Conto: SE EU FOSSE SHERLOCK HOLMES – Fragmento
[...]
Retiradas
as capas, o zunzum das conversas continuava. Ninguém tinha entrado no quarto
fatídico. Todos o diziam e repetiam.
Foi
no meio dessas conversas que Sherlock Holmes cresceu dentro de mim. Anunciei:
-- Já sei quem roubou o anel.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0fUNbT73GrtJCw72kaQQnS1LN2zYycSTTkugyXYe8dvZKvLIFpMCLJ0ol-JA3yT1B-FG0mPQPzlYoAWpvK9gnPaCCz_WycSFTe52pvdCXPO6dS0GL4HhVHEAzfjYz2i4LVs7gHyXOpy45o9u8QOuenDz7uSv6h9Vsca08DiJ-G4spFnnCMPj3S9ZuUSI/s320/sherlock-holmes-complete-illustrated-novels.jpg De todos os lados surgiam
exclamações. Algumas pessoas se limitavam a interjeições: “Ah!”, “Oh!”. Outras
perguntavam quem tinha sido.
Sherlock
Holmes disse o que ia fazer, indicando um gabinete próximo:
-- Eu vou para aquele gabinete. Cada uma das senhoras aqui presentes
fecha-se ali em minha companhia por cinco minutos.
-- Por cinco minutos? – indagou o Dr. Caldas.
-- Porque eu quero estar o mesmo tempo com cada uma, para não poder se
concluir da maior demora com qualquer uma delas que essa é a culpada. Serão
para cada uma cinco minutos cronométricos.
O
Dr. Caldas gracejando:
-- Mas veja o que você faz. Não procure namorar minha mulher, senão eu
lhe dou um tiro.
Houve
uma hesitação. Algumas diziam estar acima de qualquer suspeita, outras que não
se submetiam a nenhum inquérito policial. Venceu, porém, o partido das que
diziam “quem não deve não teme”. Eu esperava, paciente. Por fim, quando vi que
todas estavam resolvidas, lembrei que seria melhor quem fosse saindo,
despedir-se e partir.
E
a cerimônia começou. Cada uma das senhoras esteve trancada comigo justamente os
cinco minutos que eu marcara.
Quando
a última partiu, saiu do gabinete, achei à porta, ansiosa, Madame Guimarães:
-- Venha comigo – disse-lhe eu.
Aproximei-me
do telefone, chamei o Alves Calado e disse-lhe que não precisava mais tomar
providência alguma, porque o anel fora achado.
Voltando-me
para Madame Guimarães entreguei-o então. Ela estava tão nervosa que me abraçou
e beijou freneticamente. Quando, porém, quis saber quem fora a ladra, não me
arrancou nem uma palavra.
No
quarto, ao ver sinhazinha Ramos entrar, tínhamos tido mais ou menos, a seguinte
conversa:
-- Eu não vou deitar verdes para colher maduros, não vou armar cilada
alguma. Sei que foi a senhora que tirou a joia de sua tia.
Ela
ficou lívida. Podia ser medo. Podia se cólera. Mas respondeu firmemente:
-- Insolente! É assim que o senhor está fazendo com todas, para
descobrir a culpada?
-- Está enganada. Com as outras eu apenas converso. Com a senhora, não;
exijo que me entregue o anel.
Mostrei-lhe
o relógio para que visse que o tempo estava passando.
-- Note – disse eu – que tenho uma prova, posso fazer ver a todos.
Ela
se traiu, pedindo:
-- Dê sua palavra de honra que tem essa prova!
Dei.
Mas o meu sorriso lhe mostrou que ela, sem dar por isso, confessara
indiretamente o fato.
-- E já agora – acrescentei – dou-lhe também a minha palavra de honra
que ninguém saberá por mim o que fez.
Ela
tremia toda.
-- Veja que falta um minuto. Não chore. Lembre-se que precisa sair daqui
com uma fisionomia jovial. Diga que estivemos falando de moda.
Ela
tirou a joia do seio, deu-me e perguntou:
-- Qual é a prova?
-- Esta – disse-lhe eu apontando para uma esplêndida rosa-chá que ela
trazia. – É a única pessoa, esta noite, que tem aqui uma rosa amarela. Quando
foi ao quarto de sua tia, teve a infelicidade de deixar cair duas pétalas dela.
Estão junto da mesa-de-cabeceira.
Abri
a porta. Sinhazinha compôs magicamente, imediatamente, o mais encantador, o
mais natural dos sorrisos e saiu dizendo:
-- Se este Sherlock fez com todas o que fez comigo, vai ser um fiasco
absoluto.
Não
foi fiasco, mas foi pior.
Quando
Sinhazinha chegara, subira logo. Graças à intimidade que tinha na casa, onde
vivera até a data do casamento, podia fazer isso naturalmente. Ia só para
deixar a sua capa dentro do armário. Mas, à procura de um alfinete, abriu a
mesinha-de-cabeceira, viu o anel, sentiu a tentação de roubá-lo e assim o fez.
Lembrou-se de que tinha de ir para a Europa daí um mês. Lá venderia a joia.
Desceu então novamente com a capa e mandou pô-la no automóvel. E como ninguém a
tinha visto subir, pôde afirmar que não fora ao andar superior.
Eu
estraguei tudo.
Mas
a mulherzinha se vingou: a todos insinuou que provavelmente o ladrão tinha sido
eu mesmo. E, vendo o caso descoberto antes da minha retirada, armara aquela
encenação para atribuir a outrem o meu crime.
O
que sei é que madame Guimarães, que sempre me convidava para as suas recepções,
não me convidou para a de ontem... Terá talvez sido a primeira a acreditar
na sobrinha.
Medeiros e Albuquerque.
Entendendo o conto:
01 – Relacione as palavras destacadas a seus
significados.
A - “Ninguém tinha entrado no
quarto fatídico.” (B) pálida
B - “Ela
ficou lívida.” (A) fatal, trágico
C - “– Insolente!” (D)
alegre
D - “... precisa sair daqui ... fisionomia jovial.” (C) atrevido.
02 – Qual é o significado da expressão: “_ Eu
não vou deitar verdes para colher maduros...”.
Significa que o narrador não iria blefar, fazer suposições ou tentar jogar verde para conseguir uma confissão. Ele estava afirmando que já tinha certeza absoluta do que havia acontecido e possuía fatos concretos, sem necessidade de rodeios.
03 – Quem é o narrador-personagem?
É um dos convidados da festa que assume o papel de detetive amador (incorporando o espírito e a lógica de Sherlock Holmes) para desvendar o mistério do roubo. O texto não revela o seu nome próprio, apenas a sua persona de "Sherlock".
04 – Em torno de qual fato gira a história?
A história gira em torno do roubo de um anel valioso pertencente a Madame Guimarães dentro de sua própria casa durante uma recepção.
05 – Qual o espaço da narrativa (onde
acontece)?
A narrativa acontece no interior de uma residência (provavelmente uma mansão ou casarão de festas), concentrando-se especificamente no andar superior (onde ficava o quarto), no salão principal e num gabinete privativo onde o inquérito foi realizado.
06 – Que decisão do narrador indica que uma
mulher havia furtado o anel?
A decisão de chamar para o gabinete privado apenas as senhoras presentes na festa para o inquérito de cinco minutos, excluindo os homens das suspeitas.
07 – Que sentimentos, dos abaixo relacionados,
estão expressos nas falas das personagens?
A -
honradez
B - ofensa
C -
culpa
D - autoridade
(B)
(Sinhazinha Ramos) “– Insolente!”
(D)
(Narrador) “Com a senhora, não, exijo que me entregue o anel.”
(C)
(Sinhazinha Ramos) “– Dê sua palavra de honra que tem essa prova!”
(A) (Narrador) “... dou-lhe a minha palavra de honra que nunca ninguém saberá por mim o que fez.”
08 – Por que o narrador pediu à ladra que
saísse do gabinete com fisionomia jovial?
Para manter o pacto de segredo que ele havia feito com ela. Se Sinhazinha saísse chorando ou abatida, todos os convidados na porta saberiam imediatamente que ela era a culpada, quebrando o disfarce de que eles estavam apenas conversando sobre amenidades (como moda).
09 – Qual foi a prova do crime?
A prova foram duas pétalas de uma rosa-chá amarela encontradas no chão do quarto, junto à mesa-de-cabeceira. Como Sinhazinha Ramos era a única pessoa na festa que usava aquela flor amarela específica, sua presença no quarto fatídico foi denunciada.
10 – Que estratégia a jovem usou para roubar o
anel?
Ela aproveitou sua intimidade com a casa (onde morou até se casar) para subir sozinha logo que chegou, sob o pretexto de guardar sua capa no armário. Ao abrir a mesinha procurando um alfinete, viu o anel, cedeu à tentação e o escondeu no seio. Logo em seguida, mandou guardarem sua capa no automóvel para que ninguém a associasse ao andar superior.
11 – Qual foi a vingança da ladra e qual foi a
consequência disso no final da história?
A vingança: Sinhazinha
espalhou o boato maldoso de que o verdadeiro ladrão era o próprio narrador. Ela
sugeriu que ele havia roubado a joia e, ao perceber que o caso seria
descoberto, montou aquele falso teatro com as convidadas para culpar outra
pessoa e sair como herói.
A consequência: O narrador acabou socialmente prejudicado. A dona
da joia, Madame Guimarães, aparentemente acreditou na versão da sobrinha e
deixou de convidar o narrador para as suas famosas recepções.
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