domingo, 11 de outubro de 2026

REPORTAGEM: A LÍNGUA DO BRASIL - ORIGENS E INFLUÊNCIAS - FRAGMENTO - CLAUDIO ANGELO - COM GABARITO

 Reportagem: A língua do Brasil – origens e influências – fragmento

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        Quando ouvir dizer que o Brasil é um país tupiniquim, não se irrite. Nos primeiros dois séculos após a chegada de Cabral, o que se falava por estas bandas era o tupi mesmo. O idioma dos colonizadores só conseguiu se impor no litoral no século XVII e, no interior, no XVIII. Em São Paulo, até o começo do século passado, era possível escutar alguns caipiras contando casos em língua indígena. No Pará, os caboclos conversavam em nheengatu até os anos 40.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNEArSB_15M2j_u1fAC9CKXcCJ2nGqoS7gupIPMx9-5runmOpR9GlVmkG2KYDoZNWpRKcA59o6gpIEVZpy7lVT0J5vM1uYOg7rgBXg-upQkDOQpDu7XDd_Zs_YgejzDVZFipFoC1LHLxNtSN7kyY9AIUp9FdX4bUwbb_vzRtRZ8N3CDGhhq2hyT0dyy9Y/s320/images.jpg


        Mesmo assim, o tupi foi quase esquecido pela História do Brasil. ninguém sabe quantos o falavam durante o período colonial. Era o idioma do povo, enquanto o português ficava para os governantes e para os negócios com a metrópole. “Aos poucos estamos conhecendo sua real extensão”, disse à SUPER Aryon Dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, o maior pesquisador de línguas indígenas do país. Os principais documentos, como as gramáticas e dicionários dos jesuítas, só começaram a ser recuperados a partir de 1930. a própria origem do tupi ainda é um mistério. Calcula-se que tenha nascido há cerca de 2.500 anos, na Amazônia, e se instalado no litoral no ano 200 d.C. “Mas isso ainda é uma hipótese”, avisa o arqueólogo Eduardo Neves, da USP.

        Três letras fatais

        Quando Cabral desembarcou na Bahia, a língua se estendia por cerca de 4.000 quilômetros de costa, do norte do Ceará a Iguape, ao sul de São Paulo. só variavam os dialetos. O que predominava era o tupinambá, o jeito de falar do maior entre os cinco grandes grupos (tupinambás, tupiniquins, caetés, potiguaras e tamoios). Daí ter sido usado como sinônimo de tupi. As brechas nesse imenso território idiomático eram os chamados tapuias (escravo, em tupi), pertencentes a outros troncos linguísticos, que guerreavam o tempo todo com os tupis. Ambos costumavam aprisionar os inimigos para devorá-los em rituais antropofágicos. A guerra era uma atividade social constante de todas as tribos indígenas com os vizinhos, até com os da mesma unidade linguística.

        Um dos viajantes que escreveram sobre o Brasil, Pero Magalhães Gândavo, atribuiu, delirantemente, a belicosidade dos tupinambás à língua. “Não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, pois assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei e, desta maneira, vivem sem justiça e desordenadamente”, escreveu em 1570. Para os portugueses, portanto, era preciso converter os selvagens à fé católica, o que aconteceu quando os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil, em 1553. Esses missionários se esmeraram no estudo do tupi e a eles se deve quase tudo o que hoje é conhecido sobre o idioma.

        Também, não havia outro jeito. Quando Portugal começou a produzir açúcar em larga escala em São Vicente (SP), em 1532, a língua brasílica, como era chamada, já tinha sido adotada por portugueses que haviam se casado com índias e por seus filhos. “No século XVII, os mestiços de São Paulo só aprendiam o português na escola, com os jesuítas”, diz Aryon Rodrigues. Pela mesma época, no entanto, os faladores do tupi do resto do país estavam sendo dizimados por doenças e guerras. No começo daquele mesmo século, a língua já tinha sido varrida do Rio de Janeiro, de Olinda e de Salvador, as cidades mais importantes da costa. Hoje, os únicos remanescentes dos tupis são 1.500 tupiniquins do Espírito Santo e 4.000 potiguaras da Paraíba. Todos desconhecem a própria língua. Só falam português.

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        Coisa do diabo

        Irritado com o uso generalizado das línguas nativas, o Marquês de Pombal (1699-1782), que então governa Portugal e suas colônias, resolveu impor o português na marra, por decreto, em 1758. Num documento maluco, o Alvará do Diretório dos Índios, proibiu o uso de todas as línguas indígenas e o ensino do nheengatu, “invenção diabólica” dos jesuítas. No ano seguinte, vilas de toda a Amazônia foram rebatizadas com topônimos portugueses. Surgiram, assim, Santarém e Óbidos no Pará, Barcelos e Moura no Amazonas.

        A briga culminaria com a expulsão dos jesuítas, em 1759. “Mas a língua geral não sumiu de imediato”, observa o etno-historiador José de Ribamar Bessa Freire, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “O português só veio se firmar no final do século passado, quando os nordestinos migraram em massa para a Amazônia, atrás da borracha”. Hoje o uso daquela língua geral se restringe à região do alto Rio Negro e a um pedaço da Venezuela.

        Como os índios, o tupi chegou ao final do século XX. Modificado, reduzido, mas ainda respirando. Da próxima vez que alguém chamar o Brasil de tupiniquim na sua frente, orgulhe-se. O país deve muito aos tupis. E até fala um pouquinho da língua deles.

Claudio Angelo. Revista Superinteressante. São Paulo, Editora Abril, dez. 1998. p. 82-5.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 160-161.

Entendendo a reportagem:

01 – Como se deu a transição do predomínio do tupi para o português no território brasileiro ao longo dos séculos coloniais?

      Durante os dois primeiros séculos após a chegada dos colonizadores, o tupi (ou língua geral) era o idioma falado pela maioria da população, enquanto o português ficava restrito aos governantes e às negociações formais com a metrópole. O português só conseguiu se impor de forma predominante no litoral durante o século XVII e no interior apenas no século XVIII. Em regiões isoladas como São Paulo e o Pará, relatos e conversas em variantes da língua indígena ainda podiam ser ouvidos até o início e meados do século XX, respectivamente.

02 – O que levou Pero Magalhães Gândavo a relacionar a ausência de certas letras na língua indígena com a conduta social dos tupinambás?

      Em 1570, o viajante Pero Magalhães Gândavo relacionou a ausência das consoantes F, L e R no idioma tupi às palavras Fé, Lei e Rei. Sob uma visão eurocêntrica e sem fundamentação científica, ele interpretou essa característica linguística como uma prova de que os nativos viviam "sem justiça e desordenadamente", justificando, assim, a necessidade de impor a ordem e converter os indígenas à fé católica.

03 – Qual foi o papel dos missionários jesuítas na preservação e na disseminação das línguas indígenas no Brasil colonial?

      Ao chegarem em 1553 com a missão de evangelizar os nativos, os jesuítas dedicaram-se ao estudo aprofundado do tupi, sendo responsáveis pela criação das primeiras gramáticas e dicionários da língua. Por usarem o idioma como principal ferramenta de ensino e catequese, eles garantiram que a língua continuasse viva e difundida — criando inclusive a "língua geral" (nheengatu) —, o que preservou quase todo o conhecimento histórico e linguístico que se tem do tupi atualmente.

04 – Quais foram os fatores determinantes para o declínio gradual dos falantes nativos do tupi ao longo do período colonial?

      O declínio resultou de uma combinação de fatores demográficos, epidemiológicos e políticos. Os falantes nativos foram drasticamente dizimados por guerras territoriais e por doenças trazidas pelos europeus, fazendo com que o idioma fosse eliminado de grandes centros como Rio de Janeiro, Olinda e Salvador já no início do século XVII. Mais tarde, a imposição oficial do português pelo Marquês de Pombal no século XVIII acelerou ainda mais o desaparecimento do idioma.

05 – Em que consistiu o Alvará do Diretório dos Índios de 1758 e quais foram suas consequências políticas e linguísticas?

      O Alvará do Diretório dos Índios foi um decreto emitido pelo Marquês de Pombal em 1758 para impor o uso do português no Brasil. A medida proibiu o ensino e a utilização de todas as línguas indígenas e do nheengatu, rebatizou vilas da Amazônia com nomes em português e culminou na expulsão dos jesuítas no ano seguinte (1759), enfraquecendo a presença institucional das línguas nativas na colônia.

06 – Segundo o etno-historiador José de Ribamar Bessa Freire, qual evento histórico consolidou definitivamente a língua portuguesa na região amazônica?

      O professor Bessa Freire aponta que a legislação de Pombal não eliminou a língua geral imediatamente. O português só se consolidou definitivamente na Amazônia no final do século XIX, impulsionado pela migração em massa de nordestinos para a região durante o ciclo da borracha, o que alterou a dinâmica demográfica e linguística local.

07 – Com base nas informações do texto, por que o uso do adjetivo "tupiniquim" para se referir ao Brasil deve ser visto com orgulho e não como motivo de irritação?

      O termo deve ser motivo de orgulho porque resgata as raízes históricas e culturais que moldaram a identidade nacional. O tupi foi a verdadeira língua do povo nos primeiros séculos de formação do país e deixou marcas definitivas no vocabulário, na toponímia e nos costumes dos brasileiros, demonstrando a forte herança indígena presente até hoje.

 

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