Crônica: Cordão dos come-saco
Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto)
Em Londres, que ultimamente não tem sido uma capital
das mais britânicas (ou talvez os britânicos é que não sejam tão londrinos
assim, sei lá), vai se inaugurar uma exposição internacional de embalagem. Até
aí, tudo normal, como dizem os anormais. Há, no entanto, uma nova indústria que
se fará representar nessa exposição que está causando a maior curiosidade: a
dos sacos comestíveis.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVNO-m4Xvi4NvSLxVs04dX_u_UCyjtbPwg-i09MTsxYWVE4WTxPTbHPAS4AyvXWwQHFHfk03TEbEd2itTKjWcNkcCNCYaZ4tR1Rfgk9MR_q-X5lR7aiag6eGguaYPwllWQAtU-luJUG1LNqyZE-keCeIncBqrwSzEhwIoax3C4b6cd_vCTJ3l_lLDznkU/s320/2001_Pack-Expo_banner-1024x427.jpg
Como, minha senhora, de quem é que é o saco? Calma,
madama, eu já chego lá. A indústria foi inspirada na salsicha e isto dito assim
fica meio sobre o jocoso, mas torno a explicar que, com vagar, se chega ao
saco. É o seguinte: não sei se vocês já repararam que as salsichas,
ultimamente, não têm mais aquela pele indigesta que a gente comia antigamente e
ficava trocando seu reino por um bicarbonato. Hoje em dia, a pele das salsichas
é fininha e a gente come sem o menor remorso estomacal posterior.
Pois essa pelinha, irmãos, é de
matéria plástica comestível. Foi inventada por um Thomas Edison das salsichas e
aprovou num instante. E baseada nessa aprovação é que uma fábrica de embalagens
estudou a possibilidade de fazer sacos para carregar comida das mercearias para
o lar, capazes de serem também comidos, isto é, um saco de matéria plástica
parecida com a das salsichas, que seriam vendidos aos armazéns e utilizados
pelos fregueses para transportar a mercadoria comprada. Entenderam, ou tem
leitor retardado mental?
Agora, que fica bacaninha, isto fica.
Num instante vão aparecer os estetas dos refogados, para melhor aproveitamento
do saco. As Myrthes Paranhos do mundo inteiro vão publicar receitas de como se
prepara um saco de matéria plástica para o almoço e os jornais, nas suas seções
dominicais de culinária, terão títulos como este: "Saquinho de siri",
"Saco au champignon", "Saco à la façon du chef", etc., etc.
E parece até que aqui o neto do Dr.
Armindo está vendo uma dessas grã-finas, sempre mais preocupadas com o aspecto
exterior do que com o aspecto interior, fazendo um rigoroso regime alimentar e
dizendo para a empregada, quando esta volta do mercadinho com as compras:
_ Para mim não precisa
preparar almoço, não. Eu como só o saco.
(Stanislaw Ponte Preta - Rosamundo e os outros)
a) O lançamento de uma nova marca de salsichas
britânicas.
b) Uma convenção de etiquetas e bons modos em
Londres.
c) A inauguração de uma exposição
internacional de embalagens. d) Uma crise econômica que obrigou os ingleses a comerem
plástico.
e) A invenção de um novo tipo de bicarbonato de
sódio na Europa.
02. Segundo o narrador, qual foi a
"inspiração" para a criação dos sacos plásticos comestíveis?
a) As antigas peles de salsicha que causavam
indigestão.
b) As novas películas finas e
comestíveis usadas nas salsichas modernas.
c) O hábito das "grã-finas" de
fazerem dietas rigorosas.
d) Uma técnica antiga de transporte de
mercadorias em armazéns. e) Os estudos de Thomas Edison sobre polímeros
sintéticos.
03. O autor utiliza uma linguagem marcadamente
coloquial e irônica. Qual trecho exemplifica essa interação direta e
humorística com o leitor?
a) "vai se inaugurar uma exposição
internacional de embalagem."
b) "é de matéria plástica
comestível."
c) "Entenderam, ou tem leitor
retardado mental?"
d) "capazes de serem também
comidos..."
e) "estudou a possibilidade de fazer sacos
para carregar comida..."
04. Ao mencionar a expressão "trocando seu
reino por um bicarbonato", o autor faz uma alusão humorística para indicar
que: a) A pele das salsichas antigas era muito saborosa e valiosa.
b) As salsichas eram artigos de luxo consumidos
apenas pela realeza.
c) O mal-estar estomacal causado pela
pele da salsicha era tão grande que a pessoa daria tudo por um remédio.
d) O bicarbonato era a moeda de troca oficial
nos armazéns de antigamente.
e) A monarquia britânica foi a responsável por
popularizar a salsicha indigesta.
05. No desenvolvimento do texto, o narrador
prevê que a novidade dos sacos comestíveis causará um impacto na culinária.
Segundo ele, isso ocorreria através de:
a) Críticas severas dos chefs de cozinha contra
o uso de plástico na comida.
b) A substituição total das carnes por
embalagens sintéticas.
c) Publicações de receitas exóticas e
"chiques" utilizando o saco como ingrediente principal.
d) A proibição de vender sacos plásticos em
mercearias e armazéns.
e) Cursos de culinária obrigatórios para as
empregadas domésticas.
06. A conclusão da crônica apresenta uma sátira
social voltada para qual grupo de pessoas?
a) Os cientistas ingleses que inventam
tecnologias inúteis.
b) Os donos de armazéns que cobram caro pelas
embalagens.
c) Os garçons e cozinheiros que não aceitam
inovações.
d) As "grã-finas",
ironizando sua preocupação excessiva com a aparência e dietas.
e) Os operários das fábricas de plástico que
não têm o que comer.
07. O título "Cordão dos come-saco" e
o desfecho do texto reforçam o estilo de Stanislaw Ponte Preta, que consiste
em:
a) Escrever textos científicos sobre avanços da
indústria química.
b) Produzir manuais de instrução para o uso de
novas embalagens. c) Utilizar o absurdo e o duplo
sentido para ridicularizar comportamentos sociais.
d) Defender o uso de materiais biodegradáveis
para preservar o meio ambiente.
e) Fazer uma propaganda séria e elogiosa sobre
os costumes londrinos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário