Entrevista: Encontro de duas culturas – Fragmento
Jean de Léry
Jean de Léry (1534-1613), foi
um missionário calvinista que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no
século XVI, na chamada França Antártica. Deixou-nos um importante relato de
tudo o que viu e ouviu, sendo sua obra uma das principais fontes para o
conhecimento dos Tupinambá do século XVI.
Uma vez, um velho me perguntou:
-- Por que vocês, mair e peró, vêm
buscar lenha de tão longe para se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra?
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3SeE7jTWPMihik-BQjz5M0jlXNxAdB3U4u4k0HXR64w3Cem0Dz0_KXpx2nGQGZ0oaEx5qXKTo_ij7hgbH6Qpk63-rS1K0xVGnkZ5H6yf3m_MtZ0yvRj0haRIkQIFefNsrSrDRxCB6V0rpmiYw-51KMYWrf5rA5xIDU66LtMLfSh52xTyxfxcjHtrAjxw/s320/images.jpg Respondi que tínhamos muita, mas não
daquela qualidade, e que não a queimávamos. Como ele pensava, mas dela
tirávamos tinta para tingir.
-- E vocês precisam de muita? –
perguntou o velho imediatamente.
-- Sim – contestei-lhe –, pois em nosso
país existem negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras
mercadorias que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que
vocês têm, voltando com muitos navios carregados.
-- Ah! – retrucou o selvagem –, mas
esse homem tão rico, de que me fala, não morre?
-- Sim – disse eu –, como os outros.
-- E quando morre, para quem fica o que
deixa?
-- Para seus filhos, se ele tem, ou
para seus irmãos ou parentes próximos – respondi.
-- Na verdade – continuou o velho, que
como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns grandes
loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem quando
aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus filhos e
parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los também? Temos
pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa
morte, a terra nos sustentou os sustentará também, e por isso descansamos sem
maiores preocupações.
[...]
Jean de Léry. Viagem à
terra do Brasil. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1961. p. 153-4. In:
Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Brasil indígena: 500 anos de resistência.
São Paulo, FTD, 2000. p. 105.
Fonte: Língua
Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C.
Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição –
São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 115.
Entendendo a entrevista:
01
– Qual era a suposição inicial do ancião Tupinambá a respeito do motivo pelo
qual os europeus navegavam de tão longe para buscar o pau-brasil, e como Jean
de Léry corrigiu esse pensamento?
O ancião
Tupinambá imaginava que os europeus realizavam a longa viagem para buscar
madeira com a finalidade simples de se aquecerem no inverno (queimá-la). Jean
de Léry o corrigiu explicando que a madeira não servia como combustível para o
fogo, mas sim para extrair tinta com a qual tingiam tecidos e tecidos de luxo
na Europa.
02
– Por que a lógica do acúmulo de bens para herança familiar, explicada por Jean
de Léry, pareceu sem sentido e "loucura" para o ancião Tupinambá?
Para o ancião,
acumular grandes quantidades de bens a ponto de enfrentar viagens perigosas e
sofrimento no mar não fazia sentido, uma vez que a riqueza acumulada não impede
a morte do homem. Além disso, na visão do indígena, a terra é geradora contínua
de recursos básicos de subsistência, sendo plenamente capaz de sustentar as gerações
futuras sem a necessidade de acúmulo material prévio.
03
– Compare a relação com a terra e com os recursos naturais demonstrada pelo
comerciante europeu e pela sociedade Tupinambá no texto.
O comerciante
europeu enxerga a terra e seus recursos (como o pau-brasil) através da ótica
mercantilista e mercantil, focando na exploração em larga escala para gerar
lucro, comércio e herança. Já o indígena Tupinambá tem uma visão comunitária e
sustentável, vendo a terra como uma provedora natural que garante a
sobrevivência diária no presente e no futuro, dispensando o desgaste e as
ansiedades geradas pelo acúmulo ilimitado.
04
– No trecho "continuou o velho, que como se vê não era nenhum
ignorante", o que a observação de Jean de Léry revela sobre a visão que os
europeus da época costumavam ter sobre os povos originários?
A frase revela o
preconceito prévio e a visão etnocêntrica comum entre os europeus do século
XVI, que frequentemente consideravam os povos indígenas incultos ou incapazes
de raciocínio complexo. Ao ressaltar que o ancião "não era nenhum
ignorante", Léry reconhece a profundidade crítica e a sabedoria filosófica
do raciocínio indígena, surpreendendo-se com a coerência da argumentação do
ancião.
05
– Como o ancião Tupinambá contrapõe a tranquilidade do modo de vida indígena à
inquietação e aos sacrifícios do modo de vida europeu?
O ancião
argumenta que os europeus passam por grandes privações, perigos e trabalho
exaustivo apenas para amontoar bens antes de morrer. Em contrapartida, os
Tupinambá, embora amem igualmente seus pais, mães e filhos, vivem sem
preocupações excessivas ("descansamos sem maiores preocupações")
porque confiam que a terra continuará sustentando seus descendentes da mesma
forma que os sustentou.
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