Conto: Bom tempo, sem tempo
Carlos Drummond de Andrade
Não chovia, meses a fio. Ou chovia demais. As plantas secavam, os animais morriam, os moradores emigravam. As plantas submergiam, os animais morriam, as pessoas não tinham tempo de emigrar. Assim era a vida naquele lugar privilegiado, onde medrava tudo para todos, havendo bom tempo. Mas não havia bom tempo. Havia o exagero dos elementos.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjAguKATKgc845IzYKoi1Qi1HOnnAh6wAnRGTP6FszVRV4gf1XJ5ZOq7UyuKQI1BJPpwiXmpFOVyS7IPTIT-SRfBHvRImwVA_Nx-doCUS6H2WNFe4wyYl1lO2xchVxyI7mgoBR5J0RoXTz0uIkYiBYdj75r-D8qy3UDoaR0BMW-ob1HGvbDlyazwgGudPE/s320/images.jpg O
mágico chegou para reorganizar a vida, e mandou que as chuvas cessassem.
Cessaram. Ordenou que a seca findasse. Findou. Sobreveio um tempo temperado,
ameno, bom para tudo, e os moradores estranharam. Assim também não é possível,
diziam. Podemos fazer tantas coisas boas ao mesmo tempo que não há tempo para
fazê-las. Antes, quando estiava ou chovia um pouco - isto é, no intervalo das
grandes enchentes ou das grandes secas -, a gente aproveitava para fazer alguma
coisa. Se o sol abrasava, podíamos fugir. Se a água vinha em catadupa, os que
escapavam tinham o que contar. Quem voltasse do êxodo vinha de alma nova. Quem
sobrevivesse à enchente era proclamado herói. Mas agora, tudo normal, como
aproveitar tantas condições estupendas, se não temos capacidade para isto?
Queriam
linchar o mágico, mas ele fugiu a toda.
Entendendo o conto:
01 – De acordo com o texto, qual o significado
das palavras abaixo:
-- Catadupa – cachoeira.
-- Êxodo – emigração de todo um povo ou saída de pessoas em massa.
02 – O fato que motiva a história é:
(A) a chegada do mágico.
(B) a falta de chuva.
(C) a chuva muito
frequente.
(D) o mágico fugir correndo.
03 – No primeiro parágrafo, o narrador afirma
que aquele era um "lugar privilegiado", mas logo em seguida se
contradiz. Que figura de linguagem predomina nessa descrição e qual é a
verdadeira situação do lugar?
Predomina a ironia. O narrador chama o lugar de "privilegiado" e diz que lá "medrava tudo para todos, havendo bom tempo", mas imediatamente revela a dura realidade: nunca havia bom tempo, apenas o "exagero dos elementos" (ou seca extrema ou chuva destrutiva).
04 – Por que os moradores estranharam e
rejeitaram o "tempo temperado e ameno" trazido pelo mágico?
Porque a normalidade e a abundância de condições favoráveis paralisaram os moradores. Eles estavam tão acostumados a viver no limite da sobrevivência (fugindo da seca ou resistindo às enchentes) que não sabiam como agir ou o que fazer quando tudo estava perfeito. A falta de dificuldades tirou deles o senso de propósito e de heroísmo.
05 – De acordo com o desabafo dos moradores,
quais eram as "vantagens" que eles viam nos tempos de tragédia
climática (seca e enchente)?
Eles viam vantagens emocionais e sociais: a seca permitia a experiência do êxodo, fazendo com que as pessoas voltassem "de alma nova"; já as enchentes davam a oportunidade de os sobreviventes serem "proclamados heróis" e terem histórias impactantes para contar.
06 – O que o desfecho do conto — com os
moradores querendo linchar o mágico — sugere sobre a natureza humana?
Sugere que o ser humano muitas vezes se acomoda ao sofrimento
e à rotina do caos, desenvolvendo uma incapacidade de lidar com a perfeição,
com a paz ou com a facilidade. A crônica de Drummond satiriza a tendência
humana de reclamar de qualquer situação, mostrando que nem mesmo a solução
exata para os problemas (o clima perfeito) foi capaz de satisfazer aquela
população.
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