Romance: Almas Mortas
Nikolai Gogol
Almas
Mortas é a última e mais marcante obra de Gogol e constitui uma referência
importante na literatura russa na medida em que marcou a transição do
Romantismo oitocentista para o realismo. Neste contexto, Gogol acabou por ser
um dos maiores precursores dos grandes escritores russos Tolstoi e
Dostoiévski.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgmFYyS72kFj0O6diRD3WkpS-MV11RMhhI3yHE3RvjfmVFsScQp4pI3LXqaNaUVBJusl1e7q5q-xleYS1BavE3z9t8mXOhx4LmhS4lbOVaoyUVJkWUYDa1mJWuxDYF8QVYw0_WkenKAFNPTnlLE-oDgVKMzQLOrwfKuPPL0KLubLGIT77An9ic2AjystCA/s1600/images.jpg Almas
Mortas foi uma obra maldita na época, pela crueza com que aborda a questão da
servidão ainda em voga na Rússia naquela altura (1835). Num
estilo direto e incisivo, Gogol aponta o dedo a uma
sociedade anacrônica onde os servos constituíam propriedade dos seus
senhores, que dispunham a seu bel-prazer das suas almas e dos seus corpos. O
termo “almas” designa, na história da servidão russa os camponeses que eram
propriedade dos seus senhores. O herói da narrativa, Chichiev, dispõe-se a
comprar servos que haviam falecido, mas que ainda tinham existência legal por
não terem sido abatidos nas listas de recenseamento. O objetivo destas
transações só é revelado no final.
O
estilo de Gogol impressiona pela forma como constrói um verdadeiro diálogo com
o leitor, constituindo uma proximidade que nos leva a ler como quem ouve uma
estória.
Tal
como Tolstoi e Dostoievski, Gogol critica asperamente a subserviência dos
russos, que desprezam os inferiores e bajulam os superiores de forma
descaradamente interesseira. Todos os vendedores de almas que o autor descreve
ilustram as facetas mais negativas da alma humana e do povo russo em
particular. É o caso de Manilov, um pequeno proprietário preguiçoso, sem
vontade própria e sem ambição; uma viúva sovina totalmente desprovida de
inteligência; Nozdriov, bêbado, mentiroso, jogador inveterado que recusa vender
as suas almas, mas dispõe-se de bom grado a jogá-las – símbolo do desprezo
extremo pela alma humana; Sobakevitch diz mal de todos – é o exemplo da
maledicência; Pliuskine é o mais avarento que se possa imaginar – tem mais de
mil servos e os celeiros cheios, mas vive na miséria.
Assim,
o alvo maior da crítica de Gogol é a pequena aristocracia rural avarenta, uma
espécie de classe média a que se juntam funcionários públicos corruptos e
comerciantes desonestos. Este grupo contrasta com a alta aristocracia
esbanjadora até ao extremo. Todos, sem excepção, são interesseiros e corruptos,
usando muitas vezes uma delicadeza exagerada, mas hipócrita para tentar enganar
as pessoas com quem negociam. Prevalece a inveja e mesmo o ódio dissimulado. O
bem público e a moral são completamente esquecidos. Os servos, esses,
constituem apenas instrumentos de enriquecimento pessoal e símbolos de
ostentação, sendo completamente esquecidos enquanto pessoas. Pelo contrário,
são normalmente encarados como bêbados e preguiçosos e castigados duramente. A
alienação interesseira das almas constitui o cúmulo, o expoente máximo do
desprezo pelo ser humano.
Gogol
faz também uma caracterização mordaz das mulheres da alta sociedade. Quase
desprovidas de inteligência, são capazes de alimentar os maiores dos boatos.
Preocupam-se acima de tudo com as aparências e o seu comportamento social gira
sempre em torno do “galanteio” ou então da maledicência. O que é certo é que
Gogol acaba por apontar o dedo acusador aos homens que, na sua maioria, se
deixam envolver pela maledicência, pondo em causa tudo e todos com os boatos mais
torpes. Na Rússia as pessoas gostam de falar de escândalos, diz Gogol. O leitor
não pode deixar de questionar: só na Rússia?
O
final do livro é absolutamente brilhante, com a resposta a dois mistérios que
se mantinham desde o início: qual a verdadeira personalidade de Chichikov (que
Gogol habilmente vai escondendo) e com que intenção comprava ele as almas. A
surpresa das respostas é tal que o leitor é levado a rever todas as explicações
que o seu espírito foi construindo ao longo da leitura.
Nikolai Gogol. Romance Almas Mortas.
Entendendo o romance:
01 – Qual é a
importância histórica e literária de Almas Mortas no cenário da literatura
russa?
A obra é um marco fundamental porque representou a transição do Romantismo do século XIX para o Realismo na Rússia. Com isso, Nikolai Gogol consolidou-se como um dos maiores precursores de gigantes da literatura mundial, como Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski.
02 – No contexto
histórico da servidão russa retratado no livro, o que significava o termo
"almas"?
O termo "almas" era utilizado para designar os camponeses (servos) que eram tratados como propriedade legal de seus senhores. Os proprietários de terras tinham total controle sobre a vida, o corpo e o destino dessas pessoas.
03 – Qual é o plano
central do protagonista Chíchikov na narrativa e que mistério o envolve?
O plano de Chíchikov consiste em viajar pela Rússia para comprar servos (almas) que já haviam falecido, mas que ainda constavam como vivos nas listas oficiais de recenseamento do governo. A verdadeira intenção por trás dessas transações e a real personalidade do protagonista são mistérios mantidos por Gogol e revelados de forma surpreendente apenas no final do livro.
04 – Como o texto
descreve a atitude dos russos da época em relação à hierarquia social, e quem é
o alvo principal da crítica de Gogol?
Gogol critica asperamente a profunda subserviência da sociedade russa, onde as pessoas costumavam desprezar os indivíduos de classes inferiores e bajular os superiores de maneira descarada e interesseira. O alvo principal de sua crítica é a pequena aristocracia rural avarenta (uma espécie de classe média), além de funcionários públicos corruptos e comerciantes desonestos.
05 – Os vendedores
que negociam com Chíchikov representam facetas negativas da alma humana. Como o
texto caracteriza os personagens Manilov e Pliúshkin?
Manilov: É
caracterizado como um pequeno proprietário extremamente preguiçoso, sem vontade
própria e totalmente desprovido de ambição.
Pliúshkin: Representa o ápice da avareza. Apesar de possuir mais de mil servos e os seus celeiros cheios de riquezas agrícolas, ele escolhe viver na mais absoluta miséria por puro apego material.
06 – De acordo com a
obra, como os proprietários de terras enxergavam e tratavam os seus servos
vivos?
Os servos eram desumanizados, sendo vistos apenas como instrumentos de enriquecimento pessoal e símbolos de ostentação. Os senhores costumavam rotulá-los como preguiçosos e bêbados, ignorando-os como seres humanos e aplicando-lhes castigos duríssimos.
07 – Como Nikolai
Gogol caracteriza as mulheres da alta sociedade na obra e qual comportamento
social ele estende também aos homens?
As mulheres da
alta sociedade são descritas de forma mordaz como pessoas quase desprovidas de
inteligência, focadas apenas nas aparências, no galanteio e na fofoca. No
entanto, o autor aponta que os homens não são diferentes: a maioria deles
também se deixa envolver pela maledicência, espalhando e alimentando os boatos
e escândalos mais torpes.
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