Conto: O ano da morte de Ricardo Reis – Fragmento
José Saramago
Neste romance, definitivamente
pós-moderno, Saramago vale-se do realismo fantástico para aproximar Fernando
Pessoa do seu heterônimo Ricardo Reis. Este retorna a Lisboa, em 29 de dezembro
de 1935, após longo exílio no Rio de Janeiro, motivado por um telegrama
informando a morte de Fernando Pessoa a 30 de novembro do mesmo ano (data
autêntica da morte do poeta). Saramago apropria-se da ficção de Pessoa, que
traçava perfis biográficos dos seus heterônimos, indicava as datas de
nascimento, mas omitia os óbitos. Assim, a imaginação do escritor se intromete
no imaginário do poeta e arroga-se o direito de fixar a data da morte de um
deles, Ricardo Reis, que parte com o Pessoa “fantasma”, oito meses depois, para
o destino dos mortos. Fundindo ficção e realidade, Saramago seleciona o
noticiário jornalístico da época em constantes referências ao contexto
histórico-social salazarista. Também faz reviver Lídia, a musa das odes de
Ricardo (veja o poema anterior), empregada do hotel onde se hospeda em Lisboa,
a quem ama fisicamente, embora, por ser uma mulher do povo, não possa ter a
plenitude do seu amor, já que não corresponde ao ideal de platonismo amoroso e
à mulher espiritualizada das suas odes.

[...]
Fernando Pessoa levantou-se do sofá,
passeou um pouco Pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou,
É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele, Não
se vê, Não, não me vejo, sei que estou a olhar-me, mas não me vejo, No entanto,
tem sombra, É só o que tenho. Tornou a sentar-se, cruzou a perna, E agora, vai
ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa, Ainda não sei, apenas trouxe
o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer
clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio, não sei, por enquanto
estou aqui, e, feitas todas as contas, creio que vim por você ter morrido, é
como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, Nenhum vivo
pode substituir um morto, Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente
morto, Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes. Ambos sorriram. Ricardo
Reis perguntou, Diga-me, como soube que eu estava hospedado neste hotel, Quando
se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens, respondeu Fernando Pessoa, E
entrar, como foi que entrou no meu quarto, Como qualquer outra pessoa entraria,
Não veio pelos ares, não atravessou as paredes, Que absurda ideia, meu caro,
isso só acontece nos livros de fantasmas, os mortos servem-se dos caminhos dos
vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres, como qualquer
mortal, subia escada, abri aquela porta, sentei-me neste sofá à sua espera, E
ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um
desconhecido, Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo
nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja, e, além disso, se
refletirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava
resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu. Houve um silêncio
arrastado, espesso, ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas
horas. Fernando Pessoa levantou-se, Vou-me chegando, Já, Bem, não julgue que
tenho horas marcadas, sou livre, é verdade que a minha avó está lá, mas deixou
de me maçar, Fique um pouco mais, Está a fazer-se tarde, você precisa de
descansar, Quando volta, Quer que eu volte, Gostaria muito, podíamos conversar,
restaurar a nossa amizade, não se esqueça de que, passados dezesseis anos, sou
novo na terra, Mas olhe que só vamos poder estar juntos oito meses, depois
acabou-se, não terei mais tempo, Vistos do primeiro dia, oito meses são uma
vida, Quando puder, aparecerei, Não quer marcar um dia, hora, local, Tudo menos
isso, Então até breve, Fernando, gostei de o ver, E eu a si, Ricardo, Não sei
se posso desejar-lhe um feliz ano novo, Deseje, deseje, não me fará mal nenhum,
tudo são palavras, como sabe, Feliz ano novo, Fernando, Feliz ano novo,
Ricardo.
[...]
SARAMAGO, José. O ano
da morte de Ricardo Reis. 8. ed. Lisboa, Caminho, 1984. p. 81-82.
Fonte: Português. Série
novo ensino médio. Volume único. João Domingues Maia – Editora Ática – 2000.
São Paulo. p. 424-425.
Entendendo o conto:
01 – Qual é a premissa central
de "O Ano da Morte de Ricardo
Reis"?
A obra imagina os
últimos meses de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, após a
morte do poeta em 1935. Saramago explora a relação entre criador e criatura,
misturando realidade e ficção.
02 – Como Saramago utiliza o
contexto histórico-social na narrativa?
Saramago insere o
personagem de Ricardo Reis no contexto histórico-social do salazarismo,
descrevendo o noticiário jornalístico da época e fazendo referências constantes
ao regime de Salazar.
03 – Qual é a relação entre
Ricardo Reis e Fernando Pessoa no romance?
No romance,
Fernando Pessoa aparece como um fantasma que interage com Ricardo Reis. Os dois
personagens discutem sobre a vida, a morte e a poesia, explorando a relação
entre criador e criatura.
04 – Quem é Lídia e qual é o
seu papel na vida de Ricardo Reis?
Lídia é uma das
personagens femininas do romance, uma empregada do hotel onde Ricardo Reis se
hospeda em Lisboa. Ela representa o amor carnal e terreno, em contraste com o
ideal platônico de amor presente nas odes de Ricardo Reis.
05 – Como a obra aborda a
questão da identidade e da existência?
Através da
interação entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, o romance explora a natureza da
identidade e da existência, questionando a linha tênue entre vida e morte,
realidade e ficção.
06 – De que forma Saramago
utiliza a ficção de Fernando Pessoa em sua obra?
Saramago se
apropria da ficção de Fernando Pessoa, que traçava perfis biográficos de seus
heterônimos, indicava as datas de nascimento, mas omitia os óbitos. Assim, o
autor se intromete no imaginário do poeta e fixa a data da morte de um deles,
Ricardo Reis.
07 – Qual a importância do
encontro entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa no contexto da obra?
O encontro entre
Ricardo Reis e Fernando Pessoa é crucial, pois permite a exploração das
complexidades da relação entre criador e criatura, vida e morte, e a natureza
da identidade. Através desse diálogo, Saramago tece reflexões profundas sobre a
existência e a arte.