terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA: AS FORMIGAS E O PREFEITO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: AS FORMIGAS E O PREFEITO

             Lima Barreto

 

        Esse negócio de saúvas preocupa-me desde menino, quando o meu velho amigo Policarpo Quaresma narrou à minha infância curiosa os suplícios que elas o fizeram sofrer, ao         tempo em que se improvisou agricultor.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTxDmIfMQrL4Rpki6jmvup9vh4p3fe3-nfOkO6KRDQCfKIz0eGFrkcIxg2YQDwX9_gLfelwEx5kZ_HJ8XAafTpeY8XJvDaz3cywW_366DcOdSW4_ygjUMNAshanx70dRvoiPmXWDi5oZDQZKsoFfqeO3rMpkrfbI6chdf7jOD3IBgvlw4arAJRtLFebPw/s320/images.jpg
 

        Já narrei alguns dos episódios da sua luta com elas, em um modesto livro onde expus grande parte de sua vida e descrevi o seu triste fim.

        De uns tempos a esta parte, toda gente, especialmente os agricultores da administração, deu em se preocupar com tão daninhos e inteligentes insetos; e, se Policarpo vivesse, ficaria exuberantemente satisfeito com isso.

        O senhor prefeito, em boa hora, deitou um regulamento, que cogita desse assunto, sobremodo importante para todas espécies de cultura.

        Não li todo o regulamento, mas os jornais deram extratos e, por eles soube que sua excelência por artigo do mesmo, manda o proprietário, o arrendatário ou o locatário extinguir os formigueiros que houver nas respectivas propriedades.

        Sem ser versado em leis, julgo que já existia uma velha postura municipal nos mesmos termos. Creio que foi Policarpo Quaresma quem me informou isso.

        Essa velha postura nunca produziu efeito, como o artigo do regulamento do senhor Amaro nada adiantará, e isto pelo simples fato de não determinar precisamente quem deve ma­tar as formigas.

        A lei cita três espécies de tenentes do terreno, mas não diz claramente qual deles é o responsável, de modo a estar sempre disposto o locatário a empurrar a bucha para o proprietário, e este para aquele; e, durante esse jogo de empurra, as formigas vão ficando em paz e devastando hortas, jardins, pomares e outras plantações.

        Nada entendo de leis, nem quero entender. Sou radicalmente contra elas, pois me julgo de algum jeito maximalista; mas estou disposto a transigir a esse respeito, algumas vezes. Vou ceder agora, neste caso...

        O senhor Amaro, que entende delas e foi o alto juiz, pode bem dar mais precisão ao artigo, indicando precisamente quem tem o dever de matar as saúvas que ocupam tal ou qual terreno.

        Podia o senhor doutor prefeito fazer ainda mais. Organizar uma brigada – não precisava brigadas: bastava um re­gimento de homens afeitos ao mister de extinguir formiguei­ros, acantoná-los em determinadas zonas e oferecer os servi­ços deles mediante módico pagamento, aos que tivessem a obrigação legal de exterminar dos seus terrenos os depredadores himenópteros.

        Não se faz e se fez isso com os mosquitos?

        Poder-se-ia, penso eu realizar modestamente o mesmo para guerrear as formigas.

        Então, desde que o regimento ou a brigada estivesse organizada e cantonada nas zonas que necessitam dos seus serviços, o governo municipal devia perseguir os refratários com todo o rigor da lei.

        Julgo tudo isso prático, porque, morando em pequena chácara, em Todos os Santos e tendo o porão da casa cheio de formigueiros, não os extermino por dois motivos: 1º) não as sei matar e não conheço quem saiba; 2ª) mesmo que soubesse matar saúvas muito humanamente, em face da lei dúbia, es­tava disposto a empurrar a bucha para o proprietário que pode mais do que eu. Eis aí.

Lanterna, Rio, 4-5-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o narrador introduz a sua preocupação com as saúvas e qual é a figura literária do próprio autor que ressurge nessa lembrança?

      O narrador revela que a preocupação com as formigas saúvas vem desde a infância, período em que ouviu o seu velho amigo Policarpo Quaresma narrar os suplícios sofridos por elas ao tentar se tornar agricultor. Essa menção resgata diretamente o protagonista do romance mais famoso de Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma), servindo de gancho nostálgico e afetivo para introduzir a discussão sobre o combate a esses insetos.

 02 – Qual é a avaliação que o cronista faz sobre a nova medida adotada pelo senhor prefeito a respeito dos formigueiros?

      O cronista reconhece a importância do tema para a agricultura, mas aponta que a nova medida — um regulamento baixado pelo prefeito que obriga o proprietário, o arrendatário ou o locatário a extinguir os formigueiros — é ineficaz. Para ele, o texto legal repete o erro de velhas posturas municipais ao não definir com precisão de quem é a responsabilidade direta pela execução da tarefa.

 03 – Por que, segundo o texto, a indefinição da lei favorece a proliferação contínua das saúvas?

      A indefinição da lei gera o famoso "jogo de empurra". Como o regulamento cita três figuras diferentes ligadas ao terreno (o proprietário, o arrendatário e o locatário) sem apontar um culpado exclusivo, cada um transfere a obrigação para o outro. Enquanto os envolvidos discutem e evitam assumir o encargo, as formigas permanecem em paz, destruindo hortas, pomares e jardins sem qualquer interferência.

 04 – Como o narrador define sua própria relação ideológica com as leis e de que maneira ele ironiza essa posição no contexto da crônica?

      O narrador afirma de forma bem-humorada que nada entende de leis e que é radicalmente contra elas, considerando-se de algum modo um "maximalista". Contudo, ele ironiza sua própria postura ao dizer que está disposto a transigir e ceder exceções naquele momento específico, demonstrando que, apesar de sua repulsa teórica às normas, reconhece a necessidade de regras claras para solucionar problemas práticos da sociedade.

 05 – Qual é a solução prática e inovadora sugerida pelo cronista para que o poder público realmente ajude a combater as formigas na cidade?

      O cronista sugere que o governo municipal vá além da exigência legal e organize uma brigada ou um regimento de trabalhadores especializados na extinção de formigueiros. Esses profissionais deveriam ser acantonados em zonas críticas e oferecer seus serviços mediante um pagamento módico aos cidadãos que têm a obrigação legal de limpar seus terrenos, facilitando o extermínio prático dos insetos.

 06 – Qual analogia o autor utiliza para defender a viabilidade de sua proposta de combate às saúvas pela prefeitura?

      Para fundamentar sua ideia, o autor faz uma analogia direta com as medidas de saúde pública adotadas contra os mosquitos. Ele questiona se o mesmo esforço prático e organizado que já se fazia (e se faz) no combate aos vetores de doenças não poderia ser modestamente replicado para guerrear as formigas nas zonas urbanas e suburbanas.

 07 – Que motivos pessoais o próprio narrador utiliza para justificar o fato de não eliminar os formigueiros localizados em sua própria residência?

      Morando em uma pequena chácara no bairro de Todos os Santos com o porão cheio de formigueiros, o narrador justifica sua inércia com dois argumentos principais: primeiro, porque não sabe como matar formigas e desconhece quem saiba fazê-lo; segundo, porque mesmo que soubesse eliminá-las de forma humanitária, a ambiguidade da lei o faria preferir "empurrar a bucha" para o proprietário do imóvel, já que este detém maior poder financeiro ou jurídico.

 

 

 

 

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