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segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICA: CORDÃO DOS COME-SACO - STANISLAW PONTE-PRETA - COM GABARITO

 Crônica: Cordão dos come-saco

Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto)

 

         Em Londres, que ultimamente não tem sido uma capital das mais britânicas (ou talvez os britânicos é que não sejam tão londrinos assim, sei lá), vai se inaugurar uma exposição internacional de embalagem. Até aí, tudo normal, como dizem os anormais. Há, no entanto, uma nova indústria que se fará representar nessa exposição que está causando a maior curiosidade: a dos sacos comestíveis.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgVNO-m4Xvi4NvSLxVs04dX_u_UCyjtbPwg-i09MTsxYWVE4WTxPTbHPAS4AyvXWwQHFHfk03TEbEd2itTKjWcNkcCNCYaZ4tR1Rfgk9MR_q-X5lR7aiag6eGguaYPwllWQAtU-luJUG1LNqyZE-keCeIncBqrwSzEhwIoax3C4b6cd_vCTJ3l_lLDznkU/s320/2001_Pack-Expo_banner-1024x427.jpg


         Como, minha senhora, de quem é que é o saco? Calma, madama, eu já chego lá. A indústria foi inspirada na salsicha e isto dito assim fica meio sobre o jocoso, mas torno a explicar que, com vagar, se chega ao saco. É o seguinte: não sei se vocês já repararam que as salsichas, ultimamente, não têm mais aquela pele indigesta que a gente comia antigamente e ficava trocando seu reino por um bicarbonato. Hoje em dia, a pele das salsichas é fininha e a gente come sem o menor remorso estomacal posterior.
           Pois essa pelinha, irmãos, é de matéria plástica comestível. Foi inventada por um Thomas Edison das salsichas e aprovou num instante. E baseada nessa aprovação é que uma fábrica de embalagens estudou a possibilidade de fazer sacos para carregar comida das mercearias para o lar, capazes de serem também comidos, isto é, um saco de matéria plástica parecida com a das salsichas, que seriam vendidos aos armazéns e utilizados pelos fregueses para transportar a mercadoria comprada. Entenderam, ou tem leitor retardado mental?
           Agora, que fica bacaninha, isto fica. Num instante vão aparecer os estetas dos refogados, para melhor aproveitamento do saco. As Myrthes Paranhos do mundo inteiro vão publicar receitas de como se prepara um saco de matéria plástica para o almoço e os jornais, nas suas seções dominicais de culinária, terão títulos como este: "Saquinho de siri", "Saco au champignon", "Saco à la façon du chef", etc., etc.
            E parece até que aqui o neto do Dr. Armindo está vendo uma dessas grã-finas, sempre mais preocupadas com o aspecto exterior do que com o aspecto interior, fazendo um rigoroso regime alimentar e dizendo para a empregada, quando esta volta do mercadinho com as compras:
               _ Para mim não precisa preparar almoço, não. Eu como só o saco.
(Stanislaw Ponte Preta - Rosamundo e os outros)

 Entendendo o texto

 01. Qual é o fato internacional que serve de pretexto para o autor iniciar sua crônica?

a) O lançamento de uma nova marca de salsichas britânicas.

b) Uma convenção de etiquetas e bons modos em Londres.

c) A inauguração de uma exposição internacional de embalagens. d) Uma crise econômica que obrigou os ingleses a comerem plástico.

e) A invenção de um novo tipo de bicarbonato de sódio na Europa.

02. Segundo o narrador, qual foi a "inspiração" para a criação dos sacos plásticos comestíveis?

a) As antigas peles de salsicha que causavam indigestão.

b) As novas películas finas e comestíveis usadas nas salsichas modernas.

c) O hábito das "grã-finas" de fazerem dietas rigorosas.

d) Uma técnica antiga de transporte de mercadorias em armazéns. e) Os estudos de Thomas Edison sobre polímeros sintéticos.

 

03. O autor utiliza uma linguagem marcadamente coloquial e irônica. Qual trecho exemplifica essa interação direta e humorística com o leitor?

a) "vai se inaugurar uma exposição internacional de embalagem."

b) "é de matéria plástica comestível."

c) "Entenderam, ou tem leitor retardado mental?"

d) "capazes de serem também comidos..."

e) "estudou a possibilidade de fazer sacos para carregar comida..."

 

04. Ao mencionar a expressão "trocando seu reino por um bicarbonato", o autor faz uma alusão humorística para indicar que: a) A pele das salsichas antigas era muito saborosa e valiosa.

b) As salsichas eram artigos de luxo consumidos apenas pela realeza.

c) O mal-estar estomacal causado pela pele da salsicha era tão grande que a pessoa daria tudo por um remédio.

d) O bicarbonato era a moeda de troca oficial nos armazéns de antigamente.

e) A monarquia britânica foi a responsável por popularizar a salsicha indigesta.

 

05. No desenvolvimento do texto, o narrador prevê que a novidade dos sacos comestíveis causará um impacto na culinária. Segundo ele, isso ocorreria através de:

a) Críticas severas dos chefs de cozinha contra o uso de plástico na comida.

b) A substituição total das carnes por embalagens sintéticas.

c) Publicações de receitas exóticas e "chiques" utilizando o saco como ingrediente principal.

d) A proibição de vender sacos plásticos em mercearias e armazéns.

e) Cursos de culinária obrigatórios para as empregadas domésticas.

 

06. A conclusão da crônica apresenta uma sátira social voltada para qual grupo de pessoas?

a) Os cientistas ingleses que inventam tecnologias inúteis.

b) Os donos de armazéns que cobram caro pelas embalagens.

c) Os garçons e cozinheiros que não aceitam inovações.

d) As "grã-finas", ironizando sua preocupação excessiva com a aparência e dietas.

e) Os operários das fábricas de plástico que não têm o que comer.

 

07. O título "Cordão dos come-saco" e o desfecho do texto reforçam o estilo de Stanislaw Ponte Preta, que consiste em:

a) Escrever textos científicos sobre avanços da indústria química.

b) Produzir manuais de instrução para o uso de novas embalagens. c) Utilizar o absurdo e o duplo sentido para ridicularizar comportamentos sociais.

d) Defender o uso de materiais biodegradáveis para preservar o meio ambiente.

e) Fazer uma propaganda séria e elogiosa sobre os costumes londrinos.

 

 

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