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quinta-feira, 25 de junho de 2026

CRÔNICA: A IGREJA DO DIABO - RESENHA - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica: A igreja do diabo – Resenha

          Machado de Assis               

        Certo dia o Diabo teve a grande ideia de fundar uma igreja pois estava cansado de ter tantos súditos e não ter organização, um ritual, enfim estava cansado de não ter regras. O Diabo pensava que ao abrir uma igreja, estaria destruindo de vez todas as outras religiões, enquanto as outras se combatiam e dividiam, a igreja do Diabo seria única. Decidido isso ele foi aos céus avisar a Deus e desafiá-lo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgl6ZoQb6u3vzDyrbS3C5ylkGLnvlX2AAthaIkiG9EDwlmUBP5vAe4PPCeGIILVXPNKnviJvNiT4TVQjKLfMSB0FYnU1MxZPuUqiihJiM7CRXvELfpUpDNPxjV-bCgUwOd5Il_dqLEu24X3tMt30k5GMbKDJ5RJLkmJtCFcKFlyhMYuigGtp0-Dfu7Yy3M/s320/IGREJA.png


        Chegando ao infinito azul, o Diabo encontrou Deus e o comunicou sobre a Igreja dizendo que faria todos os humanos negares suas virtudes e desceu a terra para colocar seu plano em prática.

        Uma vez na Terra o Diabo não perdeu um minuto, entrou para espalhar uma doutrina nova e extraordinária. Prometeu a seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias. Confessava que era o Diabo para provar para os seres humanos que ele não era tudo que Deus falava e que também era um pai e podia dar tudo que fosse pedido. A multidão veio mesmo aos seus pés.

        Ele clamava que as virtudes aceitas deveriam ser substituídas pelas naturais e legítimas. A soberba, a luxuria, a preguiça foram reabilitadas e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia. A ira e a gula agora eram muito bem vistas. Quanto a inveja, pregou friamente que era a virtude principal, preciosa, que chegava a suprir todas as outras.

        Ele chamava a fraude de braço esquerdo do homem, o direito era a força. A demonstração mais rigorosa e profunda foi à venalidade, dizia ele que era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se você pode vender a sua casa, o seu boi, porque não pode vender sua opinião? o teu voto, tua fé? Coisas que são mais do que sua, porque são sua própria consciência, isto é, tu mesmo?

        E assim o Diabo descia e subia, examinava tudo. Todas as formas de respeito foram condenadas por eles, a única exceção do interesse. Para arrematar a obra entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Não se devia dar ao próximo nada, a não ser a indiferença e em alguns casos, ódio ou desprezo. A única hipótese que lhe permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar a mulher alheia.

        As pessoas foram chegando e a igreja fundara-se, a doutrina propagara-se, não havia ninguém que a não conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse.

        O Diabo alcançou brados de triunfo. Muitos anos depois o Diabo notou que muitos dos seus fies, às escondidas praticavam as antigas virtudes, não todas nem integralmente, mas principalmente ligação a dias católicos e esmolas.

        A descoberta assombrou o Diabo pois haviam casos em todos os lugares. Não se deteve um instante, voou de novo ao céu, tremulo de raiva, ansioso para conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus o ouviu calmamente, não o interrompeu, não o surpreendeu, não triunfou, sequer daquela agonia satânica.

        Pôs os olhos nele e disse-lhe:

        -- Que queres tu? É a eterna contradição humana.

        É interessante observar nesse conto a natureza contraditória do ser humano, parece que tudo aquilo que é proibido é o que queremos e se essa mesma coisa se torna permitida, já perde a graça e logo já queremos outro desafio e acabamos sempre insatisfeitos. Os homens, como seres imperfeitos, não conseguem viver com nada que for extremo, ainda mais com o que a religião diz que seus fiéis devem supostamente obedecer, sendo assim contraditórios a todo instante.

        Nossas atitudes se encaixam perfeitamente nessa “igreja do Diabo”, temos o sério hábito de cometer pecados capitais, trapacear, fazer adultério e mentir. O texto apresenta o Diabo com características essencialmente humanas, ele quer a todo o instante o poder e a dominação.

        Um detalhe muito importante de se perceber nessa obra é que Deus é apresentado assim como nós vemos ELE mesmo, com paciência, convivência com o livre arbítrio e muita sabedoria, pois em nenhum momento ele se opunha nas atitudes do Diabo e das pessoas.

        No entanto o que ocorre é que, assim como não somos capazes de seguir todas as virtudes exigidas por Deus, também não seriamos capazes de exercer todos os “ensinamentos” da igreja do Diabo, é a incapacidade do ser humano de seguir um extremo. A todo instante o homem esta entre o ‘bem’ e o ‘mal’ e não consegue aceitar apenas um destes.

Machado de Assis. A igreja do diabo – Resenha.

 

Entendendo a crônica:

 

01 – Qual foi o principal motivo que levou o Diabo a fundar a sua própria igreja na Terra?

      O Diabo estava cansado de ter muitos súditos, mas nenhuma organização, regras ou rituais formais. Além disso, ele acreditava que, enquanto as outras religiões se dividiam e combatiam entre si, a sua igreja seria única e destruiria todas as outras de uma vez por todas.

 

02 – Como o Diabo reabilitou os antigos pecados capitais e a fraude em sua nova doutrina?

      Ele pregou que as virtudes tradicionais deveriam ser substituídas pelas "naturais". Assim, a soberba, a luxúria e a preguiça viraram qualidades; a avareza foi declarada a "mãe da economia"; a inveja virou a virtude principal; e a fraude foi definida como o "braço esquerdo do homem" (sendo a força o direito).

 

03 – Qual foi o argumento do Diabo para justificar a "venalidade" (o ato de se vender/aceitar suborno) como um direito superior?

      Ele argumentou que, se o ser humano tem o direito de vender seus bens materiais — como uma casa ou um boi —, seria perfeitamente legítimo vender coisas que lhe pertencem ainda mais profundamente, como sua opinião, seu voto, sua fé e sua própria consciência.

 

04 – Que descoberta surpreendente e assombrosa o Diabo fez muitos anos após o sucesso de sua igreja?

      Ele notou que muitos de seus fiéis estavam, às escondidas, praticando as antigas virtudes cristãs que ele havia proibido, recorrendo especialmente à prática de dar esmolas e ao apego a datas católicas.

 

05 – Qual é a grande conclusão filosófica do texto sobre a "eterna contradição humana" dita por Deus?

      A conclusão é que o ser humano é incapaz de viver nos extremos. Assim como a humanidade não consegue seguir perfeitamente todas as virtudes exigidas por Deus, ela também falha em cumprir a maldade absoluta da igreja do Diabo. O homem é imperfeito e vive em uma constante oscilação entre o bem e o mal.

 

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

CRÔNICA: ANALFABETISMO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica: Analfabetismo

            Machado de Assis

        Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKM3pNp0uYyECWqdaJOwebxKIGzYPM_QnpGDqmiwIO3UqTmvqkXeo7bU_Nh3l5SC5I12LbqqOkhsX9u-h13ikmL__dKzb24V2af1e9taDBz7glimNl55pE5qnKWQuQPH9ihwWpGVNfJGIYJyklFC739wQKLgCMRMRXQFvPrd54gOO4lBEm-anRoRFQfzg/s1600/aNAL.jpg


        Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

        — Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

        A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

        — A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

        Replico eu:

        — Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…

        — As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

        E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

Machado de Assis. 15 de agosto de 1876. In: Obra completa, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Disponível em: http://www.cronicas.uerj.br/home/cronicas/machado/rio-de-janeiro/ano1876/15ago76.htm. Acesso em: 1º mar. 2021.

Fonte: linguagens. EJA. Ensino médio. Caderno 3 – 1ª edição. SEDUC – FGV – SESI – p. 34-35.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador afirma que gosta dos algarismos em comparação às letras?

      O narrador prefere os algarismos porque eles são diretos, sinceros e francos. Diferente das letras, que são usadas para criar frases e retórica (muitas vezes para disfarçar a realidade), os algarismos dizem as coisas pelo nome, sem "meias medidas" ou metáforas.

02 – Qual é a crítica central que o "Sr. Algarismo" faz em relação à democracia brasileira daquela época?

      A crítica central é que a democracia é fictícia, pois a grande maioria da população (70%) é analfabeta. Para o algarismo, não se pode falar em "vontade da nação" quando a maior parte dela não sabe ler, não conhece a Constituição e não entende as propostas dos políticos.

03 – Segundo o texto, como os 70% de cidadãos que não sabem ler exercem o direito ao voto?

      Eles votam de forma inconsciente, "do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê". O texto compara o ato de votar dessas pessoas a ir a uma festa popular (Festa da Penha), ou seja, por mero divertimento ou impulso, sem compreensão política.

04 – Qual é a "reforma no estilo político" proposta pelo algarismo?

      Ele propõe que se pare de usar a palavra "nação" e se use "os 30%". Como apenas essa minoria sabe ler e participa efetivamente da vida política, o correto seria dizer "representantes dos 30%" ou "poderes dos 30%", para ser condizente com a realidade estatística.

05 – O que o narrador conclui ao final do diálogo com o algarismo?

      O narrador conclui que não há como argumentar contra o algarismo. Enquanto os discursos políticos são feitos sobre bases frágeis e retóricas, o algarismo tem o apoio de dados concretos e reais, como o recenseamento (o censo populacional).

 

 

domingo, 22 de março de 2026

CRÔNICA DA ABOLIÇÃO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica da abolição

Machado de Assis

 Eu pertenço a uma família de profetas “après coup”*, “post factum”, “depois do gato morto”, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtmy9sD277cbnrjwVJl-qr9tNxUk-2eysCjiCcxOhe-th2iqnYtZtEzxknbH7EkOOwY_iiBxyxPIsLuc155lc2fCAkioM6XZ0TtbguyJLctYDVChL1dHmRhXIjQsLtGlsHPs4Qqra7YJOMqtIfAJIVWUdkJynUQeWk89r446aHdxrv-5RhojEAPpXSTG8/s320/Praca-Quinze-Rio-de-Janeiro-Jean-Baptiste-Debret.jpg


Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

No golpe do meio (“coupe do milieu”, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

            — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

            — Oh! meu senhô! Fico.

            — Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente.

Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

            — Artura não qué dizê nada, não, senhô...

            — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

            — Eu vaio um galo, sim, senhô.

            — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. [...]

MACHADO DE ASSIS

http://portal.mec.gov.br 

Entendendo o texto

01. Por que o narrador decide alforriar (libertar) o jovem Pancrácio na segunda-feira antes da lei ser votada?

a. Porque ele sempre foi contra a escravidão e esperava por esse momento.

b. Para parecer um "profeta" que previu a lei e ganhar fama de bondoso antes dos outros.

c. Porque Pancrácio pediu a liberdade para poder se casar.

d. Porque ele não tinha mais dinheiro para sustentar o escravo.

02. Como foi a comemoração da liberdade de Pancrácio organizada pelo patrão?

a. Uma festa simples apenas para a família na cozinha.

b. Uma missa na igreja da cidade em agradecimento a Deus.

c. Um dia de folga para que Pancrácio pudesse visitar seus parentes.

d. Um jantar solene, chamado de banquete, com discursos e brindes de champanhe.

03. O que o narrador ofereceu a Pancrácio para que ele continuasse trabalhando na casa após ser libertado?

a. Uma sociedade nos negócios da família.

b. Apenas moradia e comida, sem pagamento em dinheiro.

c. Um pequeno ordenado (salário), que ele disse que poderia crescer no futuro.

d. Uma casa própria nos fundos do terreno.

04. No dia seguinte à liberdade, o narrador dá um "peteleco" em Pancrácio. Qual foi a justificativa dada pelo patrão para esse ato?

a. Ele afirmou que era um "impulso natural" e que isso não tirava o direito civil de liberdade de Pancrácio.

b. Ele disse que o peteleco era uma forma de carinho.

c. Ele alegou que Pancrácio o havia agredido primeiro.

d. Ele disse que agora que Pancrácio era livre, precisava apanhar para aprender a trabalhar.

05. Qual é a principal ironia presente no final do texto, quando o narrador fala sobre os chutes e puxões de orelha que dá em Pancrácio?

a. A ironia de que Pancrácio agora é quem manda no patrão.

b. A ironia de que, embora Pancrácio seja legalmente livre, a sua condição de vida e o tratamento agressivo do patrão continuam os mesmos.

c. A ironia de que o patrão ficou pobre após libertar o escravo.

d. A ironia de que Pancrácio ficou muito rico com o salário que recebeu.

06. Como Pancrácio reage ao tratamento do patrão (pontapés e insultos) após a abolição, segundo o narrador?

a. Ele reage com violência e tenta bater no patrão.

b. Ele decide ir embora da casa imediatamente.

c. Ele recebe tudo humildemente e o narrador acredita que ele fica até alegre.

d. Ele denuncia o patrão para as autoridades da época.

07. O que Machado de Assis pretende criticar com esta crônica?

a. A rapidez com que a Lei Áurea foi aprovada.

b. O comportamento de pessoas que se diziam "boazinhas" e abolicionistas, mas mantinham preconceitos e práticas violentas.

c. A falta de festas e banquetes na cidade do Rio de Janeiro.

d. A dificuldade de se encontrar bons empregados domésticos naquela época.

 

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

HISTÓRIA: QUINCAS BORBA - CAP. XXVIII - FRAGMENTO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 História: Quincas Borba cap. XXVIII – Fragmento

               Machado de Assis

        [...]

        — Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.   

        O cão atirou-se fora. Que alegria! que entusiasmo! que saltos em volta do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um tabefe, que lhe dói; ele recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas; depois o senhor dá um estalinho com os dedos, e ei-lo que volta novamente com a mesma alegria.   

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi3mBV9w6VUQgIUpkQ6-lpGUibt6lSXzlyHdfU4J6pGjmUqrochMIGRmX4PETIfwTgJhfuzUrlJrhnunYbIMU33t-cLQmCZMgV1yCUVncXsOuybdByOjawxm5Z_HZrWLPPjNcCQvrwdv3FBA7NZiYHYkkFAtvxrPxdLn2QiqtXlG0nw9mXOZDr3hMEDbkY/s1600/QUINCAS.jpg


        — Sossega! sossega!   

        “Quincas Borba” vai atrás dele pelo jardim fora, contorna a casa, ora andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de vista. Aqui fareja, ali pára a coçar uma orelha, acolá cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra coisa, que anda agora de um lado para outro unicamente para fazê-lo andar também, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando Rubião estaca, ele olha para cima, à espera; naturalmente, cuida dele; é algum projeto, saírem juntos ou coisa assim agradável. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta a memória das pancadas. Ao contrário, os afagos ficam-lhe impressos e fixos, por mais distraídos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que o é.   

        [...]

Quincas Borba – Coleção Romances Brasileiros. São Paulo, Edigraf, s/d.

Fonte: Português – 1º grau – Descobrindo a gramática 8. Gilio Giacomozzi; Gildete Valério; Cláudia Reda Fenga. São Paulo. FTD, 1992. p. 173.

Entendendo a história:

01 – Como o narrador descreve a reação inicial do cão Quincas Borba ao ser libertado por Rubião?

      A reação do cão é de extrema euforia e dedicação. O narrador usa uma série de exclamações para descrever seu entusiasmo: "Que alegria! que entusiasmo! que saltos em volta do amo!". O cão se atira para fora e chega a lamber a mão de Rubião, expressando total felicidade pela liberdade e reencontro.

02 – O que a atitude de Rubião (dar um tabefe no cão) e a subsequente reação de Quincas Borba revelam sobre a dinâmica de poder e afeto na relação entre eles?

      A atitude revela uma dinâmica de poder abusiva por parte de Rubião e uma submissão incondicional do cão. Apesar de sentir dor e tristeza ("recua um pouco, triste, com a cauda entre as pernas"), a alegria e a lealdade de Quincas Borba são imediatamente restauradas com um simples gesto (um "estalinho com os dedos"). Isso mostra a curta memória das pancadas do animal e a fixação na possibilidade de afeto.

03 – O trecho afirma que o cão "não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de um tabefe." O que, segundo o narrador, sustenta essa confiança e esquecimento da dor?

      A confiança do cão é sustentada pela sua memória seletiva e pelo seu desejo de ser amado. O narrador explica que o cão tem "muito curta a memória das pancadas," enquanto "os afagos ficam-lhe impressos e fixos". Ele "Gosta de ser amado" e se contenta de crer que o é, mesmo que essa crença seja baseada em afagos "distraídos" e na simples atenção do amo.

04 – No jardim, o narrador descreve as ações de Quincas Borba como ora "fareja," ora "coçar uma orelha," ora "cata uma pulga." Como o cão equilibra sua liberdade momentânea com a lealdade ao seu dono?

      O cão saboreia a liberdade ("Saboreia a liberdade"), dedicando-se a atividades caninas normais, mas nunca perde Rubião de vista ("não perde o amo de vista"). Ele usa a expressão "de um salto galga o espaço e o tempo perdido" para indicar que, após suas distrações, ele rapidamente anula a distância e volta a se "coser outra vez com os calcanhares do senhor," priorizando a proximidade e o acompanhamento do amo.

05 – A que tipo de característica humana a descrição da memória e da confiança de Quincas Borba pode estar fazendo alusão, considerando o estilo de Machado de Assis?

      A descrição alude ironicamente à capacidade humana de autoengano, de idealização e de fixação em pequenas migalhas de afeto, mesmo diante do abuso ou da indiferença. Machado de Assis frequentemente usa a perspectiva ingênua ou limitada de seus personagens para criticar a vontade de crer e a tendência a esquecer o sofrimento em troca da ilusão de ser amado ou de pertencer a algo, como um mecanismo de defesa psicológico ou de submissão social.

 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

POEMA: A UM LEGISTA - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Poema: A um Legista

             Machado de Assis

[...]

Rosa . . . que se enamora
Do amante colibri,
E desde a luz da aurora
Os seios lhe abre e ri.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2gPSz08kU2J1OySG97JKuGTUve8rZlsx94JbpvN6cqOfFCtPIAatVV_LyxWTHnAOlPrmAOmG27bPsqevvii4Ow28gwoi4kYOsoytQqHwnybfCCFQu981Cl00_LYlNJ89O45voqdLBVCeS-6ONK4qiEhSrdcMHgg-Gv26CJP5A40UKm4GuCnv3NY4Lq8I/s320/literarias.png._PROC_AP30AC30052AT1ACX1017ATX1.png



Mas Zéfiro brejeiro
Opõe ao beija-flor
Embargos de terceiro
Senhor e possuidor.

Quer este possuí-la,
Também o outro a quer.
A pobre flor vacila,
Não sabe a que atender.

O sol, juiz tão grave
Como o melhor doutor,
Condena a brisa e a ave
Aos ósculos da flor.

[...]

ASSIS, Machado de. In: COUTINHO, Afrânio (Org.). Machado de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 217-218. v. 3 (Fragmento).

Fonte: Língua Portuguesa: Singular & Plural. Laura de Figueiredo; Marisa Balthasar e Shirley Goulart – 7º ano – Moderna. 2ª edição, São Paulo, 2015. p. 310.

Entendendo o poema:

01 – Qual a metáfora principal utilizada no início do poema para descrever a rosa e sua interação com o colibri?

      A rosa é metaforicamente apresentada como um ser que "se enamora do amante colibri", abrindo-lhe os seios e rindo desde a aurora, personificando a flor como um ser apaixonado e receptivo.

02 – Quem é o "Zéfiro brejeiro" e qual seu papel na relação entre a rosa e o colibri?

      O "Zéfiro brejeiro" é a brisa ou vento, que se opõe ao beija-flor, agindo como um "embargo de terceiro", um termo jurídico, para se colocar como senhor e possuidor da rosa.

03 – Diante da disputa entre o colibri e o Zéfiro, qual a atitude da "pobre flor"?

      A "pobre flor" vacila e "não sabe a que atender", mostrando-se indecisa entre os dois pretendentes.

04 – Quem é o "juiz" que resolve a disputa pela flor, e como ele é caracterizado?

      O "juiz" que resolve a disputa é o sol, caracterizado como "tão grave como o melhor doutor".

05 – Qual a "sentença" proferida pelo sol em relação à brisa e à ave, e o que isso significa para a flor?

      O sol condena a brisa e a ave "aos ósculos da flor". Isso significa que ambos têm permissão para beijar/tocar a flor, sugerindo que a beleza e o "amor" da flor são acessíveis a ambos, ou que a natureza permite essa interação múltipla.

 

 

 

 

domingo, 10 de agosto de 2025

POEMA: ELLA - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Poema: ELLA

             Machado de Assis

Seus olhos que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde com rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com meiguice e com primor.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh73J9kEfNaNsqZQLNiuyfQQ7882mqOtJ2RizS6qIda6vPMpPOPfX0L7hDS0YKTe3413zkRyq5GrmvsEfCE2ojYmCEaYFeuShu5yBT4SUAdq2DgwYdjckmC2hrNwFO2Q6VejxRZOirA-LKoaaLMyTJ3py2_6l2UT8EetpHD7d1ZhYBNHD51Nu0JchhboWg/s1600/images%20(2).jpg



Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspira em dose poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meiga e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se desliza,
Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um – sim –
Para alívio do coração!

Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh'alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
Faz-lhe gozar teu portento,
"Dá-lhe um suspiro de amor!"

Machado de Assis, em 1855 no Jornal Marmota Fluminense, quando tinha 16 anos de idade. Disponível em: http://memoria.bn.br/DOCREADER/DOCREADRE.ASPx?bib=706914&PagFis=436. Acesso em: 28 nov. 2014.

Fonte: Língua Portuguesa: Singular & Plural. Laura de Figueiredo; Marisa Balthasar e Shirley Goulart – 6º ano – Moderna. 2ª edição, São Paulo, 2015. p. 264.

Entendendo o poema:

01 – Quais elementos do rosto da mulher são destacados nos dois primeiros quartetos e o que eles transmitem?

      Nos dois primeiros quartetos, Machado de Assis destaca os olhos e as faces da mulher. Os olhos são descritos como brilhantes, cheios de doce encanto e um casto amor, mostrando a beleza esmerada pela natureza. As faces são purpurinas, de cores divinas e com um "mago brilho e condão", inspirando poesia e harmonia ao coração do eu lírico.

02 – Como o poeta descreve a boca de "Ella" e que contraste ele usa para isso?

      A boca de Ella é descrita como meiga e breve, onde um sorriso suave desliza com doçura. O poeta usa um contraste interessante ao dizer que os lábios "com neve se harmoniza", indicando uma pureza ou delicadeza que se contrapõe à "purpúrea cor".

03 – Que desejo o eu lírico expressa em relação à voz e aos lábios da mulher?

      O eu lírico expressa o desejo de ouvir um "sim" da boca da mulher. Ele descreve a voz dela como harmoniosa e inspiradora de ardente paixão, comparando seus lábios aos de um Querubim, buscando alívio para o seu coração.

04 – Com que termo o eu lírico se refere à mulher no último quarteto e o que ele pede a ela?

      No último quarteto, o eu lírico se refere à mulher como "anjo de candura". Ele pede a ela que venha trazer a dita e a ventura à sua alma sem vigor, que lhe dê alento e que o faça gozar de seu portento, finalizando com o pedido por "um suspiro de amor!".

05 – Qual o tema central do poema "Ella" e como ele é abordado?

      O tema central do poema é a exaltação da beleza feminina e o desejo de um amor idealizado. Machado de Assis aborda esse tema descrevendo detalhadamente as características físicas da mulher (olhos, faces, boca), atribuindo-lhes qualidades quase divinas e expressando o anseio do eu lírico por uma correspondência amorosa que traga felicidade e plenitude à sua vida.

 

 

sábado, 26 de abril de 2025

CONTO: A CAUSA SECRETA - FRAGMENTO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Conto: A Causa Secreta – Fragmento

            Machado de Assis

        [...] 

        Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgmsT1yxv9IuPF00r1y-a7gW9PRUrIPl1nrkj9d4ISzbo-zcdIj5lphv_BjUspEA4iYQ76qVWiuPidPTMb0NiPp0_iEfKrxatO3wXjpY4gcKcGgakvCar_6DK5BqbOUJzsFpHeFPjtZ9-9FVbbI0BzM9RRlvIgvG1BWYdAFLjhP8mIo_iShX8PX5_q57ko/s1600/CAUSA.jpg


        A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados da praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada. 

        [...]

        Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos, perto da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a frequência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi. 

        — Sabe que estou casado? 

        — Não sabia. 

        — Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco domingo. 

        — Domingo? 

        — Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo. 

        Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor. [...]

        A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o silêncio, mas não se deu por achada. 

        No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porém, não podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como cousa sua, alcançasse do marido a cessação de tais experiências. 

        — Mas a senhora mesma... 

        Maria Luísa acudiu, sorrindo: 

        — Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor, como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz... 

        Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria Luísa agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada. 

        — Deixe ver o pulso. 

        — Não tenho nada. 

        Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar o marido em tempo. 

        Dois dias depois, — exatamente o dia em que os vemos agora, — Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita. 

        — Que é? perguntou-lhe. 

        — O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.

        Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado. 

        — Mate-o logo! disse-lhe. 

        — Já vai.  

        E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensanguentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. 

        Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue. 

        Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida. 

        -- Castiga sem raiva, pensou o médico, pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo deste homem. 

        Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só, sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.

        Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:

        — Fracalhona! 

        E voltando-se para o médico: 

        — Há de crer que quase desmaiou? 

        Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos, tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar. 

        Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda, até deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la. Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal. 

        Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só. 

        De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que repousasse um pouco. 

        — Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois. 

        Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo. Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés para não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou assombrado. 

        Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento.  Olhou assombrado, mordendo os beiços. 

        Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa. 

50 contos de Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 368-376.

Fonte: Livro – Português: Linguagens, 2. William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães, 9ª Ed. – Ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 222-226.

Entendendo o conto:

01 – Como Garcia e Fortunato se conheceram inicialmente e qual foi a primeira impressão que Fortunato causou em Garcia?

      Garcia e Fortunato se encontraram pela primeira vez à porta da Santa Casa. Fortunato causou uma impressão em Garcia, embora esta pudesse ter sido esquecida se não houvesse um segundo encontro poucos dias depois.

02 – O que despertou a atenção de Garcia durante a peça de teatro em que ele e Fortunato se encontraram pela segunda vez?

      A atenção de Garcia foi despertada pelo singular interesse de Fortunato pela peça, um dramalhão cheio de violência. Nos lances dolorosos, a atenção de Fortunato redobrava, e seus olhos seguiam avidamente os personagens, levando Garcia a suspeitar de reminiscências pessoais do vizinho na peça.

03 – Como Garcia descreve a aparência física de Fortunato após conhecê-lo melhor e qual era o contraste com os seus modos?

      Garcia descreve a figura de Fortunato como inalterada, com olhos que eram "chapas de estanho, duras e frias" e outras feições não atraentes. Havia um contraste com os seus obséquios, que, embora não resgatassem sua natureza, ofereciam alguma compensação.

04 – Qual foi a impressão de Garcia sobre o relacionamento entre Fortunato e Maria Luísa após algumas visitas à casa do casal?

      Garcia percebeu que havia uma dissonância de caracteres e pouca ou nenhuma afinidade moral entre Fortunato e Maria Luísa. Notou também que os modos da mulher para com o marido transcendiam o respeito, confinando na resignação e no temor.

05 – Que sentimento começou a surgir em Garcia em relação a Maria Luísa e como ele tentou lidar com isso?

      Garcia começou a sentir amor por Maria Luísa. Ele tentou expeli-lo para que sua relação com Fortunato permanecesse apenas a de amizade, mas não conseguiu. Ele apenas trancou esse sentimento, embora Maria Luísa tenha compreendido tanto a afeição quanto o seu silêncio.

06 – Qual o incidente que revelou ainda mais a situação de Maria Luísa aos olhos de Garcia e qual o pedido incomum que ela fez ao médico?

      O incidente foi o hábito de Fortunato de estudar anatomia e fisiologia rasgando e envenenando animais em casa, perturbando Maria Luísa. Ela pediu a Garcia que, como se fosse um pedido dele, convencesse o marido a cessar tais experiências, alegando que lhe faziam mal.

07 – Descreva a cena chocante presenciada por Garcia no gabinete de Fortunato e qual a reação do médico diante do que viu?

      Garcia viu Fortunato torturando um rato, cortando suas patas e aproximando-o repetidamente de uma chama com um sorriso de satisfação. Garcia ficou horrorizado e pediu para que ele matasse o animal logo, mas a serenidade prazerosa de Fortunato o intimidou.

08 – Qual a interpretação de Garcia sobre o comportamento de Fortunato ao torturar o rato e que comparação ele faz para tentar entender a motivação do amigo?

      Garcia interpretou o comportamento de Fortunato como uma necessidade de encontrar uma sensação de prazer através da dor alheia, considerando isso o "segredo" do amigo. Ele compara essa atitude a um "diletantismo sui generis" e a uma "redução de Calígula", sugerindo uma busca por sensações extremas e um certo sadismo.

09 – Como Fortunato reagiu à doença e à morte de Maria Luísa, segundo o narrador?

      Fortunato recebeu a notícia da doença de Maria Luísa como um golpe e tentou todos os recursos para curá-la, pois a amava a seu modo e estava acostumado com ela. No entanto, nos últimos dias, seu egoísmo subjugou qualquer outra afeição, e ele observou a agonia da esposa sem demonstrar emoção, apenas sentindo-se aturdido ao ficar sozinho após a morte dela.

10 – Qual a cena final surpreendente presenciada por Fortunato e qual a sua reação ao ver Garcia beijando o cadáver de Maria Luísa?

      A cena final mostra Fortunato vendo Garcia beijar a testa do cadáver de Maria Luísa com lágrimas de amor e desespero. Fortunato ficou assombrado, interpretando o beijo não como amizade, mas como o possível fim de um adultério. Embora não sentisse ciúmes, sua vaidade ressentiu o gesto, e ele saboreou tranquilamente a explosão de dor moral de Garcia.