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terça-feira, 23 de junho de 2026

POEMA: SOU UMA FILHA DA NATUREZA - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

Poema: SOU UMA FILHA DA NATUREZA

            CLARICE LISPECTOR

"Sou uma filha da natureza:
quero pegar, sentir, tocar, ser.
E tudo isso já faz parte de um todo,
de um mistério.
Sou uma só... Sou um ser.
E deixo que você seja. Isso lhe assusta?
Creio que sim. Mas vale a pena.
Mesmo que doa. Dói só no começo."

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhx6XJ6Hawt2NYMtMlfNbz6TKdij_FpwVc6IPIO_0k7bkpb7oSQ9jp4pZ6XccFUyOZcdALdujKksDS4Vwjyec2cp22fjxWpcuZu_bpTo_0p1053ADlVIAaPlDXSPS1ta0IZZ00h-Ae9qPGViq3t_ulO1bG-Tdwlyqh08LdFWHwisz3d3J5gP9noLdG87IU/s320/a-natureza.png


Clarice Lispector.

Entendendo o poema:

01 – O que significa a afirmação "Sou uma filha da natureza" no contexto das intenções expressas pelo eu lírico?

      Significa um desejo profundo de conexão com o estado mais puro, instintivo e visceral da existência. Ao se autodenominar "filha da natureza", o eu lírico rejeita as amarras das convenções sociais ou das intelectualizações excessivas para se posicionar como alguém que busca uma experiência de vida imediata, orgânica e sem intermediários.

02 – Como os verbos de ação utilizados no segundo verso ("pegar, sentir, tocar, ser") estruturam a busca existencial da autora?

      Há uma progressão que vai do plano físico e sensorial até o plano metafísico. Os verbos "pegar, sentir, tocar" representam o desejo de apreender o mundo através do corpo, do tato e da percepção material. Essa imersão nos sentidos é o caminho necessário para desaguar no verbo final: "ser". Para Clarice, a existência plena só é alcançada quando nos permitimos experimentar a realidade fisicamente.

03 – De que forma o eu lírico articula a relação entre a individualidade e a totalidade do mundo?

      O texto equilibra uma aparente contradição: o eu lírico afirma sua individualidade absoluta ("Sou uma só... Sou um ser"), mas reconhece que essa existência única não está isolada. Ela já está integrada a uma dimensão universal e enigmática ("E tudo isso já faz parte de um todo, / de um mistério"). Ser indivíduo, para a autora, é participar ativamente do mistério do universo.

04 – Qual é o impacto do questionamento "E deixo que você seja. Isso lhe assusta?" na relação com o outro?

      Esse questionamento revela que a liberdade oferecida ao outro pode ser aterrorizante. "Deixar o outro ser" significa abrir mão do controle, das projeções e das expectativas, permitindo que a outra pessoa exista em sua alteridade e mistério próprios. O susto reside justamente no desamparo e na imensidão que acompanham a verdadeira liberdade individual dentro de um relacionamento.

05 – Como o eu lírico justifica a dor mencionada nos versos finais do poema?

      O eu lírico assume que o processo de libertação e de aceitação da própria essência (e da essência do outro) gera sofrimento ("Mesmo que doa"). No entanto, defende que a dor é uma etapa passageira e necessária para o amadurecimento ("Dói só no começo"). No final, o sofrimento inicial é validado pelo resultado emancipatório, concluindo-se de forma categórica que "vale a pena".

 

POEMA: QUANDO EU NÃO TE TINHA - FERNANDO PESSOA - COM GABARITO

 Poema: Quando eu não te tinha

             Fernando Pessoa

Amava a natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a natureza como um monge calmo a Virgem Maria...
Religiosamente, a meu modo, como antes,
Mas de outra maneira, mais comovida e mais próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste a Natureza para o pé de mim.
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Porque tu me escolhestes para te ter e te amar,

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2pjrB7PlRdkLsXB-JFlokM9ix555mbOSL6TkSi7kt0Tx-vuwo-eKSX8yetaLViRxf5x_Q8_KAGMiFgfV78HQipwIiL4fbHaOGoCZjURVIRBtR8nTgkc0tCZOEmwGsnsOv_J1_okvZdlftsMukrOUEaZWqOe5Nfz-togijxKGCy_tRx3ay2j0DLj-YJP8/s320/55095786-9704-457d-a622-851854c3b5b3.jpeg 



Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou..."

Fernando Pessoa.

Entendendo o poema:

01 – Como o eu lírico compara o seu amor pela natureza antes e depois do envolvimento amoroso?

      O eu lírico utiliza uma analogia religiosa para marcar essa transição. Antes, ele amava a natureza "como um monge calmo a Cristo", sugerindo um amor devocional, puro, mas talvez mais abstrato ou distante. Agora, com a chegada da pessoa amada, ele passa a amá-la "como um monge calmo a Virgem Maria". Esse novo amor continua sendo religioso e calmo, porém torna-se "mais comovido e mais próximo", ganhando um contorno mais terno, afetivo e humanizado.

02 – De que maneira a presença da pessoa amada altera a percepção visual do eu lírico em relação aos elementos naturais?

      A presença do ser amado funciona como uma lente que amplifica e intensifica a visão do mundo. O eu lírico afirma explicitamente que vê "melhor os rios" quando caminha com o outro e que, sentado ao seu lado, consegue reparar "melhor" nas nuvens. A experiência do amor não o distrai do mundo exterior; pelo contrário, aguça os seus sentidos, fazendo com que seus olhos fitem a natureza "mais demoradamente / Sobre todas as coisas".

03 – Qual é o significado dos versos "Tu não me tiraste a natureza... / Tu mudaste a Natureza..."?

      Esses versos desconstroem a ideia romântica tradicional de que o amor por alguém cega o indivíduo para o resto do mundo ou substitui os antigos interesses. O eu lírico esclarece que o sentimento não anulou sua conexão com o meio ambiente ("Tu não me tiraste a natureza"), mas transformou a própria essência da realidade geográfica ("Tu mudaste a Natureza"), conferindo-lhe um novo significado e uma nova beleza através do afeto compartilhado.

04 – O que significa, no contexto do poema, a afirmação de que o ser amado "trouxe a Natureza para o pé de mim"?

      Significa que o amor humanizou e aproximou a imensidão do mundo natural, tornando-a íntima e acessível. A expressão "para o pé de mim" (um regionalismo português para "perto de mim") denota proximidade física e aconchego. A natureza, que antes era um cenário vasto e exterior a ser contemplado, passa a ser uma experiência vivida de perto, quase palpável, graças à mediação do relacionamento amoroso.

05 – Como o desfecho do poema reforça a ideia de continuidade e evolução da identidade do eu lírico?

      Nos versos finais ("Não me arrependo do que fui outrora / Porque ainda o sou..."), o eu lírico deixa claro que a sua transformação não foi uma ruptura ou uma negação do seu passado. Ele não rejeita o observador contemplativo que era antes de amar. O amor não o destruiu nem o transformou em outra pessoa; apenas expandiu e aprofundou a sua capacidade de sentir. Ele continua sendo essencialmente o mesmo, mas agora enriquecido pela experiência de amar e ser amado.

 

 

POEMA: ERRANTE - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Errante

            Florbela Espanca

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjwzQCf7iPP0k30_Z5FYfLsS_ulSJcTRLFqTG5q7pfm89zFG0DUYzzoBzY22jA_LHr5_ncnT7onlhhOSIMYAl8cElwtwnaTlU8WgwCtHXiqKusRH7R-nYyikIZPE-ICd8pkV-mp2D1AQRB5QXIQPH3nw89PrfVAHaj4MPlesprzFKN577ztBz56JFoGrEk/s320/png-transparent-heart-font-burgundy-heart-s-love-burgundy-heart-cliparts-organ-thumbnail.png



Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

01 – Que imagem do "coração" é construída no primeiro quarteto e o que o título "Errante" sugere sobre ele?

      O coração é descrito como "a cor dos rubros vinhos", sugerindo paixão, intensidade e dor profunda. Ele "rasga a mortalha" do peito, o que indica um ímpeto violento de libertação de um corpo sufocado. O título "Errante" e os versos finais da estrofe revelam que esse coração se move sem rumo fixo, andando "tonto" e "a perder-se nas brumas", simbolizando uma busca cega e desorientada.

02 – No segundo quarteto, quais títulos ou identidades o eu lírico atribui ao seu próprio coração?

      O eu lírico personifica o coração atribuindo-lhe três identidades distintas e elevadas:

      "O místico profeta": Aquele que enxerga além, ligado à espiritualidade e ao destino.

      "O paladino audaz da desventura": Um guerreiro corajoso, mas cuja sina ou missão é o sofrimento (a desventura).

      Aquele que "sonha ser um santo e um poeta": Uma busca pela pureza espiritual máxima combinada com a expressão artística ideal.

03 – O que representa o "Paço da Ventura" que o coração do eu lírico decide procurar?

      O "Paço da Ventura" (sendo paço um palácio e ventura sinônimo de felicidade ou boa sorte) funciona como uma metáfora para a plenitude, a felicidade idealizada e a realização dos sonhos. É o destino utópico onde o coração acredita que encontrará o alívio para as suas dores e a coroação dos seus desejos.

04 – No primeiro terceto, qual é a constatação do eu lírico a respeito da busca empreendida pelo coração?

      O eu lírico assume uma postura de absoluto ceticismo e desilusão, decretando o fracasso da jornada: "Meu coração não chega lá decerto...". A justificativa para essa certeza é o total desconhecimento do caminho e a própria natureza intangível desse destino, classificado como um "sítio incerto" do qual não se tem memória real, restando apenas o isolamento.

05 – Como a imagem da mãe e do filho no último terceto coroa o sentimento de perda definitiva do poema?

      A comparação com "essa mãe que viu partir o filho" e com o "filho que não voltou mais" constrói uma das imagens mais dolorosas da poesia florbeliana. Ela simboliza a separação eterna e irreversível entre o desejo e a realidade. Assim como a mãe fica presa à dolorosa tarefa de tecer "sonhos irreais" sobre alguém que jamais retornará, o eu lírico conforma-se em viver de ilusões sobre uma felicidade que ele sabe que seu coração errante nunca alcançará.

 




POEMA: FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Falo de Ti às Pedras das Estradas

           Florbela Espanca

 

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEitKmP2ODD59on0Py1i5xszvizDl8Yss2XnEA92_GPhX3O_iCHq0NorMYD12lAZ_5kjw-LA-EGVi5zGyOJ2RAV-u9NgwaTpZJvP7WgJ6N1JrbtzKxKt_PaOqKmJD_PNZzj8z8TC7JjNp2sFyxLKRfa_y51zHDL8YJypSu1DXN4WkzggnrkfByCjiCfPxcU/s320/FADA.jpg


Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço! 

 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

01 – A quem o eu lírico se dirige para falar sobre a pessoa amada e qual é o efeito dessa escolha no poema?

      O eu lírico dirige seu desabafo amoroso aos elementos da natureza e do cenário ao seu redor: as pedras das estradas, o sol, o rio, as gaivotas, os mastros dos navios e o luar. O efeito dessa escolha é mostrar a grandiosidade e o transbordamento do sentimento. O amor é tão intenso que o eu lírico não consegue guardá-lo para si, projetando a figura da pessoa amada em absolutamente tudo o que vê, transformando o mundo inteiro em testemunha de sua paixão.

 

02 – No primeiro quarteto, que associações o eu lírico faz entre a pessoa amada e os elementos da natureza (o sol e o rio)?

      O eu lírico utiliza uma comparação e uma metáfora visual:

      O Sol: É descrito como "louro como o teu olhar", associando o brilho, o calor e a cor dourada do sol à beleza e à luz dos olhos da pessoa amada.

      O Rio: Suas águas, ao refletirem a luz e faiscarem, são metaforizadas como "vestidos de princesas e de fadas", conferindo uma atmosfera mágica, encantada e aristocrática ao cenário.

 

03 – Que sentimentos e sensações são sugeridos pelas imagens das gaivotas e dos mastros no segundo quarteto?

      O segundo quarteto introduz uma transição para sentimentos de saudade e solidão. As gaivotas de asas abertas lembram "lenços brancos a acenar", uma imagem poética tradicionalmente ligada à despedida, à distância e à espera. Logo em seguida, a forte imagem dos mastros que "apunhalam o luar" traz uma sensação de dor sutil ou de angústia que corta a calmaria, reforçada pelo verso final que fala explicitamente na "solidão das noites consteladas".

 

04 – Como o primeiro terceto expressa a elevação desse amor através da metáfora da "torre dos meus beijos"?

      O terceto mostra um amor que triunfa e se agiganta. Ao descrever a alma do ser amado como "tonta de vitória", o eu lírico indica o impacto arrebatador que essa paixão causa. A metáfora da "torre dos meus beijos" que se levanta ao céu simboliza uma construção monumental, vertical e sagrada. É a ideia de um amor que não é terreno ou mundano, mas que se eleva em direção ao infinito e ao divino.

 

05 – De que maneira o soneto é encerrado no último terceto e qual é o significado da metáfora cósmica final?

      O poema atinge seu ápice expandindo o sentimento para uma dimensão universal e celestial. Os "gritos de amor" do eu lírico são tão fortes que cruzam o espaço sideral e se transformam em "astros que me tombam do regaço" (estrelas que caem do seu colo). Essa metáfora cósmica traduz tanto a escala infinita e brilhante do amor quanto o cansaço ou o desabamento emocional do eu lírico, que gera mundos e estrelas através de sua própria dor e paixão, mas que vê essa imensidão desabar sobre si.

 

 

POEMA: PERDI OS MEUS FANTÁSTICOS CASTELOS - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Perdi os meus fantásticos castelos

             Florbela Espanca

 

Perdi meus fantásticos castelos 

Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEifGrW9J0-Y-VrxiDppZRt4aSt8VOYCJSCeCkfq-kv1gqYdRRQ5pZaMmQpxAQg8s1z4KuYdQdaAhGILJ188toV8zXojcNX-VC56gJ-qVfy9WB9Rg00jGxCbuXbeG5CMtLOQfzLI_xFMRHmIOlwshSbT7FYh4G8VO5boS2KSlPpMUFNrfy1C9X-4S1Q8-rs/s320/CASTELOS.jpg



Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas”.

 

Entendendo o poema:

 

01 – O que representam os "fantásticos castelos" e as "galeras" que o eu lírico afirma ter perdido?

      Os "fantásticos castelos" e as "galeras" funcionam como metáforas para os sonhos, idealizações, grandes ambições e projetos de vida do eu lírico. A perda desses elementos simboliza a destruição de suas ilusões e de suas expectativas de felicidade, que se desfizeram "como névoa distante" ou se afundaram em um "mar de bruma", restando apenas o vazio.

 

02 – No primeiro quarteto, como o eu lírico descreve a sua postura diante da perda de seus castelos?

      O eu lírico deixa claro que não aceitou a derrota passivamente de início. Ele expressa uma postura de resistência e combate através da repetição do verbo "querer" ("Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los"). No entanto, o esforço foi em vão e resultou em esgotamento absoluto, o que é simbolizado pelo verso: "Quebrei as minhas lanças uma a uma!".

 

03 – Qual é a justificativa apresentada no segundo quarteto para o naufrágio das "galeras entre os gelos"?

      O eu lírico justifica o naufrágio apontando a existência de obstáculos invisíveis ou imprevisíveis no caminho, expressando sua impotência por meio de uma pergunta retórica: "— Tantos escolhos! Quem podia vê-los? —". Os "escolhos" (rochedos ocultos na água) e a "bruma" (nevoeiro) representam as armadilhas e as dificuldades imprevistas da vida que tornaram a derrota inevitável.

 

04 – O primeiro terceto traz uma lista de objetos medievais (taça, anel, cota de aço, corcel, elmo de ouro). Qual é o efeito dessa enumeração no poema?

      Essa enumeração reforça a temática da destituição e do despojamento total. Ao listar a perda de itens de valor material e simbólico (como o elmo de ouro e as pedrarias) e de defesa (como a cota de aço), o eu lírico constrói a imagem de um guerreiro que foi completamente desarmado, destronado e despido de suas glórias e proteções.

 

05 – Como o soneto é concluído no último terceto e qual é o sentimento final do eu lírico?

      O poema é concluído com uma forte sensação de angústia física, desespero e desamparo. O eu lírico descreve uma dor sufocante ("Sobre o meu coração pesam montanhas") e uma necessidade quase irracional de socorro ("Sobem-me aos lábios súplicas estranhas"). O texto encerra-se com uma imagem de absoluto choque diante da realidade do próprio fracasso: "Olho assombrada as minhas mãos vazias...".

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

POEMA: NATUREZA VIVA COM PONTOS - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Poema: NATUREZA VIVA COM PONTOS

           José Fernandes

O sangue do crepúsculo se deita no leito
do rio para amar os peixes na brancura das águas
e espalhar o viver pelas beiradas limosas
do encanto e do húmus burburinhando alevinos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjP2d_4MJS2xIpgzX3YjvyWPh9e46CwLYDDcte9wJlEB8OwOIGWlAMD5X9s1lX2ABhAvkysnWospvh8UQsahpHBrZEq6muvlV3z4BijRTXgNFmR7AMYxjemB6DzBhxviIqt7eBfik8uzwDKprbDLqkPxB78UagRW0dKrIFYme5-kftKWN44J4CYHraZppk/s320/NATUREZA.jpg



A manhã arrasta o sol e se debruça sobre o verde
para o fervor da ventania nas folhas e nos ramos
que bebem água pelos barrancos emprumados
de sua altivez de pedras mergulhadas no tempo.

Nas escamas dos dourados o sol se enfeita de brilho
e aguarda o lusco-fusco para se despedir da lua
com as mãos estendidas pela abóbada celeste
a fim de saciar a sede do dragão de São Jorge.

Cada tuiuiú que pousa nas copas do vento
sabe de cor as normas de todas as folhas do verão
e viaja altaneiro nas estradas das chalanas
que vencem os remansos todos do outono.

Nas romãs, eu colho as sementes dos pássaros
e caminho para o vermelho da tarde: repouso
nos olhos dos sapos que intanham a noite
e seus mistérios de rio e água indovoltandoindo...

José Fernandes.

 Entendendo o poema:

01 – Na primeira estrofe, o autor utiliza uma metáfora marcante: "O sangue do crepúsculo se deita no leito do rio". O que significa essa imagem poética e qual processo biológico/natural ela introduz logo em seguida?

      A metáfora do "sangue do crepúsculo" representa a cor avermelhada ou alaranjada do pôr do sol refletida nas águas do rio ao fim do dia. Essa imagem introduz uma atmosfera de fertilidade e geração de vida, pois o eu lírico descreve esse momento como um ato de amor ("para amar os peixes") que espalha a vida pelas margens enriquecidas de matéria orgânica ("húmus"), resultando no surgimento e agitação de filhotes de peixes ("burburinhando alevinos").

 

02 – A fauna e a flora do poema remetem a um ecossistema brasileiro muito específico. Identifique dois elementos nativos presentes na quarta estrofe que ajudam a situar geograficamente o cenário da obra.

      Os dois elementos são o tuiuiú e as chalanas. O tuiuiú é a ave-símbolo do Pantanal, conhecida por sua imensa envergadura, e as chalanas são as embarcações típicas de fundo chato que navegam pelos rios daquela região. A menção a esses dois termos fixa o cenário do poema nas planícies inundáveis do Centro-Oeste brasileiro (Pantanal/bacia do rio Paraguai ou Araguaia).

 

03 – No encerramento da terceira estrofe, há uma transição lírica do entardecer para a noite através da menção ao "dragão de São Jorge". Como essa referência mítica se conecta com os elementos astronômicos citados no mesmo trecho?

      A referência se conecta através do imaginário popular e da astronomia. O texto descreve o sol se despedindo da lua no "lusco-fusco" (o crepúsculo). Na cultura popular brasileira, as manchas escuras da Lua Cheia são frequentemente associadas à figura de São Jorge montado em seu cavalo combatendo o dragão. Ao dizer que as mãos estendidas na abóbada celeste vão "saciar a sede do dragão de São Jorge", o poeta funde o cenário real do anoitecer com a mitologia lunar, poeticamente humanizando o céu noturno que surge.

 

04 – A quarta estrofe constrói uma imagem de sabedoria instintiva e harmonia entre os animais e as estações do ano. De que maneira o tuiuiú é integrado a esse ciclo natural?

      O tuiuiú é integrado como um ser perfeitamente sintonizado com a natureza. O eu lírico afirma que a ave "sabe de cor as normas de todas as folhas do verão", o que simboliza o conhecimento instintivo e ancestral que o animal possui sobre o clima, as cheias e a vegetação. Além disso, ele navega pelo ar ("copas do vento") acompanhando o ritmo das chalanas que vencem os remansos "do outono", mostrando o trânsito harmônico da vida selvagem através da mudança das estações.

 

05 – Na última estrofe, o autor cria o neologismo (palavra inventada) "indovoltandoindo". Analisando o contexto do poema, qual é o efeito de sentido dessa palavra e como ela se relaciona com o movimento das águas de um rio?

      O neologismo indovoltandoindo (a junção de "indo" + "voltando" + "indo") traduz visual e ritmicamente o movimento contínuo, sinuoso e cíclico da água do rio, que avança, esbarra nas margens gerando redemoinhos ou remansos (volta) e continua o seu curso (vai novamente). A palavra expressa a fluidez eterna da natureza e o mistério do tempo, que parece passar e permanecer ao mesmo tempo no fluxo da correnteza.

 

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

POEMA: ETA NÓIS - ULISSES TAVARES - COM GABARITO

 Poema: Eta Nóis

 

Ela fala sem parar

Às vezes esquece de se depilar

Eu tenho um pouco de chulé,

Minha barba é dura e espeta,

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7k6vWSxuGaM32fp_X74vhbD2THiUJV12S4kdFP2xjBBzjY9mF1w3siuSYVB3OR_T5AdxpnufI0v4G0wlxJMpW2_NGaUBfzLK-seVaqctYYNnNLmdlQ33HZ-4g2vW5dHz4874UklSywQOD1HeanIG6JDyVV9G1W4wkRJnVgc8m4hhgAv-Nwx2cepsVZA8/s320/images.jpg


Vamos descobrindo aos poucos

O que estava por baixo dos panos:

Dois seres bem humanos.

Ulisses Tavares. Diário de uma paixão! São Paulo: Geração, 2003.

 

Entendendo o poema:

01 – Que tipo de sujeito aparece no segundo verso?

      No segundo verso ("Às vezes esquece de se depilar"), o sujeito é oculto (também chamado de elíptico ou desinencial).

      Embora ele não esteja explicitamente escrito nesse verso, nós conseguimos identificá-lo pela desinência do verbo "esquece" e pelo contexto do primeiro verso ("Ela fala sem parar"). Trata-se da terceira pessoa do singular: Ela.

 

02 – Reescreva o segundo verso incluindo o sujeito que falta.

      “Às vezes ela esquece de se depilar”.

 

03 – Reescreva o quinto verso acrescentando o sujeito que está oculto. Como você o identificou?

      Reescrita: "Nós vamos descobrindo aos poucos"

      Como foi identificado: O sujeito foi identificado através da desinência número-pessoal do verbo "vamos" (-mos), que indica a 1ª pessoa do plural (Nós).

 

04 – De acordo com o sentido do poema e com os sujeitos que você identificou, quais são as personagens desse diário poético e o que ele conta?

      As personagens são um casal (composto pelo eu lírico, que é um homem, já que menciona "Minha barba é dura", e por sua parceira, a quem ele se refere como "Ela").

      O poema conta o processo de convivência íntima desse casal. Ele mostra que, conforme o tempo passa e a intimidade aumenta, as idealizações românticas vão sumindo e eles começam a descobrir os pequenos defeitos e imperfeições físicas um do outro (chulé, pelos, barba espetando). No fim, o texto celebra o fato de que, por trás das aparências ("por baixo dos panos"), eles descobriram que são apenas "dois seres bem humanos", que se aceitam como realmente são.

 

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

POEMA: AO DESCONCERTO DO MUNDO - LUÍS DE CAMÕES - COM GABARITO

 Poema: Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos; 
E pera mais me espantar, 
Os maus vi sempre nadar 
Em mar de contentamentos. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi0nFMIMnt8EGCz5QZSmO8hKbqfhhWFmcBLfcT7RdyUQSg5snFayhPWT933VVoRm-qH9eReiuDyEjVxmrTdwE2e87CAEhTO9ceUEwgVyvkL7iuY7ePgshE6_O0Mr-CDEj_zERwFmSWODvtPxz9WcvOvWNlqs4F7aHOqrOmYVXsP6sVf9Z4JagT5zUg79ow/s320/MUNDO.jpg


Cuidando alcançar assim 
O bem tão mal ordenado, 
Fui mau, mas fui castigado. 
Assim que, só pera mim, 
Anda o Mundo concertado.

 

Camões, Luís de. In: SALGADO JÚNIOR, Antônio (Org.). Luís de Camões: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.p.475-476.

 

Entendendo o poema:

01 – Nesses versos, o eu lírico compara o destino das pessoas no mundo. A que conclusão ele chegou?

      O eu lírico chega à conclusão de que o mundo é injusto e invertido: as pessoas boas sofrem grandes tormentos, enquanto as pessoas más vivem em um "mar de contentamentos", ou seja, são felizes e bem-sucedidas. Há uma clara percepção de injustiça moral na distribuição da felicidade e do sofrimento.

 

02 – Como a vida do eu lírico foi afetada por essa visão?

      Ao ver que os maus se davam bem, o eu lírico tentou ser mau também, na esperança de alcançar a felicidade ("o bem tão mal ordenado"). No entanto, sua tentativa falhou: ele acabou sendo castigado por suas más ações, não conseguindo obter o mesmo sucesso que os outros maus obtinham.

 

03 – O que significa o título, tendo em vista os dois últimos versos?

      O título "Ao desconcerto do mundo" refere-se à falta de lógica, ordem ou justiça no funcionamento da vida.

      Contudo, nos dois últimos versos ("Assim que, só pera mim, / Anda o Mundo concertado"), há uma ironia dolorosa: o mundo só funciona de forma "concertada" (organizada, justa) para castigar especificamente o eu lírico. Ou seja, a regra geral do mundo é o desconcerto (os maus vencem), mas para ele, o mundo aplica a regra do concerto (o mal é punido), o que o deixa em eterna desvantagem.

04 – Releis estes versos: “Os bons vi sempre passar.../” “Os maus vi sempre nadar...”. Qual é o processo de formação das palavras destacadas? Justifique sua resposta.

      O processo é a derivação imprópria (também chamada de conversão).

      Justificativa: As palavras "bons" e "maus" são originalmente adjetivos. No contexto desses versos, precedidas pelos artigos "Os", elas mudaram de classe gramatical e passaram a funcionar como substantivos (equivalendo a "as pessoas boas" e "as pessoas más"), sem sofrer nenhuma alteração na sua forma original.

 

05 – Transcreva do poema palavras que se formam por derivação prefixal e derivação sufixal.

      Derivação prefixal: Desconcerto (prefixo des- + concerto).

      Derivação sufixal: Contentamentos (substantivo contentamento + sufixo -mento, derivado do verbo contentar) ou Castigado (particípio do verbo castigar, com o sufixo -ado).

 

06 – A partir das palavras a seguir, forme outras pelo processo de derivação regressiva.

       passar – espantar – alcançar – castigar – nadar – acontecer.

      A derivação regressiva reduz a palavra original (geralmente verbos) para criar substantivos abstratos que indicam a ação:

      Passar: o passo

      Espantar: o espanto

      Alcançar: o alcance

      Castigar: o castigo

      Nadar: o nado (ou o nade)

      Acontecer: o acontecimento.

 

07 – Forme parassintéticos verbais que tenham como base os nomes a seguir:

Grande – parede – pedaço – sócio – terra – velho – caixa – frio.    

      Na parassíntese, o prefixo e o sufixo devem ser adicionados ao mesmo tempo. Se você tirar um deles, a palavra deixa de existir.

      Grande: engrandecer

      parede: emparedar

      pedaço: espedaçar (ou despedaçar)

      sócio: associar

      terra: aterrar (ou enterrar)

      velho: envelhecer

      caixa: encaixar

      frio: esfriar (colocar na geladeira) ou resfriar.

                                            

08 – Transcreva, das sequências a seguir, as palavras formadas por derivação prefixal e sufixal.

a)   reflorestamento, esfarelar, emagrecer, desqualificar.

      Reflorestamento (existe florestamento e existe reflorestar) e desqualificar (existe qualificar e existe desqualificado). (Obs: "esfarelar" e "emagrecer" são parassintéticas, pois não existem as palavras "farelar" nem "magrecer").

 b) desonestidade, inconstitucional, ensurdecer, reintegração.

      Desonestidade (existe honestidade e desonesto) e inconstitucional (existe constitucional e inconstituto / inconstitucionalidade), além de reintegração (existe integração e reintegrar). (Obs.: "ensurdecer" é parassintética, pois não existe "surdecer").

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

POEMA: CAVERNA - ROSEANA MURRAY - COM GABARITO

 Poema: Caverna

       Roseana Murray

 

Houve um dia,

no começo do mundo

em que o homem

ainda não sabia

construir sua casa.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEipywfMwZckGVNnyvkt7CSSc7NfCQUUB0g0W3lNYmmfgZdar9Gman7jENCc32-vfy6um-EJoLumXhyphenhyphenOWBnH1P4dxw24t5U9XnRyBcUYy5ddWlHCcej9vqlMhwZKY5_Ap9ZvjSsgzDj3GQt9Ch656zbGsTRfsE_4e9ujL1Zc2JtuyJxCrQjjVz8Zt9wcq-4/s320/images.jpg 

Então disputava

a caverna com bichos

e era aí sua morada.

 

Deixou para nós

seus sinais,

desenhos desse mundo

muito antigo.

 

Animais, caçadas, danças,

misteriosos rituais.

 

Que sinais

deixaremos nós

para o homem do futuro?

                     Roseana Murray. Casas. Belo Horizonte: Formato, 2004.

Entendendo o poema:

01 – No último verso da segunda estrofe: “e era aí sua morada”, a expressão em destaque pode ser substituída por: 

(A) sua casa.  

(B) o homem.  

(C) do mundo.  

(D) com bichos.

02 – De acordo com a terceira e a quarta estrofe, de que forma os homens do começo do mundo se comunicaram com as gerações futuras?

      Eles se comunicaram através de pinturas rupestres ("deixou para nós seus sinais, desenhos desse mundo muito antigo"). Esses registros retratavam o cotidiano deles, como os animais da época, as estratégias de caça, suas danças e os rituais religiosos ou misteriosos que realizavam.

03 – O que a disputa da caverna "com bichos" (segunda estrofe) revela sobre a relação entre o homem primitivo e a natureza?

      Revela uma relação de igualdade na luta pela sobrevivência. Como o homem ainda não dominava a tecnologia de construção, ele não estava no topo da cadeia de forma soberana; ele precisava competir diretamente com os animais selvagens pelo mesmo espaço físico de proteção contra o clima e predadores.

04 – O poema faz uma transição temporal ao longo de suas estrofes. Como essa linha do tempo está organizada no texto?

      O poema começa no passado remoto ("no começo do mundo", "mundo muito antigo"), passa pelo nosso presente ao analisar os sinais que recebemos ("deixou para nós") e termina projetando o futuro ("para o homem do futuro"), criando uma linha de continuidade da história humana.

05 – Qual a principal reflexão ou provocação que a autora faz na última estrofe do poema?

      A autora faz uma provocação filosófica e ecológica. Ela nos questiona sobre o legado da nossa sociedade atual. Enquanto os homens primitivos deixaram registros de arte, conexão com a natureza e rituais, ela nos faz pensar se nós deixaremos coisas positivas ou se deixaremos destruição, poluição e ruínas para as próximas gerações.

06 – O poema faz parte de um livro chamado "Casas". Como o conceito de "casa" evoluiu do início do texto até os dias de hoje, com base na leitura?

      No início do texto, "casa" era um elemento puramente biológico e de sobrevivência, um refúgio natural (a caverna) disputado com animais. Hoje, a casa é algo que o homem aprendeu a construir, transformando-se em um espaço cultural, tecnológico e social. No entanto, a última estrofe sugere que o nosso conceito atual de "construir" e habitar o planeta pode estar deixando marcas preocupantes para o futuro.

 

 

POEMA: A LUA NO CINEMA - PAULO LEMINSKI - COM GABARITO

 Poema: A LUA NO CINEMA

           Paulo Leminski

A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.

 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEir_lS8LiIlt66-R6dK57yCsQIhyphenhyphenFDFmu51PqsSNxvHA9wZpptcqvDGd4lWdTeN5nsqQvNGP52rOR1I5GaZA4COSwJHoMSPxlZBeVyTOWFKOSrVbsbexkbg-Aac7fDRPQP604_YuPH3tcC1OHtUDrvyRS4WItZQxVO2ZaoDhsJu9FuyES8mmxP1nfXksR0/s320/images.jpg

Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!

 

Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava pra ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia numa janela.

 

A lua ficou tão triste

com aquela história de amor,

que até hoje a lua insiste:

– Amanheça, por favor!

 

Paulo Leminski. Distraídos venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1993.

 

Entendendo o poema:

01 – Nos versos “Não tinha porque era apenas / uma estrela bem pequena” da segunda estrofe do poema, o uso da palavra “porque” introduz:

(A) a causa de não ter namorado.  

(B) uma oposição a um filme engraçado.

(C) a consequência de uma história de amor.  

(D) uma comparação do tamanho da estrela com a intensidade da luz.

 

02 – Este poema:

(A) explica o nascimento do cinema.  

(B) faz a propaganda de um filme engraçado.

(C) apresenta as características de uma lua solitária. 

(D) conta a história de uma estrela que não tinha namorado.

 

03 – No último verso, a lua exclama: "– Amanheça, por favor!". O que motivou esse pedido da lua?

      O pedido foi motivado pela profunda tristeza e empatia que a lua sentiu ao assistir à história da estrela solitária. Ela ficou tão abalada com o "filme" que desejou que a noite acabasse logo para deixar de pensar naquilo.

 

04 – A segunda estrofe diz que, se a estrela se apagasse, "ninguém vai dizer, que pena!". O que esses versos revelam sobre a importância da estrela no contexto do poema?

      Revelam que a estrela era considerada irrelevante ou invisível para os outros. O autor enfatiza a solidão extrema da personagem, sugerindo que sua existência não fazia diferença para o restante do universo.

 

05 – Como o espaço ocupado pela luz da estrela (mencionado na terceira estrofe) reforça a ideia de solidão?

      Ao dizer que a luz "cabia numa janela", o poema mostra que o brilho da estrela era muito limitado e pequeno. Isso reforça a ideia de que ela vivia em um mundo restrito, onde ninguém a notava, contrastando com a grandiosidade comum que se espera dos astros celestes.

 

06 – O poema de Leminski utiliza um recurso chamado personificação (ou prosopopeia). Identifique dois exemplos desse recurso no texto.

      Exemplos de personificação incluem a lua "ir ao cinema" e a lua "ficar triste" ou "insistir" em um pedido. Ao atribuir ações e sentimentos humanos a astros celestes, o autor cria uma narrativa lúdica e sensível.