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domingo, 26 de julho de 2026

CRÔNICA: A ATITUDE SUSPEITA - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: A atitude suspeita

            Luís Fernando Veríssimo

 

        Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso “em atitude suspeita”. É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbWtE2rSwYe0ed3QojaHCEDi9QZ8ZPXRUpYIpwIqs-f45QAxaFyejenkfCPI1blPhkwgHOW-fM4Nzaq5I1CXMIVbFo4EQbQnl6VHKVU3I45gf6bwxeFtCTHv38___EMagl_fIlnIrZv_1phlaYTkJzRddCFDgFlTwiSn8Ei46IY079q5jkv3hed44h0hE/s320/images.jpg 


     -- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.

        -- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?

        -- Suspeita.

        -- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que ele alega?

        -- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra a prisão.

        -- Humm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria medo de vir dar explicações.

        -- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!

        -- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.

        -- Mas eu estava só esperando o ônibus!

        -- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

        -- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

        -- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

        -- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o próximo é que era o dele? A gente vê cada uma...

        -- Não senhor delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

        -- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias para ir para casa! Sou inocente!

        -- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

        -- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

        -- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?

        -- Fugir, como?

        -- Fugir no ônibus. Quando foi preso.

        -- Mas eu não estava tentando fugir. Era o meu ônibus, o que eu tomo sempre!

        -- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus, em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes da lei ao seu lado. Tentou fugir e...

        -- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.

        -- Ah, uma confissão!

        -- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

        -- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude suspeita?

        -- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

        -- Delegado...

        -- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês querem que o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...

        -- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar em atitude suspeita é um pouco...

        -- Um pouco? Um pouco?

        -- Suspeita.

 

Entendendo a crônica:

01 – Quando o delegado pergunta "Ah, um daqueles, é?". O que ele quis dizer com isso?

      Que era um daqueles criminosos, um daqueles suspeitos.

02 – Por que se declarar inocente é algo suspeito?

      Porque todo culpado se diz inocente.

03 – Qual a teoria do delegado sobre as pessoas se declararem culpadas ou inocentes?

      Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente.

04 – O homem tentou mesmo fugir de ônibus? Explique.

      Não, era o ônibus que ele pegava todos os dias.

05 – Por que a atitude dos policiais também era suspeita?

      Porque eles fingiam que esperavam o ônibus e estavam vigiando o homem.

06 – E por que a atitude do delegado também era suspeita?

      Porque ele mandou soltar o suspeito.

07 – A expressão "atitude suspeita" significa:

a) atitude previsível                           

b) atitude criminosa

c) atitude comum                              

d) atitude duvidosa.

 

domingo, 7 de junho de 2026

CRÔNICA: NA PALMA DA SUA MÃO - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: Na palma da sua mão (interpretação)

             


  

Entendendo o texto 

01. Esse texto é uma:

a. notícia                              c. carta

b. narração                          d. publicidade

02. Com que objetivo o homem foi consultar uma cartomante?

      Para saber quando e como morreria, a fim de evitar sua morte.

03. Leia: “Queria saber seu futuro para poder evitá-lo, pois tinha um plano para ludibriar a Morte”

a. O pronome em destaque se refere a que palavra no texto, evitando sua repetição?

       Futuro

b. A conjunção “pois” pode ser substituída, sem alteração de sentido, pela conjunção:

(  ) por isso  (  ) mas         (  ) portanto  ( x ) porque

04. De acordo com a cartomante, por que o homem não poderia enganar a morte?

        Porque a morte tem mil disfarces.

05. Qual foi a previsão da cartomante com relação à morte do homem?

        Que ele morreria em minutos.

 06. A previsão da cartomante se cumpriu? Por quê?

       Sim, porque ele morreu pouco depois.

07. De que forma o homem morreu?

      A cartomante passou sua unha envenenada sobre a linha da mão dele e ele morreu envenenado.

 08. Releia o final do texto: “E o homem morreu em minutos. A Morte tem mil disfarces”. No texto em questão, qual foi o disfarce usado pela morte?

A morte estava disfarçada de cartomante.

 

domingo, 10 de agosto de 2025

CONTO: BANDEIRA BRANCA - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Conto: Bandeira branca

           Luís Fernando Veríssimo

              Ele, tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhToRZ6ko-BJohIY-KX2Ey_JKeMKZ9L98P8WQsevq8nxMBNP7HFUn1SpDkACnMTNsVMlWd7Ruq_emlq-3FatT3iCrM9BdvrvuG-ANPEc-WKurTOUSE5iR_fRsHh-tM4Zbz3MVOP5KmXIikHkH91s1G9mjkuVFLEqHD5mNeujOy502fBROx5P768ci0LcnE/s320/clube.jpg


        Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.

        Só no terceiro Carnaval se falaram.

        — Como é teu nome?

        — Janice. E o teu?

        — Píndaro.

        — O quê?!

        — Píndaro.

        — Que nome!

        Ele de legionário romano, ela de índia americana.

        Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.

        — Ah.

        Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.

        No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:

        — Me dá alguma coisa.

        — O quê?

        — Qualquer coisa.

        — O leque.

        O leque de bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.

        No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que aconteceu?

        — Você vomitou a alma — disse a mãe.

        — Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.

        Mas no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube — e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.

        — Sei lá. Bávara tropical — disse ela, rindo.

        Estava diferente. Era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.

        — E aquela bailarina espanhola?

        — Nem me fala. E o toureiro?

        — Aposentado.

        A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse "Píndaro?!", e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão.

        O Marcelão tinha o que ele precisava para preencher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi "pelo menos o meu tirolês era autêntico" e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

        Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...

        — O que você ia me dizer, no outro Carnaval? – perguntou ela.

        — Esqueci – mentiu ele.

        Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...

Extraído de: Os melhores contos brasileiros, organizado por Ítalo Mariconi. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p. 582 a 585.

Fonte: Programa de Formação de Professores Alfabetizadores. Coletânea de textos – Módulo 1. p. 285-287.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o papel do Carnaval na relação dos personagens principais, Janice e Píndaro?

      O Carnaval atua como o único ponto de encontro e o palco principal para o desenvolvimento da relação entre Janice e Píndaro. É o momento em que se veem anualmente, em meio à atmosfera lúdica e desinibida das festas, permitindo que a conexão entre eles floresça e se transforme ao longo dos anos, desde a infância até a vida adulta. Fora dessa época, suas vidas se desenrolam separadamente.

02 – Como a inocência da infância é retratada no início do conto?

      A inocência da infância é retratada pela capacidade de Janice e Píndaro de se entenderem e se conectarem de forma simples, apesar de suas fantasias "de culturas muito diferentes". Eles demonstram essa inocência ao resistir aos apelos maternos para brincar e, em vez disso, preferir fazer um "montinho de confete, serpentina e poeira". Essa pureza é reforçada pela narração, que afirma que "No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro."

03 – Qual é o significado da música "Bandeira Branca" dentro do conto?

      A música "Bandeira Branca" simboliza um momento de reconciliação, rendição e, principalmente, de conexão autêntica entre Janice e Píndaro. Em diversos momentos cruciais da história, quando parecem distantes ou há um desentendimento, a canção surge como um catalisador para que se unam, simbolizando a trégua de suas diferenças e a celebração de sua ligação. O momento mais marcante é quando, aos quinze anos, Píndaro se sente amargurado e Janice o puxa para dançar ao som da música, restaurando a proximidade entre eles.

04 – Como a passagem do tempo afeta a relação e a percepção dos personagens?

      A passagem do tempo afeta a relação de Janice e Píndaro de forma ambígua e, por vezes, dolorosa. Na infância, a cada ano, a intimidade cresce, culminando em beijos e na troca do leque. No entanto, o tempo também traz a ausência, a perda de ilusões (especialmente para Píndaro após a ausência de Janice e a decepção com o riso dela sobre seu nome), e a inevitável transformação física e pessoal. No reencontro adulto, quinze anos depois, há um choque de realidade, a fantasia da juventude se esvai, e a dificuldade de reconhecer o outro fisicamente contrasta com a persistência de memórias e sentimentos.

05 – Que elemento revela a persistência do sentimento de Píndaro por Janice mesmo após anos?

      O elemento que revela a persistência do sentimento de Píndaro é o leque de bailarina que Janice lhe deu. Mesmo após sua ausência e o sofrimento que isso lhe causou, Píndaro guarda o leque, "às vezes tirando o leque do esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile". No reencontro adulto, a revelação de que ele "ainda tenho o leque" sublinha a força e a permanência de sua memória e afeto por ela.

06 – Qual é a principal diferença entre o reencontro na adolescência e o reencontro na vida adulta?

      A principal diferença é a perda da magia e da idealização. No reencontro da adolescência (aos 15 anos), apesar das transformações físicas, a conexão e a atração ainda são fortes, culminando em mais um momento significativo ao som de "Bandeira Branca", reafirmando a paixão adolescente. Já no reencontro na vida adulta, em um aeroporto, a cena é marcada pela realidade crua e pela quebra da fantasia. Há uma dificuldade de reconhecimento físico, uma desconexão com as "fantasias" do passado, e uma sensação de que a vida real, com seus casamentos e filhos, eclipsou a magia dos Carnavais. A mentira de Píndaro sobre ter esquecido o que ia dizer e a dificuldade de Janice em lembrar seu nome evidenciam essa perda.

07 – O que a reflexão final de Píndaro e Janice sobre seus pensamentos sugere sobre a natureza do amor e da memória?

      A reflexão final sugere a complexidade e a subjetividade do amor e da memória. Píndaro idealiza um momento específico ("Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro") como o ápice de sua vida, indicando que o amor para ele foi um instante mágico e irrecuperável. Ele questiona se "todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida?", o que aponta para uma nostalgia e uma sensação de que o melhor já passou. Janice, por outro lado, luta para lembrar o nome de Píndaro, o que pode indicar que, para ela, a intensidade daquele passado não teve o mesmo impacto duradouro ou simplesmente que a vida adulta trouxe outras prioridades. Essa dualidade entre a memória vívida e idealizada de um e a dificuldade de recordar do outro mostra como as experiências afetivas podem ser processadas e valorizadas de maneiras muito diferentes por cada indivíduo.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual é o papel do Carnaval na relação dos personagens principais, Janice e Píndaro?

      O Carnaval atua como o único ponto de encontro e o palco principal para o desenvolvimento da relação entre Janice e Píndaro. É o momento em que se veem anualmente, em meio à atmosfera lúdica e desinibida das festas, permitindo que a conexão entre eles floresça e se transforme ao longo dos anos, desde a infância até a vida adulta. Fora dessa época, suas vidas se desenrolam separadamente.

02 – Como a inocência da infância é retratada no início do conto?

      A inocência da infância é retratada pela capacidade de Janice e Píndaro de se entenderem e se conectarem de forma simples, apesar de suas fantasias "de culturas muito diferentes". Eles demonstram essa inocência ao resistir aos apelos maternos para brincar e, em vez disso, preferir fazer um "montinho de confete, serpentina e poeira". Essa pureza é reforçada pela narração, que afirma que "No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro."

03 – Qual é o significado da música "Bandeira Branca" dentro do conto?

      A música "Bandeira Branca" simboliza um momento de reconciliação, rendição e, principalmente, de conexão autêntica entre Janice e Píndaro. Em diversos momentos cruciais da história, quando parecem distantes ou há um desentendimento, a canção surge como um catalisador para que se unam, simbolizando a trégua de suas diferenças e a celebração de sua ligação. O momento mais marcante é quando, aos quinze anos, Píndaro se sente amargurado e Janice o puxa para dançar ao som da música, restaurando a proximidade entre eles.

04 – Como a passagem do tempo afeta a relação e a percepção dos personagens?

      A passagem do tempo afeta a relação de Janice e Píndaro de forma ambígua e, por vezes, dolorosa. Na infância, a cada ano, a intimidade cresce, culminando em beijos e na troca do leque. No entanto, o tempo também traz a ausência, a perda de ilusões (especialmente para Píndaro após a ausência de Janice e a decepção com o riso dela sobre seu nome), e a inevitável transformação física e pessoal. No reencontro adulto, quinze anos depois, há um choque de realidade, a fantasia da juventude se esvai, e a dificuldade de reconhecer o outro fisicamente contrasta com a persistência de memórias e sentimentos.

05 – Que elemento revela a persistência do sentimento de Píndaro por Janice mesmo após anos?

      O elemento que revela a persistência do sentimento de Píndaro é o leque de bailarina que Janice lhe deu. Mesmo após sua ausência e o sofrimento que isso lhe causou, Píndaro guarda o leque, "às vezes tirando o leque do esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile". No reencontro adulto, a revelação de que ele "ainda tenho o leque" sublinha a força e a permanência de sua memória e afeto por ela.

06 – Qual é a principal diferença entre o reencontro na adolescência e o reencontro na vida adulta?

      A principal diferença é a perda da magia e da idealização. No reencontro da adolescência (aos 15 anos), apesar das transformações físicas, a conexão e a atração ainda são fortes, culminando em mais um momento significativo ao som de "Bandeira Branca", reafirmando a paixão adolescente. Já no reencontro na vida adulta, em um aeroporto, a cena é marcada pela realidade crua e pela quebra da fantasia. Há uma dificuldade de reconhecimento físico, uma desconexão com as "fantasias" do passado, e uma sensação de que a vida real, com seus casamentos e filhos, eclipsou a magia dos Carnavais. A mentira de Píndaro sobre ter esquecido o que ia dizer e a dificuldade de Janice em lembrar seu nome evidenciam essa perda.

07 – O que a reflexão final de Píndaro e Janice sobre seus pensamentos sugere sobre a natureza do amor e da memória?

      A reflexão final sugere a complexidade e a subjetividade do amor e da memória. Píndaro idealiza um momento específico ("Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro") como o ápice de sua vida, indicando que o amor para ele foi um instante mágico e irrecuperável. Ele questiona se "todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida?", o que aponta para uma nostalgia e uma sensação de que o melhor já passou. Janice, por outro lado, luta para lembrar o nome de Píndaro, o que pode indicar que, para ela, a intensidade daquele passado não teve o mesmo impacto duradouro ou simplesmente que a vida adulta trouxe outras prioridades. Essa dualidade entre a memória vívida e idealizada de um e a dificuldade de recordar do outro mostra como as experiências afetivas podem ser processadas e valorizadas de maneiras muito diferentes por cada indivíduo.. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro baile de Carnaval.

        Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.

        Só no terceiro Carnaval se falaram.

        — Como é teu nome?

        — Janice. E o teu?

        — Píndaro.

        — O quê?!

        — Píndaro.

        — Que nome!

        Ele de legionário romano, ela de índia americana.

        Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.

        — Ah.

        Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o beijou na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.

        No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:

        — Me dá alguma coisa.

        — O quê?

        — Qualquer coisa.

        — O leque.

        O leque de bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.

        No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. O que aconteceu?

        — Você vomitou a alma — disse a mãe.

        — Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.

        Mas no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube — e lá estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.

        — Sei lá. Bávara tropical — disse ela, rindo.

        Estava diferente. Era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.

        — E aquela bailarina espanhola?

        — Nem me fala. E o toureiro?

        — Aposentado.

        A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém disse "Píndaro?!", e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão.

        O Marcelão tinha o que ele precisava para preencher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi "pelo menos o meu tirolês era autêntico" e desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo "não vale, você cresceu mais do que eu" e encostando a cabeça no seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

        Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio. Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última coisa que ele dissera fora "preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara...

        — O que você ia me dizer, no outro Carnaval? – perguntou ela.

        — Esqueci – mentiu ele.

        Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil... E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu...

Extraído de: Os melhores contos brasileiros, organizado por Ítalo Mariconi. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000, p. 582 a 585.

Fonte: Programa de Formação de Professores Alfabetizadores. Coletânea de textos – Módulo 1. p. 285-287.

Entendendo o conto:

01 – Qual é o papel do Carnaval na relação dos personagens principais, Janice e Píndaro?

      O Carnaval atua como o único ponto de encontro e o palco principal para o desenvolvimento da relação entre Janice e Píndaro. É o momento em que se veem anualmente, em meio à atmosfera lúdica e desinibida das festas, permitindo que a conexão entre eles floresça e se transforme ao longo dos anos, desde a infância até a vida adulta. Fora dessa época, suas vidas se desenrolam separadamente.

02 – Como a inocência da infância é retratada no início do conto?

      A inocência da infância é retratada pela capacidade de Janice e Píndaro de se entenderem e se conectarem de forma simples, apesar de suas fantasias "de culturas muito diferentes". Eles demonstram essa inocência ao resistir aos apelos maternos para brincar e, em vez disso, preferir fazer um "montinho de confete, serpentina e poeira". Essa pureza é reforçada pela narração, que afirma que "No mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro."

03 – Qual é o significado da música "Bandeira Branca" dentro do conto?

      A música "Bandeira Branca" simboliza um momento de reconciliação, rendição e, principalmente, de conexão autêntica entre Janice e Píndaro. Em diversos momentos cruciais da história, quando parecem distantes ou há um desentendimento, a canção surge como um catalisador para que se unam, simbolizando a trégua de suas diferenças e a celebração de sua ligação. O momento mais marcante é quando, aos quinze anos, Píndaro se sente amargurado e Janice o puxa para dançar ao som da música, restaurando a proximidade entre eles.

04 – Como a passagem do tempo afeta a relação e a percepção dos personagens?

      A passagem do tempo afeta a relação de Janice e Píndaro de forma ambígua e, por vezes, dolorosa. Na infância, a cada ano, a intimidade cresce, culminando em beijos e na troca do leque. No entanto, o tempo também traz a ausência, a perda de ilusões (especialmente para Píndaro após a ausência de Janice e a decepção com o riso dela sobre seu nome), e a inevitável transformação física e pessoal. No reencontro adulto, quinze anos depois, há um choque de realidade, a fantasia da juventude se esvai, e a dificuldade de reconhecer o outro fisicamente contrasta com a persistência de memórias e sentimentos.

05 – Que elemento revela a persistência do sentimento de Píndaro por Janice mesmo após anos?

      O elemento que revela a persistência do sentimento de Píndaro é o leque de bailarina que Janice lhe deu. Mesmo após sua ausência e o sofrimento que isso lhe causou, Píndaro guarda o leque, "às vezes tirando o leque do esconderijo para cheirá-lo, antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile". No reencontro adulto, a revelação de que ele "ainda tenho o leque" sublinha a força e a permanência de sua memória e afeto por ela.

06 – Qual é a principal diferença entre o reencontro na adolescência e o reencontro na vida adulta?

      A principal diferença é a perda da magia e da idealização. No reencontro da adolescência (aos 15 anos), apesar das transformações físicas, a conexão e a atração ainda são fortes, culminando em mais um momento significativo ao som de "Bandeira Branca", reafirmando a paixão adolescente. Já no reencontro na vida adulta, em um aeroporto, a cena é marcada pela realidade crua e pela quebra da fantasia. Há uma dificuldade de reconhecimento físico, uma desconexão com as "fantasias" do passado, e uma sensação de que a vida real, com seus casamentos e filhos, eclipsou a magia dos Carnavais. A mentira de Píndaro sobre ter esquecido o que ia dizer e a dificuldade de Janice em lembrar seu nome evidenciam essa perda.

07 – O que a reflexão final de Píndaro e Janice sobre seus pensamentos sugere sobre a natureza do amor e da memória?

      A reflexão final sugere a complexidade e a subjetividade do amor e da memória. Píndaro idealiza um momento específico ("Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro") como o ápice de sua vida, indicando que o amor para ele foi um instante mágico e irrecuperável. Ele questiona se "todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida?", o que aponta para uma nostalgia e uma sensação de que o melhor já passou. Janice, por outro lado, luta para lembrar o nome de Píndaro, o que pode indicar que, para ela, a intensidade daquele passado não teve o mesmo impacto duradouro ou simplesmente que a vida adulta trouxe outras prioridades. Essa dualidade entre a memória vívida e idealizada de um e a dificuldade de recordar do outro mostra como as experiências afetivas podem ser processadas e valorizadas de maneiras muito diferentes por cada indivíduo.

sábado, 9 de agosto de 2025

CRÔNICA: RUÍDOS - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: RUÍDOS

             Luís Fernando Veríssimo

        A única linguagem verdadeiramente internacional é a linguagem do corpo. Não, não os gestos: os ruídos. A tosse, o espirro, o pum, o trombone de sovaco, você os conhece. Também é a única linguagem autêntica. Talvez por isso mesmo haja tanta preocupação em disfarçá-la, e desencorajar o seu uso em público. Desde pequenos aprendemos a reprimir, na medida do possível, as manifestações naturais do nosso corpo, e a nos sentirmos embaraçados quando não dá para controlar e o corpo se faz ouvir claramente, causando espanto e mal-estar. Ao mesmo tempo, aprendemos a nos expressar com palavras e frases – ou seja, a linguagem da dissimulação, da mentira e, ela sim, da ofensa – que, por mais bem pensadas e articuladas que sejam, não tem a honestidade de um bom arroto.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgmt_1Jkwf9WlWu1N8clUca1eBBhxQMyI_qA_UmOJZ8Zt6kL_MSMfEOjiAAlzilqmYeOcOb0BW_t4iwb5RCU3bwJeXHdwoD8Drj2w9T0nUtCdhI0sOBRkYkROVUuwZQP1dK45fo3fARXvnwj4UbdTuZByCTN4kQRpXkggiDHrPp6DrmZ6iQWQvkzcQZ1rA/s320/Sinais-e-ruidos-e1717186397125.jpg


        Valorizamos a hipocrisia, condenamos a autenticidade. E o que é mais civilizado, a palavra, que discrimina e exclui, ou o ronco da barriga, que é igual para todos e que aproxima as pessoas, além de descontrair o ambiente? Uns podem ser mais ou menos espalhafatosos, mas todos os homens espirram da mesma maneira. Os puns também são iguais – respeitadas as variações de entonação, inflexão e duração –, independentemente de raça, cor, classe ou credo religioso. E ninguém tosse com sotaque, ou com mais correção gramatical do que seu vizinho.

        E sustento a tese de que, para conferências de paz ou qualquer negociação internacional, os países deveriam mandar os "mal-educados", no bom sentido. Pessoas que estabelecessem, de saída, sua humanidade comum, fazendo os ruídos que todos os homens e todas as mulheres (menos) fazem, em qualquer lugar do mundo. A primeira meia hora dos encontros poderia ser só de troca de ruídos do corpo, para criar o clima. Depois, o entendimento viria naturalmente. Mas não, quem é que mandam para essas reuniões? Diplomatas. Logo diplomatas, educadíssimos, incapazes de chuparem um dente na frente de quem quer que seja!

        Não admira que ainda exista tanta discórdia no mundo.

Luís Fernando Veríssimo. O Mundo é Bárbaro: e o que nós temos a ver com isso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 87-88.

Fonte: Universos – Língua Portuguesa – Ensino fundamental – Anos finais – 9º ano – Camila Sequetto Pereira; Fernanda Pinheiro Barros; Luciana Mariz. Edições SM. São Paulo. 3ª edição, 2015. p. 78.

Entendendo a crônica:

01 – De acordo com o autor, qual é a única linguagem verdadeiramente internacional e autêntica?

A – A linguagem escrita, pois supera barreiras de sotaque e pronúncia.

B – A linguagem verbal, pois permite expressar pensamentos complexos.

C – A linguagem dos gestos, pois é compreendida globalmente.

D – Os ruídos do corpo, como a tosse e o espirro.

02 – Qual é a principal crítica do autor em relação à educação social?

A – Ela não ensina as pessoas a se expressarem bem com palavras.

B – Ela valoriza a hipocrisia e condena a autenticidade dos ruídos do corpo.

C – Ela não considera a importância dos gestos em público.

D – Ela não prepara as pessoas para reuniões internacionais.

03 – A que o autor se refere quando fala em 'linguagem da dissimulação'?

A – Às palavras e frases, que podem ser usadas para mentir e ofender.

B – Ao sotaque e à correção gramatical na fala.

C – Aos ruídos do corpo que as pessoas tentam esconder.

D – À linguagem corporal não intencional.

04 – Qual é a proposta inusitada do autor para as conferências de paz?

A – Que os diplomatas sejam substituídos por pessoas 'mal-educadas' para criar um clima de humanidade comum.

B – Que os encontros comecem com uma discussão sobre os ruídos que mais aproximam as pessoas.

C – Que todas as reuniões sejam feitas sem o uso de palavras, apenas com ruídos.

D – Que diplomatas sejam ensinados a fazer os ruídos do corpo para se comunicarem melhor.

05 – Por que o autor argumenta que 'não admira que ainda exista tanta discórdia no mundo'?

A – Porque as pessoas valorizam a linguagem verbal em detrimento da linguagem autêntica dos ruídos corporais.

B – Porque os ruídos do corpo nem sempre são iguais para todos.

C – Porque as pessoas são incapazes de se comunicar de forma clara.

D – Porque os diplomatas são as pessoas mais educadas do mundo.

 

 

 

 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

POESIA: A VERDADE - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Poesia: A Verdade

             Luís Fernando Veríssimo

        O homem é o único animal que ri dos outros. O homem é o único animal que passa por outro e finge que não vê. É o único que fala mais do que papagaio. É o único que gosta de escargots (fora, claro, o escargot). É o único que acha que Deus é parecido com ele. E é o único 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi9EnauXGTjMj7FkiH24JexYmuS8I4opXJnEKakGpqE4bBGHy6AAgtkHKCNgSZXReD0pYlamELr36mwkh-pHlJ5y92kY9TKMTpsHZRyPWJs9jhwREt08evfq-L6s-r-1cq8dS83hH_IS0R2I1a6AhJX0kxWdSouN8RUdCp7ToUo2LpNk3HBUyjfIvxxF1c/s1600/images.jpg


...que se veste

...que veste os outros

...que despe os outros

...que faz o que gosta escondido

...que muda de cor quando se envergonha

...que se senta e cruza as pernas

...que sabe que vai morrer

...que pensa que é eterno

...que não tem uma linguagem comum a toda espécie

...que se tosa voluntariamente

...que lucra com os ovos dos outros

...que pensa que é anfíbio e morre afogado

...que tem bichos

...que joga no bicho

...que aposta nos outros

...que compra antenas

...que se compara com os outros

        O homem não é o único animal que alimenta e cuida das suas crias, mas é o único que depois usa isso para fazer chantagem emocional.

Não é o único que mata, mas é o único que vende a pele.

Não é o único que mata, mas é o único que manda matar.

E não é o único...

...que voa, mas é o único que paga para isso

...que constrói casa, mas é o único que precisa de fechadura

...que foge dos outros, mas é o único que chama isso de retirada estratégia.

...que trai, polui e aterroriza, mas é o único que se justifica

...que engole sapo, mas é o único que não faz isso pelo valor nutritivo

...que faz sexo, mas é o único que faz um boneco inflamável da fêmea

...que faz sexo, mas é o único que precisa de manual de instrução.

Poesia numa hora dessas? Porto Alegre: L&PM. p. 19.

Fonte: Livro – Português: Linguagem, 8ª Série – William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 4ª ed. – São Paulo: Atual Editora, 2006. p. 46.

Entendendo a poesia:

01 – Qual a principal característica do ser humano destacada no início do poema?

      O poema destaca que o ser humano é o único animal que ri dos outros, evidenciando uma faceta crítica e satírica sobre a natureza humana.

02 – Quais as ações humanas listadas no poema que evidenciam comportamentos únicos da espécie?

      O poema lista diversas ações como vestir-se e vestir outros, fazer o que gosta escondido, mudar de cor ao sentir vergonha, cruzar as pernas ao sentar, ter consciência da própria mortalidade e acreditar na eternidade, entre outras.

03 – Qual a crítica presente nos versos que abordam a relação do ser humano com outros animais?

      O poema critica a exploração animal, destacando que o ser humano é o único que vende a pele de animais que mata e que usa a relação com suas crias para chantagem emocional.

04 – Como o poema aborda a relação do ser humano com a natureza?

      O poema critica a arrogância humana ao destacar que o ser humano se considera anfíbio e morre afogado, além de ser o único que polui e aterroriza o meio ambiente, justificando suas ações.

05 – Qual a visão do poema sobre o comportamento humano em relação ao sexo?

      O poema satiriza a complexidade humana ao mencionar que o ser humano precisa de manual de instruções para o sexo e cria bonecos infláveis como representação da fêmea.

06 – Qual o tom predominante do poema?

      O tom predominante do poema é satírico e crítico, utilizando o humor para evidenciar as contradições e absurdos do comportamento humano.

07 – Qual a mensagem central do poema?

      A mensagem central do poema é uma reflexão crítica sobre a natureza humana, destacando a complexidade, as contradições e os comportamentos únicos da espécie, muitas vezes de forma satírica e irônica.