POEMA: A SERENATA
Adélia Prado
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
(Adélia Prado – Poesia Reunida)
https://contobrasileiro.com.br/a-serenata-poema-de-adelia-prado/
01. O texto cuida da relação amorosa, de uma
perspectiva feminina. O eu lírico num momento presente, e considerando
tão-somente o aspecto temporal, em que versos demonstra?
“Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.”
02. O eu lírico,
se caracteriza como alguém “no começo do seu desespero” e fala da dificuldade
de chegar ao balcão “sem juventude”, para viver a relação amorosa que antevê.
Para caracterizar o seu processo de envelhecimento, utiliza-se o eu lírico do
apelo à adjetivação metafórica, como acontece em “cabelos
entristecidos”. Destaque do texto uma outra expressão em que se utiliza recurso
literário da mesma natureza.
“A pele assaltada de indecisão”.
03. As
palavras doida e santa situam-se em plano
antitético, no texto. Presentes nos dois últimos versos, esclareça o sentido
que se pode atribuir a esses dois vocábulos.
Santa – Mulher de grandes virtudes,
de bondade invulgar.
Doida – Mulher insensata, sem juízo.
04. Que
abordagem a representação feminina no poema nos retrata sobre a mulher daquela
época?
Vivia sob os moldes e o sistema da
sociedade patriarcal, a qual concebia o matrimônio como fator essencial e indispensável
à vida das mulheres.
05. Nos
primeiros versos:
“Uma
noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.”, o que a mulher está pensando?
Os primeiros versos
do poema retratam o pensamento de uma mulher que aguarda por uma serenata em
sua janela. O aguardo por essa serenata é bastante simbólico, é a própria
espera de um namorado, o ato de cantar/tocar é um modo de chamar alguém à janela
e a intenção desse chamamento não significa apenas que a mulher deve se
debruçar na janela para ouvir o canto de seu enamorado, mas também significa o
chamamento para um relacionamento, já que as serenatas eram feitas, geralmente,
quando se tinha a pretensão de conquistar alguém.
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