quinta-feira, 27 de agosto de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: CRENÇAS PRIMITIVAS - MARCELO COELHO - COM GABARITO

 Artigo de opinião: Crenças primitivas

         Marcelo Coelho

 

        SÃO PAULO – O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, sai sem dúvida fortalecido depois de 11 dias na prisão. Sua foto atrás das grades, lendo a Bíblia, não poderia deixar de ser vista por seus adeptos como uma espécie de martírio religioso; sabe-se, ademais, que as crenças e seus líderes ganham popularidade quando perseguidos pela lei.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhj4gzrzbv32FQtXjBNnCIpDB1qC4ZvbvE0Jftg6gB08KAhe91p6ZLrVWsnAhSzpnzzC-kcuH0Uc8HlsIVksw_UnWPYeGl0yVqkzdV_AomIjWdxTLhzPq02PO9SZmOttQnkP0tmoTmOJoDTwHVTUUSmbABla5CW_xOP_ZZtKluGT6lhScfS22uxoauG1Rs/s320/images.jpg 


        As acusações que pesam sobre Macedo – charlatanismo, curandeirismo e estelionato – terão ainda de ser examinadas pela Justiça. O processo envolve questões complexas, como a da liberdade de religião, e a de em que os métodos utilizados pelo bispo para angariar seus fundos diferem dos de outros cultos.

        Há, entretanto, dois aspectos neste episódio que transcendem o julgamento que se faça sobre as atividades de Edir Macedo. O primeiro é o da crescente demanda por todas as formas de crença que prometem alívio prático para as mazelas da existência, sem sutilezas teológicas; curas e milagres, em pleno final do século 20, são procurados sofregamente, paga-se por isso, e religiões mais cautelosas na mistificação tendem a perder adeptos. O fato pode ser desalentador, mas é dificilmente evitável.

        O segundo aspecto é o de que, na prisão de Edir Macedo, transparece um desejo bastante generalizado nos dias que correm: o de ver pessoas famosas na cadeia. A impunidade geral como que atiça a opinião pública para ver alguém importante literalmente atrás das grades. Como as execuções públicas no século passado, a prisão é hoje uma espécie de espetáculo. Ainda que a ideia da privação de liberdade seja em muitos casos considerada anacrônica do ponto de vista penal, são muitos os que lamentam, sem dúvida, o fato de esse espetáculo ser tão raro no Brasil. E tanto a crença em curas milagrosas quanto o fascínio que a ideia de cadeia exerce na população – para nada dizer da pena de morte – talvez derivem de um mesmo primitivismo ideológico.  

Folha de S. Paulo, 6/6/92.

Entendendo o artigo:

01 – Segundo o autor, por que a prisão do bispo Edir Macedo acabou fortalecendo sua imagem perante seus seguidores?

      Porque a imagem do bispo atrás das grades lendo a Bíblia foi interpretada por seus adeptos como uma forma de martírio religioso. Além disso, líderes e crenças frequentemente ganham popularidade e apoio quando são perseguidos pela lei.

02 – Quais eram as acusações jurídicas que pesavam contra Edir Macedo e por que o processo envolvia questões complexas?

      As acusações eram de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. O processo era complexo por envolver discussões sobre a liberdade religiosa e a dificuldade de diferenciar os métodos de arrecadação de fundos da Igreja Universal dos métodos utilizados por outros cultos.

 

03 – Qual é o primeiro aspecto transcrito pelo autor a respeito do crescimento de certas práticas religiosas no final do século XX?

      O crescimento da busca por religiões que prometem alívio prático para os problemas da vida cotidiana (como curas e milagres imediatos), sem grandes aprofundamentos ou sutilezas teológicas, fazendo com que religiões mais cautelosas perdessem fiéis.

 

04 – Como o autor explica o fascínio da opinião pública pela prisão de figuras famosas e importantes?

      O fascínio ocorre devido ao sentimento generalizado de impunidade na sociedade. Diante disso, a prisão de alguém famoso passa a ser consumida como uma espécie de "espetáculo" público (semelhante às execuções públicas do século anterior).

 

05 – Qual é a relação que o autor estabelece entre a fé em milagres e o desejo da população por punições como a prisão e a pena de morte?

      Marcelo Coelho sugere no final do texto que tanto a crença em curas milagrosas quanto o fascínio pelo encarceramento de figuras públicas derivam de um mesmo "primitivismo ideológico", ou seja, de uma busca por soluções simples, mágicas ou imediatas para problemas humanos e sociais complexos.

 

 

 

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