quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONTO: O GRANDE MÁGICO - FRAGMENTO - JOSÉ J. VEIGA - COM GABARITO

 Conto: O GRANDE MÁGICO – Fragmento

          José J. Veiga

        [...]

        Finalmente o mágico chegou, e foi um alvoroço. Quando soubemos que ele estava no Grande Hotel do Líbano, eu e uns colegas corremos lá depois da escola e ficamos de guarda na porta, fazendo aquela algazarra que menino faz quando forma bando. Incomodado com o barulho, um rapaz veio lá de dentro e disse que, se queríamos ver o mágico, ele tinha ido ao teatro providenciar a arrumação e só voltava para o jantar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjnOyGZQMTNnrgRglDnZadLH0zvcxsEskc2IzhE8FFlhB4qfM2mwO97rq0_5Shi3ouD2dNyJ2sUx4A-34to4Xjfj3lP0pv59G4i3wvW96uHI3gjPAYG7mrQ0moUA_RX5S51CUyhfLLlO54yjeQhm7mCROy6mRscLeRd_VRDOuRy7_8yY1pn7GWOUF2u1os/s320/images.jpg 


        Mesmo não acreditando muito – podia ser esperteza para nos afastar da porta – resolvemos ir ao teatro.

        Logo na entrada vimos um homem baixinho meio gordo conversando com o gerente, e mais lá dentro na sala de espera umas canastras enormes largadas de qualquer jeito.

        Olhei para meus colegas, vi que o desapontamento era geral. Não podia ser aquele o tão falado Grande Uzk. Não tinha cara, nem corpo nem nada de grande mágico. Devia ser algum empregado, secretário, servente; o mágico mesmo devia estar à frescata no hotel. Mas quando ouvimos o gerente do teatro chamar o homenzinho de Sr. Uzk, não tivemos outro jeito senão aceitarmos a realidade.

        Que decepção! Onde estava o homem alto, moço, de olhos chamejantes? Os cartazes não revelam a altura, mas com aqueles olhos tinha que ser uma pessoa alta, pelo menos eu pensei. Mas olhando bem, e comparando, podia ser. Os olhos tinham qualquer coisa que lembrava os do cartaz. E a testa era a mesma.

        A voz também não correspondia à de um homem que olha o mundo com olhos de brasa e faz coisas obedecerem a sua vontade. Como poderia aquela vozinha fina e tremida, mais própria de palhaço, mandar sapo virar borboleta, água virar areia, esterco virar ouro, e ser obedecida? Era como a gente preparar os olhos para ver um dinossauro e ver uma lagartixa.

        E para complementar a decepção, o homem tinha uma mancha avermelhada de ferida ou sarna de um lado do rosto, tomando o canto da boca e parte do queixo, de vez em quando ele tirava um lenço de bolso e enxugava aquilo, parecia estar aguando.

        E agora? O homem era aquele, não tinha outro. É nisso que dá a gente acreditar em tudo o que ouve. Ele podia ser mágico, mas de magiquinhas corriqueiras.

        Saímos dali calados, não querendo dar o braço a torcer. Para preencher o mutismo íamos chutando coisas miúdas que encontrávamos, caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, pescoços e pernas secas de urubus mortos durante a grande invasão deles e ainda espalhados por toda parte.

        Eu me desinteressei do Grande Uzk e teria perdido o primeiro espetáculo se não fosse à insistência de uns colegas que estavam combinando uma grande vaia para quando ele aparecesse no palco; eles achavam que meu assovio fino e cortante era necessário. Só para atendê-los fiz o sacrifício.

        [...]

José J. Veiga. Sombras de reis barbudos. 24. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 180-181.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Canastra: cesta larga e baixa;

-- Chamejantes: em chamas, brilhantes;

-- Mutismo: mudos, calados.

02 – O fragmento é estruturado em torno do contraste entre a expectativa idealizada pelos meninos e a realidade concreta que encontram no teatro. Quais eram as características imaginadas do "Grande Uzk" e como a aparência real do personagem desmistifica essa imagem?

      Os meninos esperavam encontrar uma figura imponente, condizente com a fama e a publicidade dos cartazes: um homem alto, jovem, com voz firme e "olhos chamejantes", capaz de impor sua vontade à natureza. A realidade, no entanto, contrapõe essa ilusão: o "Grande Uzk" revela-se um homem baixinho, gordo, de voz fina e tremida ("mais própria de palhaço") e com uma ferida avermelhada no rosto. Essa disparidade quebra o encanto e gera uma profunda decepção nos garotos.

03 – No quinto parágrafo, o narrador utiliza uma comparação expressiva ao refletir sobre a voz e a presença do mágico: "Era como a gente preparar os olhos para ver um dinossauro e ver uma lagartixa." Explique o efeito de sentido dessa metáfora na caracterização do sentimento da personagem-narradora.

      A metáfora expressa a grandeza da decepção e o abismo entre o mito construído pela imaginação e o indivíduo real. O "dinossauro" simboliza a figura monumental, extraordinária e assustadora que se esperava do ilusionista, enquanto a "lagartixa" representa o ser insignificante, frágil e comum que ele de fato era. Essa imagem reforça o sentimento de ridículo e frustração sentido pelo garoto diante da realidade.

04 – Após saírem do teatro, a decepção dos meninos é transmitida não apenas pelo silêncio, mas também por suas ações físicas. Como o ato de "chutar coisas miúdas" reflete o estado psicológico do grupo?

      O ato reflexo e agressivo de chutar pequenos objetos pelo caminho ("caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, pescoços e pernas secas de urubus") funciona como um extravasamento físico da frustração, do tédio e do ressentimento. Impedidos de manifestar verbalmente o orgulho ferido ou o desapontamento ("não querendo dar o braço a torcer"), os meninos usam o silêncio e o comportamento destrutivo como válvula de escape para lidar com o encanto desfeito.

05 – Mesmo em um relato sobre a decepção com uma atração móbile, o texto traz elementos estranhos e sombrios característicos da obra de José J. Veiga, como a menção a "pescoços e pernas secas de urubus mortos durante a grande invasão deles". Qual é a função dessa referência no contexto da narrativa?

      A menção casual à "grande invasão de urubus" insere na narrativa cotidiana uma marca do realismo fantástico/mágico, típico da ficção de José J. Veiga. Esse detalhe bizarro constrói uma atmosfera levemente decadente, opressiva e insólita para a cidade, sugerindo que o ambiente urbano carrega suas próprias marcas de acontecimentos estranhos e perturbadores, ao mesmo tempo que acentua o tom sombrio e desolado do passeio dos meninos após a desilusão.

06 – O narrador afirma que havia perdido o interesse pelo Grande Uzk, mas decide ir ao primeiro espetáculo. O que o motiva a comparecer e o que essa atitude revela sobre a dinâmica do grupo de garotos?

      O narrador aceita ir ao espetáculo motivado pelo sentimento de solidariedade do bando e pelo desejo de vingança coletiva. Seus colegas estavam organizando uma grande vaia para protestar contra o "engano" do mágico e precisavam do seu "assovio fino e cortante". A atitude revela que, no grupo infantil, a cumplicidade e o alinhamento com a reação dos pares sobrepõem-se ao desinteresse individual, transformando a decepção em uma oportunidade de confronto comunitário e afirmação do grupo.

 

 

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