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Crônica: Ao perdedor, as latinhas
Rogério Menezes
Nem a mais
visionária das mães-dinás poderia imaginar: o ofício de catador de latinhas
tornou-se uma profissão como outra qualquer. Com os ecos da crise econômica
se abatendo sobre todos nós, o zé-povinho precisa usar a criatividade para
continuar vivo – ou, pelo menos, emitindo alguns, ainda que mínimos, sinais
vitais. Resultado: à Lavoisier, o lixo metálico produzido pelas classes A, B,
C e D ajuda a comprar brioches para alimentar a classe Z, aquele lumpesinato
que cada vez aumenta mais de consistência e volume nas grandes e pequenas
cidades do país. Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSqXFP4n-fQdQ9nYpJLY6FOqfobj4yYlf3GGvwtXfrodt8HfA4-9c6vk7tsfSSIA1ZHjR0kNeQO9H_N0CdxoMXWe8RKetBNFZnncc-IGy5EpZGQl6HzEhdzznHoXINlI-W9dz_2ivDmmxDtFR6DojW8-w4HA3Diir0n3dDanGl0mBOuq_P9WFP6fqC1Dk/s320/04LW486.jpg
Carnaval é
festa esperada com ansiedade por essa nova categoria de profissionais que os
IBGEs da vida ainda não catalogaram. Nada mais justo: nesse período, de alto
consumo de produtos armazenados em invólucros de alumínio, tiram o pé da
lama. E o que se viu por aí, pelas ruas do país, foi um aguerrido exército,
sempre à espreita para catar aquela latinha que, displicentemente, alguém
acabou de jogar no chão.
Não existe
limitação de idade para o exercício da profissão de catador de latinhas.
Também não exige formação específica, nem o ensino fundamental completo, nem
rudimento de alfabetização. O básico para se tornar exímio profissional do
setor é aquela condição humana que nos leva a fazer seja lá que diabo for
para não virar comida de abutres.
Salvador, no
Carnaval, uma das maiores usinas de geração de latinhas de cerveja e
refrigerantes do planeta, é a Meca, o lugar ideal, a cidade dos sonhos de
todos esses valentes profissionais que vivem das sobras do lixo ocidental: a
Las Vegas deles.
Os catadores
de latinhas podem ser família completa: pai, mãe e muitos filhos, todos
imersos na faina diária de coletar o maior número possível de peças de
alumínio para revenda. Ao final de suada semana de trabalho, podem faturar
talvez R$5, talvez R$10, o que pode parecer pouco para gente como a gente,
que está na base da pirâmide invertida, também conhecida como elite. Para
eles, não. Serve ao menos para adiar a morte por fome, bala ou vício.
No Carnaval
de Salvador, o espaço nobre para os catadores de latinhas é aquele, virtual,
criado entre a passagem de um bloco de trio e outro. Em ritmo de emboscada,
espremidos entre as paredes dos prédios e a multidão que saracoteia ao redor,
mergulham sem medo no lixo alumínico recém-jogado e enchem muitos
sacos com as cobiçadas peças.
Ser catador
de latinhas pode parecer fácil, mas não é. O.k., não precisa de exame
vestibular. Muito menos daquela série de documentos que se costuma exigir
quando somos admitidos em algum emprego. Mas o exercício dessa profissão
requer rapidez, agilidade, disposição física, fôlego e certo estoicismo.
Afinal de contas, não deve ser muito reconfortante para o ego viver das
sobras do lixo produzido por outros homens, aparentemente tão filhos de Deus
quanto.
De qualquer
forma, não será de todo absurdo se, da próxima vez que perguntarmos a alguma
criança da periferia das metrópoles o que gostaria de ser quando crescer,
ouvirmos: “Quero ser catador de latinhas, tiô!”
(Rogério
Menezes, Revista Época de 19 de março de 2001)
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Interpretação de texto
01. Assinale a
ÚNICA alternativa que NÃO corresponde às ideias apresentadas
pelo autor.
a. As pessoas são
levadas a catar latinhas para não morrer de fome.
b. A luta pela
sobrevivência nas cidades fez surgir uma nova profissão: catador de latinhas.
c. Catar
latinhas é uma profissão rendosa, pois
permite aos seus profissionais comprar
brioches.
d. É humilhante
precisar catar latinhas para sobreviver.
02. Neste texto,
o autor critica
a.
as pessoas que jogam
latinhas de cervejas ou
refrigerantes no chão, sujando as cidades.
b. a
desigualdade social, fazendo com que algumas pessoas tenham que viver do lixo
produzido por outras.
c. o alto consumo de
bebidas durante o Carnaval, gerando um aumento excessivo de lixo metálico.
d. o fato de o
zé-povinho catar latas na rua, atrapalhando a imagem do país no exterior.
03. Assinale a
ÚNICA alternativa em que a palavra ou
expressão em destaque NÃO está adequadamente
interpretada de acordo com seu sentido no texto.
a.
“...pai, mãe e
muitos filhos, todos imersos na faina
diária de coletar o maior número possível de peças
de alumínio...”
(linhas
19-20) = trabalho
b. “Nem a
mais visionária das mães-dinás poderia
imaginar: o ofício de catador de latinhas tornou-se
uma profissão...”
(linhas 1-2) = videntes
c. “Resultado: à
Lavoisier, o lixo metálico produzido pelas classes A, B, C e D ajuda a
comprar brioches para alimentar a classe Z...” (linhas 4-5) = nada se perde,
mas se transforma
d. “...não
será de todo absurdo se, da próxima vez que perguntarmos a alguma criança
da periferia das metrópoles...” (linhas 33-34) = vizinhança
04. Assinale a
ÚNICA alternativa em que as palavras ou
expressões NÃO denunciam as condições sub-humanas dos
catadores de latinhas:
a. profissionais que
vivem das sobras do lixo ocidental.
b. categoria de
profissionais que os IBGEs da vida
ainda não catalogaram.
c. classe Z.
d. aguerrido
exército.
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