sexta-feira, 27 de março de 2026

ROMANCE(FRAGMENTO): A CIDADE SITIADA - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 ROMANCE (FRAGMENTO): A CIDADE SITIADA

                     Clarice Lispector (1949)

 O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 192..., já misturava ao cheiro de estrebaria algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrbio se erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que transformação os atingia. Os movimentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um automóvel impaciente buzinava atrás lançando fumaça. Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjg7kb6-DS0TZLYgeB8eOgfq4Igcg7xILRMRSx22nfb4qnbbPgbZfJGhilnTKmSGKC7KEQ0SeEvGWTdPdNMo5UgnyYUarKynWZST1Wzgi1rwWLtrZLJimdnJBeKFLsFer2gqWZqspTDxRiAGIH3rs4Fzben5WnyDezM1y7PSFVRJh23XS0LxuU9TsF1E84/s1600/CIDADE.jpg


De manhã, entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de centros maiores. Dos sobrados desciam mulheres despenteadas com panelas, os peixes eram pesados quase na mão, enquanto vendedores em manga de camisa gritavam os preços. E quando sobre o alegre movimento da manhã soprava o vento fresco e perturbador, dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque.

Ao pôr-do-sol galos invisíveis ainda cocoricavam. E misturando-se ainda à poeira metálica das fábricas o cheiro das vacas nutria o entardecer. Mas de noite, com as ruas subitamente desertas, já se respirava o silêncio com desassossego, como numa cidade; e nos andares piscando de luz todos pareciam estar sentados. As noites cheiravam a estrume e eram frescas. Às vezes chovia.

(LISPECTOR, Clarice. A Cidade sitiada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.)

 

 Entendendo o texto

 01. O texto descreve o subúrbio de S. Geraldo em um momento de transição. Qual é a principal característica dessa mudança mencionada no primeiro parágrafo?

a. A substituição total da vida rural pela tecnologia moderna.

b. A coexistência de elementos rústicos (estrebarias, cavalos) com o progresso industrial (fábricas, automóveis).

c. O isolamento da população, que se recusa a aceitar a chegada das novas usinas.

d. A organização planejada do tráfego para comportar o aumento de veículos.

02. Como o narrador descreve a percepção dos habitantes em relação às transformações que ocorriam no local?

a. Eles estavam entusiasmados com as oportunidades de emprego nas fábricas.

b. Eles planejavam abandonar o subúrbio para viver em centros maiores.

c. Eles vivenciavam as mudanças sem conseguir definir exatamente que tipo de transformação os atingia.

d. Eles protestavam contra a poluição e o barulho dos automóveis impacientes.

03. A expressão "dir-se-ia que a população inteira se preparava para um embarque" sugere que o movimento da manhã em S. Geraldo era:

a. Silencioso e fúnebre.

b. Organizado e burocrático, como em uma estação de trem.

c. Agitado, dinâmico e carregado de uma sensação de expectativa ou partida.

d. Perigoso, devido ao excesso de caminhões transportando ferro.

04. No segundo parágrafo, o autor descreve a atmosfera noturna de S. Geraldo. Qual sensação a cidade passa a transmitir quando as ruas ficam desertas?

a. Uma sensação de paz absoluta e conexão com a natureza.

b. Um sentimento de desassossego típico de uma cidade urbana.

c. O medo de ataques de animais selvagens vindos das estrebarias.

d. A alegria de ver as luzes dos sobrados piscando.

05. Quais elementos sensoriais (olfato e visão) são utilizados para contrastar o antigo e o novo no subúrbio?

a. O cheiro de flores e a visão de prédios espelhados.

b. O cheiro de maresia e a visão de pescadores na praia.

c. O cheiro de estrebaria/estrume em contraste com a poeira metálica e o crepúsculo enfumaçado.

d. O cheiro de asfalto fresco e a visão de campos de trigo.

 

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