sexta-feira, 12 de junho de 2026

CONTO: BOM TEMPO, SEM TEMPO - CARLOS DRUMMOND ANDRADE - COM GABARITO

 Conto: Bom tempo, sem tempo

           Carlos Drummond de Andrade

 

        Não chovia, meses a fio. Ou chovia demais. As plantas secavam, os animais morriam, os moradores emigravam. As plantas submergiam, os animais morriam, as pessoas não tinham tempo de emigrar. Assim era a vida naquele lugar privilegiado, onde medrava tudo para todos, havendo bom tempo. Mas não havia bom tempo. Havia o exagero dos elementos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjAguKATKgc845IzYKoi1Qi1HOnnAh6wAnRGTP6FszVRV4gf1XJ5ZOq7UyuKQI1BJPpwiXmpFOVyS7IPTIT-SRfBHvRImwVA_Nx-doCUS6H2WNFe4wyYl1lO2xchVxyI7mgoBR5J0RoXTz0uIkYiBYdj75r-D8qy3UDoaR0BMW-ob1HGvbDlyazwgGudPE/s320/images.jpg


        O mágico chegou para reorganizar a vida, e mandou que as chuvas cessassem. Cessaram. Ordenou que a seca findasse. Findou. Sobreveio um tempo temperado, ameno, bom para tudo, e os moradores estranharam. Assim também não é possível, diziam. Podemos fazer tantas coisas boas ao mesmo tempo que não há tempo para fazê-las. Antes, quando estiava ou chovia um pouco - isto é, no intervalo das grandes enchentes ou das grandes secas -, a gente aproveitava para fazer alguma coisa. Se o sol abrasava, podíamos fugir. Se a água vinha em catadupa, os que escapavam tinham o que contar. Quem voltasse do êxodo vinha de alma nova. Quem sobrevivesse à enchente era proclamado herói. Mas agora, tudo normal, como aproveitar tantas condições estupendas, se não temos capacidade para isto?

        Queriam linchar o mágico, mas ele fugiu a toda.

 ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. São Paulo, Record: 2006.

 

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Catadupa – cachoeira.

-- Êxodo – emigração de todo um povo ou saída de pessoas em massa.

02 – O fato que motiva a história é:

(A) a chegada do mágico.          

(B) a falta de chuva.

(C) a chuva muito frequente.      

(D) o mágico fugir correndo.

03 – No primeiro parágrafo, o narrador afirma que aquele era um "lugar privilegiado", mas logo em seguida se contradiz. Que figura de linguagem predomina nessa descrição e qual é a verdadeira situação do lugar?

      Predomina a ironia. O narrador chama o lugar de "privilegiado" e diz que lá "medrava tudo para todos, havendo bom tempo", mas imediatamente revela a dura realidade: nunca havia bom tempo, apenas o "exagero dos elementos" (ou seca extrema ou chuva destrutiva).

04 – Por que os moradores estranharam e rejeitaram o "tempo temperado e ameno" trazido pelo mágico?

      Porque a normalidade e a abundância de condições favoráveis paralisaram os moradores. Eles estavam tão acostumados a viver no limite da sobrevivência (fugindo da seca ou resistindo às enchentes) que não sabiam como agir ou o que fazer quando tudo estava perfeito. A falta de dificuldades tirou deles o senso de propósito e de heroísmo.

05 – De acordo com o desabafo dos moradores, quais eram as "vantagens" que eles viam nos tempos de tragédia climática (seca e enchente)?

      Eles viam vantagens emocionais e sociais: a seca permitia a experiência do êxodo, fazendo com que as pessoas voltassem "de alma nova"; já as enchentes davam a oportunidade de os sobreviventes serem "proclamados heróis" e terem histórias impactantes para contar.

06 – O que o desfecho do conto — com os moradores querendo linchar o mágico — sugere sobre a natureza humana?

      Sugere que o ser humano muitas vezes se acomoda ao sofrimento e à rotina do caos, desenvolvendo uma incapacidade de lidar com a perfeição, com a paz ou com a facilidade. A crônica de Drummond satiriza a tendência humana de reclamar de qualquer situação, mostrando que nem mesmo a solução exata para os problemas (o clima perfeito) foi capaz de satisfazer aquela população.

 

 

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