Crônica: A revolta do mar
Lima Barreto
A última e formidável ressaca que
devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações
especiais que não posso deixar de fazer. O Mar tinham os antigos como sendo um
dos cinco elementos da Natureza; do Mar, afirmam os sábios modernos, veio toda
a vida. É assim o Mar um deus tutelar da nossa espécie. Nós lhe devemos tudo ou
quase tudo. Não fora o Mar, ainda a Terra estaria muito por conhecer; ele é o
meio mais eficaz de comunicação entre os povos.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZajE3lm6QTvUxY50sMaPFILxBV9WzBjl-jNxVj1HY_DWjxV1KyI_j2TaAREOZlDFl7I8g3C-FW1InUXARAIknTy1KXECRFZg2hbl6KGxE8rEvyAQjUYiwLc4bATOYSkkNAsCGkOy6HMcot-MUhFedbGmxenuN4jZuhJsfvPRrNkymaJT81Uri6TUfomA/s1600/images.jpg Vence-se mais facilmente a mesma
distância por mar do que por terra. Desde tempos imemoriais, é o campo das
grandes audácias e dos grandes audaciosos.
O Mar é um deus ou um semideus.
Como tal, tem merecido desde os tempos
homéricos o louvor dos grandes poetas. Ele é a maravilha da Terra, a maior
delas. Ainda agora recebo um livro de poesias – Asas no azul –
de Mário José de Almeida – que abre com este lindo soneto sobre o
monstro:
ÂNSIA DO MAR
Vibra, escachoa o oceano, brame, investe
para o amplo azul – noite e dia – não cansa
a onda que na praia se destrança
e da alvura da espuma se reveste.
Dentro do sonho, envolto na esperança
de inda atingir a placidez celeste,
o mar se arroja, torvo se abalança
nas asas colossais do sudoeste…
E parece que o mar se espraia
de praia a praia, ovante ramifica
o mesmo anelo – anseio de Himalaia.
À noite, à luz da lua que desponta
a onda em sua fala comunica
todo o queixume que a outra prata conta.
Mas, os grosseiros homens do nosso
tempo, homens educados nos cafundós escusos da City londrina ou nos gabinetes
dos banqueiros de Wall Street, onde se fomenta a miséria dos povos, não lhe
quiseram ver a grandeza, o mistério e a divindade, a sua palpitação íntima. O
Mar, como a vida humana, não podia deixar de ser também um bom campo às suas
“cavações” ou “escavações” e trataram de explorá-lo.
De há muito que ele havia marcado os
seus limites com a terra; de há muito que ele dissera a esta: o teu domínio
para aí e daí não passarás.
Tais homens, porém, embotados pela sede
de riquezas não perceberam bem isto; e, a pretexto de melhoramentos e
embelezamentos, mas, na verdade, no intuito de auferirem gordas gratificações
de banqueiros, trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama. Diziam eles
que tal faziam, para tornear belos passeios, como se o Mar por si só não fosse
Beleza.
No começo, entraram por ele adentro com
timidez; ele deu uns pequenos avisos de que não deveriam continuar. Os homens
de negócios não viram tais avisos; não pressentiram o que eles continham,
porque não entraram no mistério das Cousas. Tomaram-se de audácia e foram
levando além o propósito de comprimir o mar, a fim de ganharem boas gorjetas.
O mar nada disse e deixou-os, por
alguns meses, encherem-no de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Enche-se de
fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam
injuriado.
Publicado
originalmente na revista Careta, 23 de julho de 1921.
Entendendo a crônica:
01 – Qual é o evento que motiva a reflexão de
Lima Barreto na crônica "A revolta do mar"?
O ponto de partida da crônica é uma forte ressaca marítima
que atingiu e destruiu trechos da Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro. A
partir desse desastre natural, o autor desenvolve uma reflexão crítica sobre a
relação entre o progresso urbano, a exploração financeira e o desrespeito às
forças da natureza.
02 – De que maneira o autor personifica e
diviniza o mar no início do texto?
Lima Barreto retrata o mar como um "deus ou semideus
tutelar da nossa espécie", atribuindo-lhe papel fundamental na origem da
vida e na integração entre as civilizações. O cronista ressalta sua grandeza,
mistério e beleza, lembrando que o oceano é celebrado por poetas desde a
Antiguidade homérica como a maior maravilha da Terra.
03 – Qual é a função da inclusão do soneto
"Ânsia do Mar", de Mário José de Almeida, na estrutura da crônica?
A citação do soneto serve para contrastar a dimensão poética,
sublime e respeitosa com que a arte enxerga o mar em oposição à visão
utilitarista e insensível dos "homens de negócios". A poesia reforça
a ideia do mar como uma força viva e cheia de sentimentos
("queixume", "ânsia", "esperança"), preparando o
terreno para a crítica aos que o veem apenas como objeto de exploração.
04 – Como Lima Barreto caracteriza os
responsáveis pelas obras de aterro e expansão urbana na Beira-Mar?
O cronista caracteriza esses indivíduos de forma pejorativa
como "grosseiros homens do nosso tempo", formados nos bastidores do
capital financeiro ("City londrina" e "Wall Street"). Ele
os descreve como gananciosos, insensíveis à beleza natural e movidos unicamente
pelo desejo de lucro, "cavações" e gratificações concedidas pelos
grandes banqueiros.
05 – Qual é o verdadeiro motivo, segundo o
cronista, por trás das obras apresentadas como "melhoramentos e
embelezamentos" urbanos?
Segundo o autor, a justificativa oficial de criar "belos
passeios" e promover o embelezamento da cidade era apenas um pretexto
superficial. A real motivação do empreendimento era financeira: enriquecer
especuladores, empreiteiros e banqueiros por meio do aterro e do
estrangulamento do espaço marítimo.
06 – Como o autor explica a reação violenta do
mar contra as intervenções humanas?
O mar é apresentado como uma entidade que estabelece limites
claros à terra. Diante da insistência dos homens em ignorar seus avisos
iniciais e cobri-lo de lama para fins comerciais, o oceano reage com fúria. A
ressaca que devasta a Avenida Beira-Mar é retratada como um ato de resposta e "revolta",
no qual a natureza devolve à terra a lama com que foi agredida.
07 – Qual é a crítica central da crônica em
relação à postura da sociedade moderna frente à natureza?
A crítica central reside na denúncia da arrogância e do
materialismo da civilização moderna, que tenta subjugar as forças naturais em
nome do lucro imediato e da especulação imobiliária. Lima Barreto alerta que a
falta de sensibilidade para compreender o "mistério das coisas" e o
desrespeito aos limites do meio ambiente resultam inevitavelmente em tragédias
e na reação destrutiva da própria natureza.
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