Conto: CLARISSA – Fragmento
Érico Veríssimo
[...]
-- PRRRR-PI-PI!
Clarissa vai dar de comer às galinhas.
Com a mão esquerda segura a ponta do avental, que forma um bojo fofo onde o
farelo e os grãos de milho se aninham.
Tardinha. A sombra da casa vai aos
poucos avançando sobre o pátio. O céu empalidece.
Com a mão direita Clarissa lança no ar
punhados de milho e farelo, no gesto de quem semeia.
Num cacarejar miúdo as galinhas vêm
correndo, sacudindo as asas, e começam a dar bicadas a esmo, sôfregas; arranham
o chão, comprimem-se, amontoam-se, disputando os grãos. No meio delas os
pintinhos arrepiados e encolhidos piam desconsoladamente, perdidos no
aglomerado de penas, bicos e patas.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEihXWppuEm6zghmH85mvKyinQrwh3bEuQ-c38K3_1AffP2IHU0X04mbCHeKYsRaHdT_Ezqg1jm2d58kU7OZ1c5iDkzi3d39EKb3UcD59uksZ0l-fv3Fx8Fcyb0QJxvhI6CDq2uNaIMaZ-4mRulqlqp0k_Vy0e-Po1iYK7XQKufn3GfaVQrhp9K_qDBo7hw/s320/images.jpg -- Não se apressem! – grita Clarissa – Tem pra
todos!
E cobre o chão de grãos dourados. Ri,
com a impressão de que está jogando fora ouro, muito ouro.
No fundo do pátio um peru preto passeia
dum lado para o outro, lento, indiferente ao espetáculo tumultuoso. Por que
será que não vem? Falta de apetite? Ou orgulho?
Clarissa cantarola:
-- P’ru! P’ru! P’ru!
Solene como um rei, o peru continua
imperturbável, enquanto as galinhas disputam o milho a bicadas violentas. Agora
um galo de crista escarlate entra no grupo como um tufão, abrindo caminho à
força de empurrões.
-- Bruto – pensa Clarissa. – Um homem
deve ser delicado com as mulheres.
Oh! Mas o galo não entende a língua dos
homens. E no mundo do galinheiro decerto não há etiqueta.
Clarissa acocora-se. “Acabou-se o que
era doce, quem comeu arregalou-se”. Agora, ela pode olhar tranquilamente toda a
bicharia do quintal: já cumpriu sua obrigação.
Que cara engraçada têm as galinhas!
Dois olhinhos miúdos como contas, o bico, as penas, os pés. E por que será que
chamam pé-de-galinha às rugas que as pessoas que estão envelhecendo têm nos
cantos dos olhos? Por que será também que quando o céu está cheio de nuvens
finas, tremidas e compridas, transparentes como um véu, dizem que o céu está
cheio de rabos-de-galo? Tudo na vida é tão engraçado ...
Érico Veríssimo.
Fonte: Língua
Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São
Paulo, 2002. p. 124.
Entendendo o conto:
01
– Como as atitudes e os pensamentos de Clarissa ao longo do fragmento revelam a
transição entre a infância e a juventude, destacando a sua inocência e
imaginação?
A inocência e a
imaginação de Clarissa transparecem na forma poética e lúdica como ela realiza
uma tarefa simples do cotidiano. Ela fantasia que o milho jogado é "ouro,
muito ouro", compara o peru a um "rei" e projeta sentimentos
humanos nos animais (questiona se o peru não come por "orgulho" e
julga o galo por não ser "delicado com as mulheres"). Essas reflexões
mostram a mente de uma jovem imaginativa que observa o mundo ao seu redor com
fascínio, curiosidade e um olhar puro, ainda muito ligado ao universo infantil.
02
– No trecho em que o galo intervém no grupo de galinhas ("-- Bruto –
pensa Clarissa. – Um homem deve ser delicado com as mulheres."),
ocorre o recurso estilístico da antropomorfização. Explique como esse recurso é
utilizado e qual é a reflexão que a personagem faz logo em seguida.
A
antropomorfização ocorre quando Clarissa atribui comportamentos e normas morais
humanas ao galo, julgando a violência de suas atitudes na disputa pelo milho
como se ele fosse um homem que deveria ser "delicado com as
mulheres". Logo em seguida, ela quebra essa projeção ao tomar consciência
da realidade: percebe que "o galo não entende a língua dos homens" e
que no "mundo do galinheiro decerto não há etiqueta", reconhecendo a
diferença entre as convenções sociais humanas e o instinto animal.
03
– O texto de Erico Verissimo destaca-se pela riqueza de imagens sensoriais e
onomatopeias. Identifique dois exemplos do fragmento — um auditivo e um visual
— e explique como eles contribuem para a construção da cena.
Exemplo Auditivo:
A onomatopeia do início ("-- PRRRR-PI-PI!" e "P’ru! P’ru!
P’ru!") e os verbos de som ("cacarejar miúdo", "piam
desconsoladamente"). Esse recurso reproduz os ruídos do quintal e o
dinamismo da comunicação de Clarissa com as aves.
Exemplo Visual: A descrição
das cores e do ambiente ("sombras da casa", "grãos
dourados", "galo de crista escarlate").
Esses elementos enriquecem o
texto ao criar uma atmosfera realista e vibrante, permitindo que o leitor
"ouça" o tumulto do galinheiro e "veja" o contraste de
cores ao entardecer no pátio.
04
– No final do texto, Clarissa reflete sobre o uso de expressões populares como
"pé-de-galinha" e "rabos-de-galo". O que essas reflexões
revelam sobre a relação da personagem com a linguagem e a observação da vida?
Essas reflexões revelam a postura investigativa e poética de
Clarissa perante o mundo. Em vez de aceitar as metáforas populares de forma
automática, ela para, para analisar a origem e a estranheza das associações
entre elementos da natureza (as aves) e a vida humana/fenômenos naturais (as
rugas dos olhos e o formato das nuvens no céu). A conclusão de que "tudo
na vida é tão engraçado" demonstra sua capacidade de se encantar com a
linguagem e com as peculiaridades do cotidiano.
05
– Como o tempo cronológico e a ambientação espacial são apresentados no início
do fragmento e de que maneira eles influenciam o ritmo da narrativa?
O tempo
cronológico é marcado pelo final da tarde ("Tardinha", "O céu
empalidece", "A sombra da casa vai aos poucos avançando"), e o
espaço é o pátio/quintal de uma casa rural ou interiorana. Essa ambientação
cria um ritmo inicial calmo e contemplativo que é momentaneamente interrompido
pelo "espetáculo tumultuoso" das galinhas buscando o alimento. À
medida que a tarefa termina, o ritmo volta a desacelerar, permitindo que a
narrativa acompanhe o estado de tranquilidade e reflexão de Clarissa
("Clarissa acocora-se [...] já cumpriu sua obrigação").
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