sexta-feira, 7 de agosto de 2026

CONTO: LI NA E O IMPERADOR - ANDREA LEIBERS - COM GABARITO

 Conto: Li Na e o Imperador

          Andrea Liebers

        Há muito, muito tempo, na China longínqua, vivia uma mulher idosa num pequeno barco ancorado no Rio Amarelo. Chamava-se Li Na e era calígrafa.

        Li Na tinha trabalhado toda a vida para alcançar a perfeição na sua arte. Muitas pessoas sabem escrever, mas só um artista consegue exprimir a verdade através de alguns traços desenhados numa folha.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsglTBp4XkS2hhXoHi6qQ7lVHxvNk5lWu8FLpBO7e7srY6ftThr3GW21kECgQyrlYsZ0iBIAOLg9JmGkZwLY3qPFecRee8bi5ABzl_PSu2Bi2j6FVTxP8dJn3bQX9-yS3uFv2S9bsPqyFMhw1TvkhAIpEYKuUCkgJhqlG8wQ2iLc2KmXEIRl93twCNVr8/s1600/images.jpg


        Por essa altura vivia na capital da China um imperador. Habitava um imenso palácio, cuja entrada estava proibida às pessoas comuns. Era muito rico, muito poderoso e cruel. Até mesmo a mulher e os filhos tinham medo dele.

        Em contrapartida, toda a gente gostava da velha calígrafa. Vinham de toda a parte admirar as suas obras de arte. — Desenha o signo do amor! — pediam-lhe. Ou então: — Queríamos oferecer à nossa mãe um ideograma que lhe devolva a alegria.

        Li Na molhava o seu pincel na tinta preta e, com gestos elegantes, traçava sobre o papel o ideograma do amor ou o da felicidade. E todos regressavam a casa, felizes e com uma sensação de plenitude.

        Felicidade, alegria, amor, amizade, perdão: Li Na experimentara todos estes sentimentos e podia, assim, exprimi-los através de um ideograma. Mas, às vezes, eram precisos dias ou semanas para que a velha calígrafa pudesse alcançar o sentido profundo de um signo.

        Para traduzir a verdade de uma flor, fora preciso que Li Na se transformasse numa flor. Tinha tido de sentir o que sente uma flor quando o orvalho vem pousar sobre as suas folhas, ou quando a corola se abre lentamente. E também precisara de sentir o que a flor sente quando murcha e perde as pétalas. Pois Li Na exercia a sua arte com mestria. A velha calígrafa tinha uma aluna, San Li, que vivia com ela no barco. San Li já conhecia a folha de papel adequada a cada ideograma. Também sabia preparar a tinta e tinha tido as primeiras aulas de caligrafia.

        Certa manhã, uma grande agitação veio perturbar as margens do Rio Amarelo. O Imperador aproximava-se do barco da velha calígrafa. Cem guerreiros precediam o seu palanque incrustado de ouro, cem guerreiros seguiam-no e cem guerreiros protegiam os seus flancos. O Imperador ordenou que parassem diante do barco de Li Na. Um criado chamou-a:

        — O Imperador ordena que lhe traces um ideograma. Nele deves exprimir a grandeza do seu império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável!

        Li Na empurrou a porta vacilante do seu barco e saiu. San Li, escondida atrás da porta, tentava avistar o Imperador. Mas as cortinas do palanque, tecidas em fio de prata, protegiam-no dos olhares. A sua voz era forte e sonora.

        — De quanto tempo vais precisar? — perguntou num tom imperioso que fez tremer San Li.

        — O tempo necessário para compreender a natureza do vosso poder! — respondeu, num tom firme, a velha calígrafa.

        San Li admirou o sangue frio da sua professora.

        — Um criado virá buscar a caligrafia dentro de uma semana.

        O Imperador bateu três vezes com o bastão da sua bengala na parede do palanque e partiu.

        Cheios de medo, os habitantes da aldeia tinham-se escondido nas suas casas ou nos seus barcos. O Imperador raramente saía do palácio, e raros eram os que o tinham visto com os seus próprios olhos. Como resplandecia o palanque! Como pareciam invencíveis os guerreiros! Seguros do seu poder, ostentavam as armas, e o chão tremia devido ao peso dos seus passos.

        Depois da visita do Imperador, a velha calígrafa tinha mergulhado num profundo silêncio. A ninguém dirigia a palavra, nem mesmo a San Li. Refletia, sentada na ponte do barco. Como poderia ela medir a grandeza do império, se nunca tinha entrado no palácio imperial? Como poderia imaginar a imensidão das riquezas, se nada possuía? Como poderia compreender o poder, se nunca tinha mandado em ninguém?

        Quando o sol se pôs sobre o Rio Amarelo, Li Na continuava sentada no mesmo sítio. Perdida nos seus pensamentos, fixava o rio. Não reagiu quando San Li lhe trouxe uma taça de arroz e um pouco de chá perfumado. Tinha adormecido e a lua fazia brilhar reflexos de prata nos seus cabelos.

        Passou-se uma semana. Um criado do palácio veio buscar a caligrafia. Desolada, a velha abanou a cabeça:

        — Lamento, mas não posso corresponder ao pedido do Imperador. Nunca entrei no palácio imperial, nada sei das cerimónias da corte. Império e poder são palavras que me são estranhas. Será que me podes trazer um objeto do palácio? Qualquer coisa em que o Imperador toque todos os dias.

        O criado prometeu fazê-lo. Uma semana mais tarde, trouxe-lhe um tapete sumptuoso e uma taça em ouro. Como Li Na não estava visível, entregou-os à aluna. San Li recebeu os objetos, a tremer.

        — Entrega-os à tua professora! — ordenou o criado do Imperador. — Mas ai de ti se os sujares ou estragares. O Imperador mandava-vos às duas para a prisão!

        Incapaz de proferir palavra, San Li abanou a cabeça.

        — Volto dentro de uma semana! A caligrafia tem de estar pronta!

        Passou-se uma semana e o criado voltou.

        — Não consigo traduzir para o papel o poder do Imperador — disse a velha numa voz trémula. — Traz-me uma espada ou outra arma qualquer com a qual o Imperador exerce o poder sobre os seus inimigos.

        — Verei o que posso fazer! — respondeu o criado e afastou-se a cavalo.

        Alguns dias mais tarde, trouxe uma espada pesada. Li Na estava sentada, imóvel e silenciosa. San Li cortava folhas de papel. Não havia vestígios de qualquer caligrafia, nem sequer de um esboço.

        — De quanto tempo precisas ainda? — perguntou o criado.

        Uma vez que a velha não respondia, dirigiu-se à aluna:

        — Quando estará pronta a caligrafia? O Imperador está impaciente.

        San Li encolheu os ombros.

        — Não sei — disse timidamente.

        O criado deixou passar três meses até voltar de novo à margem do Rio Amarelo. Desta vez a calígrafa entregaria o trabalho, pensava ele. Mas estava enganado.

        — Li Na deu ordens para que não a perturbassem, sob pretexto algum — anunciou-lhe a aluna. — Volta dentro de um mês e levarás a caligrafia do Imperador.

        O homem ficou apavorado. Quando o Imperador ouvisse dizer que a caligrafia não estava pronta, culpá-lo-ia, decerto.

        — Porque demora tanto tempo? — perguntou à rapariga.

        — Li Na tem de compreender primeiro o poder do Imperador antes de pegar no pincel.

        San Li baixou os olhos.

        — A encomenda do Imperador exige algo de completamente diferente daquilo que a minha professora pintou até agora — disse em voz baixa.

        O criado abanou a cabeça, mostrando que compreendia. Mas será que o Imperador compreenderia? Mas o Imperador não compreendeu. Quando viu o criado voltar de mãos vazias, meteu-o na prisão. Como ousavam desafiar as suas ordens? Iria ele mesmo falar com a calígrafa e buscar o que lhe pertencia.

        Vestido de forma magnífica, pôs-se a caminho com a sua comitiva. Quando viram os soldados aproximarem-se do rio, os habitantes da aldeia meteram-se nas suas embarcações. San Li enfiou-se, aterrorizada, na cozinha, quando o palanque do Imperador parou diante do barco de Li Na.

        Acompanhado por quatro guardas, o Imperador entrou no quarto da calígrafa.

        — Onde está a caligrafia que te mandei pintar?

        Li Na aproximou-se. Tinha na mão um grande pincel, do qual ainda escorria tinta. Diante dela estava um rolo de papel. Sem proferir palavra, sem olhar para o Imperador, inclinou-se e, com alguns gestos precisos, traçou no papel o signo do poder.

        Aterrado, o Imperador recuou. Os guardas desembainharam as espadas para o proteger. O signo do poder era violento e cruel, ameaçador e hostil, duro e gelado. Dir-se-ia que dominava o quarto todo. Os guardas recuaram, a tremer. O Imperador empalideceu, mas esforçou-se por mostrar que não estava impressionado.

        — Por que me fizeste esperar tantos meses se conseguiste fazer a caligrafia em tão pouco tempo? — perguntou, enfurecido, a Li Na.

        — Precisei deste tempo para compreender o vosso poder — respondeu a velha calígrafa, numa voz doce, mas firme.

        Arrumou o pincel e olhou o Imperador nos olhos. Depois pegou no seu selo e imprimiu‑o no papel de arroz, ao lado do trabalho.

        Passaram-se vários minutos num silêncio absoluto. A tinta secou. Li Na fez sinal a dois guardas para pegarem no rolo de papel. Sem sequer esperarem pela autorização do Imperador, fizeram o que a calígrafa lhes ordenara. O Imperador compreendeu, então, que ela tinha captado a natureza do seu poder.

        Apressou-se a enrolar o papel e levou-o para o palácio. Uma vez lá chegado, retirou-se para os seus aposentos privados e deu ordens para que ninguém o perturbasse. Nem mesmo a sua família ou os seus ministros.

        Desenrolou no chão a caligrafia de Li Na e pôs-se a contemplá-la. Sentiu um frio imenso percorrer-lhe o corpo. A sua garganta parecia ter sido estrangulada. Era isso o frio glacial do medo. O punho de aço do pavor. O gosto amargo da crueldade. O poder da cupidez e da violência.

        Reinava no palácio um silêncio de morte. Após uma longa espera, o primeiro guarda do Imperador aproximou-se, hesitante, da porta do quarto do seu senhor.

        — Vossa Majestade não se sente bem? — perguntou, timidamente. Como não ouvisse resposta, abriu a porta, com prudência. O Imperador tinha os olhos cravados no chão, onde a caligrafia de Li Na se encontrava desenrolada. E chorava. O Imperador da China chorava! Sem soluços, sem gemidos. Nenhum som saía dos seus lábios. As lágrimas corriam silenciosas pelo seu rosto.

        — É isto o poder do Imperador? Angústia e medo? Serei assim tão cruel? — murmurava.

        Apercebeu-se da presença do guarda. Este, com um movimento lento da cabeça, assentiu:

        — Sim, Vossa Majestade é cruel.

        Falara num tom firme, com os olhos postos no Imperador. Este desviou os olhos da caligrafia e fixou o criado, estupefato. Abanou o punho, ameaçador. A tremer de cólera, abriu a boca. Contudo, baixou o braço e, sem proferir palavra, começou a chorar.

        No barco ancorado no Rio Amarelo, a velha calígrafa arrumava o seu material. Papel e pincel, pedra de tinta e selo tinham voltado ao seu lugar. Para terminar, Li Na estendeu o tapete do Imperador no chão e colocou a taça de ouro numa prateleira. Num canto pôs a espada incrustada de pedras preciosas. Sorria. Nessa manhã, o criado do palácio tinha voltado.

        — O Imperador dá-te estes objetos como paga pelo teu trabalho — explicou-lhe.

        — Foste preso? — perguntou San Li, curiosa.

        O homem abanou a cabeça:

        — Sua Majestade libertou todos os que tinham sido injustamente presos. Desde que pendurou a caligrafia de Li Na, tornou-se um homem diferente.

        Quando o criado se foi, Li Na chamou a sua aluna.

        — San Li, queres aprender o signo da verdade?

        — Sim, quero! — respondeu a menina, com entusiasmo.

       Excitada, olhou para a mão de Li Na que, calmamente, pegava no grande pincel.

Andrea Liebers. Li Na et l’empereur. Toulouse, Milan, 2002. (Tradução e adaptação).

Entendendo o conto:

01 – O que diferenciava a arte da velha calígrafa Li Na da escrita das outras pessoas e como ela conseguia alcançar a verdade de cada ideograma?

      Diferente das pessoas comuns que apenas sabiam escrever, Li Na conseguia exprimir a verdade através dos seus traços. Para alcançar a essência profunda de um signo, ela precisava mergulhar e vivenciar o sentimento ou o elemento que iria desenhar. Por exemplo, para traduzir a verdade de uma flor, precisou sentir-se como uma flor abrindo as pétalas, recebendo o orvalho e murchando.

02 – Qual foi a ordem dada pelo Imperador à calígrafa Li Na e qual foi a resposta dela quanto ao tempo necessário para realizar o trabalho?

      O Imperador ordenou que Li Na traçasse um ideograma que expressasse a grandeza do seu império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável. Corajosa e firme, Li Na respondeu que precisaria do tempo necessário para compreender a verdadeira natureza do poder do Imperador.

03 – Diante da dificuldade inicial em retratar o poder e o império, quais objetos Li Na solicitou ao criado do palácio e com qual finalidade?

      Por nunca ter entrado no palácio, mandado em ninguém ou possuído riquezas, Li Na pediu primeiro um objeto em que o Imperador tocasse todos os dias (recebendo um tapete suntuoso e uma taça de ouro) e, depois, uma arma com a qual ele exercesse o poder sobre os inimigos (uma espada pesada). Ela solicitou esses itens para conseguir sentir, conectar-se e compreender a essência do poder e da rotina imperial.

04 – Como era visualmente a caligrafia do "signo do poder" traçada por Li Na e qual foi a reação imediata do Imperador e de seus guardas ao contemplá-la?

      O signo traçado era violento, cruel, ameaçador, hostil, duro e gelado, parecendo dominar todo o ambiente. Ao olharem para a obra, o Imperador e seus guardas ficaram aterrados; os guardas desembainharam as espadas para proteção, mas logo recuaram a tremer, enquanto o Imperador empalideceu diante da força assustadora do retrato de seu próprio poder.

05 – Ao examinar a caligrafia a sós em seus aposentos, o que o Imperador sentiu e qual revelação dolorosa ele teve sobre si mesmo?

      A sós no quarto, o Imperador sentiu um frio glacial de medo, um sufocamento na garganta e o gosto amargo da violência e da cupidez. Ele caiu em prantos ao compreender que o seu poder gerava apenas angústia e pavor, confrontando-se com a dura realidade de sua própria crueldade.

06 – Quais transformações ocorreram no comportamento do Imperador e na administração do reino após a entrega da caligrafia?

      Impactado pelo choque de realidade trazido pela arte de Li Na, o Imperador tornou-se um homem completamente diferente. Ele libertou todos aqueles que haviam sido injustamente presos (como o próprio criado), deixou de agir de forma tirânica e presenteou Li Na com o tapete, a taça de ouro e a espada em gratidão pelo ensinamento.

07 – No desfecho do conto, qual ensinamento a mestre Li Na se dispõe a transmitir à sua aluna San Li e qual é o significado desse momento para a narrativa?

      Li Na convida San Li a aprender o "signo da verdade". Esse momento simboliza a transmissão da verdadeira essência da arte caligráfica, mostrando que a verdadeira maestria não reside na adulação aos poderosos, mas na capacidade da arte de refletir a realidade com coragem, sensibilidade e sabedoria transformadora.

 

 

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