domingo, 23 de agosto de 2026

CRÔNICA: AO PERDEDOR, AS LATINHAS - ROGÉRIO MENEZES - COM GABARITO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Crônica: Ao perdedor, as latinhas

                Rogério Menezes

Nem a mais visionária das mães-dinás poderia imaginar: o ofício de catador de latinhas tornou-se uma profissão como outra qualquer. Com os ecos da crise econômica se abatendo sobre todos nós, o zé-povinho precisa usar a criatividade para continuar vivo – ou, pelo menos, emitindo alguns, ainda que mínimos, sinais vitais. Resultado: à Lavoisier, o lixo metálico produzido pelas classes A, B, C e D ajuda a comprar brioches para alimentar a classe Z, aquele lumpesinato que cada vez aumenta mais de consistência e volume nas grandes e pequenas cidades do país.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvl4yp2lxOqa-UmNsY2OM5d8OYDOw8jOBqA2kg82qp-fpyeUsjITraCo-_WCtvTEOICzvmHob1Z1olau8gUFy5UYMdIUCkOFTlyyC7X09WFTKo25JPJUaUFyq8LlEdh3I4xv9Z5fmHUyHGnCEwV9Y-_cKayNuva20aaNNrWk6qomQH_eQCVmi7Zb9xQUo/s320/LATINHAS.jpg


Carnaval é festa esperada com ansiedade por essa nova categoria de profissionais que os IBGEs da vida ainda não catalogaram. Nada mais justo: nesse período, de alto consumo de produtos armazenados em invólucros de alumínio, tiram o pé da lama. E o que se viu por aí, pelas ruas do país, foi um aguerrido exército, sempre à espreita para catar aquela latinha que, displicentemente, alguém acabou de jogar no chão.

Não existe limitação de idade para o exercício da profissão de catador de latinhas. Também não exige formação específica, nem o ensino fundamental completo, nem rudimento de alfabetização. O básico para se tornar exímio profissional do setor é aquela condição humana que nos leva a fazer seja lá que diabo for para não virar comida de abutres.

Salvador, no Carnaval, uma das maiores usinas de geração de latinhas de cerveja e refrigerantes do planeta, é a Meca, o lugar ideal, a cidade dos sonhos de todos esses valentes profissionais que vivem das sobras do lixo ocidental: a Las Vegas deles.

Os catadores de latinhas podem ser família completa: pai, mãe e muitos filhos, todos imersos na faina diária de coletar o maior número possível de peças de alumínio para revenda. Ao final de suada semana de trabalho, podem faturar talvez R$5, talvez R$10, o que pode parecer pouco para gente como a gente, que está na base da pirâmide invertida, também conhecida como elite. Para eles, não. Serve ao menos para adiar a morte por fome, bala ou vício.

No Carnaval de Salvador, o espaço nobre para os catadores de latinhas é aquele, virtual, criado entre a passagem de um bloco de trio e outro. Em ritmo de emboscada, espremidos entre as paredes dos prédios e a multidão que saracoteia ao redor, mergulham sem medo no lixo alumínico recém-jogado e enchem muitos sacos com as cobiçadas peças.

Ser catador de latinhas pode parecer fácil, mas não é. O.k., não precisa de exame vestibular. Muito menos daquela série de documentos que se costuma exigir quando somos admitidos em algum emprego. Mas o exercício dessa profissão requer rapidez, agilidade, disposição física, fôlego e certo estoicismo. Afinal de contas, não deve ser muito reconfortante para o ego viver das sobras do lixo produzido por outros homens, aparentemente tão filhos de Deus quanto.

De qualquer forma, não será de todo absurdo se, da próxima vez que perguntarmos a alguma criança da periferia das metrópoles o que gostaria de ser quando crescer, ouvirmos: “Quero ser catador de latinhas, tiô!”

(Rogério Menezes, Revista Época de 19 de março de 2001)

 Entendendo o texto

 01.              Qual é o foco narrativo empregado pelo autor na crônica e como ele se posiciona em relação aos sujeitos do texto?

a.                   a. Foco em 1ª pessoa do singular (narrador-personagem que cata latinhas).

b.     Foco em 3ª pessoa onisciente e neutra, sem emissão de juízos de valor ou ironias.

c.      Foco em 3ª pessoa observadora, utilizando a 1ª do plural para incluir o leitor na elite.

d. Foco em 2ª pessoa do plural, direcionando a narrativa como um manual de instrução.

  

02.              Como se caracterizam os conceitos de tempo e espaço na crônica de Rogério Menezes?

a.   Tempo histórico contemporâneo (período carnavalesco) focado no espaço urbano de Salvador.

b.   Tempo cronológico indeterminado do século XIX em um espaço rural.

c.   Tempo futuro utópico situado em uma metrópole estrangeira futurista.

d.   Tempo psicológico focado nas memórias da infância do autor em São Paulo.

 03.              De que maneira as 'personagens' (os catadores de latinhas) são construídas no texto?

a.   Como empresários formais devidamente cadastrados nos órgãos do governo.

b.   Como uma coletividade marginalizada, retratada ironicamente como 'valentes profissionais'.

c.   Como indivíduos com nomes próprios, falas desenvolvidas e biografias detalhadas.

d.   Como vilões da sociedade que atrapalham a organização da festa carnavalesca.

 04.              Qual é a temática central e a intenção crítica do autor na crônica?

a.   A exaltação do avanço tecnológico da reciclagem do alumínio no Brasil.

b.   A desigualdade social severa que transforma a extrema pobreza e a cata de lixo em estratégia de sobrevivência.

c.   A abolição das festas de Carnaval devido à sujeira gerada nas ruas.

d.   A defesa de exames de seleção rigorosos para o trabalho informal de cata de material.

 

05.              A expressão 'Ao perdedor, as latinhas' faz uma alusão irônica à célebre frase machadiana 'Ao vencedor, as batatas!'. O que essa adaptação expressa no contexto do texto?

a.   Que a vitória no Carnaval depende de quem junta mais lixo acumulado.

b.   Que o consumo de bebidas em lata deve ser banido das metrópoles.

c.   Que a competição social deixa aos marginalizados apenas os restos e sobras da sociedade de consumo.

d.   Que os catadores são vitoriosos no mercado financeiro global.

       06.               No texto, o autor chama os catadores de "exército" e diz que o Carnaval em Salvador é a "cidade dos sonhos" ou a "Las Vegas" deles. Por que o autor usa essas palavras para falar de um trabalho tão duro? O que ele quer mostrar sobre a vida dessas pessoas?

Usa essas palavras com ironia (uma espécie de deboche crítico). Ele usa esses termos exagerados para chamar a atenção do leitor para injustiça social, mostrando como é triste ver a extrema pobreza ser tratada como se fosse um “emprego dos sonhos”.

 

07.              O texto diz que para ser catador de latinhas não precisa ter estudo nem documentos, mas é preciso ter força física e "certo estoicismo" (capacidade de aguentar firme as dificuldades sem reclamar). Segundo a crônica, por que essa profissão é difícil não só para o corpo, mas também para o sentimento (o ego) do catador?

A profissão é difícil para o sentimento porque o catador precisa engolir o orgulho e lidar com a humilhação de viver das sobras e do lixo das outras pessoas.

Enquanto uns estão se divertindo e gastando na festa, ele precisa recolher o que foi jogado no chão para conseguir apenas alguns reais e não passar fome.

 

08.              Na última frase da crônica, o autor imagina uma criança da periferia dizendo: “Quero ser catador de latinhas, tiô!”. O que essa frase mostra sobre o futuro e os sonhos das crianças mais pobres que vivem na periferia?

Mostra que as crianças mais pobres têm poucas oportunidades de estudo e de trabalho no futuro. Por falta de opção e de ajuda do governo, elas acabam vendo a catação de latinhas como a única profissão possível para crescer e sobreviver, o que é uma crítica do autor à falta de um futuro melhor para essa juventude.

 

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