OVEewUKRaKTXNAYm_xk0YT_1xEoVtgbzMq8tDJ8PZPXWgbbfZk-XiV7yeQIRuThplYPjsnSOEg3po_Qkwta_1Um4Qqc3IQgpcSX9y0Shmy-E3krd8/s320/AMADA.jpg



Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

(Vinícius de Moraes.In: Poesia completada e prosa.)

 Entendendo o texto

 01. Na primeira estrofe, o eu lírico compara os olhos da amada a "cais noturnos cheios de adeus". Essa metáfora sugere que o olhar dela transmite uma sensação de:

a. Alegria e reencontro festivo.

b. Despedida, melancolia e certa distância.

c. Raiva e revolta contra o mar.

d. Medo de escuro e de lugares desertos.

02. O uso constante de palavras relacionadas ao universo marítimo (cais, docas, saveiros, navios, naufrágios) serve para:

a. Mostrar que a amada trabalha como marinheira em um porto.

b. Enfatizar a profundidade, os perigos e os mistérios que o eu lírico encontra no olhar da amada.

c. Ensinar ao leitor os nomes das diferentes embarcações brasileiras.

d. Indicar que o poema foi escrito durante uma tempestade no oceano.

03. Na terceira estrofe, o eu lírico afirma que "Se Deus houvera / Fizera-os Deus". O que ele pretende expressar com esses versos? a. Uma dúvida religiosa sobre a existência de Deus.

b. A ideia de que os olhos da amada são tão perfeitos e divinos que só poderiam ter sido criados por uma força superior.

c. Uma reclamação por Deus não ter feito olhos mais bonitos para a amada.

d. Que ele prefere os olhos da amada aos olhos de qualquer divindade.

04. Na última estrofe, o eu lírico chama a amada de "olhos ateus" e pede que ela crie esperança nos olhos dele. O que ele espera ver nos olhos dela um dia?

a. O reflexo de um navio chegando ao porto.

b. O "olhar mendigo da poesia", indicando o desejo de que ela retribua o sentimento poético e amoroso.

c. Uma prova científica de que o amor não existe.

d. O brilho do sol refletido nas águas de um rio.

05. Qual é a principal característica do "eu lírico" (a voz que fala no poema) em relação à mulher amada?

a. Ele é indiferente e não se importa com o que ela pensa.

b. Ele é um observador atento e apaixonado, que busca decifrar os segredos e a beleza do olhar dela.

c. Ele é um marinheiro que está fugindo da mulher amada por causa dos naufrágios.

d. Ele é um crítico de arte que não gosta da cor dos olhos da amada.

 

sábado, 29 de novembro de 2025

POESIA: AS BORBOLETAS - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: AS BORBOLETAS

            Vinícius de Moraes

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjfGLIiXaUqPeC7M4lBOQ7Crv1kklvfH3KTUU1yWxyAuclfD21x7o6WG5rnpr8Q4JtKHr6I4kfUhZTNG-jGH_3aSbUueAsKn4MnM3OonofM_rwt6dQGkRrZoHksY7ayQ-BYcOsFibiFUy2w1PWnMIyWlOhNvM6D83i5KUNUIRIkGmRpdJ_RlFXvtCnTBBQ/s320/Borboleta_transparente_REFON.jpg



Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então...
Oh, que escuridão!

MORAES, Vinícius de. As borboletas. In: ______. A arca de Noé. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2004. p. 58-59.

Fonte: Set Brasil. Ensino Fundamental, anos finais, 7º ano, livro 2. Thaís Ginícolo Cabral – São Paulo: Moderna, 2019. p. 98.

Entendendo a poesia:

01 – Quais são as quatro cores de borboletas mencionadas pelo poeta na primeira estrofe?

      As cores de borboletas mencionadas são brancas, azuis, amarelas e pretas.

02 – O que as borboletas fazem na luz, conforme descrito na primeira estrofe?

      Elas "Brincam / Na luz".

03 – Qual característica emocional e de sinceridade é atribuída às borboletas de cor branca?

      Elas são descritas como "alegres e francas".

04 – Segundo o poema, qual a relação das borboletas azuis com o elemento luz?

      O poeta afirma que as borboletas azuis "Gostam muito de luz".

05 – Que sentimento ou sensação o poeta expressa ao descrever as borboletas pretas com a frase "Oh, que escuridão!"?

      Ele expressa uma sensação de tristeza, mistério ou negatividade, contrastando com a leveza e alegria das outras cores.

 

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

MÚSICA (ATIVIDADES): SE TODOS FOSSEM IGUAIS A VOCÊ - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Música (Atividades): Se Todos Fossem Iguais a Você

            Vinícius de Moraes

Vai tua vida,
Teu caminho é de paz e amor
Vai tua vida é uma linda canção de amor
Abre os teus braços
E canta a última esperança
A esperança divina de amar em paz.

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjYHu3ICUtH143JdKYaMVkncB5r506flwAAPfZqo1oDzCfQlO22o7ODft27oulJcQof266234fgIouN5rzTTstJ9GCU_XzKcua1u2I-Txi_tSMVg9lCaog3I6uhmXOCLhwXxOc_V_BJUEL-TIqikVDgI06dd-_4kkCe6RKvjoVz0DduiydLy6auSHVlAEA/s320/vinicius.jpg

Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar,
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar,
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol,
Como a flor,
Como a luz
Amar sem mentir,
Nem sofrer.

Existiria verdade,
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você!

Composição: Antônio Carlos Jobim / Vinícius de Moraes. Literatura comentada. São Paulo, Abril Cultural, 1980.

Fonte: Português – 1º grau – Descobrindo a gramática 8. Gilio Giacomozzi; Gildete Valério; Cláudia Reda Fenga. São Paulo. FTD, 1992. p. 49.

Entendendo a música:

01 – Qual é o principal desejo expresso na música em relação à vida e ao amor?

      O desejo principal é que a vida e o amor sejam vividos de forma pacífica e harmoniosa. O eu lírico fala em "caminho de paz e amor" e em "amar em paz".

02 – O que a música sugere que aconteceria se todos fossem iguais à pessoa a quem a canção é dedicada?

      Se todos fossem iguais a essa pessoa, a vida se tornaria uma "maravilha", onde haveria uma "canção pelo ar" e uma cidade inteira estaria cantando, sorrindo e pedindo a beleza de amar.

03 – Segundo a letra, quais são as características do amor ideal?

      O amor ideal é comparado ao "sol", à "flor" e à "luz". É um amor puro, sem falsidade ou sofrimento, ou seja, "amar sem mentir, nem sofrer".

04 – O que o eu lírico pede que a pessoa faça no início da canção?

      Ele pede que ela "vá tua vida", que "abra os teus braços" e "cante a última esperança".

05 – A música menciona a existência de uma "verdade que ninguém vê". O que essa frase sugere sobre o mundo atual, na visão do autor?

      A frase sugere que, no mundo em que vivemos, a verdadeira beleza e a essência do amor estão ocultas ou não são percebidas pelas pessoas. Essa verdade só seria revelada e se tornaria visível se todos tivessem a mesma pureza e bondade da pessoa a quem a música é dedicada.

 

 

domingo, 1 de junho de 2025

POESIA: RECEITA DE MULHER - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: Receita de mulher – Fragmento

             Vinicius de Moraes

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjcN82X7r35NL_dh4SWN23VgS9dypNbBFGxx_b67mStJxsA-K33yBoOTRzLrTKDq3xlVRi6AKiWzDTAav1qyXvffzmf_8sLs6PBRi9xE8ehH0gxmdy7iZZ07xDsvxBb-gZ2l_y4Upicpu4uPvItobxa3hccUxk_g5WxnC4xLkjxsqMYgLoBrhxMryLNn9o/s320/maxresdefault.jpg

Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos.

[...]

Vinícius de Moraes. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984. p. 192.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, 3ª Série – Ensino Médio – William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 9ª ed. – São Paulo: Saraiva Editora, 2013. p. 290.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a ideia central que Vinicius de Moraes defende sobre a mulher neste poema?

      A ideia central que Vinicius defende é que a beleza é fundamental na mulher. Ele não se refere apenas à beleza física óbvia, mas a uma beleza que engloba graça, elegância, mistério e uma certa leveza que se assemelha a uma flor ou a uma garça.

02 – Que tipo de metáforas e comparações o poeta utiliza para descrever a beleza que ele busca?

      O poeta utiliza metáforas e comparações como "qualquer coisa de flor", "qualquer coisa de dança", "haute couture" (alta costura), a "impressão de ver uma garça apenas pousada", um rosto que adquire a "cor só encontrável no terceiro minuto da aurora", pálpebras cerradas que "Lembrem um verso de Éluard" e braços tocados "como o âmbar de uma tarde".

03 – Para Vinicius, a beleza feminina deve ser apenas visível ou deve ter uma dimensão mais profunda? Explique.

      Para Vinicius, a beleza feminina não deve ser apenas visível; ela deve ter uma dimensão mais profunda e quase etérea. Ele afirma: "É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche / No olhar dos homens." Isso sugere que a beleza deve ser uma essência, uma aura, que se manifesta e é percebida, mas que não se restringe apenas à carne ou a algo puramente material.

04 – O que o verso "As muito feias que me perdoem / Mas beleza é fundamental" revela sobre a perspectiva do poeta?

      Este verso revela a sinceridade e a frontalidade da perspectiva do poeta sobre a importância da beleza. Embora pareça controverso à primeira vista, ele estabelece de imediato o pré-requisito da beleza como ponto de partida para sua "receita de mulher", destacando seu valor primordial em sua concepção idealizada.

05 – Como o poema aborda a interação entre a beleza da mulher e a percepção masculina?

      O poema aborda a interação entre a beleza da mulher e a percepção masculina ao afirmar que a beleza deve "refletir-se e desabrochar / No olhar dos homens". Isso indica que, para o poeta, a beleza feminina não é um conceito isolado, mas algo que ganha vida e validação na forma como é vista e apreciada pelo olhar masculino, gerando admiração e fascínio.

 

 

POEMA: O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO - FRAGMENTO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poema: O operário em construção – Fragmento

              Vinicius de Moraes

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhEsvUWqkPE00zUsVh1wnJkO2PxZGmwsmudb7gn2KKx-sctjWvE10PNZuqg9yz1pNIXpA3IusijzKZjfmquc1bArDyfhjymNXKoE0LfMq_D9Z3aQZSKx09UJFbcKXKfXLN77ApYytnYbUsmT1AkUu08ueOAvzVLZsGe72WcCYAHNfUNYAnlFueSYenawmo/s320/maxresdefault.jpg

Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

[...]

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
— Garrafa, prato, facão —
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!

[...].

Poesia completa e prosa, cit. p. 293-294.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, 3ª Série – Ensino Médio – William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 9ª ed. – São Paulo: Saraiva Editora, 2013. p. 274.

Entendendo o poema:

01 – Qual a principal atividade do operário descrita no início do poema e qual a comparação inusitada utilizada para ilustrar sua ascensão nas construções?

      A principal atividade do operário é erguer casas onde antes só havia chão. A comparação inusitada utilizada para ilustrar sua ascensão é a de "um pássaro sem asas", que, paradoxalmente, sobe com as casas que lhe "brotavam da mão", enfatizando a força de seu trabalho manual.

02 – Segundo o poema, que aspectos importantes da sua própria obra o operário desconhecia inicialmente?

      Inicialmente, o operário desconhecia a "grande missão" do seu trabalho. Especificamente, não sabia que a casa de um homem é um "templo sem religião" e que a casa que ele construía, embora representasse a liberdade para outros, era para ele uma forma de "escravidão", aprisionando-o em um ciclo de trabalho.

03 – Que "fato extraordinário" o operário passa a compreender em um determinado momento, e qual a situação cotidiana que desencadeia essa revelação?

      O "fato extraordinário" que o operário passa a compreender é que "o operário faz a coisa / E a coisa faz o operário", revelando uma relação de interdependência e transformação mútua entre o trabalhador e o produto do seu trabalho. Essa revelação ocorre em uma situação cotidiana, à mesa, ao cortar o pão.

04 – Após a súbita emoção, o que o operário constata de forma "assombrada" ao olhar ao seu redor?

      Ao olhar ao seu redor, o operário constata de forma "assombrada" que praticamente tudo o que está à sua volta – desde os objetos simples da mesa ("garrafa, prato, facão") até estruturas maiores como "gamela, banco, enxerga, caldeirão", e até mesmo conceitos abstratos como "casa, cidade, nação" – era ele quem fazia, ele, um humilde operário em construção.

05 – Qual a mudança na autopercepção do operário que o poema destaca ao final do fragmento?

      A mudança na autopercepção do operário é que ele passa de ser um mero executor de tarefas ("um humilde operário / Um operário em construção") para um indivíduo consciente do seu papel fundamental na criação do mundo material ("Ele, um humilde operário / Um operário que sabia / Exercer a profissão"). Há um reconhecimento do seu valor e da sua habilidade.

06 – A quem o eu lírico se dirige na penúltima estrofe e qual a sua afirmação sobre o conhecimento do operário naquele momento?

      O eu lírico se dirige aos "homens de pensamento" e afirma que eles nunca saberão o quanto aquele humilde operário soube naquele momento. Isso sugere que a compreensão do operário, embora não intelectualizada, possui uma profundidade e um significado que escapam àqueles que apenas teorizam sobre o trabalho.

07 – Qual a principal reflexão sobre o trabalho e a consciência do trabalhador que emerge deste fragmento do poema?

      A principal reflexão que emerge é sobre a complexa relação entre o trabalhador e o seu trabalho, a alienação inicial da sua importância e o potencial despertar para a consciência do seu papel fundamental na construção da realidade. O poema destaca a dignidade do trabalho manual e a profunda compreensão que pode surgir da experiência prática, contrastando com a mera abstração intelectual.

 

quarta-feira, 9 de abril de 2025

POESIA: SONETO DO AMOR COMO UM RÍO - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: Soneto do amor como um rio

             Vinícius de Moraes

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQvD9sscnhxzrlBwr93X2VjwpoX_LyxzIe9yO7Ugmv7OJuDR_OzvZt6HRlPq3WD1oBK7lDvtvqrVDzh0qflF6WqW2-Fir91Q0G9iQ77XbJctOXR7rzgNDratD5OE0TmiKXwfkyFnrC70e2336CHJ1_2QEh2CbKOFixvMKYS0iFw0a1FEq4TIVM8tHOqIU/s1600/06_sunset_river_sea.jpg



Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Para viver um grande amor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p. 164.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 8ª Série – William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 4ª ed. – São Paulo: Atual Editora, 2006. p. 144.

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a principal metáfora utilizada no poema para descrever o amor?

      A principal metáfora é a do rio. O eu lírico compara seu amor a um rio noturno, interminável e tardio, que o leva para um mar sem termo. Essa metáfora sugere a ideia de um amor fluído, constante e profundo, que o transporta para um estado de paixão e entrega.

02 – Como o eu lírico descreve a natureza do amor que sente?

      O eu lírico descreve o amor como algo surpreendente e inesperado, que surgiu em meio ao drama e trouxe paz. Ele o considera maior que o tempo e todas as coisas, algo real, embora já não acreditasse que pudesse existir. Ele também o define como um túmulo onde seu corpo está eternamente sepultado.

03 – Que sentimentos o poema evoca em relação ao amor?

      O poema evoca sentimentos de paixão intensa, entrega total, transcendência e a sensação de ser levado por uma força maior. O amor é apresentado como algo que transforma e absorve o ser, conduzindo-o a um estado de plenitude e imensidão.

04 – Qual é o significado da expressão "túmulo onde jaz meu corpo para sempre sepultado"?

      Essa expressão sugere que o amor representa uma espécie de morte simbólica para o eu lírico, onde ele se entrega completamente e se perde em seus sentimentos. É uma metáfora para a intensidade e a profundidade do amor, que o absorve por completo.

05 – Como o poema utiliza a imagem do rio para expressar a ideia de eternidade e imensidão do amor?

      A imagem do rio noturno, interminável e tardio, que desliza suavemente pelo ermo e leva o eu lírico para um mar sem termo, sugere a ideia de um amor que transcende o tempo e o espaço. O rio representa a continuidade e a fluidez do amor, enquanto o mar simboliza a sua imensidão e eternidade.



 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

POESIA: SONETO DO MAIOR AMOR - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

 Poesia: Soneto do maior amor

             Vinicius de Moraes

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh7nRHijxSJcuFb2j2OWTUVANJgOdeTBSZX1kTUCAt9T0t4TtMoDW9qaCT2uGtWaILi7aftiVglNtlp08q_PA0R_iW49tDB0RHNgwRFP8FslJydu80874mKi6PTJuuk7uueuC95EYovb05D381VqEcKwCpi89ofEPUzeMZhjqrSZvaQZDAH1gbn520kjeM/s320/hqdefault.jpg



E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu que quando toca, fere
E quando fere, vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

MORAES, Vinícius de. Soneto do maior amor. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1985. p. 202.

Fonte: Português. Série novo ensino médio. Volume único. João Domingues Maia – Editora Ática – 2000. São Paulo. p. 362.

Entendendo a poesia:

01 – Qual a principal característica do amor descrito no poema?

      O amor descrito no poema é paradoxal e contraditório. O eu lírico expressa um amor que se manifesta de forma incomum, onde a alegria do amado causa tristeza e a tristeza, alegria.

02 – Como o eu lírico descreve a relação entre o amor e a dor?

      O eu lírico descreve uma relação intensa entre amor e dor. Ele afirma que seu amor fere quando toca, mas que essa ferida gera uma vibração, e que prefere ferir a definhar.

03 – Qual a importância da contradição na expressão do amor no poema?

      A contradição é essencial para expressar a complexidade do amor descrito. Ela revela um amor que não se encaixa em padrões convencionais, um amor que desafia a lógica e se manifesta de forma intensa e paradoxal.

04 – Como o eu lírico se sente em relação à "eterna aventura" do amor?

      O eu lírico se agrada mais da "eterna aventura" do amor, mesmo com suas dores e contradições, do que de uma vida sem essa paixão. Ele valoriza a intensidade do amor, mesmo que essa intensidade traga sofrimento.

05 – Qual a imagem final que o poema constrói do amor?

      A imagem final é de um amor "desassombrado, doido, delirante", que vive "numa paixão de tudo e de si mesmo". Essa imagem reforça a ideia de um amor intenso, avassalador e que se basta em sua própria complexidade.