Crônica: Os Teixeiras moravam em frente
Rubem Braga
Para não dar nome certo digamos assim:
os Teixeiras moravam quase defronte lá de casa.
Não tínhamos nada contra eles: o velho,
de bigodes brancos, era sério e cordial e às vezes até nos cumprimentava com
deferência. O outro homem da casa tinha uma voz grossa e alta, mas nunca
interferiu em nossa vida, e passava a maior parte do tempo em uma fazenda fora
da cidade; além disso seu jeito de valentão nos agradava, porque ele torcia
para o mesmo time que nós.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2MY-d32tuKnRG0X0tlOuNUzZG4iOPWCNJzPZIcrxW6mJNrou4m0tu6toJCkvO4nfEWubZw1IKM5Aqw4xy4IN-IYrKdFu-BRH_0B1vTytGd_nIYigFTcVTqOuUzVCHjOKawjWT0oMG4MONp8wNYD4VsRh-TFujqp9druE0-HDpDvugGHBIEK7FPdGMml4/s320/images.jpg Mas havia as Teixeiras. Quantas eram,
oito ou vinte, as irmãs Teixeira? Sei que era uma casa térrea muito, muito
longa, cheia de janelas que davam para rua, e em cada janela havia sempre uma
Teixeira espiando. Havia umas que eram boazinhas, mas em conjunto as irmãs
Teixeiras eram nossas inimigas, acho que principalmente as mais velhas e mais
magras.
As Teixeiras tinham um pecado
fundamental: elas não compreendiam que em uma cidade estrangulada entre morros,
nós, a infância, teríamos de andar muito para arranjar um campo de futebol; e,
portanto, o nosso campo natural para chutar uma bola de borracha ou de meia era
a rua mesmo.
Jogávamos descalços, a rua era calçada
de pedras irregulares (só muitos anos depois vieram os paralelepípedos , e eu
me lembro que os achei feios, com sua cor de granito, sem a doçura das pedras
polidas entre as quais medrava o capim; e achei o nome também horroroso,
insuportável, paralelepípedos, nome que o prefeito dizia com muita importância,
parece que a grande glória de Cachoeiro e o progresso supremo da humanidade
residia nessa palavra imensa e antipática – paralelepípedos); mas, como eu ia
dizendo, a gente dava tanta topada que todos tínhamos os pés escalavrados: as
plantas dos pés eram couro grosso, e as unhas curtas, grossas e tortas,
principalmente do dedão e do vizinho dele. Até ainda me lembro de um pedaço do
“campo” que era melhor, era do lado da extrema direita de quem jogava de baixo
para cima, tinha uma pedra grande, lisa, e depois um meio metro só de terra com
capim, lugar esplendido para chutar em gol ou centrar.
Tenho horror de contar vantagem, muita
gente acha que eu quero desmerecer o Rio de Janeiro contando coisas de
Cachoeiro, isto é uma injustiça; a prova aqui está: eu reconheço que o Estádio
do Maracanã é maior que o nosso campo, até mesmo o Pacaembu é bem maior. Só que
nenhum dos dois pode ser tão emocionante, nem jamais foi disputado tão palmo a
palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada, às vezes tapa a tapa.
Não consigo me lembrar se a marcação
naquele tempo era em diagonal ou por zona; em todo caso a técnica do futebol
era diferente, o jogo era ao mesmo tempo mais cavado e mais livre, por exemplo:
não era preciso ter onze jogadores de cada lado, podia ser qualquer número, e
mesmo às vezes jogavam cinco contra seis pois a gente punha dois menores para
equilibrar um vaca-brava maior.
Eu disse que as partidas eram
emocionantes; até hoje não compreendo como as Teixeiras jamais se entusiasmaram
pelos nossos prélios. Isso foi um erro, e na semana que vem eu contarei por
quê.
Abril, 1953. Rubem Braga. 200 crônicas escolhidas. 17. ed. Rio de
Janeiro, Record, 2001. p. 263-266.
Fonte: Língua
Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C.
Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição –
São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 30.
Entendendo a crônica:
01
– Com base no texto, descreva como o narrador percebia a família Teixeira. Qual
era a diferença entre a visão que as crianças tinham dos homens e das mulheres
da casa?
O narrador e seus
amigos tinham uma relação neutra a simpática com os homens da família, enquanto
viam as mulheres (as irmãs Teixeiras) como inimigas. O velho da casa era visto
como sério, cordial e respeitoso; o outro homem, apesar do jeito de
"valentão" e da voz alta, agradava aos meninos por torcer para o
mesmo time de futebol. Já as irmãs Teixeiras, descritas como numerosas e sempre
espiando pelas janelas, eram vistas como adversárias da infância,
principalmente as mais velhas e magras, por não tolerarem os jogos de futebol
na rua.
02
– Qual era o "pecado fundamental" das irmãs Teixeiras segundo o
narrador e por que, no contexto geográfico da cidade, o futebol de rua era
inevitável para os meninos?
O "pecado
fundamental" das irmãs Teixeiras era a falta de empatia e compreensão com
as crianças da rua. Elas não entendiam a limitação geográfica do local: como a
cidade de Cachoeiro era "estrangulada entre morros", os meninos
teriam que andar distâncias muito longas para encontrar um campo de futebol
adequado. Assim, a própria rua se tornava o único espaço natural e viável para
que jogassem bola.
03
– Como o narrador descreve as condições físicas do "campo de futebol"
e os impactos do jogo no corpo das crianças? Cite elementos da linguagem
descritiva do autor.
O campo de
futebol era a própria rua, calçada com pedras irregulares. O jogo era bruto e
cobrava um preço físico: as crianças jogavam descalças, sofriam constantemente
com topadas e tinham os pés "escalavrados", com solas de couro grosso
e unhas curtas, grossas e tortas. Apesar dessas condições adversas, o narrador
guarda memórias afetivas detalhadas do espaço, como um trecho de pedra lisa com
meio metro de terra e capim que era considerado o "lugar esplêndido para
chutar em gol".
04
– No texto, o autor faz uma crítica sutil ao conceito de "progresso"
ao comparar o antigo calçamento da rua com a chegada dos paralelepípedos.
Explique como essa comparação revela a nostalgia do narrador pela infância.
A chegada dos
paralelepípedos é apresentada como o "progresso supremo" e a
"glória" sob a ótica do prefeito da cidade, mas para o narrador
criança tratava-se de algo feio, frio e antipático. O narrador preferia o
calçamento antigo de pedras polidas e irregulares entre as quais nascia o
capim, revelando que a visão infantil valoriza o afeto, a natureza e a
organicidade do espaço brincável, enquanto a ideia de modernização/progresso
dos adultos descaracterizava a doçura do ambiente de sua infância.
05
– Em tom bem-humorado e ironicamente ufanista, como o narrador compara o campo
da rua de sua infância aos grandes estádios do Brasil, como o Maracanã e o
Pacaembu?
O narrador
reconhece objetivamente que o Maracanã e o Pacaembu são maiores do que o campo
da sua infância, mas argumenta que nenhum desses grandes estádios jamais foi
tão emocionante quanto a rua onde jogavam. Segundo ele, as partidas da infância
eram mais disputadas "palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada
a canelada", enfatizando o caráter vivo, apaixonado e visceral do futebol
de rua em comparação ao futebol formal.
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