terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA: SOBRE O FOOTBALL - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: SOBRE O FOOTBALL

            Lima Barreto

 

        Nunca foi do meu gosto o que chamam Sport, esporte ou desporto; mas quando passo longos dias em casa, dá-me na cisma, devido, certamente à reclusão a que me imponho volun­tariamente, ler as notícias esportivas, pois leio os jornais de cabo a rabo.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2z_ttI27QHZ4Gk9RgOjANdXl6fns3Awj7rJF5ZbGM2-Tl4xmnykr_-8DBNoxxe_wE83OHkWnEklEVhJruwPDHcU5Ed19RT9Yy_xG86pExMCp_OWt856z0GVfgbTO3Dwl39079fxY-fT0d1LSFYFSk6NbBSuJtDGldG8dPtbOu6wHVQhGm07wdKGvx0jU/s320/images.jpg 


        Nestes últimos dias, todas as notícias sobre um encontro entre jogadores de football daqui e de São Paulo, não me escaparam. Em começo, quando toparam meus olhos com os títulos espalhafatosos, sorri de mim para mim, pensando: estes meninos fazem tanto barulho por tão pouca coisa? Much ado about nothing... Mas, logo ao começo da leitura tive o espanto de dar com este solene período:

        “As acusações levantadas, então, por certa parte da imprensa paulista – manifestações que estamos já agora dispostos a esquecer, mas que não podemos deixar de rememorar – contra a competência e a honestidade do árbitro que ser­viu naquela partida, atribuindo à obra sua a vitória alcançada por nós, preparou o espírito popular na ânsia de uma prova provada de que, com este ou aquele juiz, os jogadores cariocas estão à altura dos seus valorosos êmulos paulistas e são capazes de vencê-los.”

        Diabo! A coisa é assim tão séria? Pois um puro divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apai­xonado a um escritor?

        Eu sabia, entretanto, pela leitura de Jules Huret, que o famoso match anual entre as universidades de Harvard e Yale, nos Estados Unidos, é uma verdadeira batalha, em que não faltam, no séquito das duas equipes, médicos e ambulâncias, tendo havido, por vezes, mortos, e, sempre, feridos. Sabia, porém, por sua vez, o que é o ginásio da primeira, verdadeiro sanatório de torturas físicas; que o jogo de lá é dife­rente do usado aqui, mais brutal, por exigir o temperamento já de si brutal do americano em divertimentos ainda mais brutais do que eles são. Mas nós?...

        Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e, sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não senhor! A coisa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas. Puro front! Vejam só este período:

        “As nossas armas, neste momento, são, pois, as da defesa, e da defesa mais legítima, respeitável, mais nobre possível porque ela assenta numa demonstração pública, esperada com cerca de trinta dias de paciência.”

        Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhece-lo; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligên­cias entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo de football. Acabei a leitura da cabeça e fiquei mais satisfeito. Tinha ela um tom menos apaixonado; tinha o ar dos finais das clássicas discussões jornalísticas sobre arrendamentos ou concessões de estradas de ferro e outras medidas da mais pura honestidade administrativa. Falava na “dura e bem merecida lição para certos jornalistas que não compreendem o espírito que deve mover as suas penas que malbaratam a honra alheia”, etc., etc.

        Continuei a ler a descrição do jogo, mas não entendi nada. Parecia-me todo aquilo escrito em inglês e não estava disposto a ir à estante, tirar o Valdez e voltar aos meus doces tempos dos “significados”. Eram só backs, forwards, kicks, corners; mas havia uma “chutada”, que eu achei engraçado. Está aí uma palavra anglo-lusa. Não é de admirar, pois, desde muito, Portugal anda amarrado à sorte da Inglaterra; e até já lhe deu muitas palavras, sobretudo termos de marinha: revolver vem de “revolver”, português, e commodoro de “comandante”.

        Passei o dia, pensando que a coisa ficasse nisso; mas, no dia seguinte, ao abrir o mesmo jornal e ler as notícias esportivas, vi que não. A disputa continuava, não no ground; mas nas colunas jornalísticas.

        O órgão de São Paulo, se bem me lembro, dizia que os cariocas não eram “cariocas”, eram hebreus, curdos, anamitas; enquanto os paulistas eram “paulistas”. Deus do céu! exclamei eu. Posso ser rebolo (minha bisavó era), cabinda, congo, moçambique, mas judeu – nunca! Nem com dois milhões de contos!

        Esta minha mania de seguir coisas de football estava a fornecer-me tão estranhas sensações que resolvi abandoná-la. Deixei de ler as seções esportivas e passei para as mundanas e para as notícias de aniversário. Mas, parece, que havia algum gênio mau que queria, com as histórias de football, dar-me tenebrosas apreensões.

        Há dias, graças à obsequiosidade de Benedito de Andrade, o valente redator do Parafuso e não menos valente diretor da A Rolha, mandou-me uma coleção deste último semanário, pelo que já lhe agradeci do fundo d’alma.

        Todos os dois magazines são de São Paulo, como sabem. Uma noite destas, relendo o número de 14 de julho, da Rolha, fui dar com a sua seção “esportiva”.

        Tinha jurado não ler mais nada que tratasse de tais assuntos; mas a isso fui obrigado naquele número da Rolha porque vi o título da crônica – “Rio versus São Paulo”. Admirei-me! Pois se o encontro de que já tratei, foi nos pri­meiros dias deste mês, como é que o Baby já o noticia quase um mês antes? Li e vi tratar-se de outro de que nem ti­vera notícias, e isso é tanto assim de notar que o autor da crônica deixa entender que todos nós tínhamos os olhos vol­tados para ele. Leiam isto:

        “Rio versus São Paulo – A Capital Federal está em festas. De vinte em vinte e quatro horas as fortalezas salvam, as bandas de música executam hinos festivos e nas diferentes sedes esportivas o champagne corre a rodo como se estivésse­mos festejando o último dia de guerra. Nas avenidas, praças, ruas e becos, homens já na casa dos cinquenta, matronas escondendo a primavera dos sessenta e crianças ainda mal de­sabituadas dos cueiros, só falam no grande acontecimento que encheu de júbilo um milhão e pouco de almas nascidas e domiciliadas na encantadora Sebastianópolis: a vitória do scratch carioca... Nas redações, os cronistas esportivos já não dormem há uma semana: são os cumprimentos, as telefonadas, os telegramas, os convites, para almoços e para jantares. Tudo isso... porque depois de dezoito anos de lutas o famoso scratch da Metropolitana conseguiu a sua terceira vitória.”

        Meu caro Baby: isto deve ser Bizâncio, no tempo de Justiniano, em que uma partida de circo, com os seus azuis e verdes”, punha em perigo o império; mas não o Rio de Janeiro. Se assim fosse, se as partidas de football entre vocês de lá e nós daqui, apaixonassem tanto um lado como o outro, o que podia haver era uma guerra civil; mas, se vier, felizmente, será só nos jornais e, nos jornais, nas seções esportivas, que só são lidas pelos próprios jogadores de bola adeptos de outros divertimentos brutais, mas quase infantis e sem al­cance, graças a Deus; dessa maneira, estamos livres de uma formidável guerra de secessão, por causa do football!

Brás Cubas, Rio, 15-8-1918.

Entendendo a crônica:

01 – O que leva o narrador, que afirma nunca ter sido partidário de esportes, a ler com atenção as notícias esportivas na imprensa?

      O narrador explica que lê sobre esportes apenas quando passa longos dias em casa devido a uma reclusão a qual se impõe voluntariamente. Nessas ocasiões de isolamento, seu hábito de ler os jornais "de cabo a rabo" faz com que acabe cruzando com essas editorias, gerando uma curiosidade momentânea sobre a repercussão pública dessas disputas.

 

02 – Qual foi a primeira reação do autor ao deparar-se com os títulos espalhafatosos e com a seriedade dos textos sobre a partida entre cariocas e paulistas?

      Inicialmente, o autor reagiu com um sorriso irônico, pensando que aqueles rapazes estavam fazendo "muito barulho por pouca coisa" (Much ado about nothing). No entanto, ao avançar na leitura e deparar-se com trechos que tratavam o jogo de forma excessivamente grave e passional, ele demonstrou grande espanto por ver um mero divertimento tratado com tanta hostilidade e combatividade.

 

03 – Que contraste o cronista estabelece entre o futebol praticado no Brasil e o esporte praticado nos Estados Unidos, conforme sua leitura de Jules Huret?

      O cronista reconhece que nos Estados Unidos, a partida anual entre Harvard e Yale é uma verdadeira batalha violenta — que envolve ambulâncias, feridos e até mortos —, reflexo do temperamento e do ambiente brutal do país e de seus ginásios. Em contrapartida, ele se espanta ao ver que, no Brasil, um esporte teoricamente lúdico e pacífico ("um jogo de bola jogado com os pés") também gerasse tanta paixão, ódios e termos bélicos na imprensa.

 

04 – O que o narrador pensa sobre o uso de termos estrangeiros na crônica esportiva e que curiosidade histórica ele aponta sobre isso?

      O narrador confessa não entender nada da terminologia técnica do esporte, achando que o texto parecia escrito em inglês devido ao uso excessivo de vocábulos como backs, forwards, kicks e corners. Ele diverte-se apenas com a palavra abrasileirada "chutada". Como reflexão histórica, ele observa que a adoção de termos estrangeiros não é de estranhar, lembrando que Portugal sempre esteve ligado à Inglaterra e incorporou termos marítimos britânicos ao seu vocabulário ao longo dos séculos.

 

05 – Qual foi a ofensa velada publicada por um jornal de São Paulo que provocou a indignação bem-humorada do autor?

      O jornal paulista publicou que os jogadores cariocas não eram propriamente "cariocas", mas sim "hebreus, curdos, anamitas", numa tentativa pejorativa de desqualificá-los. O autor reagiu com humor e espanto, afirmando que podia aceitar diversas origens ancestrais de sua árvore genealógica, mas recusava veementemente ser chamado de judeu ("Nem com dois milhões de contos!"), o que o levou a abandonar momentaneamente a leitura daquela seção.

 

06 – O que o semanário paulista A Rolha afirmava de forma exagerada sobre o clima na capital federal após a vitória do scratch carioca?

      O semanário ironizava o clima do Rio de Janeiro exagerando que a cidade estaria em festa máxima — com salvas de fortificações, bandas de música e champanhe correndo a rodo nas ruas —, como se a vitória do time carioca após dezoito anos de derrotas fosse o maior acontecimento histórico do mundo, envolvendo o júbilo de mais de um milhão de habitantes de todas as idades.

 

07 – A qual episódio histórico o autor faz referência ao comparar o fanatismo clubístico e qual conclusão final ele chega sobre os perigos reais dessas rivalidades?

      O autor faz referência ao Império Bizantino no tempo de Justiniano, época em que as disputas entre as facções de circo ("azuis e verdes") eram capazes de colocar o império em perigo. Contudo, concluindo sua crônica de forma irônica e aliviada, ele avalia que, no Rio de Janeiro, o fanatismo pelo futebol não passa de um divertimento infantil e restrito aos jornais, garantindo que a sociedade está livre de uma guerra civil ou de secessão por causa de uma partida de bola.

 

 

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