terça-feira, 15 de setembro de 2026

POEMA: SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO - MÁRIO QUINTANA - COM GABARITO

 Poema: SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

             Mário Quintana

 

Uma procissão de espantalhos,

pela miséria colorida,

pelos atalhos

vinha:

pediam vida, queriam vida!

E as suas caras eram trágicas

Porque tinham todas a mesma expressão

-- que era o mesmo que não terem

E tão insuportável era aquela cara única

que a polícia atirou em cima deles bombas

de gás hilariante.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg8RHFPiSXB2VlNnOjwQdhWBXYd9hYqKPQNwFATUR4SM2w5mPahid4db-byw-WfzseYuvAkIn4gGUj7infa4ZECtYTVQ_RQbOK-ZcB9_tfPagY7eOJ1-WZU5sT2UPHZTBKtDD0leZ8vlPsrruPkWcV6CPmAmWeP5-Ap7laUb939TkjrGSQqVPyblaqVvtM/s1600/images.jpg
  


Nenhum espantalho riu.

A procissão continuou,

a procissão está agora em plena Estrada Real

enquanto

pelos atalhos

por toda a parte

por cima dos gramados

por cima dos corpos atropelados

os automóveis fogem como baratas.

 

Mário Quintana. Caderno H. São Paulo, Globo.

 

Entendendo o poema:

01 – Nesse texto, a ideia da “procissão de espantalhos” ora é indicada por verbos e expressões no singular, para marcar sua união; ora por verbos e expressões no plural, para marcar a quantidade de espantalhos. Transcreva um exemplo de cada caso.

      “Pelos atalhos 'vinha'”; "pediam 'vida' ", “‘queriam' vida".

 

02 – Esse emprego no singular e plural é um desvio do padrão culto da língua, pois, optando-se por uma concordância, seria de esperar que ela se mantivesse. Analise o poema com atenção e explique se o desvio deve ser considerado um erro um ou recurso expressivo.

      Evidentemente, trata-se de um desvio estilístico, é um recurso expressivo utilizado INTENCIONALMENTE pelo autor, portanto não há indícios de erro gramatical, já que o autor o fez para expressar melhor o sentido do poema.

 

03 – O que representam a "procissão de espantalhos" e a sua "mesma expressão" trágica no contexto social abordado pelo poema?

      A "procissão de espantalhos" simboliza as populações marginalizadas, invisíveis ou empobrecidas da sociedade ("miséria colorida"). O uso da figura do espantalho remete a algo feito de trapos, sem vida real, colocado apenas às margens. A "mesma expressão" (ou ausência de expressão individual) representa a perda da identidade e a desumanização causadas pela extrema pobreza e pela exclusão social, transformando a massa de esquecidos em uma figura única, trágica e uniforme.

 

04 – Qual é o significado da reação da polícia ao atirar bombas de gás hilariante e do fato de que "Nenhum espantalho riu"?

      A atitude da polícia representa a tentativa do Estado de alienar, conter ou mascarar a dor social por meio de uma falsa leveza ou repressão ironicamente maquiada (o gás hilariante em vez de uma solução real para a "falta de vida"). A reação nula — "Nenhum espantalho riu" — demonstra a profundidade da tragédia e da dor daquelas pessoas: a miséria e a desesperança são tão absolutas que nem mesmo o efeito coercitivo ou ilusório do gás consegue forçar um riso artificial.

 

05 – Como a metáfora final dos "automóveis que fogem como baratas" dialoga com a diferença entre as classes sociais no poema?

      A metáfora estabelece um forte contraste entre a elite/classe média motorizada e os caminhantes marginalizados. Enquanto os "espantalhos" marcham a pé pedindo vida, os automóveis trafegam velozes "por cima dos corpos atropelados", demonstrando a indiferença e a crueldade do progresso urbano. A comparação dos carros a "baratas" inverte a lógica do status: o automóvel, símbolo de poder e modernidade, é reduzido a um inseto repulsivo que foge de forma desordenada para ignorar a realidade social ao seu redor.

 

 

 

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