quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONTO: BIRUTA - FRAGMENTO - LYGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Conto: Biruta – Fragmento

         Lygia Fagundes Telles

        Alonso foi para o quintal carregando uma bacia cheia de louça suja. Andava com dificuldade tentando equilibrar a bacia que era demasiado pesada para seus braços finos.

        — Biruta, eh, Biruta! – chamou sem se voltar.

        O cachorro saiu de dentro da garagem. Era pequenino e branco, uma orelha em pé e a outra completamente caída.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjeAtS047XJCdUk6VErrDP1HTKAJjnFf0Zc_suob_DB-NfFXKuZJEinlja5cuYVrTFUtIqiGmdVn7q2DHJP2wp5r7bb6zRCM_vv7rYQATcx0mSGM8edcYRcsjD2aOMadMLA58ZMosdNVC2di-Rl_7KqlEod88M9wqhcSfuVbzoMT0oDseD-zA0OUmF5yc8/s320/images.jpg

 

        — Sente-se aí, Biruta, que vamos ter uma conversinha – disse Alonso pousando a bacia ao lado do tanque. Ajoelhou-se, arregaçou as mangas da camisa e começou a lavar os pratos.

        Biruta sentou-se inclinando interrogativamente a cabeça ora para a direita, ora para a esquerda, como se quisesse apreender melhor as palavras do seu dono. A orelha caída ergueu-se um pouco, enquanto a outra empinou aguda e reta. Entre elas formaram-se dois vincos próprios de uma testa franzida no esforço da meditação.

        — Leduína disse que você entrou no quarto dela – começou o menino num tom brando. — E subiu em cima da cama e focinhou as cobertas e mordeu uma carteirinha de couro que ela deixou lá. A carteira era velha, ela não ligou muito, mas e se fosse uma carteira nova, Biruta! Se fosse uma carteira nova! Leduína te dava uma surra e eu não podia fazer nada, como daquela outra vez que você arrebentou a franja da cortina, lembra? Você se lembra muito bem sim senhor, não precisa fazer essa cara de inocente!...

        Biruta deitou-se, enfiou o focinho entre as patas e baixou a orelha. Agora as orelhas estavam no mesmo nível, murchas, as pontas quase tocando o chão. Seu olhar interrogativo parecia perguntar: “Mas que foi que eu fiz, Alonso? Não me lembro de nada...”

        [...]

TELLES, Lygia Fagundes. Venha ver o pôr-do-sol e outros contos. 12. ed. São Paulo: Ática, 1996.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 203.

Entendendo o conto:

01 – Como a descrição física inicial do menino Alonso e a sua primeira ação no quintal evidenciam sua condição social e psicológica no ambiente em que vive?

      A descrição física de Alonso — carregando uma bacia de louça suja "demasiado pesada para seus braços finos" e andando com dificuldade — revela sua fragilidade física, infância sobrecarregada e posição de submissão ou exploração doméstica. A tarefa pesada contrasta com sua estrutura infantil, sugerindo um ambiente rígido e exigente, no qual ele precisa assumir responsabilidades precoces sob a autoridade de figuras como Leduína.

02 – No trecho, o cachorro Biruta não emite sons nem fala, mas demonstra uma intensa "comunicação" com seu dono. Como a autora utiliza a descrição dos movimentos do animal para simular uma reação humana às palavras de Alonso?

      A autora utiliza a personificação (humanização) da linguagem corporal do animal. Os movimentos das orelhas (uma em pé e a outra caída), os "vincos próprios de uma testa franzida" e a mudança de postura (ao se deitar e murchar as orelhas ao ouvir o tom de bronca) constroem a ilusão de que Biruta compreende perfeitamente o discurso moral de Alonso, demonstrando atitude interrogativa, reflexão e, finalmente, culpa ou incompreensão resignada.

03 – Ao advertir o cão sobre o episódio da carteira de couro de Leduína, qual é o verdadeiro receio de Alonso em relação ao comportamento do seu animal de estimação?

      O verdadeiro receio de Alonso não é o dano material em si, mas a punição física e a impotência de não conseguir proteger o cão. Quando menciona que Leduína daria uma "surra" em Biruta e que ele "não podia fazer nada" (como na ocasião da cortina rasgada), Alonso expõe sua própria falta de autoridade na casa e a necessidade de prevenir novos deslizes do cachorro para evitar que o animal sofra a violência dos adultos.

04 – Analise o trecho final: Seu olhar interrogativo parecia perguntar: “Mas que foi que eu fiz, Alonso? Não me lembro de nada...”. Qual recurso narrativo é empregado nessa passagem e qual o seu efeito de sentido?

      Trata-se de uma projeção da consciência do narrador/personagem sobre o animal, utilizando o discurso direto/indireto livre para traduzir o olhar do cão em linguagem humana. Esse recurso reforça o grau de empatia e cumplicidade entre o menino e Biruta, permitindo ao leitor enxergar o cão não apenas como um bicho de estimação, mas como o único confidente afetivo de Alonso no ambiente doméstico.

05 – Mesmo sem aparecer diretamente na cena, a personagem Leduína exerce forte presença no fragmento. Como a menção ao seu nome ajuda a estruturar a hierarquia de poder dentro da casa?

      A figura de Leduína representa a autoridade e a ameaça de punição. Sua simples menção molda o comportamento de Alonso, que assume o papel de intermediário disciplinar para evitar a fúria da adulta. Isso estabelece uma clara hierarquia de poder: Leduína ocupa o topo (com poder de castigar e ditar as regras), Alonso ocupa uma posição intermediária e frágil (de executor de tarefas e protetor impotente), e Biruta situa-se na base, sujeito aos limites impostos pela casa.

 

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