Romance:
Os Sertões Trecho II – Fragmento
Euclides da Cunha
Os sintomas do flagelo despontam, lhe
[para o sertanejo], então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como
sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra.
Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros
prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as
caatingas, aqui, ali, por toda a parte, moqueadas de tufos pardos de árvores
marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma
combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o
nível das cacimbas... [...]
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh4N5rtgXvyCFu8Qjxw5HAJTDLiBHYJnoGoCmavTm8Lq8eEQSVkeoxx2gLYTrTtFPUDeyIaph_Krb5WUVykh43jvzk2Pb9ssxyiIxatzoqLVuJc3JsMEHTrEnjIUx5hEuWBTFSNNokeIXgcAxyHktQPmeBbjRjT-eAXrXlfDtbwXzL4UFErIR-JxMCL5U/s320/images.jpg Por fim tudo se esgota e a situação não
muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não
transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante,
pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das
caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios
inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se
afinal. [...]
Insulado deste modo no país que o não
conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na
organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à
terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se
afeiçoar à situação mais alta.[...]
Euclides da Cunha. Os sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1995. p. 148, 153-154.
Fonte: Língua Portuguesa
Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C.
Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 20.
Entendendo o romance:
01 – De acordo com o texto,
qual o significado das palavras abaixo:
--
Transuda: transpira
--
Sezão: febre
cíclica
--
Delido: aniquilado,
destruído
--
Moqueadas: queimadas,
tostadas
--
Marcescentes: que murcham, secam
--
Greta-se: racha-se
--
Marizeiros: árvores nativas do Nordeste do Brasil, de ramos
espinhosos
--
Reverberando: repercutindo
--
Canícula: calor
muito forte
--
Assoberbado: dominado, humilhado
--
Reveses: Desgraças,
infortúnios
--
Situação mais alta: situação mais favorável.
02 – Como Euclides
da Cunha descreve a chegada da seca no primeiro parágrafo e qual metáfora
principal ele utiliza para retratar esse fenômeno natural?
O autor descreve
a seca como um processo inevitável, gradativo e encadeado, que se manifesta por
meio de sinais progressivos na paisagem (chuvas rápidas que evaporam, o chão
que se greta e as cacimbas que secam). Para retratar esse fenômeno, Euclides da
Cunha utiliza a metáfora de uma "moléstia cíclica" (uma doença da
própria Terra), comparando os sinais da seca aos sintomas de uma enfermidade
assustadora que se repete periodicamente, consumindo o meio ambiente.
03
– De que forma o meio ambiente (a caatinga) reflete o estado de escassez e o
calor extremo no trecho analisado? Destaque elementos do texto que comprovam
essa transformação.
A caatinga
reflete a aridez extrema ao se desidratar e mudar de aparência. O autor
comprova isso através de imagens visuais e sensoriais marcantes:
Vegetação: A mata ganha
tufos pardos de árvores murchas ("marcescentes"), que parecem
"cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas";
Sol e Vento: O Sol espalha
"os incêndios inextinguíveis da canícula" (calor extremo) no céu
claro, enquanto o vento "nordeste" sopra forte e contínuo, zunindo e
uivando entre os galhos secos da vegetação;
Ausência de água: O chão se
fenda ("greta-se"), o nível das águas subterrâneas cai e até a
própria flora para de sinalizar umidade (a casca dos marizeiros já não
transuda).
04
– Qual é o impacto psicológico e físico de todo esse cenário de privação sobre
o sertanejo, segundo o segundo parágrafo?
Diante do
esgotamento total dos recursos naturais e da completa falta de perspectivas de
chuva, o sertanejo chega ao seu limite de resistência. Sobrecarregado por
sucessivas adversidades ("assoberbado de reveses"), ele acaba se
curvando ("dobra-se afinal") perante a força implacável da natureza.
O texto evidencia que, apesar de sua força e rusticidade, o sertanejo é
momentaneamente vencido pelo rigor extremo do clima e pela impossibilidade de
sobrevivência naquelas condições.
05
– Explique a tese determinista do autor expressa no trecho: "...em luta
aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no
temperamento a sua rudeza extraordinária...".
Nesse trecho,
Euclides da Cunha aplica o determinismo meio-ambiental (conceito muito
influente no final do século XIX), segundo o qual o ambiente físico molda as
características biológicas e psicológicas do ser humano. O autor argumenta que
a convivência diária e a luta constante contra uma natureza hostil e agressiva
(a caatinga árida) forjaram no sertanejo um temperamento e um corpo igualmente
rústicos, severos e resistentes, "estampando" nele a própria dureza
do sertão.
06
– Aponte a denúncia social e política presente no início do último parágrafo
("Insulado deste modo no país que o não conhece...") e contextualize
sua importância.
A denúncia
consiste no isolamento e no desconhecimento do sertanejo por parte do restante
do Brasil (especialmente pelas elites e pelo poder público do Litoral).
Euclides da Cunha evidencia a existência de "dois Brasões": um
litoral urbanizado e voltado para a Europa, que ignora completamente a
realidade, as necessidades e a existência do povo do interior sertanejo. Essa
crítica é central em Os Sertões, pois mostra que o conflito de Canudos foi
alimentado pelo preconceito e pela incompreensão do Estado em relação àquela
população marginalizada.
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