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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CONTO: DIA DOS NAMORADOS - MARÇAL AQUINO - COM GABARITO

 Conto: Dia dos namorados

         Marçal Aquino

 

        O rapaz e a moça entraram na pousada e, de um jeito tímido, ele perguntou o preço da diária. O velho Lilico informou e o rapaz e a moça trocaram um olhar em que faiscaram joias de diversos tamanhos. A maior delas era a cumplicidade.

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiN9pwkEeaHSEbrnLoFDeVG2q-dYNY8GSTZT1VZlXjoZhwSrY-FHgRzjBgWDb_RfynY4EbIAYQPmbJj4_C2NMSn39fPQnzxtEhE-B94qvLeXLLWSbCjjaS8s-hvvT0HbuVa_kmq4psVnY7dlGphah22Szr01zIYdkBtjkELh1kLba_hDb1PxC-0ehhQvk/s320/images.jpg


        Enquanto o rapaz preenchia a ficha de entrada, a moça se afastou um pouco para examinar melhor o quadro na parede — e pude vê-la por inteiro.

        Era muito bonita. Tinha os cabelos e a pele claros. Alta, magra, ossos salientes nos ombros. Estava no mundo há pouco mais de uma década e meia e, com certeza, alguém que recusara já havia escrito poemas desesperados pensando nela. Ou cortado os pulsos — o que é quase a mesma coisa.

        Embora não merecesse, o quadro recebeu toda sua atenção por alguns instantes. Era uma pintura ordinária. Eu já tivera a oportunidade de analisá-la durante as longas tardes em que a chuva me impedia de sair para caminhar pela cidade. Uma cidade habitada, fora da temporada turística, por velhos, aposentados e hippies extemporâneos. Gente que tentava, de um jeito ou de outro, ser esquecida.
        O quadro: penso que o artista havia experimentado um momento de genuína felicidade ao contemplar, em algum canto do país, aquelas montanhas, aquele prado, aqueles cavalos. E, generoso, decidira compartilhar esse momento com o resto da humanidade.

        Mas a verdade é que fracassara. A arte não é feita de boas intenções.

        O olhar com que a moça se despediu — para sempre — daquela obra continha um pouco de piedade. E, com isso, ela me conquistou em definitivo.

        O velho Lilico entregou a chave ao rapaz, que se voltou e sorriu para a moça. Seu ar era de alguém vitorioso. Mas sou capaz de apostar que a mão que ele juntou à dela, antes de subirem a escada de madeira, tinha a palma molhada de suor. Havia um princípio de rubor no rosto dela. Eram muito jovens e estavam vivendo um grande momento, mas não sabiam disso ainda. Essas coisas a gente só compreende depois.

        Lilico deixou o balcão da recepção e foi até a copa, onde falou alguma coisa para Jair, um de seus empregados. Em seguida veio até a mesa que eu ocupava.

        "Gosto de gente que chega para hospedar-se sem nenhuma bagagem", ele comentou.

        "E a felicidade que eles carregam, não conta?", eu perguntei.

        Ele examinou o tabuleiro, como se estivesse tentando rememorar a jogada que pretendia fazer antes de ser interrompido pela chegada do casal.

        "Mandei o Jair levar uma garrafa de champanhe para eles. Cortesia da casa”.

        "Fez bem", eu disse.

        "Gozado, sabe quem essa moça me lembrou?"

        Eu disse: "Sei".

        "Acho que foram os olhos dela", ele falou. "Muito parecidos."

        Retomamos o jogo e não falamos mais do casal. Eu, porém, continuei pensando neles. Num dia como aquele, anos antes, uma mulher, que entrava comigo num hotel bem diferente daquela pousada, me dissera: "Hoje eu vou te dar um presente muito especial".

        Um pouco depois da meia-noite interrompemos o jogo e o velho Lilico recolheu as peças e guardou o tabuleiro. E eu já estava no meio da escada, a caminho do meu quarto, quando ele perguntou:

        "Você ainda pensa nela?"

        "De vez em quando eu penso."

        "E por que você não vai atrás dela? Vocês dois ainda têm alguns anos pela frente."

        "A mágica não acontece duas vezes", eu disse.

        O velho Lilico balançou a cabeça.

        "Você sabe que só em filme francês antigo o herói termina seus dias em hotéis vagabundos, escrevendo livros que nunca irá publicar”.

        Eu me limitei a sorrir. Então ele me desejou "boa noite" e voltou para a recepção.

        Eu subi a escada e, ao chegar ao corredor, parei diante da porta do quarto que o casal ocupava e tentei ouvir alguma coisa. Mas tudo estava silencioso. Entrei nó meu quarto e, enquanto me despia, pensei no velho Lilico. Ele tinha razão: ainda me restavam alguns anos pela frente. E essa era a pior parte da história.

Conto reproduzido do site: http://www.releituras.com/

Entendendo o conto:

01 – Qual é o papel da voz narrativa no conto e de que forma o narrador se posiciona diante da chegada do jovem casal à pousada?

      O conto é narrado em primeira pessoa por um personagem observador que se encontra hospedado na pousada. Ao observar a chegada do jovem casal, o narrador adota uma postura melancólica, contemplativa e analítica. Ele projeta na juventude e na cumplicidade dos jovens a sua própria nostalgia e as memórias do seu passado amoroso. A voz narrativa funciona como uma ponte entre o entusiasmo da mocidade (representada pelos recém-chegados) e o desencanto da maturidade (representado pelo próprio narrador e pelo ambiente da cidade).

 

02 – Como o narrador descreve a cidade e os seus habitantes? Qual é a relação entre essa ambientação e o seu próprio estado de espírito?

      A cidade é retratada como um lugar calmo, fora da temporada turística, habitado por velhos, aposentados e "hippies extemporâneos" — pessoas que buscam, de uma forma ou de outra, ser esquecidas. Essa ambientação decadente e estática reflete diretamente o estado de espírito do narrador, que se encontra isolado e estagnado em suas próprias memórias. O ambiente espacial espelha a sua própria tentativa de se afastar do mundo e aceitar a solidão.

 

03 – No texto, a moça observa um quadro na parede da recepção. Qual é a crítica feita pelo narrador a essa obra de arte e o que a reação da moça revela sobre o seu caráter aos olhos dele?

      O narrador considera o quadro uma "pintura ordinária", afirmando que o artista fracassara na tentativa de transmitir a sua felicidade genuína ao espectador, pois "a arte não é feita de boas intenções". Quando a moça se despede do quadro com um olhar que contém "um pouco de piedade", o narrador percebe nela uma sensibilidade estética e uma maturidade refinada, o que o faz sentir-se definitivamente conquistado e atraído pela figura dela.

 

04 – Analise a afirmação do narrador: "Eram muito jovens e estavam vivendo um grande momento, mas não sabiam disso ainda. Essas coisas a gente só compreende depois." O que esse trecho revela sobre a percepção do tempo e da juventude no conto?

      O trecho destaca a efemeridade e o valor inconsciente da juventude. Para o narrador, os momentos mais intensos e felizes da vida são muitas vezes vivenciados sem a plena consciência da sua dimensão temporal. Apenas com o passar do tempo, com o amadurecimento e com o distanciamento da velhice ou da perda, é que se compreende o valor daqueles instantes de cumplicidade e felicidade.

 

05 – Qual é o significado da interação entre o narrador e o velho Lilico a respeito de ter "bagagem" e de lembrar de uma mulher do passado?

      Quando Lilico comenta que gosta de hóspedes sem bagagem, o narrador questiona o valor da "felicidade que eles carregam", sugerindo que as bagagens emocionais são mais significativas que as físicas. Em seguida, a semelhança da jovem com uma mulher do passado do narrador desencadeia um momento de memória compartilhada com Lilico. Essa conversa evidencia que tanto o narrador quanto Lilico carregam marcas do passado e que a presença do casal atua como um espelho de saudades que ambos tentam lidar.

 

06 – Como o narrador justifica a sua recusa em ir atrás da mulher do seu passado quando confrontado pelo velho Lilico?

      O narrador justifica sua recusa com a frase "A mágica não acontece duas vezes". Ele demonstra a crença de que tentar reviver uma paixão ou uma época de felicidade idealizada no passado seria inútil, pois as circunstâncias e os sentimentos que tornaram aquele momento único já não podem ser replicados. Ele prefere manter a lembrança intacta a arriscar uma nova decepção.

 

07 – Explicite o significado da frase final do conto: "Ele tinha razão: ainda me restavam alguns anos pela frente. E essa era a pior parte da história."

      A frase encerra o conto com um profundo tom de desilusão e desamparo existencial. Saber que "ainda restavam alguns anos pela frente" não é visto como uma oportunidade de recomeço, mas sim como um fardo longo e doloroso. O narrador compreende que terá de viver o restante de seus dias na solidão, consciente de que a intensidade, a "mágica" e a felicidade genuína de sua vida já ficaram definitivamente no passado.

 

 

 

 

CONTO: O SEGREDO - FRAGMENTO - LUIZ RUFFATO - COM GABARITO

Conto: O segredo – Fragmento

          Luiz Ruffato

VIII
        O Professor acordou, ajoelhou-se junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha azul, recitou o Credo e o Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em direção à cozinha, parou em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, arrumou o nó da gravata, compôs melhor o paletó, passou os dedos longos e secos pelo cabelo e espantou-se com o silêncio. Entrou na cozinha e Quede dona Conceição? Atônito, sentou-se à mesa vazia. Em quinze anos, aquela era a primeira vez que a empregada não chegava no horário.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgPfjPkBz6fSlC3alSBnfwKvQqp524XlnNME9i2_JN4H-U0O9yqQoZBrexcy8QWbut2Vcp1OH788jccI7CZwGWnhBTa8S3Y-ri7oNCbaqY-7o_PhVPQcnqDUiNZDfXD0x1UQh97RgL-3fYVskgDfguwwa7WlHew4DP9Zju4A_TI9IHvLvCpchyIigTrA04/s320/images.jpg


        Refeito, deu de ombros, O que fazer?, encostou a porta e foi tomar o café da manhã na cantina do Colégio. Às cinco para as seis, entrou em casa e, decepcionado, constatou que a mulher não fora trabalhar naquele dia. Se quisesse jantar, teria que se deslocar até o Bar Elite, Que amolação! Será que aconteceu alguma coisa? Que nada, Ah, esse povo!, sempre tentando E agora o quê que vou comer? Vamos ver E se.

        Dia seguinte, acordou, ajoelhou-se junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha azul, recitou o Credo e o Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em direção à cozinha, parou em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, E a dona Conceição? "Dona Conceição! Ô dona Conceição!" Silêncio. Mas não é possível! "Dona Conceição!" A cozinha vazia irritou-o profundamente. Ê gente sem compromisso! Pegou a sovada pasta de couro, Depois mando embora vai lamentar Cheio de gente aí fora Dá pena Mulher honesta Mas se não for assim como, saiu pisando duro. Na calçada, um homem apeou da bicicleta e veio ao seu encontro, "Professor?" Assustou-se, apertou o passo. "Professor? O senhor é o Professor, não é? Sou vizinho da dona Conceição..." "Ah!" Parou. "O senhor é o Professor, não é? Pois então! Tinha certeza!, homem assim, que nem o senhor, só podia ser... O caso é que a dona Conceição, ela mora lá no Beco do Zé Pinto, o senhor sabe..." "Sei, sei". "Coitada, teve um troço lá, não veio trabalhar ontem, nem vai poder trabalhar hoje não..." "Ô meu deus! Mas o quê que ela tem?" "Uma macacoa besta lá... Preocupa não... Diz ela que segunda-feira está de volta, se deus quiser..." "Então, não é nada muito sério, não?" "Nada... Acho que não... Ela até mandou perguntar pro senhor se tem roupa pra lavar. Se tiver, é só falar, eu levo, a comadre dela cuida... Direitinho..." "Não, não... Segunda-feira ela volta, então?" "Segunda-feira, se deus quiser..." "Qual é mesmo a sua graça?" "Vanim. Vanim às suas ordens" "Pois bem, seu Vanim, eu já estou meio atrasado... Vamos fazer o seguinte... Diga pra dona Conceição que eu... estimo suas melhoras... E... quem sabe... Bom... E que eu espero ela na segunda-feira..." Vanim sentou no selim da Monark laranja. "De qualquer maneira, muito obrigado, senhor..." "Vanim. Vanim às suas ordens!" O Professor mudou de calçada. Vanim pedalou alguns metros, parou. "O senhor quer uma carona?, pode montar aí na garupeira, levo o senhor..." "Não, meu rapaz, muito obrigado." "O senhor é quem sabe... Precisando da gente..." E desapareceu no meio da cerração.

 Entendendo o conto:

01 – Qual é a rotina matinal descrita do Professor antes de ele ir à cozinha?

      O Professor acorda, ajoelha-se junto a um pequeno nicho iluminado por uma luz azul para rezar o Credo e o Pai-Nosso, vai ao quintal lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, veste o terno e arruma a gravata, o paletó e o cabelo em frente ao espelho da chapeleira.

 02 – O que causa o espanto e a estranheza do Professor logo no primeiro dia narrado?

      O silêncio na casa e a ausência de dona Conceição, a empregada doméstica. Essa situação o surpreende porque, em quinze anos de trabalho, foi a primeira vez que ela não chegou no horário.

 03 – Como o Professor reage inicialmente à ausência da empregada no segundo dia?

      Ele fica profundamente irritado com a cozinha vazia, chama por ela e faz julgamentos sobre os trabalhadores ("gente sem compromisso"), pensando inclusive em demiti-la, embora reconheça internamente que ela é uma mulher honesta.

 04 – Quem aborda o Professor na rua e qual é o motivo da abordagem?

      Ele é abordado por Vanim, um vizinho de dona Conceição. Vanim veio avisar que a empregada não pôde ir trabalhar porque teve uma "macacoa" (estava doente), mas que pretendia retornar na segunda-feira.

05 – Que atitude do Professor ao longo do texto evidencia seu distanciamento social em relação a Vanim e dona Conceição?

      O Professor demonstra um comportamento distante e preconceituoso: assusta-se ao ser abordado na rua, muda de calçada durante a conversa, recusa a oferta de carona na bicicleta de Vanim e demonstra preocupação excessiva apenas com os próprios incômodos (onde comer, suas roupas e o atraso), mantendo uma postura de superioridade em relação às pessoas mais simples.

 

 

 

 


domingo, 23 de agosto de 2026

CONTO: A MORTE LUCRATIVA - VALÊNCIO XAVIER - COM GABARITO

 Conto: A morte lucrativa

          Valêncio Xavier

        O engenheiro, vamos chama-lo de Fulano, trabalha na usina siderúrgica de... Dedicara sua vida – sem resultado – para obter uma liga de aço que fosse bastante forte e ao mesmo tempo flexível com o borracha. Já era velho e não enxergava direito. Um dia, quando inspecionava o aço líquido que escorria nos caninhos de fundição, tropeçou e caiu dentro da massa incandescente. Foi um corre-corre, mas nada pôde ser feito, o acidente foi fatal e seu corpo derretera-se fundindo com o aço.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh8Thyphenhyphenu8QRCX63WsJPnR4doCFWWYEhCSGiU7QKv0AJTA0X57pknBoGbths0yoHC6ZBOqTCEGotvRsIXs2G7k_rf_wRZMCHqwqE8ZXP3V0SBI4YUbWWh2XojEP45M7rrJztkzRokvcCqpXQAGZvOOdwAS9F_lJ8Vtmw-YCBZtc6I3uncDbIGG4pcbvcYPHY/s320/images.jpg


        Sua morte foi muito sentida, a diretoria da usina pensou em dar sepultura cristã ao enorme bloco de metal já solidificado, mas numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo e o cadáver foi transformado em lâminas de barbear. O espantoso foi que, quando submetidas aos testes, provaram ter uma resistência incrível: capazes de receber o mais forte impacto e ao mesmo tempo maleáveis a ponto de uma criança poder dobrá-las sem que se quebrassem. O que o engenheiro Fulano buscara durante sua vida conseguira com sua morte.

        A diretoria, ao saber do resultado dos testes, reuniu-se para discutir a fabricação do novo tipo de aço. Seria a glória financeira, poderia entrar no mercado internacional, concorrendo com as grandes siderúrgicas do mundo. A reunião principiou com animadas conversas sobre as modificações a fazer para aumento das instalações, o lucro futuro, a revolta dos concorrentes.

        No meio daquela exaltação um dos diretores pediu a palavra e explicou: “Embora tentasse há muitos anos, o engenheiro Fulano nunca conseguiu um aço tão perfeito. Se isto agora aconteceu, não foi na maneira de temperar o metal, mas por alguma coisa que ele trazia no bolso, que se juntou ao aço candente, apurando-o”.

        Essas palavras caíram como água fria na fervura, mas os outros diretores foram obrigados a reconhecer que eram certas. Um deles, então, sugeriu: “Se isto é verdade, vamos tratar de descobrir o que o engenheiro Fulano trazia na hora do triste acidente”.

        Puseram-se em ação. Procuraram a viúva do infeliz e, após os rodeios de praxe, indagaram sobre o conteúdo dos bolsos do marido no dia fatídico: “Fácil”, disse ela. “Eu mesma arrumava suas coisas. Naquele dia, lembro-me bem, coloquei nos bolsos de seu terno de sarja azul as chaves da casa, sua carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã (o falecido gostava tanto!), um lenço de cambraia, uma nota de 200 e uma de 20 reais. Deve ter gastado 10 de ônibus, teria então 210 reais quando morreu”.

        No dia seguinte, os técnicos da usina receberam ordem para misturar na têmpera do aço um terno de sarja azul, duas chaves, uma carteira de identidade, um pacote de balas de hortelã, um lenço de cambraia e 210 reais. Os técnicos estranharam, mas numa grande indústria as ordens de cima devem ser sempre obedecidas e a extravagante mistura foi posta nos cadinhos de fundição. O aço assim produzido foi testado, mas sua qualidade provou ser a mesma ou pior que as anteriores.

        Reunião da diretoria para examinar o fracasso da experiência. Uns explicavam o malogro pela má qualidade das balas usadas, outros achavam que o lenço devia ser de cambraia estrangeira. As coisas estavam nesse pé, até um dos diretores sugerir: “Quem sabe não foi nada disso que apurou a liga, e sim o corpo do engenheiro Fulano, seus ossos, sua carne, seu sangue?”. Alguns dos diretores mostraram-se horrorizados com essa ideia, mas como ela foi muito bem explanada – e como as ideias bem explanadas devem ser sempre aceitas – resolveram pô-la em prática.

        Um cadáver fresco foi comprado na Faculdade de Medicina e vestido da mesma maneira do engenheiro Fulano. Numa tarde mandou-se sair os operários da usina e o defunto foi atirado na forja. A diretoria esperou ansiosa o resultado dos testes. Nova desilusão: o mesmo aço de sempre, a mesma qualidade, a eterna luta para coloca-lo no mercado. Nova reunião. Creio que todos sabiam o que iria ser sugerido, mas ninguém tinha coragem de dizer, por isso, o início da reunião foi bem desagradável. Longos períodos de silêncio seguiam as palavras dos participantes. Finalmente alguém mais corajoso tomou a palavra: “Concordamos que a ótima qualidade da liga foi conseguida graças ao corpo do engenheiro Fulano. Repetimos o acidente, porém o engenheiro estava vivo quando caiu na forja, mas nós usamos um cadáver. Quem sabe se nosso erro foi esse? Talvez o sangue borbulhante e as células exerceram alguma influência na têmpera. Proponho nova experiência, desta vez com um ser humano vivo!”.

        Longo como a eternidade foi o silêncio que seguiu essas palavras. Não sei o que ficou resolvido; sei que, alguns dias depois, um operário – por sinal um dos mais antigos e respeitados da usina, tanto é que naquele mesmo dia havia sido presenteado pela direção com um belo terno de sarja azul – caiu dentro da forja, morrendo instantaneamente. Este triste acidente não melhorou a qualidade do aço. A diretoria , como no caso do engenheiro, pensou em fazer os funerais do bloco de aço; contudo, naqueles dias estourou mais uma guerra mundial. Aumentou a procura do aço e seu preço subiu vertiginosamente; tornou-se necessário aumentar a produção e o velho operário foi transformado em chapas blindadas para tanques. Como a guerra continua e todo aço produzido é necessário, não importa sua qualidade, ignoro em que pé estão as pesquisas da usina para melhorar a produção. É uma pena, pois é um problema que me interessa bastante...

Valêncio Xavier. In: Geração linguagem. São Paulo: Sesc e Lazuli, 2004.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 115-116.

Entendendo o conto:  

01 – Qual era o grande objetivo profissional do engenheiro Fulano em vida e de que forma ele acabou, ironicamente, alcançando esse resultado?

      O objetivo de vida do engenheiro Fulano era obter uma liga de aço que fosse extremamente forte e, ao mesmo tempo, flexível como borracha. Ironicamente, ele só alcançou esse resultado após a sua morte: por ter a visão prejudicada devido à idade, ele tropeçou e caiu na massa incandescente de aço líquido da usina. Ao ter seu corpo fundido ao metal, o bloco resultante produziu lâminas de barbear com a resistência e a maleabilidade perfeitas que ele buscou durante toda a sua vida.

02 – Como a diretoria da usina reagiu inicialmente ao acidente fatal e o que a fez mudar de ideia em relação ao destino do metal solidificado?

      Inicialmente, a diretoria pensou em dar uma sepultura cristã ao enorme bloco de metal em que o corpo do engenheiro se fundira. No entanto, prevaleceu a lógica industrial de que "numa grande indústria não há lugar para sentimentalismo". Dessa forma, a diretoria decidiu transformar o cadáver de metal em lâminas de barbear, descobrindo logo em seguida que o aço havia adquirido qualidades excepcionais.

03 – Quais foram as etapas de tentativas da diretoria para reproduzir a liga de aço perfeita após o acidente do engenheiro Fulano?

      A diretoria realizou três tentativas principais:

      Mistura de objetos: Misturaram no aço líquido os mesmos pertences que o engenheiro carregava nos bolsos no dia da morte (terno, chaves, documentos, balas de hortelã, lenço e dinheiro).

      Uso de um cadáver: Jogaram na forja o corpo de um cadáver fresco comprado na Faculdade de Medicina, vestido com as mesmas roupas do engenheiro.

      Uso de uma pessoa viva: Lançaram na forja um operário vivo (disfarçando a ação como um acidente) para verificar se o "sangue borbulhante e as células vivas" seriam o fator determinante.

04 – Como a ganância da diretoria é evidenciada no episódio envolvendo o "velho operário"?

      A ganância e a falta de ética da diretoria atingem o ápice quando decidem sacrificar um ser humano vivo para tentar obter a fórmula do aço perfeito. Eles presenteiam um dos operários mais antigos e respeitados com um terno de sarja azul e, em seguida, simulam um acidente jogando-o na forja. A frieza com que tratam a vida humana em prol do lucro e do mercado internacional evidencia a desumanização promovida pelo poder econômico no conto.

05 – Apesar do sacrifício do operário, a qualidade do aço não melhorou. O que impediu que a tragédia se tornasse um prejuízo financeiro para a usina?

      O estouro de uma nova guerra mundial fez com que a demanda e o preço do aço subissem vertiginosamente. Com a necessidade urgente de aumentar a produção armamentista, a qualidade do metal deixou de ser prioridade para o mercado. Assim, a usina aproveitou o bloco de aço contendo o corpo do operário e o transformou em chapas blindadas para tanques de guerra, garantindo o lucro independentemente do fracasso do experimento.

06 – Qual é o significado do título "A morte lucrativa" no contexto da narrativa?

      O título sintetiza a crítica central do conto à mercantilização da vida humana no sistema industrial e de guerra. A morte do engenheiro abriu a perspectiva de lucros astronômicos com uma nova tecnologia; e mesmo a morte do operário, que falhou em replicar a fórmula, acabou sendo monetizada pela indústria bélica durante a guerra. A morte, portanto, deixa de ser uma tragédia humana e passa a ser vista apenas como uma oportunidade de ganho financeiro.

07 – Análise o papel do narrador na frase final do conto: "É uma pena, pois é um problema que me interessa bastante...". O que essa declaração sugere sobre ele?

      A frase final revela o tom de ironia macabra e o distanciamento moral do narrador. Ao lamentar que as pesquisas foram interrompidas pela guerra, o narrador demonstra estar mais interessado na resolução do "enigma científico/industrial" do que horrorizado com os homicídios e o desprezo pela vida humana cometidos pela diretoria. Isso sugere que o narrador compartilha da mesma mentalidade fria, utilitarista e insensível que domina a usina siderúrgica.

 

CONTO: JACOB PROCURA UM DESERTO - LENE MAYER SKUMANZ - COM GABARITO

 Conto: Jacob procura um deserto

 

        O professor de religião está a explicar às crianças por que razão os profetas e Jesus gostavam de ir para o deserto.

        — No deserto, o homem está completamente sozinho. Pode fazer silêncio e meditar. Pode pôr-se à prova e ver se consegue passar sem as coisas a que está habituado: sem boa comida e sem conforto, sem diversões e amigos. Não há nada que o distraia quando quer falar com Deus.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiaK0qUNW2J4ruzumK37a4rqn9RRe_BlxDXbYUTQ-l1HZRMToQqLzQ9LebO-L_08zP_gmoxtSv52rgHBI1ISRgj09-gwdrZGG6MaNOperNh1XIBtgUfe6F_hO7Qp7H_-EST8iaaxTRB3dy_w00Mtx-Ir0_eBdyPtxbxGg105dTnpSFFWXbBIfXDIHRI-90/s320/images.jpg


        — O Sr. Professor já esteve no deserto? — pergunta Jacob.

        — Já — responde o professor. — Depois de visitar Jerusalém fui até lá. Gostei tanto, que quase nem consigo descrever.

        “Eu também gostava de ir para o deserto” — pensa Jacob. Só é pena que à beira de sua casa não haja nenhum deserto, nenhum local onde possa ficar em silêncio e meditar.

        Ou será que há?

        No quarto de Jacob, a seguir ao almoço, não há barulho. Só ouve, baixinho, a música da Antena 1 vinda da casa do vizinho e a mãe a lavar a loiça na cozinha. No pátio, uma criança atira a bola repetidamente contra a parede, e ao longe ouve-se o ruído dos automóveis.

        Ali ainda há demasiado barulho para poder estar em silêncio, mas, se fizer um esforço, talvez consiga abstrair-se. Jacob vai perguntar à mãe se pode ir dar um pequeno passeio.

        Não é fácil encontrar na cidade um pouco de deserto. Talvez no parque, mas ao lado está a ser aberta uma estrada, e as máquinas fazem tanto barulho que nem se consegue ouvir os pardais a chilrear no arvoredo.

        Três quarteirões mais à frente, atrás da fábrica de calçado, há uma sucata. Está fechada com arame farpado, mas Jacob conhece um buraco por onde pode escapar-se. O local da sucata é uma paisagem deserta, só com canos de fogões, detritos, máquinas de lavar e peças de automóveis. Um homem já de certa idade caminha, curvado, por entre os montes de ferro-velho e recolhe metal.

        — Andas à procura de alguma coisa? — pergunta, olhando para Jacob.

        Jacob salta novamente para a estrada e anda, anda, até chegar em frente da casa de Catarina. Sobe as escadas e toca à campainha.

        — Ando à procura de um local para meditar – diz-lhe ele.

        Ela condu-lo à sala, afasta para o lado livros e brinquedos com o pé, e encosta uma almofada à parede.

        — Pronto, senta-te aqui — diz ela. — Vou ficar quieta para tu poderes meditar. 

        Catarina senta-se à mesa a fazer os trabalhos de casa. Não diz uma palavra nem olha uma única vez para Jacob. A sala está tão silenciosa que ele consegue ouvir a caneta de tinta permanente a arranhar o papel. E o ruído abafado que os sapatos fazem quando Cati roça a perna da cadeira, porque Cati nunca consegue sentar-se totalmente quieta.

        Jacob fecha os olhos. Ouve a sua própria respiração e admira-se por respirar tão devagar. Sente como a barriga sobe e desce quando respira. O sangue palpita-lhe levemente nas orelhas e também no pescoço. Cati foi muito simpática em tê-lo deixado ficar na sala, mas Jacob não lho diz.

        — Está-se tão bem aqui. Quase como no deserto.

        — Se andas à procura de um deserto, tens de ir à sucata.

        — Já lá estive — diz Jacob.

        — E?...

        — Nada. 

        — Tens de atravessar devagarinho e com calma a sucata toda — diz Cati. — Não vás só pela beira.

        De regresso a casa, Jacob volta a entrar pelo buraco do arame farpado.

        — Então, de que é que andas à procura? — pergunta o velho.

        — De alguma coisa para a bicicleta? Talvez possa ajudar-te.

        — Eu só vim dar uma volta — diz Jacob, e continua por entre o ferro-velho. As pedras rolam-lhe por debaixo dos pés, escorrega, segue em frente. Ouve-se o vento a assobiar. Um cão ladra algures.

        No céu, bandos de gralhas voam em círculos. Jacob fica espantado. Nunca pensou que ali fosse tão calmo. Não há nada que o distraia.

        “Jesus” — pensa ele. — “O que achas do meu deserto?”

Lene Mayer-Skumanz. Lene Mayer-Skumanz (org.). Hoffentlich bald Wien, Herder Verlag, 1986. Tradução e adaptação

Entendendo o conto:

01 – Qual é a explicação dada pelo professor de religião sobre o motivo pelo qual Jesus e os profetas gostavam de ir para o deserto?

      O professor explica que no deserto o homem fica completamente sozinho, o que possibilita fazer silêncio, meditar e falar com Deus sem distrações. Além disso, o deserto é um local para testar a si mesmo e ver se é possível viver sem as comodidades do dia a dia, como boa comida, conforto, diversões e amigos.

02 – Ao tentar meditar no próprio quarto, quais são os barulhos que impedem Jacob de encontrar o silêncio absoluto?

      No quarto, Jacob consegue ouvir a música da rádio vinda da casa do vizinho, a mãe lavando a louça na cozinha, uma criança batendo repetidamente uma bola contra a parede no pátio e, ao longe, o ruído dos automóveis na rua.

03 – Como a cidade é apresentada no texto no que diz respeito à busca de Jacob por um espaço de silêncio? Dê exemplos dos locais visitados por ele antes da casa de Catarina.

      A cidade é apresentada como um ambiente barulhento e em constante movimento, onde é difícil encontrar um espaço calmo. Quando Jacob tenta ir ao parque, depara-se com máquinas barulhentas abrindo uma estrada. Ao ir para a sucata pela primeira vez, o local tem a aparência de uma paisagem deserta, mas a presença do homem que recolhe ferro-velho o assusta e o faz ir embora sem meditar 

04 – De que maneira Catarina ajuda Jacob na sua busca por um local para meditar e como ela se comporta enquanto ele está lá?

      Catarina acolhe Jacob em sua casa, abre espaço na sala afastando brinquedos e livros e coloca uma almofada para ele se sentar. Para ajudá-lo a meditar, ela decide ficar totalmente em silêncio fazendo seus deveres de casa, sem falar e sem olhar para ele, respeitando a busca do amigo 

05 – Qual é o conselho que Catarina dá a Jacob para que ele realmente consiga encontrar o "deserto" na sucata?

      Catarina aconselha Jacob a não ficar apenas na beirada da sucata, mas sim a atravessar o local inteiro, devagar e com calma, para conseguir vivenciar a experiência do silêncio e da meditação naquele espaço.

06 – O que Jacob sente e percebe quando decide seguir o conselho de Catarina e retornar à sucata?

      Ao caminhar devagar pelo ferro-velho, Jacob percebe os sons sutis ao seu redor, como o vento assobiando, as pedras rolando sob seus pés, um cão latindo ao longe e o voo das gralhas no céu. Ele se espanta com a calma do lugar e conclui que ali não há nada que o distraia, alcançando finalmente o seu "deserto". 

07 – A partir da leitura do conto, como podemos definir o conceito de "deserto" para Jacob? Trata-se apenas de um lugar geográfico? Justifique.

      O "deserto" para Jacob não é apenas uma região geográfica árida, mas sim um estado de espírito e um espaço de desconexão do barulho cotidiano. O conto mostra que o deserto pode ser encontrado em locais simples do dia a dia (como uma sucata ou um canto silencioso na casa de uma amiga), desde que a pessoa adote uma atitude de calma, foco interior e abertura para o silêncio e para a meditação.

 

CONTO: A PEDRA NO CAMINHO - WILLIAM J. BENNETT - COM GABARITO

 Conto: A pedra no caminho

 

        Conta-se a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhpNb1GOhled-UxGCZpxAWbMl5DXpwSHHtKTpt1jeJnsk0f_hd1F1mWpCKZm_D-D8mk9vg-e5TsRPT098lvTW-AwK_AWZ6Y-YF0YdvdE_l1hRF0kKwPu1fFcIz5GLREfsgjndbvzG7r_I6YJNu7vbWTZpcojLM2xzwKGERXJokpWnRfLg00l26i48j59fQ/s320/images.jpg


        — Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.

        Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.

        Primeiro, veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.

        — Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?  E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.

        Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.

        O soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.

        Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.

        Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho.

        Mas disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”

        E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.

        Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”

        Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.

        A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.

        — Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.

        Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites, retirou-se.

 

William J. Bennett O Livro das Virtudes II Editora Nova Fronteira, 1996.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual era o principal objetivo do rei ao colocar uma pedra propositalmente no meio da estrada e o que isso revela sobre a sua visão de liderança?

      O rei, descrito como sábio, não buscava apenas pregar uma peça, mas sim criar uma lição prática sobre cidadania e iniciativa. Seu objetivo era "inculcar bons hábitos" e testar a disposição do povo em resolver problemas por conta própria em vez de apenas reclamar. Isso revela uma visão de liderança educativa, onde o governante não apenas provê, mas desafia seus súbditos a serem proativos e responsáveis pelo bem comum.

 

02 – Compare a reação do fazendeiro e do soldado diante do obstáculo. O que há de comum entre as atitudes desses dois personagens?

      Ambos os personagens reagem com indignação e buscam culpados externos ("preguiçosos"), mas nenhum deles considera a possibilidade de resolver o problema pessoalmente. O fazendeiro desvia sua carroça e reclama; o soldado, embora sofra um acidente físico ao tropeçar, também se limita a limpar a poeira e amaldiçoar os outros. O ponto comum é a passividade e o egoísmo: eles enxergam a pedra como um incômodo para si, mas não sentem a responsabilidade de removê-la para ajudar a coletividade.

 

03 – Por que a filha do moleiro foi a única a retirar a pedra e qual foi a sua principal motivação, de acordo com o texto?

      Diferente dos outros, a filha do moleiro foi movida pela empatia e pela prudência. Mesmo estando cansada após um dia de trabalho, ela pensou na segurança alheia ao notar que, com a chegada da noite, alguém poderia tropeçar e se ferir gravemente. Sua motivação não foi a busca por recompensa (já que ela não sabia do ouro), mas sim o desejo genuíno de evitar um mal ao próximo e melhorar o caminho para todos.

 

04 – Explique o significado da frase final do rei: "A decepção é normalmente o preço da preguiça." Relacione-a com o comportamento final dos outros súbditos ao descobrirem o ouro.

      A frase sugere que aqueles que evitam o esforço e o trabalho perdem as oportunidades de crescimento e recompensa que estão escondidas sob os desafios. A "decepção" mencionada refere-se ao sentimento do fazendeiro e do soldado que, ao verem o ouro, perceberam que a riqueza poderia ter sido deles se tivessem tido a iniciativa de agir. O comportamento final deles, de procurar ouro no pó da estrada, demonstra que eles ainda não haviam entendido a lição: a recompensa não cai do céu por sorte, mas é fruto de enfrentar o obstáculo.

 

05 – O conto utiliza a "pedra" como uma metáfora. Para além do objeto físico, o que a pedra representa na vida humana e qual é a mensagem central do conto sobre como devemos lidar com os nossos "fardos"?

      A pedra representa as dificuldades, problemas sociais e obstáculos inesperados que surgem em nossa jornada. A mensagem central é que os problemas não devem ser apenas contornados ou usados como motivo de reclamação; eles são oportunidades disfarçadas para o desenvolvimento pessoal e para o serviço ao próximo. O conto ensina que o progresso (o "ouro") pertence àqueles que arregaçam as mangas para transformar obstáculos em degraus.

 

 

CONTO: HOMENAGEM AO PAPAGAIO VERDE - FRAGMENTO - JORGE DE SENA - COM GABARITO

 Conto: Homenagem ao papagaio verde – Fragmento

          Jorge de Sena

        Era verde e velho. Pelo menos, antigo. E ocupa na minha memória – junto com uma galeria indistinta e confusa de gatos tigrados e «preparados» pelo amola-tesouras-e-navalhas (mais tarde, esse primeiro mistério da minha infância passou a ser celebrado na Escola de Medicina Veterinária, já com os requintes da assepsia), e todos chamados «Mimosos» tão onomasticamente como os papas são Pios – o mais arcaico lugar reservado a uma personalidade animal. Digo personalidade, e bem, porque ele a tinha, e porque foi mesmo, para lá das surpresas contraditórias das «pessoas grandes», tão caprichosas e volúveis, tão imprevisíveis, tão ilógicas, tão hipocritamente cruéis, a revelação de um carácter. Não tinha nome: era o Papagaio, e parecia-me, porque falava, um ser maravilhoso. Depois, e a chegada desse outro eu recordo, meu pai trouxe das Áfricas um papagaio cinzento. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQu02YNIHjvbWLz5aAwxuUe31UYqTG2rZs3iP-ELIP4iC6FlWRYKvv6wIOGMXGsQTOSdw9xFIV5zeqHygfplwvMsf7FkTBUzs9F_BuO0zdwGZqZAaJMiJfoZK6B_ovrVsx2V3f-vminGldNTt91lJDOdpE0CDukH3yGka6V9pFRqxOUvb1qmM3GvEaL1U/s320/images.jpg


O papagaio por excelência passou a chamar-se o Papagaio Verde, e vivia de gaiola pendurada numa das varandas em que, por um tapume de madeira, estava dividida a varanda das traseiras da minha casa, cabendo uma parte à cozinha e outra à sala de jantar. Uma das reivindicações políticas da minha infância foi a troca de uma situação injusta que confinava o Papagaio Verde à «varanda da cozinha». Na da sala de jantar, a que era mais próxima da rua, vivia o Papagaio Cinzento. Este, menos esplendoroso e menos corpulento, menos vaidoso também das suas cores baças, morreu depois do Verde, ave grande, vistosa, transbordante de presunção e dignidade; e, apesar de ter tido muito mais do que o Verde o dom da palavra (usando-o, todavia, com menos humor involuntário), não o recordo tão distintamente como a imagem do outro, à qual a sua viera sobrepor-se à maneira de um negativo, uma sombra, um apagado duplo, na imprecisão focal da memória a desfocar-se por ele. De resto, o Cinzento era sujeito retraído e friorento, que ficava encolhido a resmonear o reportório variado, sem manifestar por alguém qualquer predileção afetiva; tinha apenas de simpático o olhar nostálgico, melancólico, e a mansidão muito dócil do resignado e acorrentado escravo. O Verde, pelo contrário, era exuberante, de amizades apaixonadas e de ódios vesgos, sem continuidade nem obstinação. Minto: essas amizades e ódios, não continuados nem firmes, faziam parte do seu carácter expansivo e espetacular. Mas, com o andar do tempo, começaram a refinar numa aversão coletiva, azeda e ruidosa, ou concretizada num bico de respeito, que, traiçoeiramente, na frente de uma adejada revoada verde, se apoderava cerce de um dedo, uma canela, uma madeixa de cabelo. A contrapartida deste crescente pessimismo em relação ao género humano (no qual ele incluía, com um desprezo que raiava o absurdo, o Cinzento) foi uma dedicada e veemente amizade por mim. No mundo hostil dos adultos que me cercavam de solicitude e clausura, o Papagaio Verde, afinal, não me revelou apenas o que era carácter: ensinou-me também o que a amizade é.

        [...].

        Foi por essa altura que a nossa amizade se estabeleceu. As luas-de-mel de meus pais duravam poucos dias, pelo menos com aquela atmosfera de porta e janela fechada em pleno sol e de passos leves das criadas, durante a vigência da qual eu – esquecido, ou mais distantemente tratado, porque minha mãe, quando saía lá de dentro, andava chorosa pelos cantos e não me chamava muito – eu ficava mais livre, entretidas as criadas numa escuta maliciosa ou no «far niente» das tarefas inacabadas. Mas duravam, com efeito, pouco, e logo, quase sem transição, passavam à violência do temporal desfeito, para o que também a porta se fechava, às vezes com safanões à porta e competições pela posse da chave, e lá dentro do quarto havia gritos de ambos, frases sibiladas raivosamente, soluços e ais de minha mãe, até que, num repente, a porta abria-se para as criadas, já a postos, acudirem, com a água de flor de laranja, à minha mãe que, estendida na cama, muito pálida, soltava leves ais de mão no coração. Eu esgueirava-me pelo meio do tumulto, sem que ninguém reparasse em mim, e era em geral minha mãe, abrindo os olhos, quem me enxergava, suspirava mais soluçadamente, e estendia para mim mãos trémulas e dramáticas que solicitavam a minha conivência, a minha aliança, e das quais eu recuava tonto, com repugnância. E era meu pai quem me empurrava para elas, como uma espécie de plenipotenciário, encarregado de negociar a paz de uma guerra cujas causas eu não entendia, mas de que me sentia, sem o saber, o campónio que vê os exércitos inimigos devastarem-lhe a seara, uma pequena horta, um pobre jardim. Aliás, por isso, a situação de plenipotenciário tinha, pela jogada impotência e pela passividade disputada, muito mais de um refém que de um embaixador. Ninguém me perguntava ou me ensinava a perguntar o que eu queria ou o que eu pensava; e ambos, como os aliados, e os pacificadores, as terceiras forças de «cruz vermelha» e neutralismo, que às vezes eram invocadas (quando não eram arrastadas nos acontecimentos), afinal me ignoravam. E, tão depressa quanto era empurrado para os braços trémulos, era retirado deles e posto de lado, fora da porta, como a bandeira branca que, depois de brandida e de surtir efeito, fica no chão, entre os cadáveres, as cápsulas, o lixo das guerras modestas e localizadas.

        Eu ia para a varanda conversar com o Papagaio Verde, não para lhe contar desditas que claramente não entrevia, mas para comungar numa idêntica solidão acorrentada. Eu saía muito pouco, a rua era-me proibida, primos meus vinham às vezes brincar comigo. As brincadeiras, porém, constantemente interrompidas por minha mãe, a quem era preciso pedir licença para ir buscar ao «quarto escuro» o caixote dos brinquedos (o «quarto escuro» era, também, o misterioso reduto-alcova das criadas, cuja intimidade constituía outro mistério estranho), não tinham graça nem entusiasmo, e degeneravam sempre em brigas sem motivo, em que se opunham o meu anseio de brincar tudo ao mesmo tempo, e a absorção com que meus primos se dedicavam exclusivamente a algum instrumento de brincar, que eles não possuíssem e os seduzisse mais. Quando essas brigas estalavam, minha mãe mandava-os embora, e eu ficava dias e dias remoendo uma autoritária cólera insatisfeita, e esperando (de ideia fixa e numa insistência cuidadosa, para que minha mãe logo a não contrariasse) que eles voltassem. Fui, por extensão, pouco a pouco, sem cálculo nem método, conquistando o Papagaio Verde, e, ao mesmo tempo, o respeito já lendário que ele impusera à sua volta. Sem largar o poleiro, e olhando ironicamente para o meu dedo, ele dava-me o pé; cantava comigo, aceitava da minha mão alguma das coisas, como um talo de couve, que ele apreciava. Fui descobrindo que, na verdade, ele não apreciava muito esses talos que, solícito, eu lhe metia no pé. Mais por delicadeza que por gosto, mais para aproveitar a oportunidade de despedaçar metodicamente um objeto (que a gaiola com poleiro de folha, e a distância a que era posto de quanto fosse roível, não lhe consentiam), é que ele aceitava essas dádivas. Não as comia; com bicadas certeiras e calmas, que intercalava de laterais olhadelas para mim, partia tudo em bocadinhos que tombavam na gaiola ou no chão. Terminada a cerimónia, descia do poleiro, e continuava na borda da gaiola uma segunda fase que era escolher dos caídos pedaços, aqueles que ainda podiam ser, sem muito esforço, reduzidos a tamanho menor. Contemplava, então, de olho grave e atento, a extensão da devastação que fizera. Então, abrindo as asas e esticando o pescoço, sacudia-se de penas eriçadas, catava no alto da poupa azul um piolhinho (para o que erguia, à cabeça baixa, um dedo cuja unha coçava suavemente por entre as penas), sacudia-se de novo, subia para o poleiro, assentava-se nele, assentava nos ombros a cabeça, e fechava os olhos. Era o sinal de que eu me retirasse, de que a minha visita acabara. Com a ponta da vassoura, após esperar que a respiração dele fosse pausada e funda no peito verde, eu tocava-lhe. Ele fazia de conta que não dava por isso, era preciso tocar-lhe vezes seguidas, enfiar-lhe o cabo da vassoura por baixo das asas. Até que tudo isto se repetia como uma cena previamente ensaiada entre nós. Fingindo-se ele distraído e indiferente, retraído e alheio, eu teimava com o cabo da vassoura; e ele, subitamente, disparava um voo circular na ponta da corrente, pousava de esguelha no pau empinado, com as asas semiabertas numa imitação de procurado equilíbrio, e cantava, gargalhando e dando estalinhos com a língua.

        [...]

        Certa manhã, quando me levantei, havia na cozinha um movimento desusado, gritos, uma atmosfera de pânico. Provavelmente, essa atmosfera despertara-me. Fui ver. O Papagaio Verde estava solto! Passeando para cá e para lá no chão, arrastando uma ponta de corrente, o Papagaio proibia que a porta da varanda se abrisse, e esvoaçava ameaçador contra a greta que nas portadas as criadas tentassem. Eu queria passar para fora, minha mãe que acudira ao tumulto segurava-me, o Papagaio berrava. As criadas repetiam que ele fugira, fugira! Eu achava que, se tivesse fugido, teria voado para as árvores do quintal subjacente. E desmenti. E, lutando esgatanhadamente contra todas, abri as vidraças da varanda. Afugentando para o corredor a minha mãe e as criadas, que pela porta entreaberta da cozinha observavam o terrível incidente de que eu sairia mortalmente ferido («com um olho vazado», clamava minha mãe em ânsias), o Papagaio entrou, dando ao corpo nos requebros de avançar, mal espalmados no chão os dedos, a passos largos, direito a mim, que, contagiado levemente pelo pânico daquelas galinhas, recuara. E veio até aos meus pés, e fez contra um meu sapato, com doçura e ternura, aquele gesto de afiar lateralmente o bico, que fazia às vezes na borda da gaiola. Abaixei-me para lhe pegar. Ele deixou que o agarrasse, instalou-se num meu dedo, e pesava.

        [...]

        Uma tarde, à mesa, estalou a discussão entre meu pai e minha mãe, precisamente num jantar de chegada, a que, como de costume, meus tios assistiam. Eu declarei categoricamente que os detestava a todos, e, atirando com a cadeira por imitação de violência, levantei-me para a varanda, perseguido por um bofetão de meu tio. Lutei contra ele que me agarrava, e contra meu pai que o agarrava a ele, e contra minha mãe que agarrava meu pai, e contra a minha tia que os agarrava a todos; e vendo, num relance enublado, aquele cacho humano a disputar-se a primazia de castigar-me, a voz embargou-se-me em gritos de choro desatado: — Ninguém é meu amigo, ninguém é meu amigo... Só o Papagaio Verde é meu amigo.

        A luta suspendeu-se numa gargalhada alvar, que escorria babada pelos guardanapos deles. Eu fiquei de costas, buscando com os olhos, lá em baixo, no quintal, o recanto em que jazia o Papagaio. E ouvi distintamente a sua voz aguda e clara, dominadora e viril, sarcástica e displicente, raivosa e cheia de carácter, a proclamar, num grande voo de asas verdes, o juízo final que murmurara ao morrer. Não eram. Em verdade, não eram sequer isso, cujo sentido eu não sabia então claramente. A vida, desde então, não me esclareceu muito; mas creio firmemente que, se há anjos-da-guarda, o meu tem asas verdes, e sabe, para consolar-me nas horas mais amargas, os mais rudes palavrões dos sete mares.

Jorge de Sena. Homenagem ao papagaio verde. In: Os Grão-Capitães. www.ficcoes.org/biblioteca_conto/bichos-senahtm. Acesso em: 3/3/2008.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 125.

Entendendo o conto:

01 – Como o narrador estabelece a comparação entre o Papagaio Verde e o Papagaio Cinzento, e qual deles ocupa o lugar de maior destaque em sua memória?

      O narrador contrapõe os dois animais em termos de aparência, temperamento e presença. O Papagaio Cinzento é descrito como menor, retraído, friorento, dócil e nostálgico, parecendo um "negativo" ou sombra na memória. Já o Papagaio Verde é exuberante, vistoso, presunçoso e dotado de um caráter expansivo, de amizades e ódios intensos. Apesar de o Cinzento ter um dom da palavra superior, o Papagaio Verde é o que permanece vivo e pulsante na memória do narrador devido à sua forte personalidade e ao laço afetivo construído entre eles.

02 – De que forma o ambiente familiar do garoto é retratado no texto e como a criança se sente diante das brigas dos pais?

      O ambiente familiar é retratado como hostil, dramático e instável, marcado por oscilações entre curtos períodos de harmonia e violentos episódios de discussão. O garoto sente-se instrumentalizado pelos pais, descrevendo sua posição não como a de um embaixador, mas como a de um "refém" ou "plenipotenciário" usado para intermediar a paz. Ele se sente uma "bandeira branca" que, após ser agitada para conter os conflitos, é descartada no chão. A criança percebe a falsidade e a crueldade do mundo adulto, do qual se sente totalmente alienada e incompreendida.

03 – Qual é o significado da relação de amizade construída entre o narrador e o Papagaio Verde dentro da dinâmica narrativa?

      A amizade com o Papagaio Verde representa o único refúgio de afeto autêntico e de compreensão mútua para o menino em meio ao ambiente sufocante da casa. Ambos compartilham uma "idêntica solidão acorrentada" — o animal preso na gaiola e a criança confinada pelas proibições e conflitos dos adultos. Por meio do pássaro, o menino descobre o que é ter um caráter firme e aprende o verdadeiro sentido da amizade, pautada no respeito, na cumplicidade e no afeto sincero, em oposição às relações falsas dos adultos.

04 – Análise o ritual cotidiano entre o menino e o papagaio envolvendo os talos de couve e o cabo da vassoura. O que esse momento revela sobre a convivência de ambos?

      O ritual demonstra a delicadeza e a inteligência da cumplicidade entre os dois. O Papagaio Verde aceita os talos de couve oferecidos pelo menino não por ter fome, mas por "delicadeza", destruindo-os metodicamente para retribuir o gesto afetivo. Já a brincadeira com o cabo da vassoura funciona como uma encenação previamente ensaiada: o pássaro finge indiferença até subitamente dar um voo, cantar e dar estalinhos com a língua. Esse jogo demonstra a profunda sintonia, o respeito ao espaço do outro e o humor compartilhado entre o menino e o animal.

05 – No episódio em que o Papagaio Verde se solta, qual é a reação das mulheres da casa em contraste com a atitude do menino? O que o desfecho dessa cena comprova?

      As mulheres (a mãe e as criadas) reagem com pânico, gritos e alarmismo, trancando as portas e prevendo que o menino seria ferido ("com um olho vazado"). O menino, por sua vez, desafia o medo geral e abre a porta para encarar o amigo. O desfecho comprova a confiança cega e o vínculo exclusivo entre ambos: em vez de atacar, o Papagaio Verde caminha até o garoto e roça o bico com doçura em seu sapato, permitindo ser pego no colo e desmentindo o terror infundado dos adultos.

06 – Como a família reage quando o menino declara, durante o jantar, que "Só o Papagaio Verde é meu amigo"? Qual a relevância dessa cena para a crítica ao mundo adulto?

      A família reage com uma "gargalhada alvar" e debochada, ignorando a dor genuína e o pedido de socorro emocional da criança após ter sido agredida. Essa cena escancara a insensibilidade, a falta de empatia e a soberba dos adultos, que não conseguem enxergar a profundidade dos sentimentos do garoto e desdenham de sua única fonte de afeto real, evidenciando o abismo moral entre a infância e o mundo adulto.

07 – Como pode ser interpretada a metáfora do "anjo-da-guarda de asas verdes" no último parágrafo do conto?

      A metáfora do "anjo-da-guarda de asas verdes" simboliza a permanência da memória do papagaio como a única força protetora e consoladora na vida do narrador. Diferente dos anjos tradicionais e da falsa moralidade dos adultos, esse "anjo" é autêntico, irreverente e conhece "os mais rudes palavrões dos sete mares". A imagem sintetiza o conforto psicológico e a lealdade que a lembrança do animal continua a proporcionar ao narrador mesmo na vida adulta diante das amarguras do mundo.