quinta-feira, 4 de junho de 2026

CRÔNICA: UMA NOITE DE CÃO - MARCOS REY - COM GABARITO

 Crônica: Uma noite de cão

         Marcos Rey

        ─ Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?

        ─ Não sente o cheiro? Passei n'O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não ia chegar de mãos abanando.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3K-m-4PI_JnIc6fW7sL0kteFZcgbiuR9WKU4jVb93you8D6ZrlPmQpJkWnubMlUhKLLOS_Kz-LUOMrThs4nFdEmw-D4zeyILvpxAdV5msA_oNklnpWobaPI9URuoPhF3_P2_ZSTdO1h-WZnnJ1dEYaGecgRzUCrZLOrihY_K5DecjhQXOIWxcxMOj9fE/s320/CAO.jpg


        Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre parecia em meu apartamento com grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.

        Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango para a cozinha. Desembrulhando sobre a mesa, era uma tentação.

        Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar novidades sombrias do Rio. Vivíamos tempos pesados, tensos. Suas informações eram verdadeiras bombas. Confidenciou:

        ─ Um dos sequestradores é meu amigo.

        Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sob as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei para minha mulher que deixou escapar um:

        ─ Meu Deus!

        ─ Vocês sabem de que falo, não? – perguntou, grave.

        Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes certamente à espera de autorização para iniciar a ceia. Erguei-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé. Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-Ihe a cabeça. A centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde estava o seu jantar; eu teria de me vestir; descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.

        ─ Não quer saber qual é o amigo nosso que está envolvido?

        Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.

        ─ Claro que quero.

        Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.

        Olhei para o teto.

        ─ Aquilo não é um inseto? – apontei.

        Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.

        ─ É apenas uma mancha – ele observou.

        ─ Detesto insetos andando pela casa.

        O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor. Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.

        ─ Gosto desse terraço – disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.

        Num salto, apaguei a luz.

        ─ Ele fica mais bonito no escuro, observe.

        Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.

        ─ Vamos ao frango – ele decidiu. – O cheirinho tomou conta do apartamento.

        ─ Primeiro sirvo um uísque.

        Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.

        ─ A cachorra deve ter se machucado.

        Agarrei-lhe o braço.

        ─ Tome o uísque. Então um dos sequestradores é nosso amigo?

        Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!

        Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!

        ─ O Rei do Frango Assado está com tudo – disse Ramalho no final. – Este estava demais! – E generoso:

        ─ Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?

         ─ Sei lá!

Marcos Rey. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo, Ática, 1996. p. 25-28.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 150-152.

Entendendo a crônica:

01 – Quem é Ramalho e por que suas visitas costumavam incomodar o narrador e sua esposa?

      Ramalho é um amigo do Rio de Janeiro que sempre passava pelo apartamento do narrador em São Paulo. Ele causava incômodo porque tinha o hábito de chegar muito tarde da noite e faminto, justamente no horário em que o casal já estava se preparando para dormir.

02 – O que Ramalho levou para o apartamento naquela noite e qual revelação séria ele pretendia fazer?

      Ramalho levou um frango assado comprado no estabelecimento "O Rei do Frango Assado". Além disso, ele pretendia compartilhar notícias sombrias e confidenciais sobre tempos políticos tensos, revelando que um dos sequestradores de um caso recente era amigo deles.

03 – Quem é Virgínia Woolf na história e que situação cômica e tensa ela provoca?

      Virgínia Woolf é a cadela dálmata do casal. A situação tensa começa quando ela consegue pegar o frango assado inteiro que estava na cozinha e entra no living, postando-se elegantemente ao lado de Ramalho com a ave inteira na boca, sem que o visitante perceba.

04 – Por que o narrador ficou tão desesperado para esconder o roubo do frango? O que ele queria evitar?

      O narrador queria evitar o constrangimento e o transtorno logístico de ter que sair de madrugada para comprar outro jantar. Ele pensou que, se Ramalho descobrisse o roubo, ele seria obrigado a se vestir, descer até a garagem lotada, manobrar o carro e rodar pela cidade à procura de outro frango em plena madrugada.

05 – Quais foram os três truques ou estratégias que o narrador utilizou para impedir que Ramalho visse a dálmata com o frango?

      O narrador utilizou as seguintes estratégias visuais:

      Ficou de pé: Levantou-se repentinamente para forçar o visitante a olhar para cima.

      Mudou a mobília: Puxou um pufe para perto de Ramalho para diminuir seu ângulo de visão periférica.

      Inventou uma distração: Apontou para o teto fingindo ter visto um inseto, fazendo com que todos olhassem para o alto.

06 – Como o narrador agiu quando Ramalho decidiu ir até o terraço e, logo depois, quando a cadela começou a ganir no corredor?

      Quando Ramalho caminhou em direção ao terraço (onde a cadela se escondia com a presa), o narrador deu um salto e apagou a luz, alegando que o terraço ficava "mais bonito no escuro". Mais tarde, quando a cadela fujona faturou alguns ganidos no corredor, o narrador agarrou o braço de Ramalho, entregou-lhe um copo de uísque e mudou de assunto rapidamente, perguntando novamente sobre a identidade do sequestrador.

07 – Como a situação foi resolvida pela esposa do narrador e qual é a ironia no final da crônica?

      Enquanto o narrador distraía o amigo, a esposa conseguiu recuperar o frango (ou o que sobrou dele), preparou-o na cozinha e o serviu desossado para Ramalho. A grande ironia final é que Ramalho adora a refeição, elogia a qualidade do local onde comprou e, num gesto de generosidade, deixa um pedaço do peito para a cadela — sem ter a menor ideia de que ela já havia "temperado" e passado os dentes pelo frango inteiro minutos antes.

 

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