Conto: Li Na e o Imperador
Andrea Liebers
Há muito, muito tempo, na China
longínqua, vivia uma mulher idosa num pequeno barco ancorado no Rio Amarelo.
Chamava-se Li Na e era calígrafa.
Li Na tinha trabalhado toda a vida para
alcançar a perfeição na sua arte. Muitas pessoas sabem escrever, mas só um
artista consegue exprimir a verdade através de alguns traços desenhados numa
folha.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsglTBp4XkS2hhXoHi6qQ7lVHxvNk5lWu8FLpBO7e7srY6ftThr3GW21kECgQyrlYsZ0iBIAOLg9JmGkZwLY3qPFecRee8bi5ABzl_PSu2Bi2j6FVTxP8dJn3bQX9-yS3uFv2S9bsPqyFMhw1TvkhAIpEYKuUCkgJhqlG8wQ2iLc2KmXEIRl93twCNVr8/s1600/images.jpg Por essa altura vivia na capital da
China um imperador. Habitava um imenso palácio, cuja entrada estava proibida às
pessoas comuns. Era muito rico, muito poderoso e cruel. Até mesmo a mulher e os
filhos tinham medo dele.
Em contrapartida, toda a gente gostava
da velha calígrafa. Vinham de toda a parte admirar as suas obras de arte.
— Desenha o signo do amor! — pediam-lhe. Ou
então: — Queríamos oferecer à nossa mãe um ideograma que lhe devolva
a alegria.
Li Na molhava o seu pincel na tinta
preta e, com gestos elegantes, traçava sobre o papel o ideograma do amor ou o
da felicidade. E todos regressavam a casa, felizes e com uma sensação de
plenitude.
Felicidade, alegria, amor, amizade,
perdão: Li Na experimentara todos estes sentimentos e podia, assim, exprimi-los
através de um ideograma. Mas, às vezes, eram precisos dias ou semanas para que
a velha calígrafa pudesse alcançar o sentido profundo de um signo.
Para traduzir a verdade de uma flor,
fora preciso que Li Na se transformasse numa flor. Tinha tido de sentir o que
sente uma flor quando o orvalho vem pousar sobre as suas folhas, ou quando a
corola se abre lentamente. E também precisara de sentir o que a flor sente
quando murcha e perde as pétalas. Pois Li Na exercia a sua arte com mestria. A
velha calígrafa tinha uma aluna, San Li, que vivia com ela no barco. San Li já
conhecia a folha de papel adequada a cada ideograma. Também sabia preparar a
tinta e tinha tido as primeiras aulas de caligrafia.
Certa manhã, uma grande agitação veio
perturbar as margens do Rio Amarelo. O Imperador aproximava-se do barco da
velha calígrafa. Cem guerreiros precediam o seu palanque incrustado de ouro,
cem guerreiros seguiam-no e cem guerreiros protegiam os seus flancos. O
Imperador ordenou que parassem diante do barco de Li Na. Um criado chamou-a:
— O Imperador ordena que lhe
traces um ideograma. Nele deves exprimir a grandeza do seu império, a sua
riqueza infinita e o seu poder inabalável!
Li Na empurrou a porta vacilante do seu
barco e saiu. San Li, escondida atrás da porta, tentava avistar o Imperador.
Mas as cortinas do palanque, tecidas em fio de prata, protegiam-no dos olhares.
A sua voz era forte e sonora.
— De quanto tempo vais
precisar? — perguntou num tom imperioso que fez tremer San Li.
— O tempo necessário para
compreender a natureza do vosso poder! — respondeu, num tom firme, a velha
calígrafa.
San Li admirou o sangue frio da sua
professora.
— Um criado virá buscar a
caligrafia dentro de uma semana.
O Imperador bateu três vezes com o
bastão da sua bengala na parede do palanque e partiu.
Cheios de medo, os habitantes da aldeia
tinham-se escondido nas suas casas ou nos seus barcos. O Imperador raramente
saía do palácio, e raros eram os que o tinham visto com os seus próprios olhos.
Como resplandecia o palanque! Como pareciam invencíveis os guerreiros! Seguros
do seu poder, ostentavam as armas, e o chão tremia devido ao peso dos seus
passos.
Depois da visita do Imperador, a velha
calígrafa tinha mergulhado num profundo silêncio. A ninguém dirigia a palavra,
nem mesmo a San Li. Refletia, sentada na ponte do barco. Como poderia ela medir
a grandeza do império, se nunca tinha entrado no palácio imperial? Como poderia
imaginar a imensidão das riquezas, se nada possuía? Como poderia compreender o
poder, se nunca tinha mandado em ninguém?
Quando o sol se pôs sobre o Rio
Amarelo, Li Na continuava sentada no mesmo sítio. Perdida nos seus pensamentos,
fixava o rio. Não reagiu quando San Li lhe trouxe uma taça de arroz e um pouco
de chá perfumado. Tinha adormecido e a lua fazia brilhar reflexos de prata nos
seus cabelos.
Passou-se uma semana. Um criado do
palácio veio buscar a caligrafia. Desolada, a velha abanou a cabeça:
— Lamento, mas não posso
corresponder ao pedido do Imperador. Nunca entrei no palácio imperial, nada sei
das cerimónias da corte. Império e poder são palavras que me são estranhas.
Será que me podes trazer um objeto do palácio? Qualquer coisa em que o
Imperador toque todos os dias.
O criado prometeu fazê-lo. Uma semana
mais tarde, trouxe-lhe um tapete sumptuoso e uma taça em ouro. Como Li Na não
estava visível, entregou-os à aluna. San Li recebeu os objetos, a tremer.
— Entrega-os à tua
professora! — ordenou o criado do Imperador. — Mas ai de ti se os
sujares ou estragares. O Imperador mandava-vos às duas para a prisão!
Incapaz de proferir palavra, San Li
abanou a cabeça.
— Volto dentro de uma semana! A
caligrafia tem de estar pronta!
Passou-se uma semana e o criado voltou.
— Não consigo traduzir para o
papel o poder do Imperador — disse a velha numa voz
trémula. — Traz-me uma espada ou outra arma qualquer com a qual o
Imperador exerce o poder sobre os seus inimigos.
— Verei o que posso fazer! — respondeu
o criado e afastou-se a cavalo.
Alguns dias mais tarde, trouxe uma
espada pesada. Li Na estava sentada, imóvel e silenciosa. San Li cortava folhas
de papel. Não havia vestígios de qualquer caligrafia, nem sequer de um esboço.
— De quanto tempo precisas
ainda? — perguntou o criado.
Uma vez que a velha não respondia,
dirigiu-se à aluna:
— Quando estará pronta a
caligrafia? O Imperador está impaciente.
San Li encolheu os ombros.
— Não sei — disse timidamente.
O criado deixou passar três meses até
voltar de novo à margem do Rio Amarelo. Desta vez a calígrafa entregaria o
trabalho, pensava ele. Mas estava enganado.
— Li Na deu ordens para que não a
perturbassem, sob pretexto algum — anunciou-lhe a aluna. — Volta
dentro de um mês e levarás a caligrafia do Imperador.
O homem ficou apavorado. Quando o
Imperador ouvisse dizer que a caligrafia não estava pronta, culpá-lo-ia,
decerto.
— Porque demora tanto
tempo? — perguntou à rapariga.
— Li Na tem de compreender
primeiro o poder do Imperador antes de pegar no pincel.
San Li baixou os olhos.
— A encomenda do Imperador exige
algo de completamente diferente daquilo que a minha professora pintou até
agora — disse em voz baixa.
O criado abanou a cabeça, mostrando que
compreendia. Mas será que o Imperador compreenderia? Mas o Imperador não
compreendeu. Quando viu o criado voltar de mãos vazias, meteu-o na prisão. Como
ousavam desafiar as suas ordens? Iria ele mesmo falar com a calígrafa e buscar
o que lhe pertencia.
Vestido de forma magnífica, pôs-se a
caminho com a sua comitiva. Quando viram os soldados aproximarem-se do rio, os
habitantes da aldeia meteram-se nas suas embarcações. San Li enfiou-se,
aterrorizada, na cozinha, quando o palanque do Imperador parou diante do barco
de Li Na.
Acompanhado por quatro guardas, o
Imperador entrou no quarto da calígrafa.
— Onde está a caligrafia que te
mandei pintar?
Li Na aproximou-se. Tinha na mão um
grande pincel, do qual ainda escorria tinta. Diante dela estava um rolo de
papel. Sem proferir palavra, sem olhar para o Imperador, inclinou-se e, com
alguns gestos precisos, traçou no papel o signo do poder.
Aterrado, o Imperador recuou. Os
guardas desembainharam as espadas para o proteger. O signo do poder era
violento e cruel, ameaçador e hostil, duro e gelado. Dir-se-ia que dominava o
quarto todo. Os guardas recuaram, a tremer. O Imperador empalideceu, mas
esforçou-se por mostrar que não estava impressionado.
— Por que me fizeste esperar
tantos meses se conseguiste fazer a caligrafia em tão pouco tempo? —
perguntou, enfurecido, a Li Na.
— Precisei deste tempo para
compreender o vosso poder — respondeu a velha calígrafa, numa voz doce,
mas firme.
Arrumou o pincel e olhou o Imperador
nos olhos. Depois pegou no seu selo e imprimiu‑o no papel de arroz, ao lado do
trabalho.
Passaram-se vários minutos num silêncio
absoluto. A tinta secou. Li Na fez sinal a dois guardas para pegarem no rolo de
papel. Sem sequer esperarem pela autorização do Imperador, fizeram o que a
calígrafa lhes ordenara. O Imperador compreendeu, então, que ela tinha captado
a natureza do seu poder.
Apressou-se a enrolar o papel e levou-o
para o palácio. Uma vez lá chegado, retirou-se para os seus aposentos privados
e deu ordens para que ninguém o perturbasse. Nem mesmo a sua família ou os seus
ministros.
Desenrolou no chão a caligrafia de Li
Na e pôs-se a contemplá-la. Sentiu um frio imenso percorrer-lhe o corpo. A sua
garganta parecia ter sido estrangulada. Era isso o frio glacial do medo. O
punho de aço do pavor. O gosto amargo da crueldade. O poder da cupidez e da
violência.
Reinava no palácio um silêncio de
morte. Após uma longa espera, o primeiro guarda do Imperador aproximou-se,
hesitante, da porta do quarto do seu senhor.
— Vossa Majestade não se sente
bem? — perguntou, timidamente. Como não ouvisse resposta, abriu a porta,
com prudência. O Imperador tinha os olhos cravados no chão, onde a caligrafia
de Li Na se encontrava desenrolada. E chorava. O Imperador da China chorava!
Sem soluços, sem gemidos. Nenhum som saía dos seus lábios. As lágrimas corriam
silenciosas pelo seu rosto.
— É isto o poder do Imperador?
Angústia e medo? Serei assim tão cruel? — murmurava.
Apercebeu-se da presença do guarda.
Este, com um movimento lento da cabeça, assentiu:
— Sim, Vossa Majestade é cruel.
Falara num tom firme, com os olhos
postos no Imperador. Este desviou os olhos da caligrafia e fixou o criado,
estupefato. Abanou o punho, ameaçador. A tremer de cólera, abriu a boca.
Contudo, baixou o braço e, sem proferir palavra, começou a chorar.
No barco ancorado no Rio Amarelo, a
velha calígrafa arrumava o seu material. Papel e pincel, pedra de tinta e selo
tinham voltado ao seu lugar. Para terminar, Li Na estendeu o tapete do
Imperador no chão e colocou a taça de ouro numa prateleira. Num canto pôs a
espada incrustada de pedras preciosas. Sorria. Nessa manhã, o criado do palácio
tinha voltado.
— O Imperador dá-te estes objetos
como paga pelo teu trabalho — explicou-lhe.
— Foste preso? — perguntou
San Li, curiosa.
O homem abanou a cabeça:
— Sua
Majestade libertou todos os que tinham sido injustamente presos. Desde que
pendurou a caligrafia de Li Na, tornou-se um homem diferente.
Quando o criado se foi, Li Na chamou a
sua aluna.
— San Li, queres aprender o signo
da verdade?
— Sim, quero! — respondeu a
menina, com entusiasmo.
Excitada, olhou para a mão de Li Na que,
calmamente, pegava no grande pincel.
Andrea Liebers. Li Na et l’empereur. Toulouse, Milan, 2002. (Tradução e
adaptação).
Entendendo
o conto:
01
– O que diferenciava a arte da velha calígrafa Li Na da escrita das outras
pessoas e como ela conseguia alcançar a verdade de cada ideograma?
Diferente das
pessoas comuns que apenas sabiam escrever, Li Na conseguia exprimir a verdade
através dos seus traços. Para alcançar a essência profunda de um signo, ela
precisava mergulhar e vivenciar o sentimento ou o elemento que iria desenhar.
Por exemplo, para traduzir a verdade de uma flor, precisou sentir-se como uma
flor abrindo as pétalas, recebendo o orvalho e murchando.
02
– Qual foi a ordem dada pelo Imperador à calígrafa Li Na e qual foi a resposta
dela quanto ao tempo necessário para realizar o trabalho?
O Imperador
ordenou que Li Na traçasse um ideograma que expressasse a grandeza do seu
império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável. Corajosa e firme, Li
Na respondeu que precisaria do tempo necessário para compreender a verdadeira
natureza do poder do Imperador.
03
– Diante da dificuldade inicial em retratar o poder e o império, quais objetos
Li Na solicitou ao criado do palácio e com qual finalidade?
Por nunca ter
entrado no palácio, mandado em ninguém ou possuído riquezas, Li Na pediu
primeiro um objeto em que o Imperador tocasse todos os dias (recebendo um tapete
suntuoso e uma taça de ouro) e, depois, uma arma com a qual ele exercesse o
poder sobre os inimigos (uma espada pesada). Ela solicitou esses itens para
conseguir sentir, conectar-se e compreender a essência do poder e da rotina
imperial.
04
– Como era visualmente a caligrafia do "signo do poder" traçada por
Li Na e qual foi a reação imediata do Imperador e de seus guardas ao
contemplá-la?
O signo traçado
era violento, cruel, ameaçador, hostil, duro e gelado, parecendo dominar todo o
ambiente. Ao olharem para a obra, o Imperador e seus guardas ficaram aterrados;
os guardas desembainharam as espadas para proteção, mas logo recuaram a tremer,
enquanto o Imperador empalideceu diante da força assustadora do retrato de seu
próprio poder.
05
– Ao examinar a caligrafia a sós em seus aposentos, o que o Imperador sentiu e
qual revelação dolorosa ele teve sobre si mesmo?
A sós no quarto,
o Imperador sentiu um frio glacial de medo, um sufocamento na garganta e o
gosto amargo da violência e da cupidez. Ele caiu em prantos ao compreender que
o seu poder gerava apenas angústia e pavor, confrontando-se com a dura
realidade de sua própria crueldade.
06
– Quais transformações ocorreram no comportamento do Imperador e na
administração do reino após a entrega da caligrafia?
Impactado pelo
choque de realidade trazido pela arte de Li Na, o Imperador tornou-se um homem
completamente diferente. Ele libertou todos aqueles que haviam sido
injustamente presos (como o próprio criado), deixou de agir de forma tirânica e
presenteou Li Na com o tapete, a taça de ouro e a espada em gratidão pelo
ensinamento.
07
– No desfecho do conto, qual ensinamento a mestre Li Na se dispõe a transmitir
à sua aluna San Li e qual é o significado desse momento para a narrativa?
Li Na convida San Li a aprender o "signo da
verdade". Esse momento simboliza a transmissão da verdadeira essência da
arte caligráfica, mostrando que a verdadeira maestria não reside na adulação
aos poderosos, mas na capacidade da arte de refletir a realidade com coragem,
sensibilidade e sabedoria transformadora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário