Artigo de opinião: Os meninos do Brasil
Clóvis
Rossi
SÃO
PAULO – Primeiro, foi o "arrastão" nas praias do Rio. Logo depois,
nas praias de Fortaleza. Um pouco mais adiante, na festa do Círio de Nazaré, em
Belém do Pará. Desceu, em seguida, para a praça da Sé em São Paulo. Chegou
ontem a Londrina, no norte do Paraná, cidade em que uma dúzia de lojas foi
"arrastada" por bandos de menores movidos a cola de sapateiro.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhx-jUCykB2LfiYYHoM-4SwUUQ_VclhwwqompXW0uK8oPy6qejAoc1a14XpYRe7hbwU1ypKe4B3Yo3bF8SCABk_hyzJKzDjyp9_yOesYtyLcqRBIo6A9dWX14qaCRtAMhxqxcywlXbFiLB0Q3yg2px7zDao3gSKMi6o8i5VK3g76AA497B-MpfPpNz8m8Q/s320/images.jpg Vê-se
que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de
guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de
todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas
cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.
É
evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de
modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no
Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar
comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo
ponto corriqueiro.
O
problema é que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra
no país. O Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda,
tornou-se selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma
indústria nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir
miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à
brutalidade, a distância costuma ser curta.
Consequência
inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se
cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância
desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre
essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.
Seria
altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos,
desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que
se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a
filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo
saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima
quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do
Brasil.
Folha de S. Paulo, 30/10/92.
Entendendo
o artigo:
01 – O autor cita
eventos em praias do Rio, Fortaleza, Belém, São Paulo e Londrina. Qual a
intenção do autor ao mapear essa sequência de acontecimentos?
Demonstrar que os
"arrastões" e a violência praticada por jovens marginalizados
deixaram de ser um fenômeno exclusivo dos grandes centros urbanos e se
espalharam pelo país, atingindo até mesmo cidades médias conhecidas pela boa
qualidade de vida.
02 – Segundo Clóvis
Rossi, qual é o papel da mídia e da televisão na expansão dos
"arrastões"?
A mídia atua como
um difusor de comportamentos (um "modismo"). Ao divulgar
exaustivamente os episódios ocorridos nas grandes metrópoles, estimula a cópia
da ação por grupos de jovens em outras regiões do país.
03 – O que o autor
quer dizer com a metáfora "a fábrica de produzir miseráveis e
marginalizados" e qual sua relação com a estagnação econômica?
A metáfora indica
que a desigualdade, a má distribuição de renda e a crise econômica geram
continuamente uma massa de pessoas na extrema pobreza. A falta de oportunidades
(marginalização) aproxima esses jovens da criminalidade (marginalidade) e da
violência.
04 – Qual é a
crítica que o jornalista faz em relação aos discursos e às tentativas
tradicionais de solução para o problema social da infância desamparada?
O autor critica a
"fábrica de produzir retórica", afirmando que os discursos políticos
e teóricos tornaram-se inúteis e vazios. Além disso, aponta que o problema não
será resolvido apenas pela ação isolada do poder público ou pela filantropia
pontual de poucos.
05 – Por que o autor
afirma no final do texto que "todo o país é vítima" dessa situação,
mesmo quando há poucas vítimas físicas nos episódios?
Porque o avanço
da violência e da desigualdade corrói o tecido social, gerando um ambiente de
medo e ruptura moral em que a elite (os "bacanas") passa a cultivar o
ódio e o preconceito contra os jovens pobres (os "meninos do
Brasil").
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