Crônica: Uma noite de cão
Marcos Rey
─ Ramalho! Vá entrando. Eh? Que
pacote é esse?
─ Não sente o cheiro?
Passei n'O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu
não ia chegar de mãos abanando.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3K-m-4PI_JnIc6fW7sL0kteFZcgbiuR9WKU4jVb93you8D6ZrlPmQpJkWnubMlUhKLLOS_Kz-LUOMrThs4nFdEmw-D4zeyILvpxAdV5msA_oNklnpWobaPI9URuoPhF3_P2_ZSTdO1h-WZnnJ1dEYaGecgRzUCrZLOrihY_K5DecjhQXOIWxcxMOj9fE/s320/CAO.jpg Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por
São Paulo sempre parecia em meu apartamento com grandes notícias e pequenos
pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era
bem-vindo por mim e minha mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já
íamos dormir.
Virgínia Woolf não parava de balançar o
rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera certa vez,
aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher
levou o frango para a cozinha. Desembrulhando sobre a mesa, era uma tentação.
Sentamo-nos no living. Ramalho
acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar novidades
sombrias do Rio. Vivíamos tempos pesados, tensos. Suas informações eram
verdadeiras bombas. Confidenciou:
─ Um dos sequestradores é meu
amigo.
Levei um choque. E não era para menos.
Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sob as patas dianteiras
ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca.
Olhei para minha mulher que deixou escapar um:
─ Meu Deus!
─ Vocês sabem de que falo, não? –
perguntou, grave.
Se Ramalho olhasse para baixo veria a
cadela segurando a peça entre os dentes certamente à espera de autorização para
iniciar a ceia. Erguei-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria
de pé. Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e
começou a acariciar-Ihe a cabeça. A centímetros da coxa esquerda do bípede
assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde estava o seu
jantar; eu teria de me vestir; descer à garagem, toda lotada naquele horário,
tirar o carro da vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro
frango.
─ Não quer saber qual é o amigo nosso
que está envolvido?
Puxei um pufe para bem perto do
Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos probabilidade de focar
Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
─ Claro que quero.
Ramalho recuou na poltrona, ficando na
mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
Olhei para o teto.
─ Aquilo não é um inseto? –
apontei.
Ramalho e ela olharam para cima. E a
dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
─ É apenas uma mancha – ele observou.
─ Detesto insetos andando pela
casa.
O expediente deu resultado. Minha
mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor. Ouvi o cão
rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado,
em frente ao living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
─ Gosto desse terraço – disse
Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
Num
salto, apaguei a luz.
─ Ele fica mais bonito no escuro,
observe.
Apesar da escuridão, vi a cachorra
escondendo-se entre as floreiras.
─ Vamos ao frango – ele decidiu. –
O cheirinho tomou conta do apartamento.
─ Primeiro sirvo um uísque.
Ouvimos ganidos que assustaram o
Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
─ A cachorra deve ter se
machucado.
Agarrei-lhe o braço.
─ Tome o uísque. Então um dos
sequestradores é nosso amigo?
Minha mulher apareceu afinal com um
sorriso. Para a cozinha!
Ramalho sentou-se diante do frango
desossado. Só para ele!
─ O Rei do Frango Assado está com tudo –
disse Ramalho no final. – Este estava demais! – E generoso:
─ Deixei um pedaço de peito pra
cadela. Será que ela gosta?
─ Sei lá!
Marcos Rey. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo, Ática, 1996.
p. 25-28.
Fonte: Linguagem Nova.
Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São
Paulo. 2003. p. 150-152.
Entendendo a crônica:
01
– Quem é Ramalho e por que suas visitas costumavam incomodar o narrador e sua
esposa?
Ramalho é um
amigo do Rio de Janeiro que sempre passava pelo apartamento do narrador em São
Paulo. Ele causava incômodo porque tinha o hábito de chegar muito tarde da
noite e faminto, justamente no horário em que o casal já estava se preparando
para dormir.
02
– O que Ramalho levou para o apartamento naquela noite e qual revelação séria
ele pretendia fazer?
Ramalho levou um
frango assado comprado no estabelecimento "O Rei do Frango Assado".
Além disso, ele pretendia compartilhar notícias sombrias e confidenciais sobre
tempos políticos tensos, revelando que um dos sequestradores de um caso recente
era amigo deles.
03
– Quem é Virgínia Woolf na história e que situação cômica e tensa ela provoca?
Virgínia Woolf é
a cadela dálmata do casal. A situação tensa começa quando ela consegue pegar o
frango assado inteiro que estava na cozinha e entra no living, postando-se elegantemente
ao lado de Ramalho com a ave inteira na boca, sem que o visitante perceba.
04
– Por que o narrador ficou tão desesperado para esconder o roubo do frango? O
que ele queria evitar?
O narrador queria
evitar o constrangimento e o transtorno logístico de ter que sair de madrugada
para comprar outro jantar. Ele pensou que, se Ramalho descobrisse o roubo, ele
seria obrigado a se vestir, descer até a garagem lotada, manobrar o carro e
rodar pela cidade à procura de outro frango em plena madrugada.
05
– Quais foram os três truques ou estratégias que o narrador utilizou para
impedir que Ramalho visse a dálmata com o frango?
O narrador
utilizou as seguintes estratégias visuais:
Ficou de pé: Levantou-se
repentinamente para forçar o visitante a olhar para cima.
Mudou a mobília: Puxou um
pufe para perto de Ramalho para diminuir seu ângulo de visão periférica.
Inventou uma distração:
Apontou para o teto fingindo ter visto um inseto, fazendo com que todos
olhassem para o alto.
06
– Como o narrador agiu quando Ramalho decidiu ir até o terraço e, logo depois,
quando a cadela começou a ganir no corredor?
Quando Ramalho
caminhou em direção ao terraço (onde a cadela se escondia com a presa), o
narrador deu um salto e apagou a luz, alegando que o terraço ficava "mais
bonito no escuro". Mais tarde, quando a cadela fujona faturou alguns
ganidos no corredor, o narrador agarrou o braço de Ramalho, entregou-lhe um
copo de uísque e mudou de assunto rapidamente, perguntando novamente sobre a
identidade do sequestrador.
07
– Como a situação foi resolvida pela esposa do narrador e qual é a ironia no
final da crônica?
Enquanto o
narrador distraía o amigo, a esposa conseguiu recuperar o frango (ou o que
sobrou dele), preparou-o na cozinha e o serviu desossado para Ramalho. A grande
ironia final é que Ramalho adora a refeição, elogia a qualidade do local onde
comprou e, num gesto de generosidade, deixa um pedaço do peito para a cadela —
sem ter a menor ideia de que ela já havia "temperado" e passado os
dentes pelo frango inteiro minutos antes.
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