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terça-feira, 30 de junho de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: A FICÇÃO COMO LUGAR DA FANTASIA - LUIGI PIRANDELLO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: A ficção como lugar da fantasia

           Luigi Pirandello

 

        O autor italiano Luigi Pirandello, ao final de seu romance “O falecido Mattia Pascal” (que é, a propósito, meu livro favorito) tomou a liberdade de inserir em 1921 (na terceira edição da obra) um apêndice ao qual deu o nome de “Sobre os escrúpulos da fantasia”.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEguK3ML7B9anELBfe6n6PwNjYmVkBu-alsFsvJ4qGnks7YuxMt8g4ottJYZPzhKYFUgDETIsSryHgA0C0p8ZOvwgTTrjLHluEScoGZ2R_qjPuP29ft6Lzn7H4p5TsYD2iUzVy-A3iy8G7kfvqWtmb5dpzR5u5SK2-2gGpySdiBo1GmMOXcAE1FXPPXnJAU/s320/face-622904_1280.jpg


        Pirandello, perspicaz em trazer aos leitores histórias para surpreendê-los quanto a intrincada psique humana, justifica seu estilo ao mesmo tempo em que aponta e responde aos excessos críticos dirigidos às obras de arte que escapam a um retrato da vida chamada “normal”. Ao dizer que os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros, ao contrário dos da arte que, para parecem verdadeiros, precisam ser verossímeis e sendo verossímeis, deixam de ser absurdos, o autor marca a autonomia que, arte e vida tem (ou devem ter) entre si. Ou seja: não se pode julgar a arte pela vida. Contudo, será mesmo que a arte e a vida conseguem efetivamente ser percebidas sob critérios distintos? Não seriam as duras críticas feitas à obra de Pirandello um indicativo de que algo de inquietante para o humano emerge de suas histórias, numa arte que faz questão à vida?

        O autor nos alerta que somos acostumados a reconhecer o comportamento humano por meio de padrões – estamos habituados a lidar com o humano na condição de homem e não de sujeito; trabalhamos com a percepção do “homem médio”. A arte em geral (embora nesse caso falemos especificamente em literatura) lidará com cada um desses sujeitos naquilo que eles tem de mais idiossincrático. A literatura rompe com padrões e expectativas, portanto.

        Contudo, creio que a vida é quem primeiro realiza essa quebra, embora nós não estejamos nunca preparados para lidar com o desconhecido e imprevisível que é o nosso semelhante. A noção de outro nos perturba desde logo pois supõe um deslocamento da nossa própria identidade. Daí nossa dificuldade (ou impossibilidade) em cumprir, por exemplo, o mandamento “amar ao próximo como a ti mesmo”. A psicanalista Maria Rita Kehl fala a esse respeito ao afirmar que “amar (ao estranho, diferente de mim) como a mim implica a anulação de toda a alteridade. Anulação bastante tentadora: ao fazer do próximo um idêntico, suprimindo nele tudo que é estranho ao eu, o sujeito tenta também se livrar do outro que o habita”.

        A inquietação provocada pelo absurdo quando este emana do campo da arte talvez incomode tanto porque nos aponte para o indomável que é o outro, capaz do que, não sabemos. “Se eu sou este e ele se assemelha tanto a mim, mas não é eu, quem é ele? Diante dele, quem sou eu? Só depois de nos desestabilizar dessa maneira – se aguentarmos o tranco – é que o próximo pode se revelar fonte de aprendizado, de experiências compartilhadas, de novas identificações”.

        A arte tem o poder de nos apresentar um grande número de diferentes – e nos mostra que não é possível compreendê-los, mas é preciso fazer com eles uma interlocução. Até onde estamos dispostos a isso? Não seria o absurdo na arte uma denúncia à nossa incapacidade de diálogo com o absurdamente humano, sempre inapreensível?

        É interessante observar que pela valorização do particular a arte literária tem grande impacto no coletivo – um leitor aprende pouco a pouco a se deparar com os mais variados tipos humanos e a tolerar, também pouco a pouco, tê-los todos dentro de si. Fernando Pessoa talvez tenha sido o escritor que mais levou a efeito essa ânsia, a partir da criação de vários heterônimos que lhe permitiram sentir e olhar o mundo a despeito de si. Não seria o aceite aos absurdos da arte uma via possível de tolerância para os absurdos da vida?

        Parece-nos que é no desapego ao critério geral de “humanidade” e pela empatia com os mais variados tipos humanos que podemos desenvolver autocrítica – é preciso construir novas maneiras de significar a relação do homem com seu semelhante. Para Pirandello, a propósito, a humanidade não pode mesmo existir em abstrato – existe, sim, dentro da variedade de homens – os quais são capazes de cometer absurdos que não necessitam parecer verossímeis porque são verdadeiros.

        As particularidades de cada sujeito, acredito, falam de seus sofrimentos e inquietações, os quais segundo Pirandello são situações da vida que incentivam o raciocinar-se a felicidade é gozo pleno, é nas situações mais improváveis e mesmo inverossímeis que podemos enxergar mais a fundo o que é da condição humana, ainda que tais absurdos possam escapar àquilo que à primeira vista pensamos nos aproximar do conceito de "universalmente humano".

        O “anormal” da vida cotidiana e das personagens de Pirandello parece não ser mais do que o estouro de um imenso real – aquele que, quando enxergado, avassala. Os personagens de um livro de literatura vestem máscaras, as alternam e a máscara por vezes pode rasgar-se e ser pisoteada diante do leitor. Nós, sempre investidos de máscaras temos, me parece, dificuldade em vê-las arrancadas em literatura, na ficção que surge como factível.

        Diz Pirandello: "É a máscara para uma representação, o jogo dos papéis, aquilo que desejamos ou devemos ser; aquilo que parecemos ser aos outros, enquanto o que somos, até certo ponto, nem nós mesmos sabemos. É a metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos, a construção frequentemente complexa que fazemos de nós mesmos e que os outros fazem de nós”

        Num mundo que nos impõe o padronizado, o óbvio e a aparência, o quanto podemos suportar personagens viscerais?

        A provocação de Pirandello me faz pensar que o absurdo mais aceito na vida (e menos na arte) não é o inverossímil, mas a capacidade humana de sustentar por tanto a máscara e ser marionete de si mesmo – não seria a arte uma ferramenta de denúncia de toda a potencialidade da vida, que nos desconforta tanto justamente por nos lembrar que o desejo transcende aquilo que é nomeável e por vezes, representável?

        A vida prescinde de qualquer verossimilhança. Por que a nossa dificuldade em aceitar na arte o absurdo? Uma perspectiva de leitura a partir do ensaio "Sobre os escrúpulos da fantasia".

        Acredito que sim, afinal, por ironia da arte ou da vida, o romance Falecido Mattia Pascal, considerado por muitos à época de sua publicação como uma história sem a necessária pregnância com a realidade, encontrou alguns anos depois – nas folhas de um famoso jornal – a sua confirmação em uma notícia verdadeira. A arte pode, então, preceder a vida? Já disse Pirandello: de quais inverossimilhanças reais a vida é capaz, até nos romances onde sem querer ela é cópia da arte?

        O título do meu texto afirma a ficção como lugar da fantasia – penso que a arte, a qual surge como faculdade imaginativa, como o lugar do que não tem ligação estreita com a realidade, também cumpre a função de nos ligar à fantasia em sentido para além da inventividade. Quando destaco a ficção como lugar da fantasia, me refiro à fantasia segundo seu lugar em psicanálise – o lugar do desejo.

        A história de “O falecido Mattia Pascal” me provoca justamente na medida em que questiona até que ponto podemos usar diferentes máscaras e até que ponto elas podem confundir-se com nós mesmos.

Referências: PIRANDELLO, Luigi. O falecido Mattia Pascal; tradução de Rômulo Antônio Giovelli e Francisco Degani. São Paulo: Ed. Abril, 2010.

KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

http://obviousmag.org/fotoverbese/2015/03/a-ficcao-como-lugar-da-fantasia-luigi-pirandello.html.

 

Entendendo o artigo:

01 – Que importante distinção Pirandello faz entre os "absurdos da vida" e os "absurdos da arte" no seu ensaio "Sobre os escrúpulos da fantasia"?

      Pirandello afirma que os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis (semelhantes à verdade) porque eles já são verdadeiros pelo simples fato de acontecerem. Por outro lado, os absurdos da arte, para que o público o aceite como verdadeiros, precisam ser verossímeis. Ao se tornarem verossímeis para a audiência, eles deixam de parecer absurdos, marcando assim a autonomia entre a arte e a vida.

02 – De acordo com o texto, de que maneira a literatura rompe com os padrões e expectativas da sociedade?

      O texto explica que a sociedade está acostumada a lidar com o "homem médio" e a reconhecer o comportamento humano através de padrões padronizados (a condição de homem). A literatura rompe com isso porque ela lida com o sujeito naquilo que ele tem de mais idiossincrático, ou seja, em suas características mais particulares, únicas e profundas.

03 – Como a psicanalista Maria Rita Kehl explica a nossa dificuldade em cumprir o mandamento "amar ao próximo como a ti mesmo"?

      Ela explica que amar o outro (o estranho, o diferente) como a si mesmo implica anular toda a alteridade (a diferença do outro). O sujeito tenta transformar o próximo em alguém idêntico a ele, suprimindo o que há de diferente, como uma tentativa tentadora de se livrar também do "outro" (das próprias estranhezas e inconsciente) que habita em si mesmo.

04 – Qual é o impacto coletivo que a arte literária provoca ao valorizar o "particular" de cada personagem?

      O impacto é o desenvolvimento da tolerância e da autocrítica. Ao entrar em contato com a literatura, o leitor aprende pouco a pouco a se deparar com os mais variados tipos humanos e a tolerar a ideia de que possui um pouco de todos esses tipos dentro de si mesmo. O texto cita Fernando Pessoa e seus heterônimos como o ápice dessa experiência.

05 – O que significa o conceito de "máscara" na visão de Pirandello citada no artigo?

      A máscara representa o jogo de papéis na sociedade: aquilo que desejamos ou devemos ser, e a imagem que parecemos ter para os outros. Ela é definida pelo autor como uma "metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos", uma construção complexa que fazemos e que fazem de nós, escondendo o que realmente somos (algo que muitas vezes nem nós mesmos sabemos).

06 – Qual é a ironia real envolvendo o romance "O falecido Mattia Pascal" que o autor do artigo utiliza para fechar seu argumento?

      A ironia é que, quando o romance foi publicado, muitos críticos o atacaram dizendo que a história era absurda e não tinha ligação com a realidade (faltava-lhe verossimilhança). Contudo, anos mais tarde, as páginas de um jornal publicaram uma notícia verdadeira que confirmava exatamente os mesmos fatos da história fictícia de Pirandello, provando que a arte pode preceder a vida.

07 – O que o autor do artigo quer dizer quando afirma que a ficção é o "lugar da fantasia" no sentido psicanalítico?

      Ele esclarece que não está usando a palavra "fantasia" apenas como sinônimo de inventividade ou imaginação pura. Ele se refere à fantasia em seu sentido psicanalítico: o lugar do desejo. A ficção serve como esse espaço onde os desejos humanos transcendem o que é nomeável e revelam as profundezas e os conflitos da nossa psique.

 

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