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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

ENTREVISTA: ENCONTRO DE DUAS CULTURAS - FRAGMENTO - JEAN DE LÉRY - COM GABARITO

 Entrevista: Encontro de duas culturas – Fragmento

           Jean de Léry

        Jean de Léry (1534-1613), foi um missionário calvinista que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no século XVI, na chamada França Antártica. Deixou-nos um importante relato de tudo o que viu e ouviu, sendo sua obra uma das principais fontes para o conhecimento dos Tupinambá do século XVI.

        Uma vez, um velho me perguntou:

        -- Por que vocês, mair e peró, vêm buscar lenha de tão longe para se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh3SeE7jTWPMihik-BQjz5M0jlXNxAdB3U4u4k0HXR64w3Cem0Dz0_KXpx2nGQGZ0oaEx5qXKTo_ij7hgbH6Qpk63-rS1K0xVGnkZ5H6yf3m_MtZ0yvRj0haRIkQIFefNsrSrDRxCB6V0rpmiYw-51KMYWrf5rA5xIDU66LtMLfSh52xTyxfxcjHtrAjxw/s320/images.jpg


        Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos. Como ele pensava, mas dela tirávamos tinta para tingir.

        -- E vocês precisam de muita? – perguntou o velho imediatamente.

        -- Sim – contestei-lhe –, pois em nosso país existem negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que vocês têm, voltando com muitos navios carregados.

        -- Ah! – retrucou o selvagem –, mas esse homem tão rico, de que me fala, não morre?

        -- Sim – disse eu –, como os outros.

        -- E quando morre, para quem fica o que deixa?

        -- Para seus filhos, se ele tem, ou para seus irmãos ou parentes próximos – respondi.

        -- Na verdade – continuou o velho, que como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns grandes loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem quando aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus filhos e parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra nos sustentou os sustentará também, e por isso descansamos sem maiores preocupações.

        [...]

Jean de Léry. Viagem à terra do Brasil. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1961. p. 153-4. In: Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Brasil indígena: 500 anos de resistência. São Paulo, FTD, 2000. p. 105.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 115.

Entendendo a entrevista:

01 – Qual era a suposição inicial do ancião Tupinambá a respeito do motivo pelo qual os europeus navegavam de tão longe para buscar o pau-brasil, e como Jean de Léry corrigiu esse pensamento?

      O ancião Tupinambá imaginava que os europeus realizavam a longa viagem para buscar madeira com a finalidade simples de se aquecerem no inverno (queimá-la). Jean de Léry o corrigiu explicando que a madeira não servia como combustível para o fogo, mas sim para extrair tinta com a qual tingiam tecidos e tecidos de luxo na Europa.

02 – Por que a lógica do acúmulo de bens para herança familiar, explicada por Jean de Léry, pareceu sem sentido e "loucura" para o ancião Tupinambá?

      Para o ancião, acumular grandes quantidades de bens a ponto de enfrentar viagens perigosas e sofrimento no mar não fazia sentido, uma vez que a riqueza acumulada não impede a morte do homem. Além disso, na visão do indígena, a terra é geradora contínua de recursos básicos de subsistência, sendo plenamente capaz de sustentar as gerações futuras sem a necessidade de acúmulo material prévio.

03 – Compare a relação com a terra e com os recursos naturais demonstrada pelo comerciante europeu e pela sociedade Tupinambá no texto.

      O comerciante europeu enxerga a terra e seus recursos (como o pau-brasil) através da ótica mercantilista e mercantil, focando na exploração em larga escala para gerar lucro, comércio e herança. Já o indígena Tupinambá tem uma visão comunitária e sustentável, vendo a terra como uma provedora natural que garante a sobrevivência diária no presente e no futuro, dispensando o desgaste e as ansiedades geradas pelo acúmulo ilimitado.

04 – No trecho "continuou o velho, que como se vê não era nenhum ignorante", o que a observação de Jean de Léry revela sobre a visão que os europeus da época costumavam ter sobre os povos originários?

      A frase revela o preconceito prévio e a visão etnocêntrica comum entre os europeus do século XVI, que frequentemente consideravam os povos indígenas incultos ou incapazes de raciocínio complexo. Ao ressaltar que o ancião "não era nenhum ignorante", Léry reconhece a profundidade crítica e a sabedoria filosófica do raciocínio indígena, surpreendendo-se com a coerência da argumentação do ancião.

05 – Como o ancião Tupinambá contrapõe a tranquilidade do modo de vida indígena à inquietação e aos sacrifícios do modo de vida europeu?

      O ancião argumenta que os europeus passam por grandes privações, perigos e trabalho exaustivo apenas para amontoar bens antes de morrer. Em contrapartida, os Tupinambá, embora amem igualmente seus pais, mães e filhos, vivem sem preocupações excessivas ("descansamos sem maiores preocupações") porque confiam que a terra continuará sustentando seus descendentes da mesma forma que os sustentou.

 

       

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