Crônica: O que é Então?
Lima Barreto
Conheço
de nome, o senhor Múcio da Paixão, há muitos anos. Não há revista de teatro,
daqui e dos Estados, onde não se encontre sempre alguma coisa dele...
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7d4VC8tiKbNG2_W1vAkEmvesfMM97vrfJ0UAZyH27bwTnQlRkCeYJ7HoPITgBDRM_bY8mAPDvkX-OFPgfPgwQr1DpPzT6GuI2p1jRsRJCQzvEZJH4pNcJeiNdOOxeFouQHoCR4UvE6BYMLhVB6Cpy2y_30DFUoMIZJyAgwVddF02vwd0EzviUtCXciCw/s320/images.jpg Habituei-me
a estimá-lo por esse profundo e constante amor as coisas da ribalta. Gosto dos
homens de uma única paixão. Não é pois, de estranhar que tivesse lido, há dias
na Gazeta do Povo, de Campos, com todo o interesse um artigo seu
sobre uma troupe sertaneja que andou por aqui, estando na ocasião
naquela cidade. Li-o com tanto interesse quanto a leitura de um outro jornal da
rainha da Paraíba me havia deixado uma desagradável impressão. É o caso
que A Notícia de lá anunciava o furto de 1:500$000 feito a uma
quitandeira espanhola, com o título – “Um grande roubo”. Imaginei
logo a bela cidade do açúcar dos ministeriais Meireles Zamiths & Cia, muito
pobre a ponto de classificar tão pomposamente um modestíssimo ataque a
propriedade alheia. Abandonando a “A Notícia”, e encontrando no então
jornal campista, o artigo do senhor Múcio, apressei-me em lê-lo para esquecer
o julgamento desfavorável que fizera antes.
O
senhor Múcio gabara muito a troupe, tinha palavras carinhosas para os
sertanejos de todas as partes do Brasil, mesmo para aqueles da turma em
espetáculos na cidade, que tocavam nas violas a Cavalaria Rusticana e
a Carmen. Só ao tratar da cidade do Rio de Janeiro, é que o senhor Múcio
foi áspero. Classificou-a de – a menos brasileira das nossas cidades. Eu
quisera bem que o escritor campista me dissesse as razões de tal julgamento.
Será pela população? Creio que não...
O
último recenseamento desta cidade, feita pelo Prefeito Passos, em 1890, acusava
para ela a população total de 811.443 habitantes, dos quais 600.928 eram
brasileiros e os restantes 210.515, estrangeiros. Não se pode, creio eu, dizer
que uma cidade não é brasileira quando mais de dois terços de sua população o
são. Convém ainda reparar que, no número dos estrangeiros, estão incluídos
133.393 portugueses, mais da metade do total de forasteiros, fato de notar,
pois os lusitanos muito pouco influem para a modificação dos costumes e da
língua.
Se
não é na população que o senhor Múcio foi buscar base para a sua asserção, onde
foi então? Nos costumes? Mas que costumes queria o senhor Múcio que o Rio de Janeiro
tivesse? Os de Campos? Os da Bahia? Os de São Gabriel?
Julgo
que o confrade das margens do Paraíba tem bastante bom senso para ver que o Rio
de Janeiro só pode ter os costumes do Rio de Janeiro.
E
sou levado a pensar assim porque, nesse mesmo artigo seu, o ilustre colega
afirma que cada terra cria a sua poesia popular, etc., etc.
O
meu Rio a tem também e, se o estimado publicista lembrar-se dos trabalhos dos
estudiosos dessas coisas de folclore, como os senhores João Ribeiro e
Sílvio Romero, por exemplo, verão que eles têm registrado muitos cantos, muitas
quadras populares próprias ao Rio de Janeiro.
Poucas
informações tenho do esforçado escritor campista, mas imagino que ele conhece
muito mal o Rio de Janeiro. Quando vem por aqui adivinho, anda pela Rua do
Ouvidor, Avenida, Praia de Botafogo, por todos esses lugares que as grandes
cidades possuem para gáudio dos seus visitantes; mas o que constitui a alma, a
substância da cidade, o senhor Múcio não conhece e dá provas disso em sua
afirmação.
O
Rio de Janeiro é brasileiro a seu modo, como Campos é, como São Paulo é, como
Manaus é, etc. Nesta região, preponderaram tais elementos; naquela, houve uma
influência predominante, naquela outra, apagaram-se certas tradições e
avivaram-se outras; e assim por diante. Mas, um brasileiro de condição média
quando vai daqui para ali, compreende perfeitamente tais usanças locais, sejam
as do Rio Grande do Sul para as do Pará ou vice-versa. O nosso fundo comum é
milagrosamente inalterável e basta para nos entendermos uns aos outros.
Se
o Brasil não é o Rio de Janeiro, meu caro Senhor Múcio da Paixão, o Rio de
Janeiro também não é a Rua do Ouvidor. Não se deve, portanto, julgá-lo pela sua
tradicional via pública.
E,
se quiser ver, como isto é verdade, venha no mês que vem, assistir o carnaval.
Não só o senhor verá que o Rio tem muita coisa de seu, má ou boa como também
espontaneamente soube resumir as tradições e cantares plebeus do Brasil todo –
o que se vê durante os dias consagrados a Momo.
Um
observador como o senhor é, não há de admitir que só sejam brasileiros a sua
“mana-chica”, e o seu “carabas” de Campos e não seja o “cateretê” de São Paulo,
se é esse o nome que ali é dado aos saraus de sua gente pobre e rústica.
O
Rio de Janeiro é cidade bem brasileira, senão, o que é então? Diga-me, o senhor
Múcio da Paixão.
Lanterna, Rio, 22-1-1918.
Entendendo
a crônica:
01 – Como o narrador demonstra conhecer o
escritor Múcio da Paixão e qual é o sentimento que ele nutre por esse colega de
profissão?
O narrador afirma conhecer Múcio da Paixão de nome há muitos
anos, acompanhando sua presença constante em revistas de teatro de diversas
regiões do país. Ele revela que adquiriu o hábito de estimá-lo devido ao seu
"profundo e constante amor às coisas da ribalta", declarando uma
admiração sincera por homens movidos por uma única paixão.
02 – O que motivou o narrador a ler o artigo de
Múcio da Paixão publicado na Gazeta do Povo e qual contraste o levou a buscar
essa leitura?
O narrador foi motivado pelo interesse em acompanhar o
trabalho de Múcio sobre uma troupe sertaneja. Esse interesse surgiu como um
alívio e um contraste após ter tido uma impressão desagradável com uma notícia
de um jornal da Paraíba (A Notícia), que classificou pomposamente o furto
modesto de uma quitandeira espanhola como um "grande roubo",
demonstrando o empobrecimento editorial local.
03 – Qual foi a crítica específica feita por
Múcio da Paixão ao Rio de Janeiro que causou o inconformismo do narrador da
crônica?
A crítica que desagradou o narrador foi a afirmação de Múcio
de que o Rio de Janeiro seria "a menos brasileira das nossas cidades".
Lima Barreto se incomodou com esse julgamento pejorativo e passou a questionar
as bases em que o escritor campista se sustentou para fazer tal afirmação,
decidindo refutá-la com dados e argumentos socioculturais.
04 – De acordo com os dados apresentados por
Lima Barreto com base no recenseamento, como ele desqualifica o argumento
demográfico contra a brasilidade do Rio de Janeiro?
Lima Barreto utiliza o censo de 1890 (atribuído ao Prefeito
Passos) que indicava uma população total de mais de 811 mil habitantes, sendo
mais de 600 mil brasileiros — ou seja, mais de dois terços da população. Ele
argumenta que uma cidade com essa proporção não pode ser considerada "não
brasileira", destacando ainda que, entre os estrangeiros, a maioria
absoluta era de portugueses, cuja influência sobre a língua e os costumes
locais era mínima.
05 – O que o narrador quer dizer ao afirmar que
"Se o Brasil não é o Rio de Janeiro... o Rio de Janeiro também não é a Rua
do Ouvidor"?
Com essa frase, Lima Barreto aponta um erro comum de
perspectiva cometido por visitantes e observadores superficiais. Ele explica
que Múcio da Paixão mal conhece o Rio de Janeiro real, pois restringe sua
vivência aos cartões-postais e locais de agito burguês (como a Rua do Ouvidor,
a Avenida e a Praia de Botafogo). Para o cronista, a verdadeira alma e a
substância da cidade residem longe dessas vias tradicionais de exibição
turística.
06 – Como o carnaval carioca é utilizado por
Lima Barreto como prova da autenticidade e da brasilidade do Rio de Janeiro?
O narrador convida Múcio a assistir ao carnaval do mês
seguinte para comprovar que a cidade possui uma identidade própria marcante.
Segundo o cronista, durante os dias de Momo, o Rio de Janeiro não apenas exibe
suas próprias manifestações, mas também consegue resumir espontaneamente as
tradições e os cantares populares de todo o Brasil, integrando a cultura
plebeia nacional.
07 – Qual é o significado e o propósito da
pergunta que dá título à crônica ("O que é Então?") no encerramento
do texto?
O título e a pergunta final funcionam como um desafio
retórico e provocativo direcionado diretamente a Múcio da Paixão. Após
desconstruir os argumentos infundados sobre a suposta falta de brasilidade da
capital, Lima Barreto conclui a crônica exigindo que o colega apresente uma
justificativa coerente. Se o Rio de Janeiro — com sua população
majoritariamente nacional, sua folclorística própria e sua capacidade de
sintetizar a cultura do país — não for considerado uma cidade genuinamente
brasileira, o cronista ironicamente pergunta o que ele seria, afinal.
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