Crônica: UM DESAFIO HISTÓRICO
Lima Barreto
Na
Paraíba do Norte, quando era do norte, pois acabaram com a do sul, houve um
“desafio” que se tornou notável, porquanto nele tomaram parte personagens que
hoje são célebres. O caso se passou entre o senhor Epitácio Pessoa, atual
presidente da república, e o senhor Pelino Guedes, poeta extraordinário
das Trovas do Sertão e diretor-geral da Secretaria da Justiça,
presentemente aposentado.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj1znCt0zSvoxQgwAMqeD_-RGf21DJR8WpRlxmSA5130pGPpg2KmxjVLg6GAt1p4n-THF7e4eneLt388B-99OX9UNnpPSDGPiz301ZPP7LKNkW1BciZpZko02vx3ciUk8yoglXWpIdKzhb5TgBVoLqOI2YQBAmINlLzH4nuYtADyFOq3TnVVY08HIKlDs0/s320/images.jpg
Todos
os dois tinham amor por uma cabocla cheirosa que nem a flor do manacá; mas ao
que parece ela não se importava com nenhum deles e tinha uma grande admiração
por um “saveirista” da vizinhança.
Epitácio
começou:
Você
que carrega o saco
Deste moço decidido
Diga-me
no fim da festa
Quem
fica de mal partido
Pelino,
à vista disso, quis coçar o bigode e a cabeleira, mas quando ia fazer tal
coisa, lembrou-se da Negrita e escondeu o gesto, pensando na resposta
que foi esta:
Quem
fica de mal partido?
Eu
vou já lhe responder
Que
no fim deste governo
Eu sei o que vou fazer.
Epitácio,
então, ficou meio engasgado e, poucos minutos depois, respondeu ao Pelino das
barbas de tinta:
Faço
o que me der na telha
Pois
seja lá como for
No
fim deste governo
Não
serás governador.
Epitácio,
olhando para a Rita da Anunciação, tomou-se de entusiasmo e vociferou os
seguintes versos:
Não
serás governador
Só
mesmo se não quiser.
Que
a força deste manata
Você
já sabe qual é.
Pelino,
vendo que a Rita tinha ficado impressionada com a resposta, esquentou-se e, com
todo o ímpeto, desafiou:
Eu
conheço a sua força
Sei
a força que você tem
Mas eu cá não tenho medo
Nem
de você, nem de ninguém.
Epitácio,
apesar de pequenino, cresceu e gritou, fora do tom do fado:
Olhe
o que você está falando
Caboclo!
você não me atenta!
Nasci
eu em Caxangá
E
tenho cabelo na venta.
Pelino,
com a ousadia inesperada de Epitácio, perdeu um pouco da tintura das barbas, e,
quase esbravejando, retrucou:
Nascesse
aqui ou ali
Ou
mesmo no ôco do pau
Quando
estou com a razão
Sou
pior que bicho mau.
Mas
Pessoa, que é hoje presidente, esqueceu-se da sua célebre “agravante da
inundação”, e quis fazer uma desgraça verbal, destemperando na quadra. abaixo:
Você
vai ver com quantos paus
Fabrica-se
uma canoa
Então
para o seu governo
Tome
no alto da coroa.
O
célebre promotor da inundação, atual presidente desta bodega, agrediu o seu
contendor; mas nesse meio tempo, a cheirosa criatura, Rita da Anunciação, a
cabocla, interveio, enquanto uma autoridade policial aparecia.
Inteirou-se
do caso, soube dos versos e disse simplesmente:
–
Mas não são de nenhum deles. Conheço o autor... Rita da Anunciação, que tinha
sido objeto de tão falso pugilato, não se pôde conter diante de semelhante
desfaçatez e exclamou com desdém:
– Ora
bolas!
Dom Quixote, Rio, 15-10-1919.
Entendendo a crônica:
01 – Quem são os dois contendores que
protagonizam o desafio poético retratado no texto e quais posições ocupavam no
momento histórico citado pelo cronista?
Os dois contendores são o senhor Epitácio Pessoa, que na
época de publicação da crônica ocupava o cargo de presidente da República, e o
senhor Pelino Guedes, apresentado como poeta (autor de Trovas do Sertão) e
diretor-geral da Secretaria da Justiça, na ocasião aposentado.
02 – Qual é a motivação central da disputa
entre os dois homens e por quem a mulher disputada realmente demonstrava
afeição?
A disputa foi motivada pelo interesse amoroso de ambos por
uma mesma mulher, a cabocla Rita da Anunciação. No entanto, o texto revela que
a jovem não se importava com nenhum dos dois e nutria uma grande admiração por
um "saveirista" da vizinhança.
03 – De que maneira as posições de poder e
autoridade política são utilizadas como argumento de intimidação durante a
peleja de versos?
Durante o duelo em versos, o poder político e a autoridade
estatal são usados abertamente como ameaças interpessoais. Epitácio Pessoa faz
valer seu prestígio ao ameaçar que Pelino não seria governador ("que a
força deste manata você já sabe qual é"), enquanto Pelino provoca-o
questionando o que faria ao fim daquele governo e afirmando não ter medo do
poder de ninguém.
04 – Como a fisionomia e os gestos de Pelino
Guedes são ridicularizados pelo narrador ao longo do confronto?
Lima Barreto utiliza um tom satírico para descrever as
reações físicas de Pelino. O autor menciona o cuidado de Pelino com sua
aparência ao pensar na "Negrita" para esconder um gesto de coçar a
cabeça, ironiza o uso de tintura em suas barbas ("Pelino das barbas de tinta")
e ridiculariza o seu nervosismo diante das ameaças do rival, dizendo que o
poeta "perdeu um pouco da tintura das barbas".
05 – Que expressão popular o personagem
Epitácio Pessoa utiliza para afirmar sua valentia e origens nordestinas durante
o desafio?
Epitácio eleva o tom do desafio ao proclamar sua origem na
localidade de Caxangá e recorrer ao dito popular "tenho cabelo na
venta" para afirmar sua brabeza e exigir respeito do oponente.
06 – Como o embate poético descamba para a
agressão física no final e qual intervenção interrompe o conflito?
Perdendo a métrica e a compostura na última quadra, Epitácio
Pessoa parte para a agressão verbal e física contra seu contendor. A briga é
interrompida pela intervenção da própria Rita da Anunciação e pela chegada de
uma autoridade policial ao local.
07 – Qual é a revelação feita pela autoridade
policial sobre a autoria dos versos e qual a reação final de Rita da
Anunciação?
A autoridade policial, ao tomar conhecimento do caso e das
trovas recitadas, afirma simplesmente que os versos não eram de autoria de
nenhum dos dois contendores, pois conhecia o verdadeiro autor. Diante do
ridículo da situação e de um combate baseado em plagiarismo alheio, Rita da
Anunciação expressa seu profundo desdém exclamando: "Ora bolas!".

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