quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: A CASA ÚNICA - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A CASA ÚNICA

           Lima Barreto

 

        – Como foi então, a história?

        – Ouve.

        – Estou ouvindo.

        – Eu me formei muito cedo, antes dos vinte e dois anos, como tu sabes. Logo que me formei, graças ao meu Lugar de praticante dos Correios e o rendimento de algumas apólices, pude alugar um escritório, comprar um anel simbólico, um guarda-chuva de castão de ouro, uma pasta de couro, enfim todo o arreamento de um grande advogado. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg7X5pJjQl07RGJqRDdU3FAyR63ud6LTaUOrOu5jHj41ehrUIui3wxpJ3H4dK_Un8Tvw1iazcoEZOPXHJZXAtNPNJxpk9fEL0GdRtYy_eeHm2Pm7RgJhwdnxn5nJoOE-mqYi1w-1chzyhGhsqotOwiSNi1qYtPE6VPPyo4z16-Bj6uwfG68_WYAMDLyTEI/s320/images.jpg


Tive a imagem disso, antes da sensação... Passei a trabalhar nos Correios à noite; e, durante o dia, logo pelas primeiras horas vinha para a cidade, ia ao escritório, onde tinha um empre­gado de sociedade com o vizinho. Sentava-me então solenemente à secretária e esperava os clientes. Não vinham. Eu ficava uma, ou duas horas a folhear uns manuais, aborrecia-me e saía, tendo antes o cuidado de dizer ao pequeno, com muita ênfase: “Se vier alguém procurar-me, diga que fui al­moçar e já volto.”

        – Ias almoçar mesmo?

        – Ia mesmo. Ainda havia dinheiro, não tinha torrado as apólices. Saía com pasta, fraque, guarda-chuva, etc., e ia ao Pascoal tomar um aperitivo e...

        – Foi pena eu não te conhecer nesse tempo!

        – Porque?

Todos os dias te esperava, para pagares-me um tam­bém.

        – Não fizeste falta.

        – Como!

        – Pois eu mesmo me encarreguei de travar relações com poetas, jornalistas e literatos e não havia dia em que não levasse um de reboque. Precisava da imprensa, para os meus planos...

        – Que não soubeste executar.

        – Vou te dizer porque.

        – Estou ansioso pelo desfecho.

        – Ia ao Pascoal com o Guedes, por exemplo, que hoje tem ou vai ter, cem mil-réis por mês que o Alves lhe dá, lá da sepultura. Começávamos a conversar eu, pasta, anel e guarda-chuva de cabo de ouro e outros apetrechos forenses e desandávamos a discorrer sobre negócios de versos, jornais e outras histórias correlativas.

        – Foste sempre dado a estas coisas?

        – Como todo mundo... Escrevi nas revistas de estudantes, fiz o discurso da turma; mas sempre tive medo dessas coisas de literatura.

        – Porque?

        – Porque? Por causa dos gramáticos que nunca se en­tendem.

        – Mas os advogados?

        – A coisa é mais escondida; não é tão...

        – E quando vão para os apedidos?

        – A crítica literária não intervém... Deixa-me contar a história com os diabos!

        – Conta.

        – Onde eu estava mesmo?

        – Ias almoçar e encontravas o Guedes

        – Bem. Muitas vezes, o Guedes seguia-me até o hotel e almoçávamos juntos. Em geral, porém, eu ia só. Almoçava, vinha tomar café fora, adquiria um charuto e lá ia eu, pasta, guarda-chuva de ouro, fraque, anel, etc., pela Rua do Ouvidor abaixo até a Rua do Carmo, onde tinha o escritório. Antes de entrar, perguntava precavidamente ao rapazote: José, veio alguém? Ao que ele respondia desconsoladamente: Ninguém, seu doutor. Entrava, descansava a pasta, etc., e esperava, mas...

        – Como é que querias que viesse alguém, se não anun­ciavas?

        – Não. Anunciei nos grandes jornais, durante muito tempo; e foi mesmo essa história de anúncios uma das causas de eu deixar a advocacia, porque...

        – Como?

        – Eu te conto. Tinha um camarada do colégio que fora sempre dado a esse negócio de revistas e jornais ... Era o Fontes... Um belo dia, apareceu-me ele no escritório e dis­se-me! – Castro, estou publicando uma revista – Os Suces­sos... – Não sei se tu conheces? “Não”, disse-lhe eu. Ele, o Fontes, abriu uma pasta igual à minha, e tirou de lá três números da tal revista. Folheei-os, achei-os bonitos, bem impressos, e enquanto isso o Fontes gabava os méritos de sua publicação. Perguntei-lhe com franqueza o que queria. “Pri­meiro, disse-me ele, a tua colaboração”...

        – Colaboraste?

        – Ouve. “Primeiro, disse-me Fontes, a tua colaboração; e, em seguida, que tu me dês um anúncio aqui, para esta seção – Momentos dos Advogados”. Pensei um instante e per­guntei-lhe quanto era. “Pouco; cinco mil-réis por número”, res­pondeu-me ele. Autorizei e logo que o tal anúncio no Mo­mento do Fontes, apareceu, nunca mais o meu escritório ficou às moscas. A toda hora e a todo instante, lá aparecia um diretor, um secretário, ou um gerente de revista a pedir o meu anúncio. Fui autorizando, na persuasão de que atraís­sem clientes; mas não me surgiu nenhum.

        – Não devias ter sido tão pródigo ... Quanto te custou essa maluquice?

        – Em um ano, cerca de dois contos de réis. A minha pequena fortuna ia-se e eu não conseguia obter nem uma causa; entretanto, teimava em ser um grande advogado. Todos os dias eu, pasta, guarda-chuva de ouro, anel, fraque, etc. íamos ao fórum e nada obtínhamos. Travei no fórum conhecimento com um escrevente juramentado, o Carvalhais. Era um rapaz adamado, abrilhantado, com uns ares importantes, uma pasta igual à minha, variando de roupas todos os dias e fazendo a noce com a maior distinção. Quase sempre be­bíamos juntos e ele me dizia sempre: “Doutor, hei de lhe arranjar uma coisa boa”. “Pois bem, Carvalhais”, respondia-lhe eu.    Um dia, ao chegar ao fórum, logo topei com o Carva­lhais, acompanhado de um sujeito rústico, branco, musculoso, curto, a quem me apresentou, como precisando dos meus serviços. “Pois não”, fiz eu muito contente. “Então”, respondeu o Carvalhais, “vamos todos ao tabelião”. Fomos. Lá, Carvalhais falou a um colega, que abriu um grande livro, e eu mais o cliente ficamos sentados à espera. Daí a pouco, fui chamado por Carvalhais. Assinei o tal livro, o cliente também, Carvalhais também. “Agora”, disse-me Carvalhais, “vamos até ao escritório do doutor, pois temos ainda o que fazer”. Assim fizemos. Em lá chegando, ele me deu três ou quatro papéis a assinar       – o que fiz sem os ler.

        – Homessa!

        – Paciência filho; espera! Acabado o que, ele, o Carvalhais, me disse: “Doutor, não há serviço que não mereça paga”. Tirou do bolso seis notas de quinhentos mil-réis e me deu. Despediu-se amavelmente e foi-se com o meu cliente.

        – Qual era a causa?

        – Tu sabes?

        – Não.

        – Nem eu... No dia seguinte, fechei o escritório.

O Malho, Rio, 28-6-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Como o advogado Castro se preparou para exercer a advocacia e qual era a contradição entre a sua imagem e a realidade da sua rotina?

      Castro formou-se jovem e, utilizando economias de apólices e seu salário nos Correios, comprou todo o "arreamento" simbólico da profissão: anel de grau, guarda-chuva com castão de ouro, pasta de couro, fraque e um escritório com funcionário. A contradição residia no fato de que, apesar da indumentária refinada e da postura solene, ele não tinha cliente algum e passava os dias folheando manuais, esperando em vão e saindo para almoçar e tomar aperitivos com literatos.

 

02 – O que levou o protagonista a abandonar os estudos e a prática literária, preferindo focar na advocacia?

      Castro revela ter frequentado o meio literário na época de estudante, escrevendo em revistas e fazendo discursos, mas confessa ter abandonado a literatura por medo dos gramáticos, cujas disputas e divergências eram constantes e públicas. Ele considerava a advocacia uma área mais reservada e menos exposta à crítica direta.

 

03 – Qual foi o impacto da publicação do anúncio na revista "Os Sucessos" e que prejuízo isso trouxe a Castro?

      Ao aceitar publicar um anúncio na seção "Momentos dos Advogados" da revista do colega Fontes, o escritório de Castro foi invadido por diretores, gerentes e secretários de diversas outras publicações pedindo anúncios semelhantes. Acreditando que isso atrairia clientela, Castro autorizou múltiplos anúncios, o que não lhe trouxe nenhum cliente real e resultou num prejuízo de cerca de dois contos de réis em apenas um ano.

 

04 – Como se deu a aproximação de Castro com o escrevente Carvalhais e qual promessa este lhe fazia?

      Castro conheceu Carvalhais no fórum. O escrevente era um jovem elegante, vaidoso e articulado que ostentava boa vida. Durante os encontros e bebidas que tomavam juntos, Carvalhais prometia constantemente ao advogado que iria arranjar-lhe "uma coisa boa", ou seja, um serviço ou cliente rentável.

 

05 – Como ocorreu o atendimento ao primeiro e único cliente arranjado por Carvalhais?

      Carvalhais apresentou a Castro um homem rústico no fórum e levou todos ao tabelião. Lá, o advogado assinou um grande livro cartorário sem saber do que se tratava. Em seguida, foram ao escritório de Castro, onde o advogado assinou diversos papéis em branco trazidos por Carvalhais, sem ao menos lê-los.

 

06 – Quanto Castro recebeu por esse trabalho e qual foi a sua reação no dia seguinte a esse evento?

      Após as assinaturas, Carvalhais entregou a Castro a quantia de três contos de réis (seis notas de quinhentos mil-réis) como pagamento pelo serviço prestado. No dia seguinte, percebendo o perigo ético e jurídico de ter assinado documentos desconhecidos em uma causa cujo teor nem sequer sabia qual era, Castro encerrou definitivamente suas atividades e fechou o escritório.

 

07 – De que forma a crônica satiriza a formação bacharelesca e as aparências da elite profissional na Primeira República?

      Lima Barreto expõe como o prestígio social da advocacia na época era sustentado por aparências externas (fraque, anel de grau, suntuosidade dos acessórios) em detrimento da competência técnica e da ética profissional. A narrativa ironiza um sistema onde o bacharel ostenta status sem ter trabalho e acaba sendo instrumentalizado por esquemas cartorários obscuros, preferindo enriquecer involuntariamente na ilegalidade a construir uma carreira legítima.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário