Conto: Biruta – Fragmento
Lygia Fagundes Telles
Alonso foi para o quintal carregando
uma bacia cheia de louça suja. Andava com dificuldade tentando equilibrar a
bacia que era demasiado pesada para seus braços finos.
— Biruta, eh, Biruta! – chamou sem se
voltar.
O cachorro saiu de dentro da garagem.
Era pequenino e branco, uma orelha em pé e a outra completamente caída.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjeAtS047XJCdUk6VErrDP1HTKAJjnFf0Zc_suob_DB-NfFXKuZJEinlja5cuYVrTFUtIqiGmdVn7q2DHJP2wp5r7bb6zRCM_vv7rYQATcx0mSGM8edcYRcsjD2aOMadMLA58ZMosdNVC2di-Rl_7KqlEod88M9wqhcSfuVbzoMT0oDseD-zA0OUmF5yc8/s320/images.jpg — Sente-se aí, Biruta, que vamos ter
uma conversinha – disse Alonso pousando a bacia ao lado do tanque. Ajoelhou-se,
arregaçou as mangas da camisa e começou a lavar os pratos.
Biruta sentou-se inclinando
interrogativamente a cabeça ora para a direita, ora para a esquerda, como se
quisesse apreender melhor as palavras do seu dono. A orelha caída ergueu-se um
pouco, enquanto a outra empinou aguda e reta. Entre elas formaram-se dois
vincos próprios de uma testa franzida no esforço da meditação.
— Leduína disse que você entrou no
quarto dela – começou o menino num tom brando. — E subiu em cima da cama e
focinhou as cobertas e mordeu uma carteirinha de couro que ela deixou lá. A
carteira era velha, ela não ligou muito, mas e se fosse uma carteira nova,
Biruta! Se fosse uma carteira nova! Leduína te dava uma surra e eu não podia fazer
nada, como daquela outra vez que você arrebentou a franja da cortina, lembra?
Você se lembra muito bem sim senhor, não precisa fazer essa cara de
inocente!...
Biruta deitou-se, enfiou o focinho
entre as patas e baixou a orelha. Agora as orelhas estavam no mesmo nível,
murchas, as pontas quase tocando o chão. Seu olhar interrogativo parecia
perguntar: “Mas que foi que eu fiz, Alonso? Não me lembro de nada...”
[...]
TELLES, Lygia Fagundes.
Venha ver o pôr-do-sol e outros contos. 12. ed. São Paulo: Ática, 1996.
Fonte: Língua
Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São
Paulo, 2002. p. 203.
Entendendo o conto:
01
– Como a descrição física inicial do menino Alonso e a sua primeira ação no
quintal evidenciam sua condição social e psicológica no ambiente em que vive?
A descrição
física de Alonso — carregando uma bacia de louça suja "demasiado pesada
para seus braços finos" e andando com dificuldade — revela sua fragilidade
física, infância sobrecarregada e posição de submissão ou exploração doméstica.
A tarefa pesada contrasta com sua estrutura infantil, sugerindo um ambiente
rígido e exigente, no qual ele precisa assumir responsabilidades precoces sob a
autoridade de figuras como Leduína.
02
– No trecho, o cachorro Biruta não emite sons nem fala, mas demonstra uma intensa
"comunicação" com seu dono. Como a autora utiliza a descrição dos
movimentos do animal para simular uma reação humana às palavras de Alonso?
A autora utiliza
a personificação (humanização) da linguagem corporal do animal. Os movimentos
das orelhas (uma em pé e a outra caída), os "vincos próprios de uma testa
franzida" e a mudança de postura (ao se deitar e murchar as orelhas ao
ouvir o tom de bronca) constroem a ilusão de que Biruta compreende
perfeitamente o discurso moral de Alonso, demonstrando atitude interrogativa,
reflexão e, finalmente, culpa ou incompreensão resignada.
03
– Ao advertir o cão sobre o episódio da carteira de couro de Leduína, qual é o
verdadeiro receio de Alonso em relação ao comportamento do seu animal de
estimação?
O verdadeiro
receio de Alonso não é o dano material em si, mas a punição física e a
impotência de não conseguir proteger o cão. Quando menciona que Leduína daria
uma "surra" em Biruta e que ele "não podia fazer nada"
(como na ocasião da cortina rasgada), Alonso expõe sua própria falta de
autoridade na casa e a necessidade de prevenir novos deslizes do cachorro para
evitar que o animal sofra a violência dos adultos.
04
– Analise o trecho final: Seu olhar interrogativo parecia perguntar: “Mas que
foi que eu fiz, Alonso? Não me lembro de nada...”. Qual recurso narrativo é
empregado nessa passagem e qual o seu efeito de sentido?
Trata-se de uma
projeção da consciência do narrador/personagem sobre o animal, utilizando o
discurso direto/indireto livre para traduzir o olhar do cão em linguagem
humana. Esse recurso reforça o grau de empatia e cumplicidade entre o menino e
Biruta, permitindo ao leitor enxergar o cão não apenas como um bicho de
estimação, mas como o único confidente afetivo de Alonso no ambiente doméstico.
05
– Mesmo sem aparecer diretamente na cena, a personagem Leduína exerce forte
presença no fragmento. Como a menção ao seu nome ajuda a estruturar a
hierarquia de poder dentro da casa?
A figura de
Leduína representa a autoridade e a ameaça de punição. Sua simples menção molda
o comportamento de Alonso, que assume o papel de intermediário disciplinar para
evitar a fúria da adulta. Isso estabelece uma clara hierarquia de poder:
Leduína ocupa o topo (com poder de castigar e ditar as regras), Alonso ocupa
uma posição intermediária e frágil (de executor de tarefas e protetor
impotente), e Biruta situa-se na base, sujeito aos limites impostos pela casa.
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