quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONTO: PITU CONVERSA COM OS PEIXES - ELIAS JOSÉ - COM GABARITO

 Conto: PITU conversa com os peixes

          Elias José

        Vocês quatro são meus amigos. Gosto de trocar a água, colocar um pouco de comida, pôr a planta aquática para dar mais beleza pra vocês e pro aquário. A água está limpinha, agora, não é mesmo? Daqui de fora parece até que não existe vidro, o aquário está limpinho. Eu gosto muito de vocês quatro, muito mesmo. Minha mãe fica implicando, diz que eu, com esta minha mania de ficar muito tempo olhando vocês, acabo pondo mau-olho. Já meu pai acha que vou pôr é quebranto, pois olho com muito amor. Se eu pudesse, entrava dentro do aquário e ficava nadando com vocês. Mas olhem o meu tamanho, não dá pé. eu também gosto de nadar, mas quando vou aprender a virar estas piruetas todas como vocês? Acho que nunca. Gente não sabe nadar como os peixes, o que é uma pena! Nem tem graça o corpo de gente nas águas. Peixe, sim, é que nada bonito. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgp7PlZ57pwzLr7aZq3nE3rc6cxzyAmALGVXj3dyY8EDJWosi7NutjfiqpORTFr4NOGSRIgeQ1hKFY-TYGxQMEXJTdgfSJRp-179nj9xe4K_72WjW-xTepivbYGwhitzfvj3sQmjl0KWUy23o4GbIEAk2RgofusI33ZsXGtOWBvwRYEE5fiz2WJhfgjR5Q/s1600/images.jpg


Fico tempo observando os lambaris do Corguinho e eles são muito ágeis, vão pra lá e pra cá, mexem na terra, se escondem nos ramos, mergulham. Mas não fiquem tristes porque falo deles, vocês são bem mais bonitos. A cor dos lambaris é meio prateada, bate o sol e mistura com a água, fica muito bonito. Mas vocês dois vermelhinhos e vocês outros dois, pretinhos, são muito mais bonitinhos. Quando os quatro estão se mexendo na aquário e as cores se misturando, fica mais bonito que arco-íris. E arco-íris é uma coisa maravilhosa! Mais bonito mesmo, só vocês quatro aí. Engraçado, tem um menino novo no Grupo, que veio da escola da roça, que não fala arco-íris e, sim, arco-da-velha. Fica parecendo coisa triste, vocês não acham? Se fosse arco-da-menina ainda passava. O arco-íris, como tudo que é colorido, é tão bonito. Não é mesmo bonito? Engraçado, peixe devia falar, responder às perguntas da gente. então, eu ficaria sabendo se vocês gostam mesmo de ficar presos aí dentro. Dona Cláudia diz que tem dó de peixes e pássaros presos. Que os peixes foram feitos para o tamanho do mar, que até os peixes de rio ela acha triste, quanto mais os de aquário. Passarinho, então, a maldade é maior, porque o mundo todo está aberto para eles. Papai, quando ouviu dona Cláudia falar isto, disse que ela estava querendo fazer os animais sentirem como gente e isto era besteira. Engraçado ele falar assim, porque também ele não gosta que a gente prende passarinho. O louro ele não importou, mas nunca deixou a gente prender em gaiola. Com peixe ele não deve se importar, pois não fala nada de mal ou de bem de vocês. Minha mãe disse que eu podia ficar com vocês, mas ela não tinha tempo de cuidar, trocar água, dar comida e tudo. Até que quando esqueço, ela faz, até sem reclamar. Acho que é porque ela também gosta muito de vocês. Sempre ela também para e fica olhando muito tempo ou fica batendo de fora quando algum parece dormir. Ela até ficou triste quando os dois amiguinhos de vocês morreram. Ela vive me falando para não dar muita comida porque a barriguinha de vocês é pequena e explode e, então, adeus peixinhos queridos.

Elias José. As curtições de Pitu. São Paulo: Melhoramentos, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, 1976.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 140.

Entendendo o conto:

01 – O conto é estruturado predominantemente como um monólogo dirigido aos peixes do aquário. Explique de que forma o foco narrativo em 1ª pessoa e a ausência de resposta dos interlocutores contribuem para caracterizar a intimidade e a imaginação do personagem Pitu.

      O foco narrativo em 1ª pessoa coloca o leitor diretamente em contato com o fluxo de pensamentos e sentimentos de Pitu. Como seus interlocutores (os peixes) são seres inanimados à linguagem humana e não respondem, a conversa se torna um monólogo subjetivo. Esse recurso explicita a afetuosidade, a sensibilidade e a rica imaginação do garoto, que projeta em seus animais de estimação sentimentos, cúmplices de dúvidas existenciais e reflexões cotidianas sobre sua família e o mundo.

02 – No trecho, Pitu menciona a opinião de Dona Cláudia e a reação de seu pai sobre a criação de peixes e pássaros presos. Compare a visão de Dona Cláudia e a do pai de Pitu a respeito da relação entre seres humanos e animais.

      Dona Cláudia adota uma postura empática e de antropomorfização dos animais, acreditando que mantê-los presos os priva de sua natureza e liberdade ("os peixes foram feitos para o tamanho do mar"). Já o pai de Pitu assume uma postura mais pragmática e racional, alegando que é "besteira" querer fazer com que os animais sintam e raciocinem como gente. Contudo, o texto sugere uma contradição no pai, pois, embora critique a ideia de Dona Cláudia, ele próprio proíbe a prisão de pássaros em gaiolas.

03 – O texto do conto utiliza uma linguagem bastante informal e espontânea. Identifique dois exemplos de expressões coloquiais ou construções típicas da linguagem oral presentes no texto e explique qual efeito elas produzem na narrativa.

      Dois exemplos de marcas de oralidade são:

      Expressões e construções populares: "não dá pé" (indicando limitação física/tamanho), "pôr mau-olho" ou "quebranto", e "Gente não sabe nadar..." (omissão do artigo definido antes do substantivo);

      Repetição da conjunção e advérbio interrogativo: O uso frequente de "Engraçado..." e de perguntas retóricas para conduzir o próprio raciocínio ("vocês não acham?", "Não é mesmo bonito?").

      Esses recursos conferem verossimilhança ao texto, aproximando o registro do narrador-personagem da fala natural de uma criança brasileira.

04 – Pitu reflete sobre a expressão usada por um novo colega da escola ao se referir ao arco-íris: "Engraçado, tem um menino novo no Grupo, que veio da escola da roça, que não fala arco-íris e, sim, arco-da-velha." O que esse trecho revela sobre a variação linguística e sobre a percepção poética do garoto?

      O trecho evidencia o fenômeno da variação linguística regional e cultural (o termo "arco-da-velha", trazido pelo menino que veio da roça). Ao mesmo tempo, revela a sensibilidade poética de Pitu, que analisa a carga semântica e emocional das palavras: para ele, a palavra "velha" traz uma conotação triste para algo tão bonito e colorido quanto o fenômeno do arco-íris, sugerindo que "arco-da-menina" seria um nome mais adequado.

05 – Embora a mãe de Pitu afirme inicialmente que não tem tempo para cuidar dos peixes, suas atitudes ao longo do conto demonstram o contrário. Como a conduta da mãe revela seu afeto indireto pelos animais?

      A mãe demonstra afeto pelos peixes de forma indireta por meio de ações de cuidado e preocupação: ela assume a limpeza do aquário e a alimentação quando o filho se esquece; para diante do aquário para observá-los; bate no vidro para checar se estão bem quando parecem dormir; demonstra tristeza genuína quando dois peixes morreram e orienta carinhosamente Pitu a não exagerar na ração para não machucar os animais ("a barriguinha de vocês é pequena e explode").

 

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