Conto: O GRANDE MÁGICO – Fragmento
José J. Veiga
[...]
Finalmente o mágico chegou, e foi um
alvoroço. Quando soubemos que ele estava no Grande Hotel do Líbano, eu e uns
colegas corremos lá depois da escola e ficamos de guarda na porta, fazendo
aquela algazarra que menino faz quando forma bando. Incomodado com o barulho,
um rapaz veio lá de dentro e disse que, se queríamos ver o mágico, ele tinha
ido ao teatro providenciar a arrumação e só voltava para o jantar.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjnOyGZQMTNnrgRglDnZadLH0zvcxsEskc2IzhE8FFlhB4qfM2mwO97rq0_5Shi3ouD2dNyJ2sUx4A-34to4Xjfj3lP0pv59G4i3wvW96uHI3gjPAYG7mrQ0moUA_RX5S51CUyhfLLlO54yjeQhm7mCROy6mRscLeRd_VRDOuRy7_8yY1pn7GWOUF2u1os/s320/images.jpg Mesmo não acreditando muito – podia ser
esperteza para nos afastar da porta – resolvemos ir ao teatro.
Logo na entrada vimos um homem baixinho
meio gordo conversando com o gerente, e mais lá dentro na sala de espera umas
canastras enormes largadas de qualquer jeito.
Olhei para meus colegas, vi que o
desapontamento era geral. Não podia ser aquele o tão falado Grande Uzk. Não
tinha cara, nem corpo nem nada de grande mágico. Devia ser algum empregado,
secretário, servente; o mágico mesmo devia estar à frescata no hotel. Mas
quando ouvimos o gerente do teatro chamar o homenzinho de Sr. Uzk, não tivemos
outro jeito senão aceitarmos a realidade.
Que decepção! Onde estava o homem alto,
moço, de olhos chamejantes? Os cartazes não revelam a altura, mas com aqueles
olhos tinha que ser uma pessoa alta, pelo menos eu pensei. Mas olhando bem, e
comparando, podia ser. Os olhos tinham qualquer coisa que lembrava os do
cartaz. E a testa era a mesma.
A voz também não correspondia à de um
homem que olha o mundo com olhos de brasa e faz coisas obedecerem a sua
vontade. Como poderia aquela vozinha fina e tremida, mais própria de palhaço,
mandar sapo virar borboleta, água virar areia, esterco virar ouro, e ser
obedecida? Era como a gente preparar os olhos para ver um dinossauro e ver uma
lagartixa.
E para complementar a decepção, o homem
tinha uma mancha avermelhada de ferida ou sarna de um lado do rosto, tomando o
canto da boca e parte do queixo, de vez em quando ele tirava um lenço de bolso e
enxugava aquilo, parecia estar aguando.
E agora? O homem era aquele, não tinha
outro. É nisso que dá a gente acreditar em tudo o que ouve. Ele podia ser
mágico, mas de magiquinhas corriqueiras.
Saímos dali calados, não querendo dar o
braço a torcer. Para preencher o mutismo íamos chutando coisas miúdas que
encontrávamos, caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, pescoços e pernas
secas de urubus mortos durante a grande invasão deles e ainda espalhados por
toda parte.
Eu me desinteressei do Grande Uzk e
teria perdido o primeiro espetáculo se não fosse à insistência de uns colegas
que estavam combinando uma grande vaia para quando ele aparecesse no palco;
eles achavam que meu assovio fino e cortante era necessário. Só para atendê-los
fiz o sacrifício.
[...]
José J. Veiga. Sombras
de reis barbudos. 24. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
Fonte: Língua
Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São
Paulo, 2002. p. 180-181.
Entendendo o conto:
01 – De acordo com o texto,
qual o significado das palavras abaixo:
-- Canastra: cesta larga e baixa;
-- Chamejantes: em chamas, brilhantes;
-- Mutismo: mudos, calados.
02 – O fragmento é estruturado em torno do contraste
entre a expectativa idealizada pelos meninos e a realidade concreta que
encontram no teatro. Quais eram as características imaginadas do "Grande
Uzk" e como a aparência real do personagem desmistifica essa imagem?
Os meninos
esperavam encontrar uma figura imponente, condizente com a fama e a publicidade
dos cartazes: um homem alto, jovem, com voz firme e "olhos
chamejantes", capaz de impor sua vontade à natureza. A realidade, no
entanto, contrapõe essa ilusão: o "Grande Uzk" revela-se um homem
baixinho, gordo, de voz fina e tremida ("mais própria de palhaço") e
com uma ferida avermelhada no rosto. Essa disparidade quebra o encanto e gera
uma profunda decepção nos garotos.
03
– No quinto parágrafo, o narrador utiliza uma comparação expressiva ao refletir
sobre a voz e a presença do mágico: "Era como a gente preparar os olhos
para ver um dinossauro e ver uma lagartixa." Explique o efeito de sentido
dessa metáfora na caracterização do sentimento da personagem-narradora.
A metáfora
expressa a grandeza da decepção e o abismo entre o mito construído pela
imaginação e o indivíduo real. O "dinossauro" simboliza a figura
monumental, extraordinária e assustadora que se esperava do ilusionista,
enquanto a "lagartixa" representa o ser insignificante, frágil e
comum que ele de fato era. Essa imagem reforça o sentimento de ridículo e
frustração sentido pelo garoto diante da realidade.
04
– Após saírem do teatro, a decepção dos meninos é transmitida não apenas pelo
silêncio, mas também por suas ações físicas. Como o ato de "chutar coisas
miúdas" reflete o estado psicológico do grupo?
O ato reflexo e
agressivo de chutar pequenos objetos pelo caminho ("caixas de fósforos,
tampinhas de garrafas, pescoços e pernas secas de urubus") funciona como
um extravasamento físico da frustração, do tédio e do ressentimento. Impedidos
de manifestar verbalmente o orgulho ferido ou o desapontamento ("não
querendo dar o braço a torcer"), os meninos usam o silêncio e o comportamento
destrutivo como válvula de escape para lidar com o encanto desfeito.
05
– Mesmo em um relato sobre a decepção com uma atração móbile, o texto traz
elementos estranhos e sombrios característicos da obra de José J. Veiga, como a
menção a "pescoços e pernas secas de urubus mortos durante a grande
invasão deles". Qual é a função dessa referência no contexto da narrativa?
A menção casual à
"grande invasão de urubus" insere na narrativa cotidiana uma marca do
realismo fantástico/mágico, típico da ficção de José J. Veiga. Esse detalhe
bizarro constrói uma atmosfera levemente decadente, opressiva e insólita para a
cidade, sugerindo que o ambiente urbano carrega suas próprias marcas de
acontecimentos estranhos e perturbadores, ao mesmo tempo que acentua o tom
sombrio e desolado do passeio dos meninos após a desilusão.
06
– O narrador afirma que havia perdido o interesse pelo Grande Uzk, mas decide
ir ao primeiro espetáculo. O que o motiva a comparecer e o que essa atitude
revela sobre a dinâmica do grupo de garotos?
O narrador aceita ir ao espetáculo motivado pelo sentimento
de solidariedade do bando e pelo desejo de vingança coletiva. Seus colegas
estavam organizando uma grande vaia para protestar contra o "engano"
do mágico e precisavam do seu "assovio fino e cortante". A atitude
revela que, no grupo infantil, a cumplicidade e o alinhamento com a reação dos
pares sobrepõem-se ao desinteresse individual, transformando a decepção em uma
oportunidade de confronto comunitário e afirmação do grupo.
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