Artigo de opinião: Crenças primitivas
Marcelo
Coelho
SÃO
PAULO – O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, sai
sem dúvida fortalecido depois de 11 dias na prisão. Sua foto atrás das grades,
lendo a Bíblia, não poderia deixar de ser vista por seus adeptos como uma
espécie de martírio religioso; sabe-se, ademais, que as crenças e seus líderes
ganham popularidade quando perseguidos pela lei.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhj4gzrzbv32FQtXjBNnCIpDB1qC4ZvbvE0Jftg6gB08KAhe91p6ZLrVWsnAhSzpnzzC-kcuH0Uc8HlsIVksw_UnWPYeGl0yVqkzdV_AomIjWdxTLhzPq02PO9SZmOttQnkP0tmoTmOJoDTwHVTUUSmbABla5CW_xOP_ZZtKluGT6lhScfS22uxoauG1Rs/s320/images.jpg As
acusações que pesam sobre Macedo – charlatanismo, curandeirismo e estelionato –
terão ainda de ser examinadas pela Justiça. O processo envolve questões
complexas, como a da liberdade de religião, e a de em que os métodos utilizados
pelo bispo para angariar seus fundos diferem dos de outros cultos.
Há,
entretanto, dois aspectos neste episódio que transcendem o julgamento que se
faça sobre as atividades de Edir Macedo. O primeiro é o da crescente demanda
por todas as formas de crença que prometem alívio prático para as mazelas da
existência, sem sutilezas teológicas; curas e milagres, em pleno final do
século 20, são procurados sofregamente, paga-se por isso, e religiões mais
cautelosas na mistificação tendem a perder adeptos. O fato pode ser
desalentador, mas é dificilmente evitável.
O
segundo aspecto é o de que, na prisão de Edir Macedo, transparece um desejo
bastante generalizado nos dias que correm: o de ver pessoas famosas na cadeia.
A impunidade geral como que atiça a opinião pública para ver alguém importante
literalmente atrás das grades. Como as execuções públicas no século passado, a
prisão é hoje uma espécie de espetáculo. Ainda que a ideia da privação de
liberdade seja em muitos casos considerada anacrônica do ponto de vista penal,
são muitos os que lamentam, sem dúvida, o fato de esse espetáculo ser tão raro
no Brasil. E tanto a crença em curas milagrosas quanto o fascínio que a ideia
de cadeia exerce na população – para nada dizer da pena de morte – talvez
derivem de um mesmo primitivismo ideológico.
Folha de S. Paulo, 6/6/92.
Entendendo o artigo:
01 – Segundo o
autor, por que a prisão do bispo Edir Macedo acabou fortalecendo sua imagem
perante seus seguidores?
Porque a imagem
do bispo atrás das grades lendo a Bíblia foi interpretada por seus adeptos como
uma forma de martírio religioso. Além disso, líderes e crenças frequentemente
ganham popularidade e apoio quando são perseguidos pela lei.
02 – Quais eram as
acusações jurídicas que pesavam contra Edir Macedo e por que o processo
envolvia questões complexas?
As acusações eram
de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. O processo era complexo por
envolver discussões sobre a liberdade religiosa e a dificuldade de diferenciar
os métodos de arrecadação de fundos da Igreja Universal dos métodos utilizados
por outros cultos.
03 – Qual é o
primeiro aspecto transcrito pelo autor a respeito do crescimento de certas
práticas religiosas no final do século XX?
O crescimento da
busca por religiões que prometem alívio prático para os problemas da vida
cotidiana (como curas e milagres imediatos), sem grandes aprofundamentos ou
sutilezas teológicas, fazendo com que religiões mais cautelosas perdessem
fiéis.
04 – Como o autor
explica o fascínio da opinião pública pela prisão de figuras famosas e
importantes?
O fascínio ocorre
devido ao sentimento generalizado de impunidade na sociedade. Diante disso, a
prisão de alguém famoso passa a ser consumida como uma espécie de
"espetáculo" público (semelhante às execuções públicas do século
anterior).
05 – Qual é a
relação que o autor estabelece entre a fé em milagres e o desejo da população
por punições como a prisão e a pena de morte?
Marcelo Coelho
sugere no final do texto que tanto a crença em curas milagrosas quanto o
fascínio pelo encarceramento de figuras públicas derivam de um mesmo
"primitivismo ideológico", ou seja, de uma busca por soluções
simples, mágicas ou imediatas para problemas humanos e sociais complexos.
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