Crônica: AS FORMIGAS E O PREFEITO
Lima Barreto
Esse
negócio de saúvas preocupa-me desde menino, quando o meu velho amigo Policarpo
Quaresma narrou à minha infância curiosa os suplícios que elas o fizeram
sofrer, ao tempo em que se
improvisou agricultor.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTxDmIfMQrL4Rpki6jmvup9vh4p3fe3-nfOkO6KRDQCfKIz0eGFrkcIxg2YQDwX9_gLfelwEx5kZ_HJ8XAafTpeY8XJvDaz3cywW_366DcOdSW4_ygjUMNAshanx70dRvoiPmXWDi5oZDQZKsoFfqeO3rMpkrfbI6chdf7jOD3IBgvlw4arAJRtLFebPw/s320/images.jpg Já
narrei alguns dos episódios da sua luta com elas, em um modesto livro onde
expus grande parte de sua vida e descrevi o seu triste fim.
De
uns tempos a esta parte, toda gente, especialmente os agricultores da
administração, deu em se preocupar com tão daninhos e inteligentes insetos; e,
se Policarpo vivesse, ficaria exuberantemente satisfeito com isso.
O
senhor prefeito, em boa hora, deitou um regulamento, que cogita desse assunto,
sobremodo importante para todas espécies de cultura.
Não
li todo o regulamento, mas os jornais deram extratos e, por eles soube que sua
excelência por artigo do mesmo, manda o proprietário, o arrendatário ou o
locatário extinguir os formigueiros que houver nas respectivas propriedades.
Sem
ser versado em leis, julgo que já existia uma velha postura municipal nos
mesmos termos. Creio que foi Policarpo Quaresma quem me informou isso.
Essa
velha postura nunca produziu efeito, como o artigo do regulamento do senhor
Amaro nada adiantará, e isto pelo simples fato de não determinar precisamente
quem deve matar as formigas.
A
lei cita três espécies de tenentes do terreno, mas não diz claramente qual
deles é o responsável, de modo a estar sempre disposto o locatário a empurrar a
bucha para o proprietário, e este para aquele; e, durante esse jogo de empurra,
as formigas vão ficando em paz e devastando hortas, jardins, pomares e outras
plantações.
Nada
entendo de leis, nem quero entender. Sou radicalmente contra elas, pois me
julgo de algum jeito maximalista; mas estou disposto a transigir a esse
respeito, algumas vezes. Vou ceder agora, neste caso...
O
senhor Amaro, que entende delas e foi o alto juiz, pode bem dar mais precisão
ao artigo, indicando precisamente quem tem o dever de matar as saúvas que
ocupam tal ou qual terreno.
Podia
o senhor doutor prefeito fazer ainda mais. Organizar uma brigada – não
precisava brigadas: bastava um regimento de homens afeitos ao mister de
extinguir formigueiros, acantoná-los em determinadas zonas e oferecer os serviços
deles mediante módico pagamento, aos que tivessem a obrigação legal de
exterminar dos seus terrenos os depredadores himenópteros.
Não
se faz e se fez isso com os mosquitos?
Poder-se-ia,
penso eu realizar modestamente o mesmo para guerrear as formigas.
Então,
desde que o regimento ou a brigada estivesse organizada e cantonada nas zonas
que necessitam dos seus serviços, o governo municipal devia perseguir os refratários
com todo o rigor da lei.
Julgo
tudo isso prático, porque, morando em pequena chácara, em Todos os Santos e
tendo o porão da casa cheio de formigueiros, não os extermino por dois motivos:
1º) não as sei matar e não conheço quem saiba; 2ª) mesmo que soubesse matar
saúvas muito humanamente, em face da lei dúbia, estava disposto a empurrar a
bucha para o proprietário que pode mais do que eu. Eis aí.
Lanterna, Rio, 4-5-1918.
Entendendo a crônica:
01 – Como o narrador introduz a sua preocupação
com as saúvas e qual é a figura literária do próprio autor que ressurge nessa
lembrança?
O narrador revela que a preocupação com as formigas saúvas
vem desde a infância, período em que ouviu o seu velho amigo Policarpo Quaresma
narrar os suplícios sofridos por elas ao tentar se tornar agricultor. Essa
menção resgata diretamente o protagonista do romance mais famoso de Lima
Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma), servindo de gancho nostálgico e
afetivo para introduzir a discussão sobre o combate a esses insetos.
O cronista reconhece a importância do tema para a
agricultura, mas aponta que a nova medida — um regulamento baixado pelo
prefeito que obriga o proprietário, o arrendatário ou o locatário a extinguir
os formigueiros — é ineficaz. Para ele, o texto legal repete o erro de velhas
posturas municipais ao não definir com precisão de quem é a responsabilidade
direta pela execução da tarefa.
A indefinição da lei gera o famoso "jogo de
empurra". Como o regulamento cita três figuras diferentes ligadas ao
terreno (o proprietário, o arrendatário e o locatário) sem apontar um culpado
exclusivo, cada um transfere a obrigação para o outro. Enquanto os envolvidos
discutem e evitam assumir o encargo, as formigas permanecem em paz, destruindo
hortas, pomares e jardins sem qualquer interferência.
O narrador afirma de forma bem-humorada que nada entende de
leis e que é radicalmente contra elas, considerando-se de algum modo um
"maximalista". Contudo, ele ironiza sua própria postura ao dizer que
está disposto a transigir e ceder exceções naquele momento específico,
demonstrando que, apesar de sua repulsa teórica às normas, reconhece a
necessidade de regras claras para solucionar problemas práticos da sociedade.
O cronista sugere que o governo municipal vá além da
exigência legal e organize uma brigada ou um regimento de trabalhadores
especializados na extinção de formigueiros. Esses profissionais deveriam ser
acantonados em zonas críticas e oferecer seus serviços mediante um pagamento
módico aos cidadãos que têm a obrigação legal de limpar seus terrenos,
facilitando o extermínio prático dos insetos.
Para fundamentar sua ideia, o autor faz uma analogia direta
com as medidas de saúde pública adotadas contra os mosquitos. Ele questiona se
o mesmo esforço prático e organizado que já se fazia (e se faz) no combate aos
vetores de doenças não poderia ser modestamente replicado para guerrear as
formigas nas zonas urbanas e suburbanas.
Morando em uma pequena chácara no bairro de Todos os Santos
com o porão cheio de formigueiros, o narrador justifica sua inércia com dois
argumentos principais: primeiro, porque não sabe como matar formigas e
desconhece quem saiba fazê-lo; segundo, porque mesmo que soubesse eliminá-las
de forma humanitária, a ambiguidade da lei o faria preferir "empurrar a
bucha" para o proprietário do imóvel, já que este detém maior poder financeiro
ou jurídico.
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