Conto: O passarinho engaiolado
Rubem Alves
Dentro de uma linda gaiola vivia um
passarinho. De sua vida o mínimo que se poderia dizer era que era segura e
tranquila, como seguras e tranquilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos
funcionários públicos.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEib2GPz4X23i4tjkMSAh9C8xy1_Y9L4orkG8JNjraOxyUZ2LWwp-tk5V61_o35T2rU_kGJvsHGUldH3yXdzba2m_372uZD5uKuNsdKvcyPL7qcaO2y_wrpCHhpD6bxHsB1Sk9SeqUCCf2mYv4b94A1kBlkKb4HQN551Tz6wAbh_euIjbjJvzoufbPsXKKU/s1600/PASSARINHO.jpg Era monótona, é verdade. Mas a
monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro
dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os
sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas.
Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava
ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e
cantar. O seu canto era o aluguel que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança
da gaiola.
Bem se lembrava do dia em que, enganado
pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa
apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da
Ponte dos Suspiros.
Há
aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas
de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus
filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de
abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a
existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a
alma voa… Ó filhos, voemos pelo azul!… Comei!
É certo que a mãe do passarinho nunca
lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações
foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer.
Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em
paz!
Do seu pequeno espaço ele olhava os
outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando
mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos
seus voos tranquilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor;
as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranquilizavam.
Ele queria ser como os outros pássaros, livres… Ah! Se aquela maldita porta se
abrisse.
Pois não é que, para surpresa sua, um
dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus
sonhos. Estava livre, livre, livre!
Saiu. Voou para o galho mais próximo.
Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava
acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no
galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade
de ir até lá. Perguntou-se se suas asas aguentariam. Elas não estavam
acostumadas.
O melhor seria não abusar, logo no
primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho
passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o
mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.
– Ei, você! – era uma passarinha. –
Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira,
carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar
atenção no gato, que anda por lá…
Só o nome gato lhe deu um arrepio.
Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou
outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com
ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir?
Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava
dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem
proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não
esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia
seguinte.
Tremeu de medo. Nunca imaginara que a
liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm
coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta
ainda estava aberta.
Neste momento chegou o dono. Vendo a
porta aberta disse:
– Passarinho bobo. Não viu que a porta
estava aberta. Deve estar meio cego. Pois passarinho de verdade não fica em
gaiola. Gosta mesmo é de voar…
Rubem Alves. Teologia do cotidiano. São Paulo, Olho d’Água, 1994.
Fonte: Língua
portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD.
São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 223-225.
Entendendo o conto:
01
– No início do texto, o narrador compara a vida segura e tranquila do
passarinho com a vida de "pessoas bem casadas" e de
"funcionários públicos", mencionando que a monotonia é o preço que se
paga pela segurança. Explique, com base no conto, qual é a crítica social e
psicológica que Rubem Alves constrói através dessa metáfora.
O autor utiliza a
gaiola como uma metáfora para as convenções sociais e escolhas de vida que
priorizam a estabilidade em detrimento da liberdade e da autorrealização. A
crítica social e psicológica reside no fato de que muitas pessoas buscam
empregos estáveis ou relacionamentos previsíveis apenas pela segurança que eles
oferecem. No entanto, o preço pago por essa escolha é a monotonia, o
esmagamento dos sonhos ("por não haver espaço para baterem suas
asas") e a criação de um "vazio na alma", mostrando que o
excesso de segurança pode aprisionar o potencial humano.
02
– Quando o passarinho finalmente encontra a porta da gaiola aberta, ele
experimenta uma série de sensações físicas e emocionais que o paralisam.
Identifique pelo menos dois desses obstáculos enfrentados por ele no mundo
exterior e explique por que ele não conseguiu superá-los.
Ao sair da
gaiola, o passarinho enfrenta o medo da altura (tontura), a falta de preparo
físico (asas desacostumadas), a dificuldade de conseguir o próprio alimento (o
inseto que fugiu) e o medo de predadores e perigos (o gato, os gambás, a noite
e os meninos com estilingues). Ele não consegue superar esses obstáculos porque
a vida inteira na gaiola o privou da autonomia e do aprendizado necessários
para sobreviver por conta própria. A falta de hábito e, fundamentalmente, a falta
de coragem diante do desconhecido o fizeram recuar.
03
– O narrador faz um contraste entre o poema de Guerra Junqueiro (onde a mãe
prefere envenenar os filhos a vê-los presos) e os conselhos dados pela mãe do
passarinho do conto. Como as palavras da mãe influenciaram o destino do
protagonista?
A mãe do
passarinho representa a mentalidade que prioriza a sobrevivência e o
conformismo. Ao dizer que as orações dela foram respondidas porque ele estava
seguro e que ele deveria "se acostumar" e "cantar bonito",
ela transmitiu ao filho uma visão de mundo onde o confinamento é um privilégio,
não uma punição. Esses conselhos maternos moldaram a psicologia do passarinho,
tornando-o dependente e temeroso, o que acabou sufocando seu instinto natural
de liberdade.
04
– Próximo ao final do conto, o narrador afirma: "Nunca imaginara que a
liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm
coragem." Explique o significado dessa afirmação dentro do contexto da
narrativa.
A afirmação mostra que a
liberdade não significa apenas a ausência de grades, mas sim a capacidade de
assumir responsabilidades, enfrentar riscos e lidar com a imprevisibilidade da
vida. Para o passarinho, a gaiola — embora limitadora — resolvia todos os seus
problemas básicos (comida, proteção, abrigo). Estar livre exigia dele uma
coragem que ele não havia desenvolvido: a coragem de errar, de sentir fome e de
se proteger sozinho. Portanto, a liberdade é "complicada" porque
exige autonomia e bravura diante dos perigos do mundo real.
05
– No desfecho do conto, o dono da gaiola retorna, vê o pássaro lá dentro e o
chama de "bobo" e "meio cego", afirmando que
"passarinho de verdade não fica em gaiola". Analise a ironia contida
na fala do dono e a percepção que ele tem do próprio animal.
A ironia reside no fato de
que o próprio dono é quem mantém o pássaro aprisionado, mas, ao ver que ele não
fugiu, julga o animal por não agir como um "passarinho de verdade". O
dono não percebe que o tempo de confinamento que ele mesmo impôs tirou a
identidade e a natureza selvagem do pássaro. Para o homem, o pássaro é
"bobo" ou "cego", quando na verdade o animal foi
psicologicamente domesticado e quebrado pelo próprio sistema da gaiola,
tornando-se incapaz de reconhecer a oportunidade de libertação.
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