quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: UM DESAFIO HISTÓRICO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: UM DESAFIO HISTÓRICO

           Lima Barreto

 

        Na Paraíba do Norte, quando era do norte, pois acabaram com a do sul, houve um “desafio” que se tornou notável, porquanto nele tomaram parte personagens que hoje são célebres. O caso se passou entre o senhor Epitácio Pessoa, atual presidente da república, e o senhor Pelino Guedes, poeta extraordinário das Trovas do Sertão e diretor-geral da Secretaria da Justiça, presentemente aposentado.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj1znCt0zSvoxQgwAMqeD_-RGf21DJR8WpRlxmSA5130pGPpg2KmxjVLg6GAt1p4n-THF7e4eneLt388B-99OX9UNnpPSDGPiz301ZPP7LKNkW1BciZpZko02vx3ciUk8yoglXWpIdKzhb5TgBVoLqOI2YQBAmINlLzH4nuYtADyFOq3TnVVY08HIKlDs0/s320/images.jpg

        Todos os dois tinham amor por uma cabocla cheirosa que nem a flor do manacá; mas ao que parece ela não se impor­tava com nenhum deles e tinha uma grande admiração por um “saveirista” da vizinhança.

        Epitácio começou:

        Você que carrega o saco

        Deste moço decidido

        Diga-me no fim da festa

        Quem fica de mal partido

        Pelino, à vista disso, quis coçar o bigode e a cabeleira, mas quando ia fazer tal coisa, lembrou-se da Negrita e escondeu o gesto, pensando na resposta que foi esta:

        Quem fica de mal partido?

        Eu vou já lhe responder

        Que no fim deste governo

        Eu sei o que vou fazer.

        Epitácio, então, ficou meio engasgado e, poucos minutos depois, respondeu ao Pelino das barbas de tinta:

        Faço o que me der na telha

        Pois seja lá como for

        No fim deste governo

        Não serás governador.

        Epitácio, olhando para a Rita da Anunciação, tomou-se de entusiasmo e vociferou os seguintes versos:

        Não serás governador

        Só mesmo se não quiser.

        Que a força deste manata

        Você já sabe qual é.

        Pelino, vendo que a Rita tinha ficado impressionada com a resposta, esquentou-se e, com todo o ímpeto, desafiou:

        Eu conheço a sua força

        Sei a força que você tem

        Mas eu cá não tenho medo

        Nem de você, nem de ninguém.

        Epitácio, apesar de pequenino, cresceu e gritou, fora do tom do fado:

        Olhe o que você está falando

        Caboclo! você não me atenta!

        Nasci eu em Caxangá

        E tenho cabelo na venta.

        Pelino, com a ousadia inesperada de Epitácio, perdeu um pouco da tintura das barbas, e, quase esbravejando, retrucou:

        Nascesse aqui ou ali

        Ou mesmo no ôco do pau

        Quando estou com a razão

        Sou pior que bicho mau.

        Mas Pessoa, que é hoje presidente, esqueceu-se da sua célebre “agravante da inundação”, e quis fazer uma desgraça verbal, destemperando na quadra. abaixo:

        Você vai ver com quantos paus

        Fabrica-se uma canoa

        Então para o seu governo

        Tome no alto da coroa.

        O célebre promotor da inundação, atual presidente desta bodega, agrediu o seu contendor; mas nesse meio tempo, a cheirosa criatura, Rita da Anunciação, a cabocla, interveio, en­quanto uma autoridade policial aparecia.

        Inteirou-se do caso, soube dos versos e disse simplesmente:

        – Mas não são de nenhum deles. Conheço o autor... Rita da Anunciação, que tinha sido objeto de tão falso pugilato, não se pôde conter diante de semelhante desfaçatez e exclamou com desdém:

        – Ora bolas!

Dom Quixote, Rio, 15-10-1919.

Entendendo a crônica:

01 – Quem são os dois contendores que protagonizam o desafio poético retratado no texto e quais posições ocupavam no momento histórico citado pelo cronista?

      Os dois contendores são o senhor Epitácio Pessoa, que na época de publicação da crônica ocupava o cargo de presidente da República, e o senhor Pelino Guedes, apresentado como poeta (autor de Trovas do Sertão) e diretor-geral da Secretaria da Justiça, na ocasião aposentado.

 

02 – Qual é a motivação central da disputa entre os dois homens e por quem a mulher disputada realmente demonstrava afeição?

      A disputa foi motivada pelo interesse amoroso de ambos por uma mesma mulher, a cabocla Rita da Anunciação. No entanto, o texto revela que a jovem não se importava com nenhum dos dois e nutria uma grande admiração por um "saveirista" da vizinhança.

 

03 – De que maneira as posições de poder e autoridade política são utilizadas como argumento de intimidação durante a peleja de versos?

      Durante o duelo em versos, o poder político e a autoridade estatal são usados abertamente como ameaças interpessoais. Epitácio Pessoa faz valer seu prestígio ao ameaçar que Pelino não seria governador ("que a força deste manata você já sabe qual é"), enquanto Pelino provoca-o questionando o que faria ao fim daquele governo e afirmando não ter medo do poder de ninguém.

 

04 – Como a fisionomia e os gestos de Pelino Guedes são ridicularizados pelo narrador ao longo do confronto?

      Lima Barreto utiliza um tom satírico para descrever as reações físicas de Pelino. O autor menciona o cuidado de Pelino com sua aparência ao pensar na "Negrita" para esconder um gesto de coçar a cabeça, ironiza o uso de tintura em suas barbas ("Pelino das barbas de tinta") e ridiculariza o seu nervosismo diante das ameaças do rival, dizendo que o poeta "perdeu um pouco da tintura das barbas".

 

05 – Que expressão popular o personagem Epitácio Pessoa utiliza para afirmar sua valentia e origens nordestinas durante o desafio?

      Epitácio eleva o tom do desafio ao proclamar sua origem na localidade de Caxangá e recorrer ao dito popular "tenho cabelo na venta" para afirmar sua brabeza e exigir respeito do oponente.

 

06 – Como o embate poético descamba para a agressão física no final e qual intervenção interrompe o conflito?

      Perdendo a métrica e a compostura na última quadra, Epitácio Pessoa parte para a agressão verbal e física contra seu contendor. A briga é interrompida pela intervenção da própria Rita da Anunciação e pela chegada de uma autoridade policial ao local.

 

07 – Qual é a revelação feita pela autoridade policial sobre a autoria dos versos e qual a reação final de Rita da Anunciação?

      A autoridade policial, ao tomar conhecimento do caso e das trovas recitadas, afirma simplesmente que os versos não eram de autoria de nenhum dos dois contendores, pois conhecia o verdadeiro autor. Diante do ridículo da situação e de um combate baseado em plagiarismo alheio, Rita da Anunciação expressa seu profundo desdém exclamando: "Ora bolas!".

 

 

 

 

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