Artigo de Opinião: Extermínio também é brincadeira
Gilberto Dimenstein
BRASÍLIA -
A imprensa revelou ontem uma nova "brincadeira" inventada
por crianças numa escola do Rio. O nome da brincadeira: "extermínio".
No intervalo, escolhem um menino pequeno a ser submetido a uma sessão de
pancadaria. Na quarta-feira passada, um garoto de sete anos, uma das vítimas,
foi levado pela mãe direto ao Hospital da Lagoa. Estava com o corpo repleto de
hematomas.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgE3ho75ctXQCjqozVBMmHrJpUb4rPzF2Ad4FqsgudJIPoWNPR5r16TWaLhtWRY1fjgnnVbg8Y7KxVYUOHJdMBDI9_1NRVlsClVsPRSv6ImGd5NmEjeO3lXV9Iptb0y5kUBS2Tdu7PE4T2m86LqnT9UPBhsd460kvdOnTgscE8ghMbk-fazYYQG5F7oJls/s320/BRINCADEIRAS.jpeg O terrível da notícia não é apenas o garoto
cheio de hematomas, mas como a violência vai-se incorporando ao cotidiano,
capaz de virar brincadeira. A banalização da violência é, hoje, a principal
questão política brasileira _ interessa mais à população do que a reforma
ministerial ou a composições no Congresso. Está em jogo a eficácia do Estado de
Direito democrático. Está em jogo também direito à vida. Em certas áreas, o
direito de ir e vir é uma ficção. Quem vai pode não voltar.
Daí ser
absolutamente espantosa a reação de Leonel Brizola à entrevista do ministro
Célio Borja. O ministro comparou o Rio a Beirute no auge da guerra. Brizola
preferiu, entretanto, fazer uma competição. Disse que São Paulo era pior _
portanto é, concluiu com a precisão de engenheiro, uma "Beirute e
meia". Só a indigência pode explicar a comparação macabra. O governador
parece mais preocupado com a estatística do que com a violência.
Tanto faz se o assassinato
é no Rio, São Paulo, Paraná. A degradação é nacional. Quando crianças inventam
brincadeiras como "extermínio", a vergonha não é do carioca, mas do
brasileiro. Quando os governadores Luiz Antônio Fleury Filho e Leonel Brizola
ficam competindo para saber quem administra o Estado menos violento, a vergonha
não é do Rio ou São Paulo _ é de todos nós.
Essa medíocre disputa
não ajuda ninguém. Ambos, na realidade, deveriam estudar, juntos, mecanismos de
colaboração, já que os marginais não são bairristas _ assaltam e matam em
qualquer lugar. Será mais civilizado e inteligente que eles se comovam mais com
o menino de sete anos cheio de hematomas do que com as estatísticas de uma
competição inútil.
(Folha de S. Paulo, 24/4/92.)
01. No segundo parágrafo, o autor afirma que o "terrível da notícia" vai além das agressões físicas sofridas pelo menino. O que mais preocupa Dimenstein nesse episódio?
a. A
falta de vagas em hospitais públicos como o Hospital da Lagoa.
b. A forma como a violência se torna banal a
ponto de ser incorporada ao cotidiano como uma "brincadeira".
c. O
fato de a imprensa demorar a revelar o nome da escola onde o caso ocorreu.
d. A necessidade de reformar o Congresso Nacional antes de resolver o problema das escolas.
02. Ao mencionar que "em certas áreas, o
direito de ir e vir é uma ficção", o autor pretende dizer que:
a. A legislação brasileira não prevê o direito
de locomoção dos cidadãos.
b. A insegurança é tão alta que o direito
constitucional de circular livremente não se aplica na prática.
c. O
Estado de Direito democrático no Brasil é superior ao de países como o Líbano.
d. As
crianças não podem ir à escola sozinhas por causa das reformas ministeriais.
03. Qual é a principal crítica feita pelo autor aos governadores Leonel Brizola e Luiz Antônio Fleury Filho?
a. A
falta de investimentos em engenharia civil e construção de novas escolas.
b. A decisão de não conceder entrevistas ao
ministro Célio Borja sobre a guerra.
c. A postura competitiva e
estatística para decidir qual estado é "menos violento", em vez de
buscarem colaboração.
d. O fato de serem bairristas e não permitirem
que marginais circulem entre o Rio e São Paulo.
04. A comparação entre o Rio de Janeiro e Beirute, mencionada no texto, serve para ilustrar:
a. A beleza arquitetônica das duas cidades
litorâneas.
b. O alto nível de desenvolvimento tecnológico
alcançado pelo Brasil em 1992.
c. A gravidade da situação de
conflito e violência urbana, assemelhando a cidade a uma zona de guerra.
d. O sucesso das políticas de segurança pública adotadas pelos engenheiros do governo.
05. Segundo o texto, por que os governadores
deveriam adotar mecanismos de colaboração em vez de competir?
a. Porque os criminosos não respeitam
fronteiras geográficas (não são bairristas) e a degradação é um problema
nacional.
b. Porque as estatísticas mostram que o Paraná
é o estado mais seguro do Brasil.
c. Porque a reforma ministerial no Congresso
depende da união entre Rio e São Paulo.
d. Porque o Hospital da Lagoa precisa de
recursos vindos de outros estados para tratar hematomas.
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