segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONTO: SE EU FOSSE SHERLOCK HOLMES - FRAGMENTO - MEDEIROS E ALBUQUERQUE - COM GABARITO

 Conto: SE EU FOSSE SHERLOCK HOLMES – Fragmento

 

        [...]

        Retiradas as capas, o zunzum das conversas continuava. Ninguém tinha entrado no quarto fatídico. Todos o diziam e repetiam.

        Foi no meio dessas conversas que Sherlock Holmes cresceu dentro de mim. Anunciei:

        -- Já sei quem roubou o anel.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0fUNbT73GrtJCw72kaQQnS1LN2zYycSTTkugyXYe8dvZKvLIFpMCLJ0ol-JA3yT1B-FG0mPQPzlYoAWpvK9gnPaCCz_WycSFTe52pvdCXPO6dS0GL4HhVHEAzfjYz2i4LVs7gHyXOpy45o9u8QOuenDz7uSv6h9Vsca08DiJ-G4spFnnCMPj3S9ZuUSI/s320/sherlock-holmes-complete-illustrated-novels.jpg

 

    De todos os lados surgiam exclamações. Algumas pessoas se limitavam a interjeições: “Ah!”, “Oh!”. Outras perguntavam quem tinha sido.

        Sherlock Holmes disse o que ia fazer, indicando um gabinete próximo:

        -- Eu vou para aquele gabinete. Cada uma das senhoras aqui presentes fecha-se ali em minha companhia por cinco minutos.

        -- Por cinco minutos? – indagou o Dr. Caldas.

        -- Porque eu quero estar o mesmo tempo com cada uma, para não poder se concluir da maior demora com qualquer uma delas que essa é a culpada. Serão para cada uma cinco minutos cronométricos.

        O Dr. Caldas gracejando:

        -- Mas veja o que você faz. Não procure namorar minha mulher, senão eu lhe dou um tiro.

        Houve uma hesitação. Algumas diziam estar acima de qualquer suspeita, outras que não se submetiam a nenhum inquérito policial. Venceu, porém, o partido das que diziam “quem não deve não teme”. Eu esperava, paciente. Por fim, quando vi que todas estavam resolvidas, lembrei que seria melhor quem fosse saindo, despedir-se e partir.

        E a cerimônia começou. Cada uma das senhoras esteve trancada comigo justamente os cinco minutos que eu marcara.

        Quando a última partiu, saiu do gabinete, achei à porta, ansiosa, Madame Guimarães:

        -- Venha comigo – disse-lhe eu.

        Aproximei-me do telefone, chamei o Alves Calado e disse-lhe que não precisava mais tomar providência alguma, porque o anel fora achado.

        Voltando-me para Madame Guimarães entreguei-o então. Ela estava tão nervosa que me abraçou e beijou freneticamente. Quando, porém, quis saber quem fora a ladra, não me arrancou nem uma palavra.

        No quarto, ao ver sinhazinha Ramos entrar, tínhamos tido mais ou menos, a seguinte conversa:

        -- Eu não vou deitar verdes para colher maduros, não vou armar cilada alguma. Sei que foi a senhora que tirou a joia de sua tia.

        Ela ficou lívida. Podia ser medo. Podia se cólera. Mas respondeu firmemente:

        -- Insolente! É assim que o senhor está fazendo com todas, para descobrir a culpada?

        -- Está enganada. Com as outras eu apenas converso. Com a senhora, não; exijo que me entregue o anel.

        Mostrei-lhe o relógio para que visse que o tempo estava passando.

        -- Note – disse eu – que tenho uma prova, posso fazer ver a todos.

        Ela se traiu, pedindo:

        -- Dê sua palavra de honra que tem essa prova!

        Dei. Mas o meu sorriso lhe mostrou que ela, sem dar por isso, confessara indiretamente o fato.

        -- E já agora – acrescentei – dou-lhe também a minha palavra de honra que ninguém saberá por mim o que fez.

        Ela tremia toda.

        -- Veja que falta um minuto. Não chore. Lembre-se que precisa sair daqui com uma fisionomia jovial. Diga que estivemos falando de moda.

        Ela tirou a joia do seio, deu-me e perguntou:

        -- Qual é a prova?

        -- Esta – disse-lhe eu apontando para uma esplêndida rosa-chá que ela trazia. – É a única pessoa, esta noite, que tem aqui uma rosa amarela. Quando foi ao quarto de sua tia, teve a infelicidade de deixar cair duas pétalas dela. Estão junto da mesa-de-cabeceira.

        Abri a porta. Sinhazinha compôs magicamente, imediatamente, o mais encantador, o mais natural dos sorrisos e saiu dizendo:

        -- Se este Sherlock fez com todas o que fez comigo, vai ser um fiasco absoluto.

        Não foi fiasco, mas foi pior.

        Quando Sinhazinha chegara, subira logo. Graças à intimidade que tinha na casa, onde vivera até a data do casamento, podia fazer isso naturalmente. Ia só para deixar a sua capa dentro do armário. Mas, à procura de um alfinete, abriu a mesinha-de-cabeceira, viu o anel, sentiu a tentação de roubá-lo e assim o fez. Lembrou-se de que tinha de ir para a Europa daí um mês. Lá venderia a joia. Desceu então novamente com a capa e mandou pô-la no automóvel. E como ninguém a tinha visto subir, pôde afirmar que não fora ao andar superior.

        Eu estraguei tudo.

         Mas a mulherzinha se vingou: a todos insinuou que provavelmente o ladrão tinha sido eu mesmo. E, vendo o caso descoberto antes da minha retirada, armara aquela encenação para atribuir a outrem o meu crime.

        O que sei é que madame Guimarães, que sempre me convidava para as suas recepções, não me convidou para a de ontem... Terá talvez sido a primeira a acreditar na sobrinha.

                                          Medeiros e Albuquerque.

 

Entendendo o conto:

01 – Relacione as palavras destacadas a seus significados.

A - “Ninguém tinha entrado no quarto fatídico.”      (B) pálida

B - “Ela ficou lívida.”                                                (A) fatal, trágico

C - “– Insolente!”                                                     (D) alegre

D - “... precisa sair daqui ... fisionomia jovial.”        (C) atrevido.

02 – Qual é o significado da expressão: “_ Eu não vou deitar verdes para colher maduros...”.

      Significa que o narrador não iria blefar, fazer suposições ou tentar jogar verde para conseguir uma confissão. Ele estava afirmando que já tinha certeza absoluta do que havia acontecido e possuía fatos concretos, sem necessidade de rodeios.

03 – Quem é o narrador-personagem?

      É um dos convidados da festa que assume o papel de detetive amador (incorporando o espírito e a lógica de Sherlock Holmes) para desvendar o mistério do roubo. O texto não revela o seu nome próprio, apenas a sua persona de "Sherlock".

04 – Em torno de qual fato gira a história?

      A história gira em torno do roubo de um anel valioso pertencente a Madame Guimarães dentro de sua própria casa durante uma recepção.

05 – Qual o espaço da narrativa (onde acontece)?

      A narrativa acontece no interior de uma residência (provavelmente uma mansão ou casarão de festas), concentrando-se especificamente no andar superior (onde ficava o quarto), no salão principal e num gabinete privativo onde o inquérito foi realizado.

06 – Que decisão do narrador indica que uma mulher havia furtado o anel?

      A decisão de chamar para o gabinete privado apenas as senhoras presentes na festa para o inquérito de cinco minutos, excluindo os homens das suspeitas.

07 – Que sentimentos, dos abaixo relacionados, estão expressos nas falas das personagens?

A - honradez      

B - ofensa      

C - culpa              

D - autoridade

(B) (Sinhazinha Ramos) “– Insolente!”

(D) (Narrador) “Com a senhora, não, exijo que me entregue o anel.”

(C) (Sinhazinha Ramos) “– Dê sua palavra de honra que tem essa prova!”

(A) (Narrador) “... dou-lhe a minha palavra de honra que nunca ninguém saberá por mim o que fez.”

08 – Por que o narrador pediu à ladra que saísse do gabinete com fisionomia jovial?

      Para manter o pacto de segredo que ele havia feito com ela. Se Sinhazinha saísse chorando ou abatida, todos os convidados na porta saberiam imediatamente que ela era a culpada, quebrando o disfarce de que eles estavam apenas conversando sobre amenidades (como moda).

09 – Qual foi a prova do crime?

      A prova foram duas pétalas de uma rosa-chá amarela encontradas no chão do quarto, junto à mesa-de-cabeceira. Como Sinhazinha Ramos era a única pessoa na festa que usava aquela flor amarela específica, sua presença no quarto fatídico foi denunciada.

10 – Que estratégia a jovem usou para roubar o anel?

      Ela aproveitou sua intimidade com a casa (onde morou até se casar) para subir sozinha logo que chegou, sob o pretexto de guardar sua capa no armário. Ao abrir a mesinha procurando um alfinete, viu o anel, cedeu à tentação e o escondeu no seio. Logo em seguida, mandou guardarem sua capa no automóvel para que ninguém a associasse ao andar superior.

11 – Qual foi a vingança da ladra e qual foi a consequência disso no final da história?

      A vingança: Sinhazinha espalhou o boato maldoso de que o verdadeiro ladrão era o próprio narrador. Ela sugeriu que ele havia roubado a joia e, ao perceber que o caso seria descoberto, montou aquele falso teatro com as convidadas para culpar outra pessoa e sair como herói.

      A consequência: O narrador acabou socialmente prejudicado. A dona da joia, Madame Guimarães, aparentemente acreditou na versão da sobrinha e deixou de convidar o narrador para as suas famosas recepções.

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário