Conto: O segredo – Fragmento
Luiz Ruffato
VIII
O Professor acordou, ajoelhou-se
junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha azul, recitou o Credo e o
Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e escovar os dentes no
tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em direção à cozinha, parou
em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, arrumou o nó da gravata, compôs
melhor o paletó, passou os dedos longos e secos pelo cabelo e espantou-se com o
silêncio. Entrou na cozinha e Quede dona Conceição? Atônito, sentou-se à mesa
vazia. Em quinze anos, aquela era a primeira vez que a empregada não chegava no
horário.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgPfjPkBz6fSlC3alSBnfwKvQqp524XlnNME9i2_JN4H-U0O9yqQoZBrexcy8QWbut2Vcp1OH788jccI7CZwGWnhBTa8S3Y-ri7oNCbaqY-7o_PhVPQcnqDUiNZDfXD0x1UQh97RgL-3fYVskgDfguwwa7WlHew4DP9Zju4A_TI9IHvLvCpchyIigTrA04/s320/images.jpg Refeito,
deu de ombros, O que fazer?, encostou a porta e foi tomar o café da manhã na
cantina do Colégio. Às cinco para as seis, entrou em casa e, decepcionado,
constatou que a mulher não fora trabalhar naquele dia. Se quisesse jantar,
teria que se deslocar até o Bar Elite, Que amolação! Será que aconteceu alguma
coisa? Que nada, Ah, esse povo!, sempre tentando E agora o quê que vou comer?
Vamos ver E se.
Dia
seguinte, acordou, ajoelhou-se junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha
azul, recitou o Credo e o Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e
escovar os dentes no tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em
direção à cozinha, parou em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, E a dona
Conceição? "Dona Conceição! Ô dona Conceição!" Silêncio. Mas não é
possível! "Dona Conceição!" A cozinha vazia irritou-o profundamente.
Ê gente sem compromisso! Pegou a sovada pasta de couro, Depois mando embora vai
lamentar Cheio de gente aí fora Dá pena Mulher honesta Mas se não for assim
como, saiu pisando duro. Na calçada, um homem apeou da bicicleta e veio ao seu
encontro, "Professor?" Assustou-se, apertou o passo. "Professor?
O senhor é o Professor, não é? Sou vizinho da dona Conceição..."
"Ah!" Parou. "O senhor é o Professor, não é? Pois então! Tinha
certeza!, homem assim, que nem o senhor, só podia ser... O caso é que a dona
Conceição, ela mora lá no Beco do Zé Pinto, o senhor sabe..." "Sei,
sei". "Coitada, teve um troço lá, não veio trabalhar ontem, nem vai
poder trabalhar hoje não..." "Ô meu deus! Mas o quê que ela
tem?" "Uma macacoa besta lá... Preocupa não... Diz ela que
segunda-feira está de volta, se deus quiser..." "Então, não é nada
muito sério, não?" "Nada... Acho que não... Ela até mandou perguntar
pro senhor se tem roupa pra lavar. Se tiver, é só falar, eu levo, a comadre
dela cuida... Direitinho..." "Não, não... Segunda-feira ela volta,
então?" "Segunda-feira, se deus quiser..." "Qual é mesmo a
sua graça?" "Vanim. Vanim às suas ordens" "Pois bem, seu
Vanim, eu já estou meio atrasado... Vamos fazer o seguinte... Diga pra dona
Conceição que eu... estimo suas melhoras... E... quem sabe... Bom... E que eu
espero ela na segunda-feira..." Vanim sentou no selim da Monark laranja.
"De qualquer maneira, muito obrigado, senhor..." "Vanim. Vanim
às suas ordens!" O Professor mudou de calçada. Vanim pedalou alguns
metros, parou. "O senhor quer uma carona?, pode montar aí na garupeira,
levo o senhor..." "Não, meu rapaz, muito obrigado." "O
senhor é quem sabe... Precisando da gente..." E desapareceu no meio da
cerração.
01 – Qual é a rotina
matinal descrita do Professor antes de ele ir à cozinha?
O Professor
acorda, ajoelha-se junto a um pequeno nicho iluminado por uma luz azul para
rezar o Credo e o Pai-Nosso, vai ao quintal lavar o rosto e escovar os dentes
no tanque de roupas, veste o terno e arruma a gravata, o paletó e o cabelo em
frente ao espelho da chapeleira.
O silêncio na
casa e a ausência de dona Conceição, a empregada doméstica. Essa situação o
surpreende porque, em quinze anos de trabalho, foi a primeira vez que ela não
chegou no horário.
Ele fica
profundamente irritado com a cozinha vazia, chama por ela e faz julgamentos
sobre os trabalhadores ("gente sem compromisso"), pensando inclusive
em demiti-la, embora reconheça internamente que ela é uma mulher honesta.
Ele é abordado
por Vanim, um vizinho de dona Conceição. Vanim veio avisar que a empregada não
pôde ir trabalhar porque teve uma "macacoa" (estava doente), mas que
pretendia retornar na segunda-feira.
05 – Que atitude do Professor ao longo do texto evidencia seu distanciamento social em relação a Vanim e dona Conceição?
O Professor
demonstra um comportamento distante e preconceituoso: assusta-se ao ser
abordado na rua, muda de calçada durante a conversa, recusa a oferta de carona
na bicicleta de Vanim e demonstra preocupação excessiva apenas com os próprios
incômodos (onde comer, suas roupas e o atraso), mantendo uma postura de
superioridade em relação às pessoas mais simples.
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