quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONTO: CLARISSA - FRAGMENTO - ÉRICO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Conto: CLARISSA – Fragmento

          Érico Veríssimo

        [...] 

        -- PRRRR-PI-PI!

       Clarissa vai dar de comer às galinhas. Com a mão esquerda segura a ponta do avental, que forma um bojo fofo onde o farelo e os grãos de milho se aninham.

        Tardinha. A sombra da casa vai aos poucos avançando sobre o pátio. O céu empalidece.

        Com a mão direita Clarissa lança no ar punhados de milho e farelo, no gesto de quem semeia.

        Num cacarejar miúdo as galinhas vêm correndo, sacudindo as asas, e começam a dar bicadas a esmo, sôfregas; arranham o chão, comprimem-se, amontoam-se, disputando os grãos. No meio delas os pintinhos arrepiados e encolhidos piam desconsoladamente, perdidos no aglomerado de penas, bicos e patas.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEihXWppuEm6zghmH85mvKyinQrwh3bEuQ-c38K3_1AffP2IHU0X04mbCHeKYsRaHdT_Ezqg1jm2d58kU7OZ1c5iDkzi3d39EKb3UcD59uksZ0l-fv3Fx8Fcyb0QJxvhI6CDq2uNaIMaZ-4mRulqlqp0k_Vy0e-Po1iYK7XQKufn3GfaVQrhp9K_qDBo7hw/s320/images.jpg


        -- Não se apressem! – grita Clarissa – Tem pra todos!

        E cobre o chão de grãos dourados. Ri, com a impressão de que está jogando fora ouro, muito ouro.

        No fundo do pátio um peru preto passeia dum lado para o outro, lento, indiferente ao espetáculo tumultuoso. Por que será que não vem? Falta de apetite? Ou orgulho?

        Clarissa cantarola:

        -- P’ru! P’ru! P’ru!

        Solene como um rei, o peru continua imperturbável, enquanto as galinhas disputam o milho a bicadas violentas. Agora um galo de crista escarlate entra no grupo como um tufão, abrindo caminho à força de empurrões.

        -- Bruto – pensa Clarissa. – Um homem deve ser delicado com as mulheres.

        Oh! Mas o galo não entende a língua dos homens. E no mundo do galinheiro decerto não há etiqueta.

        Clarissa acocora-se. “Acabou-se o que era doce, quem comeu arregalou-se”. Agora, ela pode olhar tranquilamente toda a bicharia do quintal: já cumpriu sua obrigação.

        Que cara engraçada têm as galinhas! Dois olhinhos miúdos como contas, o bico, as penas, os pés. E por que será que chamam pé-de-galinha às rugas que as pessoas que estão envelhecendo têm nos cantos dos olhos? Por que será também que quando o céu está cheio de nuvens finas, tremidas e compridas, transparentes como um véu, dizem que o céu está cheio de rabos-de-galo? Tudo na vida é tão engraçado ...

                              Érico Veríssimo.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 124.

Entendendo o conto:

01 – Como as atitudes e os pensamentos de Clarissa ao longo do fragmento revelam a transição entre a infância e a juventude, destacando a sua inocência e imaginação?

      A inocência e a imaginação de Clarissa transparecem na forma poética e lúdica como ela realiza uma tarefa simples do cotidiano. Ela fantasia que o milho jogado é "ouro, muito ouro", compara o peru a um "rei" e projeta sentimentos humanos nos animais (questiona se o peru não come por "orgulho" e julga o galo por não ser "delicado com as mulheres"). Essas reflexões mostram a mente de uma jovem imaginativa que observa o mundo ao seu redor com fascínio, curiosidade e um olhar puro, ainda muito ligado ao universo infantil.

02 – No trecho em que o galo intervém no grupo de galinhas ("-- Bruto – pensa Clarissa. – Um homem deve ser delicado com as mulheres."), ocorre o recurso estilístico da antropomorfização. Explique como esse recurso é utilizado e qual é a reflexão que a personagem faz logo em seguida.

      A antropomorfização ocorre quando Clarissa atribui comportamentos e normas morais humanas ao galo, julgando a violência de suas atitudes na disputa pelo milho como se ele fosse um homem que deveria ser "delicado com as mulheres". Logo em seguida, ela quebra essa projeção ao tomar consciência da realidade: percebe que "o galo não entende a língua dos homens" e que no "mundo do galinheiro decerto não há etiqueta", reconhecendo a diferença entre as convenções sociais humanas e o instinto animal.

03 – O texto de Erico Verissimo destaca-se pela riqueza de imagens sensoriais e onomatopeias. Identifique dois exemplos do fragmento — um auditivo e um visual — e explique como eles contribuem para a construção da cena.

      Exemplo Auditivo: A onomatopeia do início ("-- PRRRR-PI-PI!" e "P’ru! P’ru! P’ru!") e os verbos de som ("cacarejar miúdo", "piam desconsoladamente"). Esse recurso reproduz os ruídos do quintal e o dinamismo da comunicação de Clarissa com as aves.

      Exemplo Visual: A descrição das cores e do ambiente ("sombras da casa", "grãos dourados", "galo de crista escarlate").

      Esses elementos enriquecem o texto ao criar uma atmosfera realista e vibrante, permitindo que o leitor "ouça" o tumulto do galinheiro e "veja" o contraste de cores ao entardecer no pátio.

04 – No final do texto, Clarissa reflete sobre o uso de expressões populares como "pé-de-galinha" e "rabos-de-galo". O que essas reflexões revelam sobre a relação da personagem com a linguagem e a observação da vida?

      Essas reflexões revelam a postura investigativa e poética de Clarissa perante o mundo. Em vez de aceitar as metáforas populares de forma automática, ela para, para analisar a origem e a estranheza das associações entre elementos da natureza (as aves) e a vida humana/fenômenos naturais (as rugas dos olhos e o formato das nuvens no céu). A conclusão de que "tudo na vida é tão engraçado" demonstra sua capacidade de se encantar com a linguagem e com as peculiaridades do cotidiano.

05 – Como o tempo cronológico e a ambientação espacial são apresentados no início do fragmento e de que maneira eles influenciam o ritmo da narrativa?

      O tempo cronológico é marcado pelo final da tarde ("Tardinha", "O céu empalidece", "A sombra da casa vai aos poucos avançando"), e o espaço é o pátio/quintal de uma casa rural ou interiorana. Essa ambientação cria um ritmo inicial calmo e contemplativo que é momentaneamente interrompido pelo "espetáculo tumultuoso" das galinhas buscando o alimento. À medida que a tarefa termina, o ritmo volta a desacelerar, permitindo que a narrativa acompanhe o estado de tranquilidade e reflexão de Clarissa ("Clarissa acocora-se [...] já cumpriu sua obrigação").

 

 

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