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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

ROMANCE: OS SERTÕES TRECHO II - EUCLIDES DA CUNHA - COM GABARITO

Romance: Os Sertões Trecho II – Fragmento

               Euclides da Cunha

        Os sintomas do flagelo despontam, lhe [para o sertanejo], então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, moqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... [...] 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh4N5rtgXvyCFu8Qjxw5HAJTDLiBHYJnoGoCmavTm8Lq8eEQSVkeoxx2gLYTrTtFPUDeyIaph_Krb5WUVykh43jvzk2Pb9ssxyiIxatzoqLVuJc3JsMEHTrEnjIUx5hEuWBTFSNNokeIXgcAxyHktQPmeBbjRjT-eAXrXlfDtbwXzL4UFErIR-JxMCL5U/s320/images.jpg


        Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se afinal. [...] 

        Insulado deste modo no país que o não conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta.[...] 

Euclides da Cunha. Os sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 148, 153-154.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 20.

Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Transuda: transpira

-- Sezão: febre cíclica 

-- Delido: aniquilado, destruído

-- Moqueadas: queimadas, tostadas

-- Marcescentes: que murcham, secam

-- Greta-se: racha-se 

-- Marizeiros: árvores nativas do Nordeste do Brasil, de ramos espinhosos 

-- Reverberando: repercutindo 

-- Canícula: calor muito forte

-- Assoberbado: dominado, humilhado

-- Reveses: Desgraças, infortúnios

-- Situação mais alta: situação mais favorável.

02 – Como Euclides da Cunha descreve a chegada da seca no primeiro parágrafo e qual metáfora principal ele utiliza para retratar esse fenômeno natural?

      O autor descreve a seca como um processo inevitável, gradativo e encadeado, que se manifesta por meio de sinais progressivos na paisagem (chuvas rápidas que evaporam, o chão que se greta e as cacimbas que secam). Para retratar esse fenômeno, Euclides da Cunha utiliza a metáfora de uma "moléstia cíclica" (uma doença da própria Terra), comparando os sinais da seca aos sintomas de uma enfermidade assustadora que se repete periodicamente, consumindo o meio ambiente.

03 – De que forma o meio ambiente (a caatinga) reflete o estado de escassez e o calor extremo no trecho analisado? Destaque elementos do texto que comprovam essa transformação.

      A caatinga reflete a aridez extrema ao se desidratar e mudar de aparência. O autor comprova isso através de imagens visuais e sensoriais marcantes:

      Vegetação: A mata ganha tufos pardos de árvores murchas ("marcescentes"), que parecem "cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas";

      Sol e Vento: O Sol espalha "os incêndios inextinguíveis da canícula" (calor extremo) no céu claro, enquanto o vento "nordeste" sopra forte e contínuo, zunindo e uivando entre os galhos secos da vegetação;

      Ausência de água: O chão se fenda ("greta-se"), o nível das águas subterrâneas cai e até a própria flora para de sinalizar umidade (a casca dos marizeiros já não transuda).

04 – Qual é o impacto psicológico e físico de todo esse cenário de privação sobre o sertanejo, segundo o segundo parágrafo?

      Diante do esgotamento total dos recursos naturais e da completa falta de perspectivas de chuva, o sertanejo chega ao seu limite de resistência. Sobrecarregado por sucessivas adversidades ("assoberbado de reveses"), ele acaba se curvando ("dobra-se afinal") perante a força implacável da natureza. O texto evidencia que, apesar de sua força e rusticidade, o sertanejo é momentaneamente vencido pelo rigor extremo do clima e pela impossibilidade de sobrevivência naquelas condições.

05 – Explique a tese determinista do autor expressa no trecho: "...em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária...".

      Nesse trecho, Euclides da Cunha aplica o determinismo meio-ambiental (conceito muito influente no final do século XIX), segundo o qual o ambiente físico molda as características biológicas e psicológicas do ser humano. O autor argumenta que a convivência diária e a luta constante contra uma natureza hostil e agressiva (a caatinga árida) forjaram no sertanejo um temperamento e um corpo igualmente rústicos, severos e resistentes, "estampando" nele a própria dureza do sertão.

06 – Aponte a denúncia social e política presente no início do último parágrafo ("Insulado deste modo no país que o não conhece...") e contextualize sua importância.

      A denúncia consiste no isolamento e no desconhecimento do sertanejo por parte do restante do Brasil (especialmente pelas elites e pelo poder público do Litoral). Euclides da Cunha evidencia a existência de "dois Brasões": um litoral urbanizado e voltado para a Europa, que ignora completamente a realidade, as necessidades e a existência do povo do interior sertanejo. Essa crítica é central em Os Sertões, pois mostra que o conflito de Canudos foi alimentado pelo preconceito e pela incompreensão do Estado em relação àquela população marginalizada.

  

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