Crônica: O EDIFÍCIO DA CRUZ VERMELHA
Lima Barreto
Nos últimos dias do mês passado, o Rio-Jornal deu-nos uma larga notícia sobre as coisas da Cruz Vermelha Brasileira. O começo da notícia é tão de lamúrias a ponto de provocar lágrimas.
Diz
e repete que essa sociedade humanitária “vive esquecida, cinicamente
alimentada pelo entusiasmo inarrefecível de diminuto grupo de patrícios,
utopistas na condenação injustificável de indivíduos acanhados no seu modo de
ver.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtOYsrmVRtcAAJEfSCEsybvPCrqVyH0phu7-ETNs8CjUGi-nxXNMfFpZZNjK4S9WHPzdt5e4TqmpUp96JrMbmS1SqwBlhIllx08FyYOTRlsWXX2Xhi1xsRCOgzieN3fNePQqbgMWemyF88zdsdx85HEqdeK1cz2Q-hwQK84ubWUVj1dpIDMS1pPo1Y4dU/s1600/images.jpg “Ignorada, trabalhando em silêncio e cônscia
de sua modéstia, pelo criminoso descaso que lhe votam os responsáveis, os
espetaculosos promotores de festas de caridade em benefício dos infelizes
europeus e quiçá a população em geral, ela, no cenário da vida da cidade, só
surge nos transes difíceis e horríveis como os dolorosos e negros dias da
pandemia gripal.”
Segundo
me consta, essa história da Cruz Vermelha é destinada a socorrer feridos de
guerra. Ora, o Brasil há muito tempo não se mete em guerra.
Sendo
assim, como é então que querem que a nossa Cruz Vermelha seja conhecida? Não há
de querer ela que, para se ostentar ao grande público, haja, de ano em ano, uma
guerra com o Brasil. Longe, portanto, de se lastimar, a Cruz Vermelha deve exultar
com a sua obscuridade!
Entretanto,
ela não é assim tão total como diz o Rio-Jornal.
Há
meses, houve lá uma eleição de diretoria. Dias antes, muitos mesmo, os apedidos
dos jornais e outras seções vinham cheios dela. O eixo da disputa era ter o
presidente mandado em missão ao Paraná e outros lugares uma parteira, como
portadora de credenciais da associação. Sem cobras e lagartos e todos os
leitores de jornais, que são o verdadeiro público do Rio de Janeiro, se não
tinham notícia da “Cruz Vermelha”, vieram a tê-la com o escândalo jornalístico.
Eu
não sei bem que utilidade pode ter uma parteira para tratar feridos de guerra.
Creio bem que os ferimentos de que essas especialistas podem curar, não se
adquirem na guerra, mas fora dela, em cura de partos, que por eufemismo ou
outra figura de retórica, chamam de batalha, guerra de amor, os singulares
combates em que os estragos redundam em trabalho para os obstetras.
Agora,
eu me lembro – e por lealdade declaro – que, há muitos anos, li a nomeação do
doutor Abel Parente para médico parteiro da Guarda Nacional. Mas, isto foi
no Filhote da Gazeta. Além disto, a eleição da diretoria
foi um sucesso que causou inveja ao Honório Pimentel, de Santa Cruz.
A
notícia que traz o endemoninhado Rio-Jornal, se alonga em outras
considerações; e, até, estampa um cliché do edifício projetado para
a sede de todos os serviços que a Cruz quer prestar ao país, à cidade, na paz e
na guerra.
É
olhá-lo para se chegar logo à conclusão de que quem o projetou não é arquiteto,
nem mesmo engenheiro: é um marceneiro.
Os senhores conhecem essas espécies de cômodas
de escritório, em cujas gavetas se guardam papéis? Pois é assim a maneira do
tal edifício da Cruz. Os franceses chamam a tal móvel chiffonnier, creio
eu; e o edifício da sociedade é perfeitamente semelhante a ele, mas
inteiramente feio, porque, além das muitas gavetas e descomunal altura, ainda
tem mais torrezinhas, uma cúpula central, uns cocurutos, absurdos e contraproducentes,
que não lhe deixam totalmente ver a sua estética abracadabrante de caixão.
O Rio-Jornal nos
informa também de várias coisas sobre esse monumento “gótico”. Diz ele: “O
edifício planejado, uma vez construído, marcará o início de uma nova fase na
vida da sociedade. Seu custo ficará aproximadamente
por 20.000:000$000.”
Se
o “caixão” da Cruz Vermelha já era pretensioso no seu número de andares, ainda
mais se mostra ser, dado que uma coisa não supusesse a outra, no custo. Qual é
o edifício público do Brasil que custa isso? Nenhum. Algumas igrejas e
conventos do Rio, uma ou outra, podem ser avaliados nisso; mas que tempo
levaram a ser construídos? A Candelária, por exemplo, levou mais de cem anos; e
verdadeiramente não está acabada.
Ora,
Cruz Vermelha!, isto é muito para tua alma! O mesmo jornal ainda nos dá outros
detalhes curiosos sobre o formidável “caixão”.
Ei-los:
“Ocupando
uma área de 6.000 m2, tendo de altura, do subsolo ao último andar, 125 metros,
sendo a máxima 142 metros, ele comportará vinte andares, onde ficarão
instalados, de acordo com todos os preceitos das construções modernas e
exigências de higiene, todo o aparelhamento necessário a um hospital de
primeira ordem, desde os mais delicados gabinetes, enfermarias, quartos
particulares e de observação, até um grande frigorífico para receber a carne, o
peixe, aves, frutas, e legumes, destinados ao consumo de um mês.”
O
senhor Taumaturgo de Azevedo, que disputa ao senhor Câmara o número de
“crachás” universitários; que é doutor em uma porção de coisas; o senhor
Taumaturgo de Azevedo devia saber, como todos sabem, que, atualmente, é
aconselhada pelos higienistas de todo o mundo a construção de hospitais em
pavilhões nivelados. Os motivos são óbvios e estão ao alcance da mais mediana
inteligência que tenha a mais mediana cultura. Como é então, que o senhor
Taumaturgo (será por causa do nome?) quer fazer um hospital moderno ao jeito
dos antigos?
Com
tanto dinheiro, ele pode construir a sede propriamente da sociedade e o
hospital em lugares separados, tanto mais que ele tem o frisante exemplo do
Hospital Central do Exército, maravilhoso entre as nossas coisas chatas, já
pela construção, já pelo pessoal, e onde estive dois meses excelentemente, do
que tenho muitas saudades. De resto, essas edificações brutas e estúpidas, como
quer ser a tal para a Cruz Vermelha, não devem ser consentidas na nossa cidade.
Há quem conteste que o
tipo sky-scraper nova-iorquino nasceu de condições peculiares à
grande cidade do Hudson.
Não
foram determinados pelo subsolo granítico de New York, nem pelo encarecimento
progressivo dos terrenos da ilha de Manhattan, onde se acumula toda a intensa
vida da imensa cidade; entretanto, se não foram tais fatores os principais,
eles devem ser levados em linha de conta.
Entre
nós, porém, nenhum deles pode prevalecer e não devíamos permitir a construção
de semelhantes faróis cívicos, em uma cidade semeada e bordada de colinas,
morros quase serras, que ainda estão mais ou menos arborizadas e que devem
estar sempre, dando-lhe a sua beleza especial, o seu cachet de
grandeza, e a sua simplicidade de horizontes, os quais nós perderemos, pobres e
mesquinhas formigas humanas que somos!, se tais chatezas se vierem multiplicar.
O sky-scraper define
o americano. É a arrogância do parvenu e a estupidez do arrivista que
não sabe esperar pelo tempo e outras circunstâncias mínimas para ter
personalidade. Faz o grande, o desmedido; gesticula, berra, veste-se com cores
vivas, arreia-se de brilhantes e pérolas, de todas as joias, enfim, para
parecer fidalgo, poderoso e original. É um estudo a fazer.
Só
o tempo faz o que o tempo não destrói; e seremos muito tolos se imitarmos os
americanos nas suas idiotices e pretensões com o descomunal.
Se
nós tivéssemos um Conselho Municipal, se apelaria para ele. Mas o tal conselho
que temos não ama a cidade, nem é composto de gente dela. O único carioca que
lá existe e pode ter algum amor pelo Rio de Janeiro, é o coronel Brandão; mas
esse mesmo é português de nascimento. Os outros são cubanos, mexicanos,
hondurenses – gente que, por bem ou pela força, tem de gravitar em torno da
republica do dólar. É inútil esperar qualquer coisa dessa gente que, não
contente de estar sob o guante americano, ainda procura narcótico jesuítico
para se anular, e o vai impingir às crianças, nas escolas, à força do poder do
Estado, julgando legítimo isso, porque sofrera também império semelhante que
destruiu nela a rebeldia indispensável ao progresso humano, mas a deixou, em
compensação, viver à tripa forra.
Estão
se cevando, mas é pena que o seja inútilmente... A antropofagia já passou de
moda em toda a humanidade.
Dessa
forma, não temos nós, cariocas, que amamos o nosso lindo Rio de Janeiro, para
quem apelar e o senhor Taumaturgo poderá impunemente arranhar – só, não! –
furar céu, a menos que Deus não faça, como fez com os atrevidos da torre de
Babel; castiga-lo bem castigado! É ainda uma esperança...
Hoje, Rio, 10-7-1919.
Entendendo a crônica:
01 – Por que o narrador considera irônica e
injustificada a “lamúria” do Rio-Jornal sobre a Cruz Vermelha Brasileira viver
no esquecimento e na obscuridade?
O narrador argumenta que a Cruz Vermelha é uma instituição
voltada primordialmente para o socorro a feridos de guerra. Como o Brasil vivia
um período prolongado de paz, seria absurdo desejar que a instituição estivesse
constantemente em evidência — o que exigiria a ocorrência de guerras
frequentes. Para o cronista, longe de se lamentar, a instituição deveria
exultar com a sua obscuridade, pois ela era o reflexo direto da paz no país.
02 – Qual escândalo envolvendo a eleição da
diretoria da Cruz Vermelha é relembrado por Lima Barreto para provar que a
instituição não era tão desconhecida assim?
O autor relembra que a disputa eleitoral da entidade ganhou
as páginas dos jornais devido à denúncia de que o presidente da instituição
havia enviado uma parteira ao Paraná (e a outros locais) investida de
credenciais oficiais da associação. O cronista ironiza a situação ao questionar
a utilidade de uma obstetra para tratar ferimentos de guerra, fazendo
trocadilhos sobre as "batalhas de amor" e os partos.
03 – Como o cronista descreve a arquitetura do
projeto do novo edifício da Cruz Vermelha e qual comparação depreciativa ele
utiliza?
Lima Barreto afirma que o projeto não parecia ter sido feito
por um arquiteto ou engenheiro, mas sim por um marceneiro. Ele compara o
formato do prédio a um chiffonnier (uma cômoda alta de escritório cheia de
gavetas), apelidando o edifício de "caixão". Além disso, critica os
adereços estéticos do projeto, como cúpula central, torrezinhas e
"cocurutos absurdos", classificando a estrutura como feia e
pretensiosa.
04 – Por que Lima Barreto critica a escolha de
construir um hospital em formato de arranha-céu (sky-scraper) com vinte
andares?
O autor aponta que os higienistas e a medicina moderna da
época recomendavam a construção de hospitais em pavilhões nivelados ao solo, e
não em edifícios verticais massivos. Ele argumenta que, com o orçamento
exorbitante previsto, seria mais sensato separar a sede administrativa do
hospital, citando como exemplo positivo o Hospital Central do Exército.
05 – Qual é a crítica do autor à importação do
modelo americano de arranha-céus (sky-scrapers) para a paisagem do Rio de
Janeiro?
Lima Barreto considera o sky-scraper uma manifestação da
"arrogância do parvenu" e do gosto americano pelo desmesurado. Ele
defende que a geografia do Rio de Janeiro, caracterizada por colinas e morros
arborizados, perderia sua beleza natural, sua grandeza e a simplicidade de seus
horizontes se fosse dominada por edifícios gigantescos que bloqueassem a
paisagem.
06 – Como a crônica avalia a atuação do
Conselho Municipal em relação à proteção do patrimônio e da estética da cidade
do Rio de Janeiro?
O cronista expressa total descrédito no Conselho Municipal,
afirmando que seus membros não amavam a cidade nem eram verdadeiramente ligados
a ela. Ele ironiza a composição do Conselho ao dizer que era formado por
estrangeiros desinteressados que gravitavam em torno da influência americana e
que não moveriam uma palha para impedir deformações urbanísticas na capital.
07 – A qual passagem bíblica o narrador recorre
no desfecho da crônica para expressar sua última esperança contra a construção
do edifício?
Diante da falta de apoio das autoridades públicas para
impedir a obra de Taumaturgo de Azevedo, o narrador recorre à história da Torre
de Babel. Ele expressa a esperança de que Deus intervenha e castigue a
pretensão dos construtores por tentarem "furar o céu" com uma
edificação desmedida e desnecessária.
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